História do Paraná - Romário Martins
- Coleções
- Livros Didáticos Históricos
- Título
- História do Paraná - Romário Martins
- Description
- Este livro narra a história do Paraná, desde a definição do meio físico e a influência das tribos indígenas, até a organização do Estado e seus administradores, abordando temas como a posse da terra, caminhos históricos, economia rural e a campanha abolicionista.
- Autor
- Romário Martins
- Conforms To
- História Positivista/Metódica focada em eventos e personagens.
- Assunto
- Paraná, História, Geografia, Povoamento
- contentLocation
- Instituição: UEPG - Edifício: Bloco A - Andar: 3 - Sala: 301 - Corredor: 2 - Armário: 3 - Prateleira: 4
- Is Part Of
-
Livros Didáticos Históricos
- Tipo
- Livro Didático de História
- extracted text
-
1 — DEFINIÇÃO GERAL
O conjunto de circunstâncias que definem o meio físico
de um país, exerce influência, por vezes decisiva, no seu destino.
Isso explica este capítulo.
No Paraná a curva excessivamente reeentrante da costa, fez com que a navegação dos primeiros séculos após o descobrimento não procurasse os portos das nossas baías, senão
excepcionalmente, como por exemplo, a arribada da náu de
Hans Staden, do Superaguí, em 1548. O próprio Pero Lopes com sua esquadra de exploração, em 1532, passou ao
largo da barra de Paranaguá ao explorar a costa de S. Vicente ao Rio da Prata.
A Serra do Mar, confinando o advena na orilha atlantica, até que os caminhos facilitassem os transportes pela bruteza das escarpas, fez com que o povoamento do planalto e o
seu desenvolvimento se fizessem com lentidão.
Enquanto isso Paranaguá, com os recursos das suas minas de ouro, prosperou tanto quanto São Paulo, até a segunda metade do século X V I I I (1767), e foi mais importante que
Curitiba, já capital da Província, pelo menos até que a estrada de ferro (1886) rompesse a serrania da Graciosa.
Guarapuava é outro exemplo. Com todas as possibilidades para ser uma imponente e movimentada metrópole e
tendo a consciência disso, pois que em 1853 pretendeu ser a
capital da Província que então se constituirá na 5.a Comarca
paulista, — sua situação ao poente da Serra Geral dificultou,
até agora, sua comunicação com a capital e com o mar, e,
assim, o seu progresso.
E aí está a montanha dificultando a expansão social e
economica de dois planaltos paranaenses.
Por sua vez os rios, no Paraná correm de léste a oéste, e
embora de pouca utilidade para a navegação comercial de-
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vido a corredeiras e outros empecilhos, — se tivessem suas
barras no mar teriam influido para o progresso do interlande.
O campo e a floresta, não somente decidiram de nossa
existência como de nossa índole. Nos primeiros tempos fomos criadores e tropeiros e todas as nossas antigas cidades
do'planalto tiveram origens nessas atividades dos nossos antepassados.
O nosso homem do campo, porém, encontrou na floresta mais fácil exploração de riquezas e se fez extrator de ervamate, e, depois, também de madeiras.
Em todas essas atividades fizeram-se fortunas. Mas as
explorações extrativas requerem cuidados e previsões que não
temos tido, e, assim, os pinheiros cada vez ficam à maior distância e suas explorações se vão tornando anti-economicas
e os hervais nativos entraram em crise de exploração após
terem constituído a nossa maior riqueza em movimento.
O clima, esse é indiscutível fator. Como modificar dos
tipos étnicos, notadamente os exóticos, facilitando-lhes ou
não a ; daptação, e, assim, influindo no desenvolvimento
histórico.
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Tudo isso é certo e de geral observação. Resta averiguar,"
porém, "até que ponto e de que maneira a constituição externa de uma região influe sôbre os destinos dos seus moradores" — como diz Oliveira Martins nas Raças Humanas e a
Civilização, pois em toda a obra realizada pelo homem à su- perfície do planeta, há sempre a visível influência dos variados fatores da terra, do mar e do ar, — "mas há também
o cunho indelevel do fator humano que, colocado em face
das possibilidades locais, levou a efeito essa mesma obra, com
elas, sem elas ou mesmo contra elas". (Amorim Girão, Lições de Geografia Humana, Coimbra).
A Geografia Humana ou das Regiões Geo-humanas, é
ciência nova, que se encontra ainda em estado de elaboração. De échantülonnage, como escreveu P. Deffontaines.
A simples explanação dos fundamentos já observados e
admitidos por essa nova ciência, divide as regiões geográficas pelas possibilidades que elas concedem ou negam aos
seus habitantes. Em síntese: — o trabalho humano é um
contrato com a terra.
Nas condições desse contrato distinguem-se as seguintes,
como principais: — "a) a terra dá tudo ao homem e nada
lhe pede; — b) a terra nada dá e nada pede; — c ) a terra
dá mais do que pede; — d) a terra pede mais do que dá".
(Amorim Gifão, obr. cit.) .
HISTÓRIA DO PARANÁ
II
As desigualdades dos grupos humanos derivam, pois, da
desigual adaptação aos diversos meios. É do autor cita,do acima esta lição : — "Não há raças superiores e raças inferiores,
mas parcelas de humanidade diversamente adaptadas a meios geográficos 'mais ou menos favorecidos".
2 — A SITUAÇÃO
GEOGRÁFICA
O Paraná, ante-penúltimo Estado meridional do Brasil,
está situado entre as latitudes de 22° 28' e 26° 43' e entre as
longitudes ocidentais de 4 o 48' e 11° 30' do meridiano do Rio
de Janeiro.
— Seus pontos extremos atingem, ao N. o Salto do Diabo, no Rio Paranapanema, situado no paralelo do Rio de Janeiro; ao S. os Campos de Palmas, nas nascentes do Rio Jangada;; a L. o Oceano, na barra do Aio Ararapira; e a O. o
Rio Paraná, no porto de Itaoquitê.
— "Na sua latitude, escreve o ilustrado paranista capitão Altamirano Nunes Pereira, — encontram-se na América
do Sul parte do Paraguai, da Argentina e do Chile; na Oceania a Australia, as ilhas Nova Caledónia, ilhas de Tonga e
da Sociedade; na África, Madagascar, Transval, Moçambique, Orange, Natal e Pamaraland.
— "Na mesma longitude há parte dos Estados de Minas
Gerais, Goiaz e Pará, no Brasil; e da Groelândia na América
do Norte". (Aut. cit. O Estado do Paraná, na Revista Militar
do Brasil).
3 — A S B A Í A S E OS PORTOS
A mais importante é a de Paranaguá, que generaliza o
nome ao conjunto de baías do Paraná, exceção da de Guaratuba.
São baías, perfeitamente caracterizadas:
— das Laranjeiras — da Ponta do Pasto, às extremidades da costa interior de Antonina e de Guaraquessaba;
— dos Pinheiros — entre a península de Superaguí,
Guaraquessaba e Ilha das Peças;
— de Ibopetuba, entre a Ilha do Mél, Ilha Raza da Cotinga e a costa interior de Paranaguá;
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— de Paranaguá, que fica ao sul da das Laranjeiras e
se extende até Antonina; e
— de Guaratuba, ao sul, entre 25° 52' de latitude e 5 o 20'
de longitude, com um canal a suéste e outro ao sul, ambos de
pouca profundidade, principalmente o primeiro.
— A baía de Paranaguá em seu conjunto tem uma superfície de sete mil e duzentos hectares e é das mais vastas
do Brasil. Sua penetração no continente atinge cincoenta
quilômetros, com uma largura de vinte.
— As distâncias entre os portos de Paranaguá e Antonina e os do Rio de Janeiro e de Santos, são:
Rio de Janeiro a Paranaguá
344 milhas
Santos a Paranaguá
142 milhas
Paranaguá a Antonina
15 milhas
— Dos portos os mais importantes são os de Paranaguá
e de Antonina. O primeiro com um cais de atracação, dos
melhores do país, construído na operosa administração do
Interventor Sr. Dr. Manuel Ribas.
Qualquer navio que entre a barra de Paranaguá, pode
atracar no novo cais.
As condições das barras são:
Barra do Norte
Calado mínimo
Maré média
Maré máxima
Nas marés de Lua cresce
21
pés
25 M> "
30
7
Barra de Suéste
Calado mínimo
Maré média
Maré máxima
:
Nas marés de Lua cresce
17 V2 pés
21
26
7
Barra do Sul (não balisada)
Mínima
Média
Máxima
14
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23
— Do porto D. Pedro, em Paranaguá, ao porto de Itapema, em'Antonina, o canal tem 15,20 e 26 pés.
HISTÓRIA DO PARANÁ II
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4 — LITORAL E A RIBA DO P A R A N Á
O litoral paranaense está situado entre os paralelos austrais de 25° e 26°. O limite norte é o rio Ararapira, que alcança o mar aos 25° 20' e o limite sul é o rio Sahí que desagua no mar aos 26°.
Em estudo sôbre o litoral e a riba do Paraná, escreveu
o ilustre paranaense, capitão de fragata Didio Costa, para a
Revista Naval Brasileira:
"A riba do Paraná se acha, aproximadamente, entre os
paralelos de 22° 30' e 25° 30', com a raia do rio Paranapanema ao norte e a do rio Iguassú ao sul, um e outro tributários
do caudaloso e extenso rio Paraná.
O primeiro é um limitado trecho da imensa orla litoral
do Brasil, recortado largamente, entretanto, desde os canais
de acesso às suas baías, na direção das ilhargas das serras
de Cananéa, da Virgem Maria, da Prata, abrindo-se ali os
distendidos remansos de Paranaguá e Guaratuba, duas das
maravilhas do aspecto alpestre das terras litorais do país.
A segunda é toda a riba esquerda do rio Paraná, cujas
águas lavam as pedras da Serra dos Dourados e correm pelos abismos da Serra de Maracajú, onde o prodígio do Salto
das Sete Quedas atrôa e resplende, prosseguindo o rio pelas
planícies argentinas, já avolumado por outros tributos, como
o Iguassú, em cujo leito, a poucas voltas da foz, as quedas de
Santa Maria constituem mais uma maravilha do planeta
perdida na solidão da selva.
O litoral e a riba extremam, segundo os paralelos, uma
das mais belas e fecundas regiões do Brasil, com o caminho,
que é o mar, para todas as partes do mundo, à dextra; à
sinistra, com o caminho, que é o soberbo rio Paraná e seus
tributários, ao amago do continente, regando terras de cinco
povos.
A costa brasileira inflete, repentinamente, para oéste e
sudoéste, em Cabo-Frio e depois até Paranaguá, de maneira
que nesta paragem se encontra a menor distância entre o
mar e as águas do rio Paraná, dentro do território brasileiro.
Com caminhos que vão longe, na bacia do histórico Paraná, com tantos caminhos a léste, quantos os da rosa dos
ventos, na parte oceanica do globo, quasi se não aproximam
a riba e o litoral por vias internas. Estas virão, como têm
vindo, lentamente. Tendo a civilização avançado do mar para o oéste, galgou uma serra, varou campos a perder de vista
e parou. Pelo norte, atingiram as ferrovias o rio Paraná, em
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S. Paulo, e de lá todos descem até Guaíra, contornam saltos
gigantescos e tomam outros barcos adiante.
Mas as vias internas, as mais rápidas, as mais breves e
expeditas, no duplo aspecto estratégico e comercial, aproximando a riba e o litoral, ainda estão à mingua de impulso,
não obstante a opinião unanime, a vontade geral de governantes e habitantes da região.
Houve um momento de preocupação no país, quando a
vida continental foi salpicada do sangue da guerra, momento
em que a região paranaense absorveu as atenções dos estadistas do Império. As águas do litoral e da riba do Paraná
foram cuidadosamente estudadas. Verificaram que eram
profundas, amplas e seguras. Uma rodovia transpôs a Serra do Mar, de Antonina ao planalto, e logo uma ferrovia, a
partir de Paranaguá, modelando um padrão de glória da engenharia nacional, coleava pelos flancos da serra, estirada
e caprichosa entre os seus abismos, num cenário estupendo,
desde as ramadas da baixada até aos pinhais do planalto
curitibano.
Exploradores ilustres atingiram o rio Paraná em todas
as direções. Havia uma grande vontade de estabelecer comunicação rápida entre as fronteiras ocidentais e o mar. A
ferrovia prosseguiu, indo aos Campos Gerais, até Ponta Grossa, onde ficaram as pontas dos trilhos, ültimamente, uma
nova tentativa de avanço para o ocidente estacou a breve
trecho. Mas os governantes e os habitantes da região querem avançar.
Querem avançar, estreitando vigorosamente a riba ao
litoral, porque as comunicações entre as águas do mar, naquela região, entre aqueles paralelos, representam, na singeleza da sua concepção e na grandeza do seu alcance, a solução, simultaneamente, de instantes problemas estratégicos".
5 -— O RELEVO DO SÔLO
A extensão superficial do Paraná é de 199.897 quilômetros quadrados, divididos, quanto ao relevo do sólo, em duas
regiões bem distintas: — a de Serra Abaixo, chamada genéricamente da Marinha — e a de Serra Acima ou do Planalto,
onde a feição topográfica mais característica consiste na sua
divisão em três grandes terraços terminados a L. por outras
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tantas escarpas, na seguinte ordem de sucessão, de L. para O.:
Terraço Oriental, ou de Curitiba.
Terraço Central, ou dos Campos Gerais.
Terraço Ocidental, ou de Guarapuava.
— As serras do Paraná pertencem ao massiço Atlântico
ou Oriental Brasileiro, que forma três sistemas orográficos
distintos, obedecentes de formações geológicas, funções fisiográficas e juxtaposição mais ou menos definidas: — a Serra
do Mar, a Serra Geral e a Serra da Mantiqueira. (Esta não
ocorre no Paraná).
A Serra do Mar é a mais importante da orografia paranaense, por constituir a orla oceanica do planalto. Desenvolve-se do Rio Paraíba, ou pouco mais ao norte, ao Rio
Grande do Sul, onde inflete para o interior.
Suas denominações parciais são várias, tendo, entre outras, as seguintes, no Paraná, a partir do Norte:
Serra de Santa Maria
Serra do Cabrestante
Serra dos Órgãos
Serra do Cubatão
Serra de Araraquara
Com essas e outras denominações locais se estende ao
longo da costa meridional brasileira nas direções principais
de N. E. - S. O, nas extremidades e de N. - S. na parte central.
Suas altitudes principais são de 2.230 metros ao N.
(Pedra do Assú, na Serra dos Órgãos, Distrito Federal) e de
1.810 ao Sul (Pico do Marumbí, na Serra da Graciosa). Suas
gargantas de acesso ao planalto se encontram em alturas
que variam de 800 a 1.000 metros, sendo de 955 no túnel
mais elevado da E. de F. do Paraná. É constituída de rochas
cristalinas do arqueano brasileiro, granitos, gneiss e chistos.
A Serra do Mar, atravessa o Estado entre os rios Pardo
e Ararapira, na linha de limite com S. Paulo, e se ramifica
nas serras Negra, Tacoarí, da Virgem Maria, da Graciosa, do
Itupava, da Prata, de Araracoára, de S. Miguel, do Cubatão,
(onde está situado o Morro do lkrim, limite com Santa Catarina) , além de outras de importância secundária. Constitue-se de gneiss, granitos e eruptivas que caracterizam o
embasamento das formações geológicas das serras paranaenses; assume notáveis elevações de fôrmas cónicas e dentadas,
tendo por ponto culminante o Pico do Marumbí, a 1.810 metros, e variando a altitude dos seus numerosos penedos entre
1.000 e 1.500 metros.
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Serra Geral — No sistema interior das serras do Paraná
avulta um outro encadeamento que se origina entre as cabeceiras dos rios Tubarão e Araranguá (Rio Grande do Sul);
com a denominação de Serra Geral e que avançando para o
N. atravessa o Estado nas proximidades das nascentes orientais do Rio do Peixe e prossegue até ao Iguassú com o nome
de Serra do Espigão (Porto da União); segue-se-lhe, à direita do Iguassú, a Serra da Esperança que vai até ao Paranapanema, penetrando no Estado de S. Paulo com o nome de
Serra da Fartura.
Divide as águas entre as bacias dos tributários diretos
do Atlântico e dos tributários do Rio Paraná. O Iguassú e
o seu afluente Rio Negro, são as únicas exceções importantes. Contrariamente com o que se dá com a Serra do Mar,
as cotas hipsométricas da Serra Geral crescem à medida que
o sistema penetra para o Sul. Ela constitue o segundo degrau do planalto brasileiro e no Paraná forma uma sucessão
de patamares (de Curitiba, dos Campos Gerais e de Guarapuava) na Serrinha e seu prolongamento, (Serra das Furnas, Serra dos Agúdos, etc.) e na Serra da Esperança.
Tomando esta serra como divisória, encontraremos nas
suas bandas dois conjuntos orográficos que denominaremos
Oriental e Ocidental para o efeito de os resumirmos:
Serras Orientais: da Laranjinha, da Ventania, das Furnas, do Apucarana, dos Hervais, de Santa Ana, Azul, Bramado, das Antas, do Canastrão, etc.
Serras Ocidentais: dos Três Dias, do Piquirí do Cantú,
dos Dourados, das Araras, da Pitanga, do Cavernoso, do
Candói, de São João, da Fartura, do Gregório, do Fachinal
Verde, do Tacoaral, do Juquiá, etc.
6 — OS RIOS E OS SEUS
SISTEMAS
Os rios mais numerosos e mais importantes dos quatro
sistemas da hidrografia paranaense, pela possibilidade de navegação no todo ou em parte e pela excelência das terras que
profusamente irrigam, — pertencem à Bacia Continental do
Prata. Do ponto de vista regional, porém, esses rios pertencem às bacias "do Paranapanema" e "do Paraná", — respectivamente ao N. e a O. do território do Estado.
Os que pertencem à Bacia Atlântica também correm em
duas bacias regionais distintas: — a "da baixada marítima"
irrigada pelas vertentes orientais da Serra do Mar; — e a
"da Ribeira de Iguapé", limitada em território paranaense
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ii
pela Serra de Paranapiacaba ao N., pelas serras do Morro
Grande, de Itaiacóca e pela Serrinha a O., pela orla do planalto de Curitiba ao S. e pela Serra da Graciosa, da Virgem
Maria e Serra Negra a L .
I — BACIA DO PARANAPANEMA
São seus principais tributários os rios Itararé, das Cinzas, Tibagí e Pirapó. São afluentes destes, os rios Jaguariaiva e Jaguaricatú (do Itararé); O Laranjinha e o Jacarèzinho
(do das Cinzas); o Iapó e o Pitanguí (do Tibagí).
RIO PARANAPANEMA. — Forma a divisa N. do Paraná com São Paulo, correndo no rumo geral E. O. É navegado
por canoas que trafegam até Mato Grosso, a partir da, barra
do Tibagí. Daí até a foz do Paraná, na extensão de 200 quilômetros, a travessia não é isenta de dificuldades devido às
corredeiras, das quais a principal é a da Serra do Diabo, junto à ilha Tuiúiú, cerca de 78 quilômetros acima da foz, onde
existe um banco transversal de rochas traquíticas.
A extensão global das corredeiras é de quasi 12 quilômetros. Da foz do Tibagí para cima a navegação é embaraçada por várias cachoeiras, algumas delas obrigando a "vaíação" das canoas e a "baldeação" de cargas. A principal é a
do Salto Grande, na barra do pequeno rio Claro, entre os rios
Itararé e das Cinzas. Aí o Paranapanema se divide em dois
canais formados por uma pequena ilha. O da esquerda apenas dá passagem a pequenas canoas e o da direita é inavegável, com uma queda de cerca de 9 metros.
A largura do rio é de 123 metros da barra do Itararé, de
220 metros abaixo do Salto Grande, de 820 metros entre o
Tibagí e a altura da extinta aldeia indio-cristã de Santo Inácio, de 607 metros daí à Serra do Diabo e de 374 metros daí
ao rio Paraná. A profundidade média é de 2 metros e na foz
cie mais de 4 nas águas baixas.
"As embarcações que se destinam a Mato Grosso descem o Paranaoanema até sua junção no Paraná, a 258 metros de altitude e depois se deixam levar pela corrente do rio
até a foz do Ivenheima que elas sobem até as proximidades
de Miranda, na vertente do Paraguai. Toda essa navegação
se desenvolve numa extensão de 704 quilômetros". (E. Reclus,
Geografia dos E. U. do Brasil, 303).
Em relatório da exploração que procederam no Paranapanema, em 1865, os engenheiros Keller dizem que "em qualquer estacão do ano é livre a navegação deste rio desde a
História do Paraná — 2
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sua barra até a Serra do Diabo, por não lhe oporem embaraços as quatro corredeiras da pequena correnteza de 1:600,
que se encontram nesta extensão de 13,4 léguas; mas que no
tempo das águas altas pode extender-se à Colonia de Santo
Inácio, a 20,90 do rio Paraná". Preconizaram os engenheiros
Keller, para uma eficiente navegação deste rio, o sistema de
barcos ou vapores de reboque à sirga, também aconselhado
para a navegação do Ivaí.
RIO ITARARÉ — Nasce na serra de Paranapiacaba e
corre em direção S. a N., até ao Paranapanema, onde desemboca com largura de 96 metros e profundidade máxima de
pouco mais de 2 metros. Seus maiores afluentes paranaenses
são a Jaguaricatú e Jaguariaíva. Forma, em todo o seu curso
parte da divisa N. E. do Paraná com São Paulo.
RIO DAS CINZAS. — Nasce na Serra das Furnas. Tem,
na sua foz no Paranapanema, 168 metros de largura. Seus
principais afluentes são o Jacarèzinho e o Laranjinha. O
Rio das Cinzas nasce no município de Jaguariaíva e atravessa os municípios de São José da Boa Vista, Tomazina, Santo
Antonio da Platina, Ribeirão Claro, Jacarèzinho e Cambará,
— onde existem as terras mais fertéis do Brasil.
RIO TIBAGÍ. — Nasce na altura da Serrinha, no município de Ponta Grossa e percorre 530 klm. até sua foz no Paranapanema . São seus principais afluentes da margem direita o Jataí, o Jacutinga de Baixo, o Congonhas, o Iapó, o
Pitanguí; e da margem esquerda o Jacutinga-Mirim, o rio
das Abóboras, o rio dos Cágados, o Cerne, o Buguá, o Imbaúzinho, o Imbaú, Capivari, Imbituva e Guarauna.
Tem muitas ilhas e corredeiras; — das Araras, do Biguá,
Sete Ilhas, das Congonhas, do Tigre, do Cerne, do Poço Grande, do Tira-Fubá, das Três Barras, do Saltinho, dos Apertados, do Gavião, Sem Fim, do Parú, dos Cágados, de São
Francisco Xavier.
É sujeito a grandes enchentes, principalmente de Novembro a Março, quando suas águas se elevam a 20 e mais
palmos acima do seu nível habitual. Nos tempos das águas
baixas sua navegação se torna penosa em vários pontos.
O Tibagí tem largura muito variável, — de 100 a 900
mts. chegando a 1.000 na corredeira das Três Barras. Na
foz sua largura é de 205 mts. e a profundidade de 2,50, no
canal. Sua profundidade média é de 9 palmos nas águas favoráveis à navegação.
HISTÓRIA DO PARANÁ II
ii
Os engenheiros Keller que em 1865 exploraram este rio,
dizem em relatório dos seus memoráveis trabalhos, que "a
largura, a profundidade -e o leito mudam continuamente, reconhecendo-se que as seções transversais são mais anormais
nas corredeiras, onde o rio, às vezes repartido por entre ilhas,
espraia demasiadamente". Os citados engenheiros fizeram
seus estudos ao tempo das águas baixas e encontraram, de
largura, 100 mts. no mínimo e 900 no máximo. A profundidade encontrada na linha do pego (talvegue), na mesma
estação, foi de 9 mts. e 10 (35 palmos) no máximo; de 3 a
4 mts. (15 a 20 palmos) no médio; e 0, m. 2 a 0, m 4 (1 a 3
palmos) no mínimo.
HISTÓRICO. — O Tibagí representou grande papel histórico ao tempo da província hespanhola de Guaíra. Foi então o limite mais ocidental das reduções indio-cristãs e do
domínio castelhano que visava progredir para o oriente até
ao litoral de Iguapé. Foi também no seu imenso vale que se
travaram os primeiros embates dos bandeirantes contra
aquelas reduções, no século X V I I . O acesso das bandeiras
paulistas às nascentes do Tibagí se fazia pela transposição
da Serrinha, que atingiam pelo caminho clássico do Assunguí.
I I — BACIA DO PARANÁ
São principais afluentes do rio Paraná, em território
paranaense, os grandes rios Paranapanema, Ivaí, Piquirí e
Iguassú. São afluentes destes, entre os mais importantes, os
rios Corumbataí e dos Fachinais (do Ivaí); o do Cobre, o
Cantú (do Piquirí);; o Negro, o Potinga, o Jordão, o Cavernoso e o Chopim (do Iguassú). Os do Paranapanema já foram
citados e descritos no capítulo sôbre a bacia desse rio.
RIO PARANÁ. — O Paraná é formado pela junção dos
rios Grande e Paranaíba, nascidos no planalto mineiro, o
primeiro na Mantiqueira a mais de 2.500 mts. e o segundo
no massiço goiano. Percorre território exclusivamente brasileiro até ao Salto das Sete Quedas. Daí até a foz do Iguassú,
somente a sua esquerda pertence ao Brasil. Corre no rumo
geral S. O. até a barra do Ivinheima (Estado do Mato Grosso) e daí para baixo inclina-se para S.
Tem duas secções navegadas por barcos a vapor, nos
Estados de São Paulo e do Paraná. A primeira após o salto
do Urubupungá, porto Epitácio, ao porto Guaíra, acima das
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Sete Quedas, com a extensão de 520 kms., profundidade de 6
a 12 mts. e largura média de 2 kms. A navegação desta secção é feita pela Companhia Viação São Paulo — Mato Grosso.
A segunda secção começa em porto Mendes e se prolonga por todo o curso do rio em território argentino, perfazendo 1.480 kmts., com 2 de largura média e 4 a 5 mts. de profundidade. São vapores argentinos que fazem essa navegação, tocando nos portos paranaenses de Mendes e Foz do
íguassú. Há diversos outros portos intermediários na margem paranaense, tais como o Artaza. São Francisco, Santa
Helena, São Miguelito. São Miguel, São Vicente, União, Bela
Vista, porto Belo, etc.
Do porto Guaíra, ao porto Mendes, na extensão de 60
kmts. não há navegação devido ao ímpeto da torrente. Nesse trecho uma pequena estrada de ferro faz a comunicação
entre os dois portos.
HISTÓRICO. — A margem paranaense do rio Paraná tinham numerosas tribus as suas aldeias e embora essa região
pertencesse ao govêrno do Paraguai, até toda a primeira metade do século XVI foi incontrastável ali o domínio do gentio.
Em 1554, porém, começou a jurisdição espanhola de Assunção a firmar-se à esquerda do grande rio cuja transposição punha Castela diante de um território imenso, aliás
dentro do seu legítimo direito de conquista limitado pelo meridiano de Tordesilas, e na possibilidade de conseguir se fixar em portos no Atlântico, de Iguapé para o Sul, nos paralelos do seu efetivo domínio ao ocidente. Irala, governador do
Paraguai, fez fundar o "pueblo" de Ontiveros a 1 légua do
Salto das Sete Quedas, iniciado com 60 espanhóis sob a chefia do capitão Rodrigues de Vergara, repartindo-se então pelos povoadores 40.000 famílias indígenas. (Furnes, Ensaio
de la Historia Civil dei Paraguay, tomo I, pag. 162).
A 3 léguas do Ontiveros fundou o govêrno paraguaio
outro "pueblo", a Ciudad Real dei Guayra, na confluência
do Piquirí, com o mesmo "direito" sôbre a escravisação dos
índios.
Em 1576 novo estabelecimento espanhol foi fundado ã
esquerda do rio Paraná, denominando-se Vila Rica do Espírito Santo. Foi seu dirigente o célebre capitão Ruy Dias Melgarejo, nomeado por João de Garay, governador em Assunção. Vila Rica foi depois transferida para a confluência do
Corumbataí no Ivaí, onde prosperou e se tornou a sentinela
castelhana mais avançada no sertão de Guaíra, que dominou
HISTÓRIA DO PARANÁ II
ii
durante mais de meio século, pois só foi destruida pelos
paulistas em 1632.
RIO IVAí. — Nasce na Serra da Esperança, com o nome de rio dos Patos e desagua no rio Paraná a 15 léguas
abaixo da foz do Paranapanema. Das suas nascentes à embocadura, seu curso é de cerca de 130 léguas ou sejam 780 kmts.
"A sua bacia, que vai se alargando a partir da origem,
tem uma largura média de 8 léguas quadradas e uma superfície de mais de 1.000 léguas quadradas". (Eng. Pau Brasil,
Ivaí).
Das cabeceiras até Terezina mede 76 léguas e 200 braças. (Medição do Eng. Gustavo Rumbelsperger, em 1855).
No seu curso de 130 léguas, há 41 ilhas, 5 resaltos e 25
corredeiras e cachoeiras.
Da foz ao Salto das Bananeiras, nas águas baixas, a navegação só pode ser feita por embarcações de 3 palmos de
calado, numa extensão de 32 léguas e 1.500 braças; — e na
extensão de 44 léguas e 1.300 braças nas águas altas.
Quando cheio atinge a 132 mts. de largura na foz. Pode tornar-se navegável por embarcações de 15 toneladas, até
Terezina. Daí à barra do Corumbataí, em extensão de 46
léguas, tem 70 cachoeiras. Do seu tributário Corumbataí à
foz do Paranapanema, numa extensão de 45 léguas, tem,
ainda, muitas cachoeiras, sendo a maior o Salto das Bananeiras, com uma queda de 3 mts. de altura.
Na foz do Corumbataí sua largura é de 100 mts.
Os engenheiros Keller acharam as alturas e declives seguintes no regime deste rio, ao nível das águas baixas, sobre o nível do mar.
"Colonia Tereza (atual Terezina), 482, o ms.; acima da
cachoeira das Ariranhas, 416, o ms.; acima da cachoeira do
Cobre, 305,4 ms.; na barra do Corumbataí, 287,9; acima da
corredeira do Ferro, 222,°; e na barra (águas baixas) 199,°.
Das alturas apontadas resulta uma queda total de 283 mts.,
desde a colonia Tereza até a barra, mui desigualmente repartida neste curso".
Concluem os citados engenheiros, "que o Ivaí é navegável por barcos de maior calado dagua (referem-se ao vapor
"Tamandataí") até a cachoeira do Ferro, na extensão de
22,5 léguas".
Quanto à parte superior do rio acham que só proficuamente pode ser utilizada" por meio de barcos ou vapores de
reboque à sirga", pela maneira exposta em relatório.
22
ROMÁRIO
MARTINS
William Lloyd, autor do traçado de uma estrada de ferro de Curitiba a Miranda (Mato Grosso) com aproveitamentò das partes navegáveis dos rios Ivaí, Paraná, Ivinheima e
Brilhante, achou que a via terrestre compreenderia três secções: — de Curitiba à Colonia Tereza, com 296 kms. e 120
mts.; da colonia ao Pari dos Coroados, com 286 kmts. e 224
mts.; do porto das Sete Voltas à Vila de Miranda, com 269
kmts. e 885 mts.; ou 129 léguas aproximadamente. A navegação intercalada entre estas três secções, soma, no traçado, 733 kmts. Em defesa do seu tratado o engenheiro Lloyd
profetizou para uma certa distância a partir das confluências do Ivaí e do Ivinheima, no estuário do Paraná — a fundação, mais cedo ou mais tarde, de uma das mais importantes cidades do Brasil. Seu argumento foi de que, desse porto,
o Ivaí é navegável na extensão de 250 kmts., o Paraná na de
600, o Tietê na de 500, o Ivinheima e Brilhante na de 430,
o Paranapanema e o Tibagí na de 300, — constituindo a prevista cidade o centro de uma navegação fluvial em uma extensão total de 2.080 kmts. e em posição equidistante de
Curitiba, Miranda e Assunção.
RIO PIQUIRl. — tem sua nascente na Serra do Cantú,
e aflue no Paraná após um curso de 329 kmts., a pouco mais
de 1 légua acima do Salto das Sete Quedas.
É navegável da foz à corredeira de Nha Barbara. A partir da barra do rio Cantú até a citada corredeira, tem muitos saltos e corredeiras.
Quando esteve em estudos o lançamento de uma estrada de ferro transcontinental pelo território paranaense,
(1865-1867), os notáveis engenheiros que se ocuparam do
assunto, tais como Cristian Palm, Lloyd, os dois Rebouças,
Beaurepaire Rohan, Eduardo de Morais, Jeronimo Jardim,
Monteiro Tourinho, — divergiram na escolha dos vales mais
favoráveis. Beaurepaire teve a iniciativa do vale do Piquirí,
então o menos conhecido, e Tourinho o secundou apoiandose na "indiscutível vantagem de se poder transpor o Paraná
por uma ponte tendo por encontro os colossais paredões de
basalto que limitam a catarata de Guaíra".
O Piquirí tem duas grandes secções de decliveis: — uma
a partir da barra do Cantú, de 1,267,5 em 243 kmts. e outra
daí à foz no Paraná, de 1,264,5 em 87 kmts.
HISTQRICO. — O Piquirí e o seu vale constituíram parte do primeiro caminho do extremo ocidente americano à
HISTÓRIA DO PARANÁ II
ii
costa üo Atlântico, desde tempos pré-colombianos. Esse caminho, também chamado Pearibú e de S. Tomé, era uma longa traça que da foz do Piquirí se projetava em outros longos rumos para o ocidente e do alto Tibagí ia até Piratininga e atingia a costa de São Vicente em vários pontos.
RIO IGUASSÚ. — Tem suas nascentes nos campos de
Curitiba com rumo E. O. inclinando-se depois para S. O. cujo
rumo percorre francamente em grande extensão recebendo
muitos tributários pequenos e o vultoso rio Negro. Corre ainda nessa mesma direção até que de novo se inclina para O.,
alcançando assim o Paraná após 1.200 kmts. de curso dos
quais 330, do porto Amazonas ao União, são navegados por
pequenos vapores do "Lloyd Paranaense" e da firma hervaleira "Leão Júnior".
Na sua confluência tem o Iguassú 400 a 450 metros de
largura e 8 de profundidade nas águas baixas.
Depois do Rio Negro que é o seu principal afluente, recebe o Iguassú, numerosos tributários e entre êles, pela direita, o Potinga, Claro, Palmital, Jordão, Cavernoso, Xagú,
dentre os de mais nota; e pela esquerda o Canoinhas (pertence a Santa Catarina), o Jangada, Chopim, Santo Antonio, este digno de menção por constituir fronteira do Brasil com a Argentina.
I I I — BACIA DA RIBEIRA DE IGUAPÉ
São principais afluentes da Ribeira de Iguapé em território paranaense, os rios Assunguí, Pardo e Itapirapuãn.
São tributários do rio Pardo, o Capivari e Bom Sucesso, dentre os mais notáveis.
RIBEIRA. — Nasce com o nome de Ribeirinha e depois
de receber o rio Assunguí, ao N. da vila deste nome, passa a
se dominar Ribeira. Ao receber as águas de Itapirapuãn pela sua margem esquerda e as do Rio Pardo pela direita, constitue linha da fronteira entre São Paulo e Paraná. É navegável por canoas em toda sua extensão e por barcos a vapor
da foz da Iporanga, em território paulista.
HISTÓRICO. — O rio Ribeira de Iguapé foi uma das
mais frequentadas vias de penetração paulista no sertão de
Guaíra, a partir do século XVII, quando os bandeirantes
atingiam o Tibagí pelo sertão do Assunguí ou de Ibiaguira,
como então era chamado. Findo o ciclo da caça ao índio pas-
24
ROMÁRIO
MARTINS
saram os paulistas ao da caça ao ouro, e, ainda então, foi
a região do Assunguí uma das primeiras a ser exploradas,
aliás com sucesso e por largos anos, e dos arraiais dos seus
garimpeiros foram se formando os povoados de reinóes e seus
decendentes fixados no planalto de Curitiba.
RIO DA BACIA DA RIBEIRA. — Pertencem a este sistema, em território paranaense, a interessante rêde fluvial
contida entre as serras Paranapiacaba ao N., de Itaiacóca e
Serrinha a O.; o resalto do planalto de Curitiba ao S.; e as
serras da Graciosa, da Virgem Maria e Serra Negra a L.
Aí nascem, correm e vertem na Ribeira, os seguintes rios
dentre os de mais importância: Ribeirinha, Assunguí, Capivari, Bom Sucesso, Pardo. Itapirapuãn e Pardo são, em toda a
extensão, limites entre o Paraná e São Paulo e o Ribeira
desde a barra do primeiro à barra do segundo.
Um dos grandes rios desta bacia é o Capivari, que nasce na serra da Estrela, de donde corre na direção S. até proximidades de Campina Grande e daí se inclina para N. E. até
a barra do Bom Sucesso. Dessa altura para baixo passa a se
denominar Rio Pardo.
IV — BACIA ATLANTICA
Os rios da bacia litoranea são os que vertem da encosta
oriental da Serra do Mar, a partir do Ararapira ao N. e a
terminar no Saí ao S., entre os paralelos austrais de 25°,20
ao 26°.
São principais o Nhundiaquara, Guaraguassú, Cachoeira, Faisqueira, Tagassaba, Serra Negra, Guaraquessaba, Itaquí, Cubatão, São João, Guaratuba.
RIO NHUNDIAQUARA. — É formado pelos rios Itupava
e Mãe Catira. É navegável por canoas desde a confluência
desses dois rios até Morretes si se melhorar o canal cada vez
mais entulhado de pedras acumuladas pelas enchentes. De
Morretes para baixo é navegável por canoas, sem trafego comercial de importância.
O Nhundiaquara e alguns dos seus tributários teem
grande declive, e, assim, são as suas águas aproveitadas para motoras de pequenos engenhos.
HISTÓRICO. — O Nhundiaquara também se chamou
Cubatão e foi, no século XVIII, muito frequentado por embarcações'desde a barra até as proximidades do Porto de Ci-
HISTÓRIA DO PARANÁ II
ii
ma. Por aí se fazia todo o movimento de viajantes e de cargas até Paranaguá e vice-versa.
OUTROS RIOS DO LITORAL
Dentre os rios mais importantes da baixada litoranea
devem ser citados o GUARAQUESSABA, que nasce na Serra do Taquarí e desagua na baía das Laranjeiras, com um
trecho navegável de 120 mts., o SERRA NEGRA, que nasce
na serra do seu nome e desagua na baía das Laranjeiras, com
um percurso navegável de 120 kmts., sendo os primeiros 24
kmts. por embarcações de calado muito reduzido; GUARAGUASSÚ, navegável; CACHOEIRA, navegável na extensão
de 48 kmts. por canoas de grande lotação; FAISQUEIRA,
navegável em 36 kmts.; TAGASSABA, navegável em 48 kmts.;
CUBATÃO, nasce na Serra da Prata e desagua na baía de
Guaratuba, navegável por hiates até as proximidades da Serra; GUARATUBA, com 36 kmts. navegáveis; SAO JOÃO, nasce na Serra de Araraquara, nas contravertentes do Ikirim,
e desagua na baía de Guaratuba.
7 — OS CLIMAS
O Paraná está situado quasi que inteiramente na terceira grande zona climatérica do Brasil, designada expressivamente por Zona Temperada Doce. Apenas uma longa
porém estreita faixa ao Sul do Rio Paranapanema está situada acima do Trópico de Capricornio, em zona Sub-Tropical, mas onde as altitudes (500 a 800 metros acima do nível
do mar) compensam as latitudes constituindo destarte clima ameno, embora quente.
"O Sul de S. Paulo, (diz Henrique Morize, Diretor do
Observatório do Rio de Janeiro) os Estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, constituem a terceira grande zona do Brasil, a Zona Temperada Doce. Seu clima é dos
mais belos do mundo. A temperatura é muito amena, e a
média se conserva sempre abaixo de 20°. Os invernos pouco
intensos, que se produzem durante os meses de Junho a
Agosto, são não só favoráveis à saúde das raças européias como ao desenvolvimento de todas as culturas do antigo continente. Assim tem sido estes Estados, preferidos pelos imigrantes".
Região do litoral. — É semelhante à da região sub-tropical. "A uniformidade é uma das características desses climas
26
ROMÁRIO
MARTINS
marítimos. As médias são de 20° a 21°. Os ventos dominantes veem de suéste. Devido à vizinhança da Serra do Mar, as
chuvas são abundantes e a atmosféra é úmida" — (Delgado
de Carvalho, Geografia do Brasil).
Região do planalto. — "As duas estações de inverno e
verão são mais distintas e caracterizadas. As temperaturas
médias variam entre 16° e 19°. A estação chuvosa, ao inverso da zona sub-tropical, é principalmente o inverno, apesar
de não haver positivamente estação seca. A Serra do Mar
é especialmente chuvosa, recebendo até 4 metros de chuva
anualmente, em certos pontos". (Aut. obr. cit.)
CAPÍTULO
II
DISTRIBUIÇÃO GEOGRAPHICA
DAS TRIBUS INDÍGENAS
1 — Os Tupis
2 — Os Crêns
3 — OsGés
1 — OS T U P Í S
Guaranis
Tinguís
Carijós
Caiguás
Guaianás
Guarapiabas
Guapuras
Mimos
Chiquis
Teminimós
Mbiazais
Abapanis
Tabacais
Asboipitans
Jaguaquês
Araxis
Ninguarús
Cuminunguaras
Itacuras
Itaquébas
Hindós
Tarapopês
Arés
Biturunas
Taiobás
Pinarés
Ibiticois
Tupiniquins
Ibiticurús
Itambaracás
Camperos
Guapuãns
Chovas
Cheripás
Biopébas
Pés Largos
Chiringuanas
Papagaios
Guapúas
Guanaós
Itatins
GUARANIS. As primeiras explorações do sertão compreendido entre os rios Paranapanema, Paraná, Tibagí e Iguassu., acusaram numerosa presença, em toda parte, de índios
da nação Guarani.
Em 1541 D. Alvaro Nunes Cabeza de Vaca, mandado pelo rei de Espanha para o Paraguai, como "adelantado", tomou posse em nome do seu soberano, de Cananéa e da Ilha
de Santa Catarina e se internou no território do sertão cor-
HISTÓRIA DO PARANÁ II
ii
respondente a esses dois pontos extremos da costa, seguido
de numerosa comitiva militar, — e fez o longo trajeto do litoral ao rio Iguassú, Campos de Curitiba, Campos Gerais,
rios Tibagí e Piquirí e novamente ao Iguassú (próximo dos
Saltos de Santa Maria) e em todo esse imenso percurso encontrou numerosas aldeias de índios guaranis e nenhuma
de outra nação.
Em 1555 e em 1557 o Govêrno do Paraguai, apossando-se
efetivamente desse território, fundou as povoações de Ontiveros, Vila Rica e Ciudad Real dei Guaíra, respectivamente
junto ao rio Paraná, próximo à foz do Piquirí e à do Corumbataí, com soldados e civis castelhanos e a estes submeteu os
índios guaranis dos quais precisassem para os seus trabalhos e para fins de defesa da terra.
De 1610 a 1629, autorizados pelo soberano espanhol, os
padres da Companhia de Jesus mantiveram 13 reduções do
gentio guarani nos vales dos rios Pirapó, Tibagí, Ivaí e Piquirí. Somente depois da destruição, pelas "bandeiras"
paulistas, das povoações castelhanas e jesuíticas, foi que índios de outras etnias invadiram esse extenso território compreendido na província espanhola de Guaíra, sujeita ao govêrno do Paraguai.
CARIJÓS. Dominadores de toda a costa marítima, de
Cananéa à Lagoa dos Patos. Atacados e preados em grandes levas na região de Paranaguá pela "bandeira" de Jeronimo Leitão, em 1585. Pouco antes de 1640, Gabriel de Lara,
ao procurar estabelecer-se em Paranaguá, receiou a hostilidade do gentio Carijó possivelmente ainda ressentido do assalto bandeirante de 1585, e prudentemente se localizou com
sua expedição na ilha da Cotinga, fronteira ao continente,
para onde se transferiu depois, fundando a vila de N. S. do
Rosário de Paranaguá. Tendo captado a confiança dos índios, deles se serviu para a descoberta e a exploração de ouro. Assim foi que os carijós da costa paranaguense que não
foram escravisados pela "bandeira" preadora ou que não se
internaram no sertão fugindo a outras agressões dos brancos, passaram a constituir o lastro da nossa população litoranea. Ainda hoje a nossa gente praieira conserva o tipo do
seu ascendente índigena.
Os carijós que debandaram para o sertão repontaram no
vale do Paranapanema onde os encontraram as "bandeiras"
seiscentistas, e no baixo Iguassú onde ainda em 1894 os visitou Ambroseti, que, aliás, os identificou com os Guaíaquis do
Paraguai.
32
ROMÁRIO
MARTINS
TINGUÍS. Dominavam, no século do descobrimento do
sertão, os Campos de Curitiba, a partir da encosta ocidental
da Serra do Mar. (São José dos Pinhais, Piraquara, Campo
Largo, Araucária, Tamandaré, Colombo, Campina Grande
e Rio Branco).
Os Tinguís ("Tin" "guí", — nariz afilado) não hostilizaram os aventureiros pesquizadores e exploradores de ouro
que se estabeleceram com arraiais no Atúba e na chapada
do Cubatão, inícios da formação de Curitiba. Deixaram-se
ficar pelas imediações desses primeiros núcleos de população branca e foram serviçais das explorações auríferas, dos
sítios de criacão de gado, etc. Seus mestiços ainda constituem parte da população de vários dos municípios acima citados e se ufanam de sua ascendência. Não vai longe o tempo em que o caboclo de Araucária e de Tamandaré avisava
o contendor nas suas rixas: — "Cuidado, que eu sou Tm~
guí!"
Tindiquera é a antiga denominação da atual Vila de
Araucária, e quer dizer "buraco de Tinguí", — pois estes índios tinham suas habitações em covas abertas no chao, em
pleno campo.
.
Os mapas espanhóis os denominavam Mbiazais, localizando-os nas mesmas posições indicadas acima.
CAIGUAS. (Sin. de Caíuás, Caínguás). Procedentes das
regiões ocidentais do rio Paraná, território paraguaio, domiciliaram-se no vale do Paranapanema. (Telemaco Borba,
Atualidades indígenas). J. A. Ambrossetti, que os encontrou
PÓ Alto Paraná, é de opinião que esses CAIGUAS (escreve
Cainguá) são os sucessores do antigo habitante dessa localidade ou seus próximos parentes. Em 1911 habitavam a
margem direita do baixo Ivaí, onde o engenheiro Edmundo
Mercer os encontrou em número superior a 500. Os CAIGUÁs falam um dos dialetos do Tupí-Guaraní. (Couto de
Magalhães, "Anchieta e as Raças e Línguas indígenas dc
Brasil. Deve-se entender por língua Tupí-Guaram, a Língua Geral organizada pelos jesuítas, composta das duas
línguas — Tupi e Guarani, que eram aproximadas como a
nortuguêsa da espanhola.
A Comissão Espanhola Demarcardora de Limites, em
1790 assinalou a presença de CAIGUAs nos Campos de Palmas; a Carta do Paraguai, de G. de 1'Lisle, de 1703, registrouos ao sul do baixo Piquirí. Em 1876 foram aldeiados no Paranapanema, onde existiu a redução de Santo Inácio, em
número de 300 indivíduos e sob a direção de José Antonio
H I S T Ó R I A DO P A R A N Á II
ii
Vieira de Araujo. No mesmo ano Nestor e Telemaco Borba
os encontraram na corredeira do Diabo, à esquerda do Paranapanema.
GUAÍANÁS. Após a derrota que os francêses de Villegaignon, seus aliados, sofreram em Guanabara (Rio de Janeiro)
e da que lhes foi inflingida na vila de S. Paulo no combate
de 10 de Julho de 1562 conjuntamente com os Tupis, Caribócas e Tamoios, "os Tupinakis, ou Goia-ná, preferindo
deslocarem-se a submeterem-se aos portuguêses de Piratininga, tomaram a direção sudoeste e estabeleceram-se na
Serra Apucarana, além do Rio Tibagí, onde em 1661 Fernão
Dias Pais Leme os encontrou divididos em três reinos". (Pedro Ta quês, Nobliarchia Paulistana, Rev. Inst. Hist. Geogr.
Bras., vol 25, parte primeira, 106 a 109).
Em 1610, por ocasião das fundações jesuíticas no Guaíra, foram encontradas tribus Guaianás nas margens do Rio
Paraná, acima e abaixo dos Saltos das Sete Quedas; na mesma época, segundo o conego J. P. Gay (História da República Jesuítica do Paraguay) existiam numerosas malocas de
Guaianás às margens do Iguassu, e do Santo Antonio, bem assim, em 1775 ao sul do rio Piritíba (rio Chopim) segundo o
Mapa Geográfico da América Meridional, de Olmidilla.
Mapas coloniais assinalam a região do baixo Tibagí, em
ambas as margens, com a indicação: — "Sertão do Gentio
Guanhanás" e a que demora entre os rios Iguassú e Santo
Antonio com a indicação: — Gunhanás, very little knoum
(muito pouco conhecidos) ; os Jesuítas de Guaíra aldeiaram
GUAIANÁS na Redução de São Tomé, em Guaíra, situada a
leste do rio Corumbataí; Ambrossetti, em 1903 visitou aldeias
de GUAIANÁs no curso inferior do Iguassú e no alto Paraná.
Vem de longe a discussão sobre si os GUAIANÁS eram Tupis
ou Tapuias. O Conego Gay, ob. cit. situando GUAIANÁS no
baixo e alto Iguassú e Uruguai, respectivamente, acrescenta:
— . . . " e sua língua pouco difere da dos Guaranis", mas
também diz que " o nome GUAIANÁS dá-se a todas as tribus que não têm outra denominação e que não são Guaranis". Teodoro Sampaio, A Nação Guaianá da Capitania de S.
Vicente, filia-se no grupo Guarani; Carlos Teschauer, S. J.,
Os Caingang ou Coroados no Rio Grande do Sul, entende
que os GUAIANÁS, como também os Camés e os Xocrens,
eram Caingangs. Também H. von Ihering, Revista do Museu
Paulista, vol. 6, págs. 23 a 44, conclue que os GUAIANÁS
descritos por Gabriel Soares, "são os atuais Caigangs". Telemaco Borba, Atualidade índigena, págs. 126 e segts., diHistória do Paraná — 3
KOMAKXO
34
MARTINS
verge, e entende que eram Tupís-Guaranís, pois esses índios
se entendiam perfeitamente com os Carijós. O fato de serem aldeiados em Guaíra conjuntamente com Guaranis,
fortalece esta opinião do saudoso indianista paranaense.
GUARAPIABAS. Região de campo ao norte de Guarapuava, entre os rios do Peixe (Piquirí) e Tibagí, onde o Mapa
da Costa de Iguapé à Laguna e Sertão Inculto até a Fronteira Espanhola os assinala com esta larga inscrição: — Campos do Gentio Guarapiaba. Milliet de Saint'Afolphe, diz que
Castro teve origem em acampamento de índios GUARAPUABAS. (Rocha Pombo, O Paraná no Centenário, 123).
GUAPURAS.
baixo Iguassú.
Norte do rio Uruguai; norte do médio e
MIMOS. Norte do Iguassú, médio e baixo. Piquirí médio
e baixo. {Gay, Hist. Jes. do Paraguay, 430).
CHI QUIS. O mapa "Paraquariae cum adjacentibus", de
1646, assinala-os ao norte Iguassú e ao sul do Piquirí. j
TEMINIMÓS. Entre os rios Piquirí e Tibagí, em zona de
campos. Manoel Preto levou Terminimós para São Paulo, de
regresso de Guaíra, em 1629. A "bandeira", de Nicolau Barreto, que visou o Perú, deu combate a TEMINIMÓS em território paranaense, segundo Alfredo Ellis Jr. (O Bandeirismo
Paulista e o Recuo do Meridiano, pág. 21). Afonso de E. Taunay (História Geral das Bandeiras Paulistas, pág. 186), diz
que os Teminimós habitavam a região guaírenha, nas imediações de Vila Rica.
»
MBIAZAIS. Segundo mapas espanhóis dominaram a
região ocidental da Serra do Mar. Mbiazais era a denominação dada pelos espanhóis às tribus dos Tinguís.
ABAPÁNIS. Entre os rios Iapó e Pitanquí, na região de
Castro. Em 1541 D. Alvaro Nunes Cabeza de Vaca, de viagem para o Paraguai, aí os encontrou, prestando-se os Abapánis a lhe guiar a expedição ao seu distante destino.
TABACAIS Vale do Tibagí.
ASBOIPITÃNS.
Vale do Tibagí.
JAGUAQUÊS.
Vale do Tibagí.
HISTÓRIA DO PARANÁ II
CUMININGÜARAS.
ii
Vale do Tibagí.
ARAXIS. Vale do Tibagí.
NINGUARÚS.
ITACÚRAS.
ITAQUÉBAS.
Vale do Tibagí.
Margem esquerda do Paraná.
Margem esquerda do Paraná.
HINDÓS. Margem esquerda do Paraná.
TARAPOPÊS.
Margem esquerda do Paraná.
ARÉS. Baixo Ivaí e Piquirí, nos últimos tempos. Pelo
uso exagerado que faziam dos batoques, passaram os Arés
por Botucudos. O certo é que falavam o Guarani, embora
com pronúncia alterada pela dificuldade de movimento do
lábio inferior, preso pelo longo e pesado batoque de nó de
pinho ou tembetá de osso. Por essa razão não podem pronunciar os sons labiais. "Si no Paraná há restos das tribus
da nação Guaianás, devem ser estes Arés do baixo Ivaí e Piquirí, os únicos que por seu idioma e característicos brandos
e pacíficos se assemelham à descrição que deles fez Gabriel
Soares", diz Telemaco Borba, na Atualidade índigena.
Mas neste caso os Arés, tidos por Botucudos e perseguidos pelos Caingangs, remanescentes extraviados de um povo
desconhecido, mas com característicos etnográficos que os
filiam entre os Gês-Botucudos, falando, embora deturpadamente, o Guarani, não estará um esforço de civilização ascendente fracassado por "circunstâncias perturbadoras estranhas", do molde daquele "povo de cultura Gê evoluindo para
a cultura Nu-Aruak cujos pródomos havia apenas atingido",
de que nos dá notícia Roquete Pinto ? (Rondonia, 205).
Filiamo-los, entretanto, ao grupo Tupí-Guaraní, visto
falarem a língua deste, para não criarmos mais uma questão
sôbre assunto que a atualidade já não tem elementos para
dicidir.
BITURUNAS. A antiquíssima presença deste gentio nos
campos modernamente chamados de Palmas, deu a esses
campos o nome de Bituruna ou Ibituruna. Os toldos dos Biturunas se espalhavam nas regiões das nascentes dos rios
Chopin (antigamente Peritíba) e Chapecó. A presença destes índios nas citadas regiões é assinalada no Mapa da América Meridional, de Olmidilla, 1775. O sul do Rio Negro tam-
36
ROMÁRIO
MARTINS
bém é indicado, pelo menos em dado tempo o foi, como ocupado pelos Biturunas.
Alguns autores identificam estes índios com o Botucudos e com os Chocrens, porém, ao que parece, erradamente, pois o próprio nome deste povo é guarani: — de Ibiturú, Serra; Ibituruna, Gente Serrana. Por esta circunstância classificamo-lo no grupo Tupi.
TAIOBAS. À esquerda do rio Corumbataí, onde em 1610
foram domiciliados na redução de Los Angeles, segundo o
Barão do Rio Branco, in Questão de Limites entre o Brasil e a
República Argentina.
PINARÉS. Sul dos rios Negro e Iguassú e cabeceiras do
Uruguai, segundo o Plano de la Capitania General de las
tres Provindas dei Rio de la Plata, Paraguai e Tucuman, 1768.
IBITICOIS. À esquerda do rio Ivaí, os jesuitas fundaram, com os Ibiticois, a redução de Santo Antonio, pouco
depois do ano de 1610.
TUP1NIKINS. No litoral de Guaraquessaba, diz Staden,
Viagens e Cativeiro entre os Selvagens do Brasil, 1552, "os
selvagens do porto onde estavamos chamavam-se Tupínikins", que viviam em boa harmonia com portuguêses de São
Vicente. Estes lhe informaram que para o sul "havia uma
tribu de selvagens chamados Carios, (Carijós) e que deviamos nos acautelar contra êles".
IBITICURUS. Ocupavam situação à esquerda do Tibagí,
onde pouco depois de 1610 os jesuitas fundaram a redução
de São Miguel.
ITAMBARACAS. À esquerda do rio Paranapanema, pouco abaixo da foz do Santo Inácio, onde os jesuitas, em 1610,
fundaram a redução de Santo Inácio Mini.
CAMPEROS. A esquerda do rio Tibagí, onde os jesuitas
fundaram a redução de São José pouco depois do ano de
1610.
GUAPUÃNS. Lugar incerto do planalto.
Leão, A Tribu Tingui).
(Ermelino de
HISTÓRIA DO PARANÁ
II
CHOVAS. Margens do Iguassú "em terras frias povoadas
de grandes pinheirais até se juntar no Paraná". (Gay, História Jesuítica do Paraguai, 434).
CHERIPÁS. Zona que se estende da margem direita do
rio Paraná à foz do Piquirí e ao Iguassú, na altura correspondente à foz do Santo Antonio. (H. von Ihering, Mapa Etnográfico do Brasil Meridional).
BIOPÉBAS. Habitavam certas reduções de Guaíra e procediam do norte do Paranapanema.
PÉS LARGOS. Os que habitaram território paranaense
foram foragidos de São Paulo e homiziados nas reduções de
Guaíra, pelo que deviam pertencer ao grupo Tupí-Guaraní.
CHIRIGUANÁS. Território do Guaíra, missionados pelo
Padre Francisco Dias Tanho.
PAPAGAIOS.
pos de Palmas.
Na retaguarda dos Biturunas, nos Cam-
GUAPUÁS. índios encontrados por D. Alvaro Nunes Cabeza de Vaca, em 1541, à margem do Iguassú.
GUANAÓS. Vizinhos das Missões Orientais do Uruguai,
"entre Santa Catarina e o rio Prata", informa Gay (obr. cit.
71). Como a região vizinha ao território onde existiram as
Missões referidas somente, também, podia ser a direita do
rio Uruguai, porque a esquerda era e é o Rio Grande do Sul,
— relacionamos os Guanaós entre os índios habitantes do
território paranaense. Seus costumes e seu idioma não se
diferençavam muito dos dos Guaranis, "visto que o Padre
Garcia falou com êles na sua língua". Aut. e Obr. cit. 71).
1RAITINS. Iratins ou Itatines, foram aldeados pelos jesuítas na vertente oriental do rio Paraguai (entre 19° e 22°
de latitude sul, segundo Charlevoix) e essas aldeias destruídas por bandeiras paulistas. Lozano (Conquista dei Rio de la
Plata, vol. 1, 36) diz que nos bosques espessos que desde as
nascentes do Uruguai seguem para o norte e poente até saírem nos Geraíra, andavam vagabundos os Iraitins, assim
chamados porque usavam um casquete de cêra na cabeça.
38
ROMÁRIO
MARTINS
Um afluente meridional do Iguassú e os campos próximos às
suas nascentes, denominam-se do Iratim, possivelmente porque houvesse aí dominado o gentio Iratim.
2 — OS
CRÊNS
Caigang
Camés
Votorões
Dorins
Cairucrês
Chocrêns
Corutons
Chavantes
Cabeludos
Ibirajaras ,
Gualáchos.
CAIGANG. Direita do rio Uruguai, percorrendo os
dois Piquirís e rio Ivaí, onde lhes está reservada uma área
de terras, à direita deste rio, na altura do Salto do Ubá.
Procedem das regiões ocidentais do rio Paraná e invadiram o território paranaense após a destruição de Guaíra. Deve-se escrever Caingang (com C e não com K ) porque o vocábulo vem de Caing, mato e ang, gente.
Possuem, como os guaranis, várias denominações tribais
conforme as regiões de suas concentrações. Os Camés, segundo von Martius, Glossaria Linguarum Brasiliensium, se
chamavam a si mesmos Caingangs e Caiquís quando domiciliados entre os brancos.
CAMÉS. Primitivamente habitantes da mesopotamia
Iguassú-Uruguai e depois dos sertões de Guarapuava.
"Da grande tribu Camé catequizada pelo Padre Francisco das Chagas Lima, diz Luiz Daniel Cleve em o "Guaíra",
1909 — restam na Comarca de Guarapuava poucos descendentes. Os antigos toldos do Piquirí, Corumbataí e do vale
do Ivaí, ficaram desertos. Daí desapareceram os caciques
outrora investidos do comando supremo, dos quais o último
foi Jongjó. Apenas existem algumas famílias dispersas cujos
chefes como Bandeira, Joaquim Cadete e outros poucos, intitulam-se Caciques, Coronéis, Capitães e vão às vezes à pre-
HISTÓRIA DO PARANÁ
II
sença do govêrno com suas exigências e reclamações, fingindo ter sob seu comando grandes hordas quando suas familias
não vão além de 20 ou 30 indivíduos".
Os Camés foram aldeiados no Atalaia (Guarapuava) pelo Padre Chagas Lima. Essa grande aldeia se dispersou quasi toda. Seu prestigioso chefe índigena, Focrã, doutrinado e
alfabetizado pelo grande missionário curitibano, foi residir
com sua gente no sertão além do Campo Erê. Outros catecumenos foram para Palmas, Goio-En, campos de Nonoai e
sertões do Piquirí. Os restantes, sob administração civil, foram se degradando e extinguindo.
— Uma lenda Caingang sôbre a origem da raça, refere
que, por ocasião do dilúvio, que só deixou à flor das águas
a Serra CRINJIJINBE (Serra do Mar) onde se alojaram os
Caingangs, os Caiurucrês, os Camés e os Curutons, foram salvos pelas saracuras e patos, que a pedido dos Caingangs, aterraram uma região para onde se removeram aqueles índios.
As almas dos Caiurucrês e dos Camés que se afogaram penetraram o interior da Serra e por sua vez abriram dois caminhos pelos quais saíram com o abaixamento das águas; no
caminho aberto pelos primeiros brotou um arroio em terra
plana e sem pedra, donde provêm terem os Caiurucrês pés
pequenos; o caminho aberto pelos Camés, foi aberto em terra
seca e pedregosa, que lhes incharam os pés na jornada, donde lhes vem terem-nos grandes até hoje. Os Curutons, que
por preguiça nada fizeram por ocasião do dilúvio, deixaramse ficar na Serra e quando noutra parte são encontrados, os
Caingangs os prendem e reduzem à escravidão. •
Salvos do dilúvio desde logo os Caiurucrês passaram a
criar uma fauna para as florestas que iam resurgindo, porque as águas haviam afogado todos os animais exceto os peixes e as aves. Com cinza e carvão fizeram tigres, só com cinzas fizeram antas, etc. até que repovoaram os sertões de caça. Os Camés, por sua vez, criaram animais capazes de lutar
com os que os Caiurucrês haviam criado: a puma, as cobras
e as vespas.
Enquanto Caiurucrês e Camés, criavam a fauna postdiluviana da lenda Caingang estes caçavam na floresta.
Encontrados, no campo, os Caiurucrês e os Camés resolveram
constituir uma só família. E casaram-se os filhos dos primeiros com as filhas dos segundos. Mas havia mais homens
do que mulheres e assim os jovens Caiurucrês e Camés que
não encontraram par nas suas tribus, casaram-se com as
filhas dos Caingangs.
ROMÁRIO
40
MARTINS
Segundo a lenda narrada pelo cacique Arakchó, (Gralha Branca) as três tribus são aparentadas. Pertencem ao
grupo CRÊN (parente, família, filho) de Martius.
Os Caingangues só se fixaram ao norte do Iguassú após
o apresamento e o exôdo dos Guaranis domesticados pela catequese no território de Guaíra. Mas então o fizeram numa
imigração em massa, no sentido da vasta zona que vai da
Serra Geral aos rios Paraná e Paranapanema dominando os
vales e as margnes do Tibagí, Ivaí, Piquirí e seus grandes
afluentes, seguindo outros em direção Sul até Passo Fundo
(Rio Grande do Sul) onde em 1845 os sertanistas curitibanos
Rocha Loures e Hermógenes Carneiro Lobo os encontraram,
bem assim a expedição do major Morais Jardim quando em
1860 fez a exploração do traçado Campo-Erê — Corrientes,
entre cujos índios, de torna viagem da imigração norte, se
achava o cacique Focrã com a sua gente, que o Padre Chagas
catequisára em Guarapuava.
Explicando esssa imigração contava um velho índio1 do
Jataí, que ela fora motivada por uma guerra das tribus do
território das Missões (Iguassú-Uruguai) onde permaneceram até que foram, no correr do tempo, dizimados pela população branca. Dessas tribus mais bravias, Condá, que assaltou a expedição de Pedro Siqueira, foi o último cacique
de prestigio.
Os Caingangs, como os Guaranis, se distinguiam por várias denominações tribais. Assim pertenciam a esse grande
grupo os Chocrêns, Votorões, Dorins, Caiurucrês, Camés,
com cujos nomes eram conhecidos os índios de Guarapuava
na época das explorações oficiais desses campos e sertões pelas bandeiras de 1768Je 1771.
VOTORÕES. Encontrados, em 1771, nos Campos de Guarapuava .
DORINS. Sertão de Guarapuava, 1771.
CAIURUCRÊS.
guai.
Errantes na mesopotamia Iguassú-Uru-
CHOCRENS. Sul do Iguassú; sertões de Guarapuava
(vale do Piquirí e Rio Jordão) por ocasião da missão do Padre Chagas. Os Chocrens eram próximos parentes dos Coroados ou êles próprios, sendo diferentemente denominadas
as hordas bravais destes. -De Chucrê, bravio, em Caigang.
HISTÓRIA DO PARANÁ
II
CURUTONS. Campos e pinhais de Guarapuava ao tempo do Padre Chagas Lima, notável missionário dos Caigangs
que se diziam ser os chamados Chavantes pelos portuguêses.
CHAVANTES. Os últimos Chavantes dos quais há notícia no Paraná habitavam entre os rios Ivaí e Paranapanema,
onde ainda em 1906, os encontrou o Padre Marcos Simoni.
Viviam, entretanto, em continuas viagens a Mato Grosso, onde não se demoravam. Seus usos e costumes mereceram registro. Homens e mulheres usavam um cordão de embira ao redor da cintura, tendo o das mulheres um outro
cordão, preso ao da cintura pelas extremidades passando
por entre as pernas. Este era o seu "vestuário". Cortavam o
cabelo ao redor da cabeça, na altura das orelhas. Usavam
colares de dentes. Suas cabanas eram muito pequenas, baixas e sem nenhum conforto. Homens e mulheres usavam
lanças de cérne de aroeira, medindo as dos homens 2 m. 50 e
a das mulheres 1 m. 50. Não fabricavam nenhum objeto de
barro. Eram monógamos e pacíficos, não atacando nem os
brancos nem aos demais índios. Suas palavras tinham acento agúdo na última sílaba. Aos Chavantes os Coroados chamam Curutons. .
CABELUDOS. Ocupavam as nascentes do Iguassú, campos de Curitiba e São José dos Pinhais. O nome deste povo
foi evidentemente dado por Portuguêses a tribus Ibirajaras.
1B1RAJARAS. Sul do rio Negro. Ibirajara é denominação dada pelos Tupis aos índios chamados Bilreiros e Caceteiros, pelos portuguêses. Capistrano de Abreu (O Descobrimento do Brasil, 34) chama-os a todos, Caiapós. Dada a
inconteste autoridade deste autor, classificamos estes povos
no grupo CRÊN de Martius, que corresponde ao grupo CAI A P ó de von der Steinen.
GUALÁCHOS. O mapa "Paraquiariae vulgo Paraguay
cum adjacentibus", primeiro construído pelos Jesuítas 16461649, coloca os Gualáchos desde o Campo Ibituruna (entre
os rios Iguassú e Uruguai) que são os atuais Campos de Palmas, até ao ocidente da Serra do Mar, na altura de Cananéa.
A carta de 'G. de ITsle, de 1703, coloca-os na mesma região.
Com o gentio Gualácho, fundaram os jesuítas a redução
de Nossa Senhora da Conceição de los Gualáchos, no Guaíra,
nascente do Corumbataí, conjuntamente com Guaianás que
constituíam maioria. "A existência de Gualáchos nas viüi-
42
ROMÁRIO
MARTINS
nhanças de Vila Rica, cliz Afonso de E. Taunay, ob. cit. pág.
139, — indica que estes índios não eram sinão Guaranis como os da margem direita do Paraná". Mas J. P. Gay em sua
História da República Jesuítica do Paraguai, nota n.° 18, esclarece este ponto quando diz que todas as nações do Guaíra
falavam o Guarani, "excepto os Gualáchos e os Ibirajaras
que tinham linguagem peregrina".
3 — OS GÊS
BOTUCUDOS. Sul do Rio Negro e sertão do Tibagí. O
centro de suas residências, pelo menos nos últimos tempos,
foi a região de monte Taió, mas avançaram até Timbó e Canoinhas, e em suas correrias iam até aos bosques do litoral
catarinense, e, para oeste, até Palmas.
O aspecto físico, o idioma e os costumes dos Botocudos,
muito os dinguiam dos outros índios. Parece que não estavam ainda localizados na região acima referida quando, em
1541, d. Alvaro Nunes Cabeza de Vaca atravessou sem precauções o alto Iguassú com sua numerosa expedição ao Paraguai, pois na descrição dessa viagem só há referências, aliás
numerosas, aos Guaranis. Entretanto, ao retornar a expedição ao Iguassú, na região de oeste, teve notícias de índios
bravios e desceu o rio em canoas policiadas, de ambas as
margens, pela sua gente de armas.
O Gê-Botucuão parananense, que por largos anos foi o
temor dos viajantes do caminho do sul, na direção do Rio
Grande, desaparece sem que quasi nada se saiba dos seus
costumes nem do seu vocabulario, o que já agora constitue
uma das questões insolúveis de nossa pre-história.
O seu último reduto do Taió e suposições de que restos
desse povo existiram homiziados nos sertões do Tibagí, passaram à história sem apreciável resultado para o seu conhecimento, levando-se, até, em conta de sua agressividade, muitas vezes práticas de que talvez fossem autores os Crêns, seus
inimigos e sucessores no domínio da mesopotamia IguassúUruguai.
Esta opinião se baseia no dizer de Cleve: — "Os índios
que assaltavam as comitivas da estrada da Mata, de Lapa ao
Mato Castelhano, há um século e mais, não eram Botucudos.
Os que davam esses assaltos, roubando e matando, eram es-
HISTÓRIA DO PARANÁ
II
ses mesmos índios de Palmas, de Chopim e Chapecó, fato que
ficou provado com o ataque feito à comitiva de Pedro de Siqueira Cortes, em viagem para o Rio Grande do Sul. Os índios mataram pessoas da comitiva e animais, levando o dinheiro e objetos por eles cobiçados, mas Pedro de Siqueira,
defendendo-se valorosamente, assinalou um índio no rosto
com a boca de uma arma de fogo. Esse índio era Vitorino
Condá, célebre cacique dos Caigangs de Palmas, que confessou o fato e levou a cicatriz à cova". (Luiz de Cleve, in "O
Guaíra" n.° 44 de 29 de Novembro de 1908).
Pelo que se vê o povo que se extinguiu no Taió e que antes dominara à esquerda do Iguassú, não chegou a ser convenientemente conhecido, ficando, assim, sem solução, uma
das questões mais interessantes da nossa pre-história, por
tratar-se do mais antigo tipo, chegado aos nossos dias, no
gentio brasileiro.
"Que o grupo Gê-Botucudo seja o mais antigo representante da gentilidade Sul-Americana, hoje não se discute
mais. Porém, sôbre ligações desse grupo com os outros que
se tem isolado, desde a chave de von Martius até as modernas investigações de Kivet, Koch-Grumberg e outros, há muito que indagar; tenho para mim que o problema etnológico
mais interessante do Brasil índigena, deixando à margem
questões insolúveis, é a ligação dos grupos entre si, a filiação
das diferentes culturas que apresentam". (Roquete Pinto,
Rondonia, 205).
O Dr. J. B. de Lacerda, que estudou crâneos encontrados em sambaquis, concluiu desse estudo que, ao lado de caracteres divergentes, a morfologia das séries consideradas
"apresenta certos caracteres fixos que fazem destacar o tipo no meio de suas variantes — e que "as formas dos crâneos
encontrados estabelecem notáveis analogias entre esses e os
crâneos dos Botucudos".
O Dr. Rodrigues Peixoto, que estudou todos os crâneos
existentes no Museu Nacional, estabeleceu quatro tipos de
crâneos bem caracterizados: — o do Homem da Lagoa Santa e do Botucudo, o do Homem dos Sambaquis do Sul e o do
Tupi, e formulou a hipótese de ser o Botucudo "um produto
do cruzamento entre o Homem da Lagoa Santa e uma outra
raça, naturalmente o Homem dos Sambaquis do Sul".
Os caracteres craneológicos destas duas raças reproduzem-se atavicamente em alguns crâneos Botucudos. Ora é
o tipo do Homem da Lagoa Santa, mais ou menos dissimulado; ora um crâneo maior, de paredes muito espessas, de aspecto muito mais grosseiro e caracterizado por um progna-
44
ROMÁRIO
MARTINS
tismo ainda mais considerável que o dos negros da África
ocidental". (Rodrigues Peixoto, Novos Estudos Craneológicos sôbre os Botucudos).
De onde proveio esse povo que as florestas e as serras
entre o Iguassú e o Uruguai, abrigaram por anos incontáveis
e que sitiados pelos Caingangs e pelos povoadores brancos
veio a desaparecer reduzido a um núcleo quasi misterioso
que a civilização destruiu com a mesma ferocidade que lhe
atribuía ?
No grupo Gé colocaram Martius e Ehrenreich os Carirís ou Kiriris que "figuram com os nomes de Aimorés ao sul
da Baía, de Botucudos em Espírito Santo e Minas, de Apinagés no Maranhão, de Bugres e Sinklão no Paraná, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul". (Capistrano de Abreu,
O Descobrimento do Brasil, 34).
Os Botucudos do extremo meridional de sua exsurgência no Brasil, podem ser incluídos na denominação etnográfica (devida ao uso do batoque) de Ehrenreich, simplesmente por extensão, não porque este ou outro qualquer etnólogo os tivesse estudado, o que não aconteceu com os Botucudos do norte e do centro.
O Botucudo do Taió teria sido o resto de uma raça pura, um grupo degenerado pelo cruzamento ou um povo degradado em sua civilização ?
Estas perguntas têm sua razão de ser porque dos do sul
quasi nada se conhece do seu vocabulário, e, ainda, — sabe-se que não desfiguravam os lobulos das orelhas e o nariz
nem exageravam o batoque do lábio inferior como os Botucudos do norte, do centro e de léste.
H. von Ihering, tratando do Homem do Taió, opina representarem esses Botucudos "um grupo isolado dos Tapuias
meridionais, diversos do dos Botucudos do Espírito Santo",
pelo que lhe dá o nome de NOTOBOTUCUDOS, — que não
é legítimo, que é bastardo.
Naturalmente o eminente cientista para assim qualificar os Botucudos do Paraná e Santa Catarina, teve em vista
a talvez suposta circunstância de serem os GÉs de léste os
mais incultos dos gentios brasileiros. "Os GÉS de léste são
os mais primitivos, caçadores rudes e primevos, não conhecem a agricultura, não praticam a navegação, não sabem
construir casas, desconhecem a cerâmica e.a tecelagem, não
conhecem o uso da rêde". (João Ribeiro, Hist. do Brasil, 27).
Mas é justamente este o retrato etnográfico do Homem
do Taió, que nem siquer de longe se assemelha aos GÉs ocidentais, aos Suiás do curso médio do Xingú, que são. caba-
II
HISTÓRIA DO PARANÁ
neiros e oleiros e que já não usam batoque. Por este aspecto
o Botucudo do sul é tão primitivo como os seus rudes parentes de léste, sem lhes faltar, também, a ferocidade, a todos êles comum.
O uso do batoque, pelo menos o seu exagero, também
tem desaparecido entre os Botucudos de léste. Os do rio Pança, no Espírito Santo, já não o usavam em 1884, quando os
visitou Erhenreich, mas uma das suas tribus, os Minhagiruns do rio Doce ainda traziam tais ornamentos quando W .
Garbe, viajante naturalista do Museu de S. Paulo, em 1906
passou vários mêses com esse gentio, estudando-lhe os costumes, berganhando objetos etnográficos e tirando fotografias .
Nada disto se poderia dar com os Botucudos do Taió,
devido ao seu absoluto retraimento e extrema ferocidade, e
que, entretanto, foram tidos por NOTOBUTUCUDOS por
Ihering.
Com o Homem do Taió e os brancos e mesmo com os
hordas Caigangs suas vizinhas ocidentais, nunca houve contacto sinão hostil. As modificações dos cotumes (desuso dos
batoques nas orelhas e diminuição dos do lábio inferior) não
foram, por conseguinte, devidos à influência dos brancos ou
de raça índigena diversa, como ocorreu com os Botucudos
do rio Doce, "que mantêm relação amigável com os moradores brasileiros e dêles recebem utensílios, fazendas e viveres". (Hermann von Ihering, Os Botucudos do Rio Doce, na
Rev. Mus. Paul. vol V I I ) .
Bem o diz o próprio Ihering: — "A parte mais fraca da
etnográfia do Brasil central e meridional, é o conhecimento
dos tapuias".
CAPÍTULO
III
A POSSE DA TERRA
1 —
2 —
3 —
4 —
5 —
6 —
7 —
O Tratado de Tordesilhas
Limite Português na costa do Sul
Tratado de Madrid, de 1750
Tratado de Santo Ildefonso, de 1777
Soluções posteriores
0 povoamento inicial
Povoamento ocidental pelos
catelhanos
(1554)
8 — Gobernación de Guaíra (1617)
9 — Os Bandeirantes Paulistas em Guaíra
(1629-1632)
10 — Fim do domínio Espanhol em Guaíra
11 —- Povoamento ocidental pelos Portuguêses
12 — 0 Litoral e o Planalto.
j . — Como remuneração dos serviços perstados ao cristianismo por alguns principes da dinastia d'Avis, vários pontífices (Nicolau V, Bula de 8 de Janeiro de 1454; Calixto, III,
Bula de 13 de Março de 1455, confirmadas por Xisto I V ) conferiram ao mestrado da Ordem de Cristo em Portugal a administração e padroado das terras adquiridas e por adquirir,
desde o cabo Bojador até a índia. Mas descoberto, pelo poente, um novo mundo por Colombo (1492), o Papa Alexandre VI (Bula de 4 de Maio de 1493) doou à Espanha todas as
terras e ilhas descobertas e por descobrir que ficassem a leste de uma linha meridiana imaginada "a cem léguas das
ilhas dos Açores e Cabo Verde".
O Papa era, então, arbitro supremo dos negócios entre
os Príncipes Cristãos e usava do direito de "tudo ligar e desligar no Céu e na Terra" conforme o entendera Gregório VII.
Ressentido, Portugal, pela postergação dos seus direitos, consignados por outros pontífices, enviou embaixadores ao Papa e aos reis católicos, mas êles nada obtiveram do que reclamaram. Na iminência porém de ser decidida a questão pelas
armas e quando para isso uma esquadra luzitana já se mobilizava no Tejo. recebeu D. João I I dois embaixadores de
Carlos V. incumbidos do encaminhamento pacífico do pleito,
por não convir à Espanha, então em guerra com vários países da Europa, nova complicação internacional e dessa vez
com o seu mais próximo vizinho. Esse entendimento direto
entre os dois reinos ibéricos se traduziu no tratado de Tordesilhas, de 7 de Junho de 1494, pelo qual a "linha Alexandrina", como ficou sendo chamada, se suporia lançada, não a
100, mas a 370 léguas ao poente do arquipélago do Cabo Verde (e não mais dos Açores) para a divisão do Oriente Português do Ocidente Espanhol.
Ficou estabelecido no tratado que a demarcação efetiva
se realizasse dentro de dez mêses; mas a referência ao arquipélago e não a um determinado ponto de partida para a
História do Paraná —
4
50
ROMÁRIO
MARTINS
contagem das 370 léguas para o ocidente, deu lugar a discussões que duraram anos sem resultado.
O geográfo Enciso, em 1519, opinou que a contagem se
fizesse a partir da ponta mais ocidental da ilha de Santo
Antão que é a mais ocidental do referido arquipélago, assim
também opinando D. Fernando, filho de Colombo, nas juntas de Badajós em 1542.
Outra questão também ficou por decidir: a da légua, que
uns contavam de 16 2/3 ao grau e outros, como Colombo,
Vespucio, etc., de 15.
Dado que a medição partisse do ponto mais ocidental da
ilha de Santo Antão e a légua adotada fosse de 16 3/4 ao grau
(menos favorável para Portugal), a linha meridiana viria
a correr um pouco à léste de Belém do Pará ao Norte e da
Laguna ao Sul, segundo a verificação mais vulgarizada na
épopca, entre portuguêses; mas como tal verificação nunca se
fez, pretendiam os castelhanos que a costa de Iguapé fosse
o ponto terminal da demarcação, como ainda em 1895 alegou eminente autor argentino, fixando-a a 47° 56' 5" a Oeste
de Greenwich. (Estanislau S. Zeballos "Mapschowing the
lends grandadby Spain to Portugal")
De acordo com o tratado, se a linha tivesse de passar
por algumas ilhas ou terra firmes, aí se levantariam torres
ou sinais que serviriam como pontos de reparo para a imaginaria fronteira. Combinou-se que sairiam de Cabo Verde,
ao mesmo tempo, números iguas de navios espanhóis e portuguêses para fazerem a famosa medição, o que afinal de
contas nunca se fez por várias razões, sendo a principal a
de se não saber fazer. A ciência do tempo ainda não enconrára meio de medir com precisão as longitudes.
Por essa razão'e ainda pela conveniência, para Portugal,
de deixar indecisa sua fronteira do Brasil com as possessões
espanholas, visto como a linha delimitadora lhe interceptava expansão a um sedutor hinterland por correr à relativate oequena distância da costa meridiana atlantica, o acordo
de Tordesilhas não foi, na prática, de nenhuma maneira obedècido.
2- — A divisão da costa do Brasil em lotes concedidos
pelo soberano português fazia terminar o quinhão meridional
na altura da Laguna, aí lixando o confim da linha meridiana; mas Pero Lopes de Souza, segundo instruções reservadas
de seu soberano, em 1532 colocara padrões de posse no Rio
da Prata, muito mais ao sul.
II
HISTÓRIA DO PARANÁ
Por sua vez os espanhóis consideravam suas as terras
meridionais a partir de Iguapé, e procuravam a viva força
nelas se estabelecer, no presuposto de que o meridiano divisório aí terminava.
,
.
Mapas de navegadores espanhóis assinalam a altura ao
porto de Santa Catarina com a indicação: "Terra de Vera
denominação dada por D. Alvaro Nunes Cabeza de Vaca em
1541 e a altura de Paranaguá com a inscrição Baya de la
Corona de Castilla". (Baía da Coroa de Castela).
Segundo recente trabalho de ilustre autor (Ensaios da
Carta Geral das Bandeiras Paulista, Afonso E. Taunay), Paranaguá era o limite Sul do Brasil português segundo o meridiano de Tordesilhas. A linha de encontro do direito de
Portugal com o da Espanha, passava justamente sobre a nossa histórica cidade de hoje e à pequena distância dela afundava no oceano.
.
, _
As terras continentais daí em diante, pertenciam a üsPanlO
quinhão meridional da donatária de Pero Lopes era,
pois, quasi uma ficção geográfica, porque a "linha de marcação", do Tratado de Tordesilhas terminava pouco alem do
ponto determinado para seu início.
Dando-se "12 léguas ao sul de Cananea", como ponto
de partida dessa linha em vez de se lhe determinar o sitio
em que teria início, parece que se quiz propositadamente evitar justa reclamação castelhana, afim de possibilitar o intento português da atingir o Rio da Prata.
A posse que do ocidente ao meridiano Portugal veio a
realizar, foi obra de sua conquista, facilitada pelo fato de
ambas às coroas ibéricas haverem passado, de 1580 ate 1640,
ao trono dos Filipes, desaparecendo assim, com a anexaçao
de Portugal à Espanha, os seus limites nacionais, quer no
continente europeu, quer nas suas possessões ultramarinas.
O território que hoje fôrma o Estado do Paraná pertenceu às duas donatárias mais meridionais concedidas no Brasil (1534-1535) à Martim Afonso de Souza e a Pedro Lopes
de Souza, mais tarde conhecidas por capitanias de "São Vicente" e de "Santo Amaro" e após 1624 simplesmente de "Sao
Vicente" depois que constituíram a "Capitania de Sao
Paulo".
As terras de que se compunham as doações feitas pelo
soberano português D. João III, a essas personalidades de
sua côrte, constituíram a região austral do Brasil Português,
dividida em dois quinhões a cada um dêles.
52
ROMÁRIO
MARTINS
O quinhão Norte, de Martim Afonso, começava na altura de Macaé e se extendia até 1/3 da ilha de São Sebastião;
e o quinhão Sul começava na barra de São Vicente e terminava na altura da barra de Paranaguá.
O quinhão Norte de Pero Lopes, começava a 2/3 da ilha
de São Sebastião e terminava na barra de São Vicente. O
quinhão Sul começava na altura de barra de Paranaguá e
vagamente se estendia até onde fosse da legítima conquista
luzitana.
Na parte que mais nos interessa pertenciam à Martim
Afonso a costa e o sertão correspondente á partir da barra de
Paranaguá, até encontrar a linha meridiana limitadora das
conquistas de Portugal e Espanha na América.
Neste rumo (altura de Laguna) termina o território colonial português. O fato do nosso país hoje se extender muito mais longamente na costa atlantica e abranger o Rio
Grande do Sul é devido à ação dos bandeirantes paulistas,
que a partir de 1635, invadiram aqueles formosos campos,
em longos anos de lutas, preando o indígena e o gado alçado, senhoreando o território e o defendendo dos castelhanos
até 1750, quando o domínio português foi ali finalmente reconhecido num tratado de limites, aliás efêmero, com a Espanha, mas restabelecido noutro em 1777.
3 . — A situação dos limites territoriais das colonias luzo-castelhanas estava tão profundamente perturbada que já
era possível a Espanha pretender restaurar a fronteira do
tratado de Tordesilhas, aliás nunca respeitada pelos paulistas.
Um novo acordo se impunha, no próprio interêsse espanhol, que impedisse novas invasões portuguêsas. Celebrouse então, em 1750, o Tratado de Madrid, que na região que
interessa ao nosso Estado estabeleceu a fronteira pelo Ibicuí
até o Uruguai, por este abaixo até o Piperí, por este acima
até suas cabeceiras, daí em reta até o Santo Antonio e por
este até sua foz no Iguassú, por este até sua confluência no
Paraná e por este acima até o Iguarei. Daí a fronteira prosseguia pelo Iguarei até suas cabeceiras, até encontrar o Paraguai, etc.
Da linha de demarcação de Tordesilhas que partindo de
1 1/3 da ilha de Marajó afundava no oceano na altura de
Iguapé (ou de Laguna, segundo os cálculos mais favoráveis)
a fronteira de fato já andava, ao sul, pela margem setentrional do Prata e para o oéste até ao Paraguai, o Madeira e o
Javarí, e foram est-es os rumos adotados pelo tratado de 1750
HISTÓRIA DO PARANÁ
II
— o que equivale dizer que, com pequenas diferenças, os que
hoje formam a configuração do Brasil.
Desde sua assinatura foi o tratado de 1750 mal visto
tanto em Portugal como na Espanha. As comissões mixtas
incumbidas da demarcação da fronteira lutaram contra os
maiores obstáculos, entre estes os que lhe opuzeram os jesuitas e os índios das suas missões por êles levantados com a
simpatia dos povos castelhanos.
Neste ínterim a política européia modificava-se com a
morte do rei espanhol. Uma nova convenção feita em 1761
anulava o tratado de Madrid (de 1750) e repunha o antigo
estado de cousas: à Portugal restituia-se a Colonia do Sacramento e à Espanha as desventuradas Sete Missões". (João
Ribeiro, História do Brasil, 321).
4. — Seguiu-se a guerra que durou 15 anos (1761-1777).
O exercito de Cebalos ocupou o Rio Grande (1762) e a ilha
de Santa Catarina (1777). Com a ascenção de D. Maria I
(princeza espanhola) ao trono de Portugal, voltou a paz à
península e às suas colonias e foi feito um acordo sôbre as
fronteiras dos domínios luzo-castelhanos na América, celebrando-se o tratado de Santo Ildefonso, de 1777.
Foram restituídas as terras conquistadas a Portugal no
Rio Grande e Santa Catarina e retida pela Espanha a Colonia do Sacramento. Com alteração ao sul, a fronteira estabelecida pelo tratado de Santo Ildefonso (1777) é a mesma
do Tratado de Madrid (1750) que fôra anulado em 1761.
A linha de separação partiu do arroio Chuí (33° 45') e da
Lagoa Mirim ao Rio Negro e pelo divisor das águas do Uruguai até a confluência nêle do Pipirí. Daí em diante como
já foi escrito.
— Duas questões suscitadas pela demarcação consequente do tratado de 1777, com as repúblicas do Paraguai e
Argentina, vieram ter solução nos nossos dias. A primeira
em 1873 e a segunda em 1894.
A linha demarcadora da fronteira com o Paraguai somente veio a ser assinalada após a guerra que tivemos com
esse país, com o qual celebramos o tratado de 9 de Janeiro
de 1873. A fronteira passou a ser pelo alveo do rio Paraná,
desde a foz do Iguassú até ao salto grande das Sete Quedas,
continuando pelo mais alto da Serra de Maracajú até onde
ela finda. Daí em diante, fora das linhas com o nosso Estado, a linha divisória segue a linha reta pelos terrenos mais
elevados a encontrar a serra Amambeí e prossegue pelo mais
54
ROMÁRIO
MARTINS
alto desta até a nascente principal do rio Apa e baixa pelo
alveo deste até sua foz na margem oriental do rio Paraguai.
Todas as vertentes que correm para o norte e léste pertencem ao Brasil e as que correm para o sul o oéste pertencem
ao Paraguai. A ilha do Fecho dos Morros é do domínio do
Brasil.
A questão com a Argentina, que ficou sendo impropriamente conhecida por questão "das Missões", era referente
aos rios Chopim e Chapecó, que os nossos vizinhos pretendiam identificar como sendo o Santo Antonio e o PipiríGuassú, respectivamente, referidos pelo tratado de 177 e dados como linha divisória .
O dissídio durou muito tempo, foi muito acidentado e
teve fim pelo laudo arbitral de Grover Cleveland, presidente dos Estados Unidos na América do Norte, de 5 de Fevereiro de 1894, que decidiu o litigio a favor do Brasil. Assim
se estabeleceu a linha divisória, a partir do rio Uruguai, pelo
talvegue deste e do Pipirí-Guassú, pelo mais alto do terreno
entre a cabeceira principal deste e a do Santo Antonio e depois pelo talvegue do Santo Antonio e do Iguassú até a confluência deste no rio Paraná.
As cataratas do Iguassú foram partilhadas entre o Brasil e a Argentina, pelo talvegue do Salto União. "Por aí passa a linha divisória, e na parte inferior começa no sopé do
referido Salto e continua deixando do lado argentino as outras quedas, até tranpôr a Garganta do Diabo". (Termp de
2 de Outubro de 1903 e Ata de 8 de Agosto de 1904).
g.
A história do Paraná até a terceira decáda do
século XVII se constitue de dois grandes capítulos da história do domínio ibérico no sul do Novo Mundo.
O atual território do nosso Estado ficava ao ocidente da
linha empírica de demarcação das conquistas reservadas a
Portugal pelo tratado de Tordesilhas (1492) pois essa linha
segundo os cosmografos espanhóis caía no mar na altura de
Iguapé, embora para os portuguêses terminasse na altura da
Laguna, e a expedição de Pero Lopes de Souza (1532) ainda
mais ao sul procurasse extender o direito luzitano, colocando marcos na foz do rio da Prata.
Se prevalecesse a marcação da linha que terminava em
Iguapé, todo o território hoje paranaense estaria compreendido no direito espanhol. Se prevalecesse a linha que terminava na Laguna apenas uma estreita faixa marítima, que
não excederia'a Serra do Mar, seria do domínio português.
HISTÓRIA DO PARANÁ
II
Além disso, o povoamento por portuguêses, até o ano
de 1600, somente havia tentado no planalto meridional o
estabelecimento de S. Paulo. Na costa do sul eram êles senhores de zona que não ia além de Paranaguá. "Todo o vasto interior do Brasil permanecia desconhecido". (Lucio José dos Santos, História de Minas Gerais, 7).
Nenhum trecho da costa paranaense a esse tempo possuía população branca. Apenas vicentistas vinham traficar
com tupiniquins em Superaguí e de 1585 a 1591 santistas,
vicentistas e paulistas vinham assolar terras de Paranaguá
preando índios Carijós.
O célebre mapa organizado segundo a carta de Johannes
Blaeu, de Amsterdam, na forma usada pelos jesuítas e intitulado Brasiliae pars Capitania S. Vicentii cum adjacentibus
(1553-1595) é um documento elucidativo de que até aquele
último ano o nosso litoral e suas adjacências eram possuídos
pelo gentio.
A povoação branca mais meridional da costa era Itanhaên, assim mencionada na convenção do mapa: — Luzitanorúm civitates extructates. Ao norte de Itanhaên figuram
S. Vicente e Santos no litoral e S. Paulo de Piratininga no
interior. Tudo o mais ou era o deserto ou o império de numerosas nações de índios.
Apenas duas referências há no mapa de Johannes Blaeu
à costa marítima paranaense: — Ararapira e Paranatiú (sic)
— este nome fora e acima da enseada de Paranaguá, parecendo denominação genérica de largo têrecho de nossa orilha atlantica.
Ao longo do litoral e prolongadas para o interior, figuram numerosas cabanas de índios, com a extensiva inscrição: — Infidelium sédes maxima ex parte incertae. Os tamoios figuram desde a baía de Guaratuba até a altura do Curupacê, seguindo-se lhes os Muiramomis até as proximidades
da Bertioga e os Guaianás dominando os caminhos de Santos e S. Vicente a S. Paulo até o rio Anhembí ou Tietê. Ao
ocidente de S. Vicente e de Itanhaên e pelas praias da Juréa,
de Iguapé e de Cananéa, as tendas dos Tupinakis; seguindose-lhes para o sul, pelo território correspondente ao litoral
e ao primeiro planalto paranaense, os Carijós.
Isto tudo, como já se viu, até o fim do século XVI.
7. — A esse tempo, porém, o efetivo domínio espanhol
se extendia ao ocidente paranaense de hoje. Em Ontiveros,
efêmera fundação junto à foz do Piquirí, à sua margem direita, uma légua distante das Sete Quedas, em 1554; Ciudad
56
ROMÁRIO
MARTINS
Real dei Guayra, também na confluência do Piquirí no Paraná três e meia légua a montante dos Saltos das Sete Quedas,
de onde se ouvia o estrondo das águas "como se estuvieram
debajo de ei"; e Vila Rica do Espírito Santo, em 1576, "segundo dos grandes núcleos espanhóis da Província de Guaíra".
(Afonso de E. Taunay, História Geral das Bandeiras Paulistas, 14). Vila Rica foi logo depois transferida para a confluência de Corumbataí no Ivaí.
Os castelhanos dos "pueblos" de Ciudad Real e de Vila
Rica reduziram a "commiendas" (servidão) a população índigena da província e a repartiram entre si. Só na comarca
de Vila Rica do Espírito Santo havia mais de 200.000 guaranis nas margens dos rios e das montanhas como nos campos
e pinhais "que se extendiam até S. Paulo, povoação do Brasil", — escreve o padre Gay na sua História Jesuítica do Paraguai, 435).
g. — Até 1617 o território de Guaíra, que efetivamente
se extendia do Paranapanema ao Iguassú e do rio Paraná ao
Tibagí e pretendia prolongar-se até a costa oriental e ter por
portos atlanticos Cananéa e Santa Catarina (neste se mantendo o domínio castelhano durante 15 anos) — pertencia à
província do Rio da Prata.
Naquele citado ano (1617) o vice-rei do Perú informando a Felipe II sôbre as condições do domínio espanhól na
América do Sul, sugeriu-lhe que Guaíra constituísse uma
Gobernación própria, o que foi determinado por Carta Régia de 16 de Dezembro.
Esta providência, ao que parece, não deu os resultados
esperados; pois em 1620 nova sugestão era feita ao soberano
espanhól a respeito das dificuldades constantes na administração da sua colonia americana.
Era então o governador paraguaio Hernando Arias de
Saavedra, quem sugeria ao rei uma nova modificação na divisão das províncias meridionais do Vice Reinado do Perú,
após ter compreendido que a província que lhe fora confiada
pouco além ia, em grande parte, dos descobrimentos feitos
até então, pois ainda era de decidida insubmissão a atitude
das populações originárias em várias zonas de enorme extensão.
Era sua opinião que se possibilitasse um trabalho mais
racional e ativo na conversão e civilização dos índios e "que
fosse dada ao depositário da autoridade real uma ação menos
vasta e portanto mais direta sôbre todos os pontos desse
' imenso território e uma vigilância mais restritiva e ao mesmo
HISTÓRIA DO PARANÁ
II
tempo mais fácil sôbre todos os ramos dos serviços públicos"
(Demersay, obr. cit. 55).
Ainda esta sugestão foi prontamente atendida. Decreto régio de 1620 recompoz as divisões provinciais. "O Paraguai foi entregue à administração de dois governadores independentes um do outro, mas ambos submetidos à autoridade do Vice-Rei do Perú e à jurisdição da Audiência de
Charcas. A cidade de Buenos Aires tornou-se capital do segundo govêrno e sede de um bispado. Consumado este desmembramento, Hernando de Saavedra pôde afinal gozar do
repouso devido a seus serviços: — acabou seu sdias em Santa Fé de la Véra-Cruz, no meio da estima e da consideração
pública." (Demersay, obr. cit. 55).
9. — Mas já a esse tempo (1620) Guaíra, que merecera
em 1617 a denominação de Província constituída de duas cidades (Guaíra e Vila Rica) concorrendo todo o resto do Paraguai com outras duas (Assunção, sede do govêrno e Santiago de Xeres), estava virtualmente perdida para a Espanha. Os bandeirantes paulistas já lhe assolavam periodicamente o vasto território capturando-lhes os índios independentes e isso presagiava o dia em que as reduções missionárias e os "pueblos" espanhóis seriam por sua vez atacados
como aconteceu e destruídos como foram.
Em 1629 os estabelecimentos dos jesuítas, com exceção
de Lorêto e Santo Inácio, que eram situados fora da vasta
região mais povoada, foram completamente devastados pelos
paulistas e em 1632 Vila Rica, único reduto espanhol capaz
de oferecei resistência, estava sitiada por Antonio Raposo
Tavares que punha na mais séria situação 4.500 sitiados
brancos e índios.
Dirigiam a resistência espanhola o mestre de campo
B'rancisco Benitez, lugar-tenente do governador e justiça
maior de Vila Rica, o mestre de campo Ruy Ortiz Melgarejo,
capitães Estevam Martin, Diogo de Vargas, alcaides ordinários, Lourenço dei Villar, alféres real, capitão de guerra Francisco Fernandes, o sargento-mor Agostinho Sanches e alguns
moradores de maior importância como Lucas de Vilalva,
João Alvares Martinez, Francisco Vasques e Gonçalo Portilho
y Frias, membros do cabildo vilariquenho". (Afonso E. de
Taunay, História das Bandeiras Paulistas, II vol. 147).
O próprio bispo do Paraguai, d. Fray Cristobal de Aresti,
vencendo as maiores dificuldades e perigos, foi ter à Vila Rica. onde animou a defesa exortando os combatentes nos pontos mais atacados, empunhando um crucifixo. "Ao seu lado
58
ROMÁRIO
MARTINS
formavam o seu secretário, armado de escopeta" e quatro
sacerdotes "con sus alfanjes". (Aut. e Obr. cit., 148).
Em breve viu o bispo a inutilidade da resistência e de
acordo com o cabildo propoz a retirada para além do rio
Paraná. A 20 de Outubro (1632) todos os vilariquenses se
encontravam em Tapuitá, província de Maracajú.
Pouco tempo depois o governador do Paraguai, Juan
Blasques de Valverde, informando o rei sôbre a situação da
província, dela traçava este quadro sombrio: — "De las (cidades) que cobieram al (govêrno) do Paraguai (divisão de
1620), solo se conserva la ciudad de la Assunción donde está
la catedral, porque de las otras tres (Guaíra, Vila Rica e Xeres) las dous se habiam perdido totalmente y estabam poseidas y ocupadas de los indios enemigos, y la otra, que se 11ama Vila Rica, se habia desoblado por las invasiónes a que
estaba sujeta de los portuguezes de la de San Pablo". (Pizarro Loureiro, O Chaco Boreal, 62).
10. — Assim terminou o domínio espanhol em Guaíra.
Levado pelo ímpeto das bandeiras paulistas para o poente
do rio Paraná e na região de Xeres muito mais para oéste,
desse fato resultou o aumento territoral do Brasil com a
feição geográfica que apresenta hoje, dilatado de sua estreita faixa litoranea, a partir de Iguapé, para a imensidão do
ocidente.
Escravizados ou emigrados os guaranis dos seus mais
numerosos agrupamentos e vencidos os espanhóis nos seus
últimos redutos, o território de Guaíra foi envadido pelos
Gês de além Paraná cujas tribus passaram a se estabelecer
nos seus vastos domínios.
E quando, quasi século e meio depois, (1770) o capitão
Francisco Lopes, miliciano curitibano, à frente de uma bandeira exploradora dos sertões de Guarapuava até Iguatemí,
descobriu as ruinas de Vila Rica, cujos vestígios se resumiam
em restos de casas e de templos, de olarias, ferrarias e moinhos e na existência de árvores frutíferas exóticas e pela extensão do seu arruamento a julgou maior que Paranaguá, —
esboçava o govêrno lusitano, pelas ocupações territoriais, as
lindes que haviam de prevalecer no tratado de 1777 entre as
duas coroas partilhadoras da América do Sul.
Das ruinas de Vila Rica já então se erguiam os primeiros albores da grandeza territorial do Brasil futuro.
O miliciano curitibano, que havia de morrer em Iguatemí e que fôra o primeiro paulista a pisar o solo do último reduto castelhano depois da forçada retirada de 1632, já deve-
9
HISTÓRIA DO PARANÁ
59
ria ter vislumbrado nos esbarrondados muros dos templos e
dos moinhos de Vila Rica, a alma cívica de sua pátria ainda
uma vez triunfante nos imensos sertões de Guaíra.
— Não se pode precisar o ano em que começou o povoamento efetivo do nosso litoral e do planalto correspondente, mas em ambos foi, sem dúvida, a exploração de ouro a
origem das suas primeiras povoações: — a de Paranaguá e
a de Curitiba. Tais fatos ocorreram quasi no fim da primeira metade do século XVII, porquanto, antes dessa época, não
se tinha ainda iniciado em nenhuma parte do Brasil, o ciclo
da mineração propriamente dita.
Demais, as questões de fronteiras com a Espanha, de
Cananéa para o sul, em 1600 nada tinham adiantado a favor de Portugal e nesse citado ano ainda os mapas dos navegadores espanhóis assinalavam a costa de Paranaguá com
a inscrição: — "Baya de la Corona de Castilla". E se assim
era a situação política do litoral onde a divergência dos cosmógrafos dera ensejo a que o soberano português doasse a
Pero Lopes de Souza as terras completamentares da Capitania de Santo Amaro, demarcando esse quinhão ao sul da
barra de Paranaguá; — ao ocidente da Serra do Mar a situação era diversa porque aí não havia dúvida de que a linha meridiana deixava o planalto inteiramente dentro do
difeito espanhól.
Somente depois que os paulistas romperam a linha empírica demarcadora das duas conquistas ibéricas e destruíram os "pueblos" espanhóis e as reduções dos jesuitas em
Guaíra, derrotando a pretensão do govêrno do Paraguai de
prolongar nesse rumo o seu domínio até ao Atlântico — foi
que a diplomacia luzitana praticou ou permitiu os atos de
posse e jurisdição portuguêsas tanto no litoral de Paranaguá como no sertão de Curitiba.
\ 2- — J á então esses lugares possuíam moradores, brancos e mamelucos, porém suas povoações não tinham nenhuma organização política nem haviam sido visitadas por autoridade alguma representativa do govêrno ou dos sucessores do primitivo donatário da Capitania de Santo Amaro.
Não tardou, porém, o interesse por esssas regiões, desde que
o ouro começou a ser encontrado nos rios que descem da
banda oriental da Serra do Mar e nas grupiaras e socavões
das águas do Ribeira e do Assunguí, aliás o mesmo rio, que
nasce nos campos de Curitiba e desagua na enseada de Iguapé.
60
ROMÁRIO
MARTINS
Começaram então os tempos históricos.
Apareceu o primeiro representante do Governador Geral das Minas e da Capitania Geral do Rio de Janeiro, na pessoa de Eieodoro Ébano Pereira, encarregado do exame, da
administração e de novos descobrimentos de minas nos distritos do sul daquela Capitania. Em 1648, segundo informação do capitão-mor Lourenço de Andrade a Luiz Antonio
Neves de Carvalho, de 30 de Novembro de 1797, Ébano Pereira remetia ao governador do Rio de Janeiro e este à Sua Magestade, "amostras de ouro e pedras gravadas dele", procedentes do planalto, que diz terem sido as primeiras colhidas
no Brasil.
.
Em 1649 já esse Administrador das Minas dos Distritos
do Sul se achava em Paranaguá, onde Gabriel de Lara, em
1646, descobrira ouro e maniíestára minas da Provedoria de
S Paulo. Aí fundou o Administrador das Minas, naquele
ano, (1649) Casa de Fundição para a barretagem, marcação
e qúintagem de ouro.
Pouco antes de 1640 já Gabriel de Lara (que em 1632
ainda residia em Iguapé) dirigia um grupo de povoadores
em Paranaguá, pois que nesse ano, a suas instâncias, o Governador do Rio de Janeiro autorizou a elevação do pelourinho na nova povoação. No ano seguinte Lara requeria a ElRei a elevação do povoado à categoria de Vila, sendo deferido seu desejo por carta Régia de 29 de Julho de 1648 e designado o Ouvidor Geral Dr. Manoel Pereira Franco para
nesse sentido promover as devidas diligências. As eleições
para os cargos do govêrno local foram feitas em Dezembro
do mesmo ano e a instalação da Vila ocorreu a 6 de Janeiro
do ano seguinte.
.
_
Gabriel de Lara foi em Paranagua preposto dos LocoTenentes do Conde da Ilha do Príncipe, na capitania de Itanhaên. O Marquês de Cascais, porém, contendor do conde
na sucessão do primeiro donatário de Santo Amaro, em 1656
criou a Capitania de Nossa Senhora do Rosário de Paranaguá confiando ao representante dos seus antagonistas o cargo de Governador. Somente em sessão de l.o de Março de
1660 a Câmara local reconheceu os poderes conferidos a Gabriel de Lara, determinando, porém, o Governador do Rio de
Janeiro, que então se achava em Paranaguá, que êle o exercesse "em nome de Sua Alteza". Lara passou a ser então
Governador e Ouvidor da Capitania e Capitão-Mor e AlcaideMor da Vila.
O Governador da nova Capitania somente em 1668 visitou o planalto de Curitiba. Tomou, então, posse da povoa-
HISTÓRIA DO P A R A N Á
61
ção de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, autorizou a elevação do pelourinho e investiu Mateus Martins Leme no
cargo de Capitão-Mor Povoador. A povoação assim permaneceu, sob esse precário govêrno, até que a 29 de Março de 1693
foi pelos seus próprios moradores, com aquiecência do Capitão-Mor Mateus Leme, elevada à categoria de Vila.
Paranaguá era então a Vila litoranea mais meridional do
Brasil e Curitiba a mais meridional e ocidental do sertão brasileiro .
CAPÍTULO
IV
PROVÍNCIA INDIOCHRISTÃ
DE GUAÍRA
1 — As reduções da Companhia de Jesus (1610-
1628.
2 — A Origem das Missões Jesuíticas no Paraguai.
3 —- Os Êxitos do Sistema.
4 — Assaltos dos Bandeirantes e Exôdo dos
Catecumenos.
1 — As Reduções da Companhia de Jesus
Data dos primeiros anos do século X V I I a entrada dos
jesuitas na região de Guaíra, então do domínio legal e de
fato do govêrno do Paraguai e da sua Província Eclesiástica.
Moussy, "Mémoire historique sur la decadence e la ruine des jesuites dans le bassin de la Plata", assinala o território onde se exerceu a açao dos missionários da Companhia
de Jesus e que constituiu a Província de Guaíra, dizendo que
se alongava, norte-sul, do Tietê ao Iguassú, tendo de latitude
3 graus e de longitude 2.
Entre o Tietê ou Anhambí desse tempo e o Paranapanema, não houve, entretanto, povoação índio-cristã, embora estivesse compreendida no campo de ação da catequese. As reduções foram fundadas ao sul do Paranapanema, do Rio Paraná ao Tibagí, a partir do ano de 1610.
"Chamamos reduções, diz Montoya na "Conquista Espiritual" aos povos de índios que vivendo à sua antiga usança
nos montes, foram reduzidos pelas diligências dos padres a
povoações grandes e à vida política e humana".
*** Deve-se ao governador do Paraguai, Hernando Arias
Saavedra, a mudança do sistema de dominação dos índios
seguido desde os primeiros tempos da conquista espanhola
nos vastos territórios da bacia do Prata.
Êle próprio, quando pela primeira vez eleito (1591) governador, e de cujo cargo se demitiu, (1593) fôra um pacificador pelos violentos processos dos seus antecessores, mas,
findas as chacinas com a submissão dos vencidos, a estes se
mostrou sempre generoso. Saavedra foi o primeiro governador nascido em Assunção, e por isso, talvez, é que tinha pelos naturais do país menos fereza do que os arrogantes "adelantados" vindos da metrópole, cheios de despreso pelos nativos.
História do Paraná — 5
66
ROMÁRIO
MARTINS
Em 1601 foi-lhe o govêrno do Paraguai novamente confiado. Seu primeiro cuidado foi dilatar o «fetivo domínio de
Espanha sôbre territórios até então intransigentemente defendidos pelos naturais do país.
Marchou em direção ao estreito de Magalhães, batendo
os índios numa extensão de 200 léguas, até que foi vencido
e preso num desses encontros. Fugiu, refugiou-se em Buenos
Aires, organizou nova tropa de guerreiros e conseguiu uma
vantajosa revanche sôbre os índios pampeanos. Animado por
essa vitória voltou-se contra os índios do Gran Chaco, e, ainda aí, triunfou sôbre os Guaicurús.
Em Guaíra, porém, lhe estava reservada sorte bem diversa. Os índios guairenhos haviam se rebelado contra a escravidão, cada vez mais exigente de sacrifícios por parte dos
"comendadores" espanhóis.
Voltando contra êles suas armas vitoriosas nos pampas e
no Chaco, foi por toda a parte sucessivamente batido, com
grandes perdas de soldados, até que teve a feliz idéia de propor a Felipe I I I que confiasse a pacificação e a conversão dos
índios aos padres missionários. Carta Régia de 1608 acolheu
essa proposta, e assim foi a Província de Guaíra confiada à
Companhia de Jesus.
Os primeiros missionários, em 1610, já se encontravam
nos sertões da extensa região do Vice-Reinado do Perú sujeita à jurisdição da Província do Rio da Prata: — José Cataldino e Simão Maceta, no Pirapó; Lorenzana e Francisco
de São Martinho, hóspedes do grande cacique Arapizandú,
nas margens do Paraná.
Estava iniciada a conquista pacífica do país de Guairacá, uma das maiores obras dos guerreiros de Cristo.
*** As reduções fundadas na Província de Guaíra, onde desde 1554 já existiam as povoações oficiais espanholas
de Ontiveiros, Ciudad Real dei Guaíra e Vila Rica do Espírito Santo, foram inicialmente as treze seguintes segundo V.
Martin de Moussy, obr. cit.
1. — N. S. de Loreto, capital da Missão, fundada em
1610, junto à foz do Pirapó no Paranapanema. Aí escreveu
Montoya, em 1613, a "Arte y Vocabulario de la Lengua Guarani" que serviu aos missionários para se entenderem com
os índios e que foi um dos primeiros livros impressos na
América, na redução de Santa Maria Maior. A segunda edição desse livro foi impressa em Madrid, em 1640. (Rev. Inst.
Hist. Geogr. Bras. vol. 36, pág. 437) . A situação da redução
HISTÕHIA .00 PAHANÁ
67
de Santa Maria Maior ficou bem assinalada pelo padre Gay
na "História da República do Paraguai" (pág. 418) que assim a descreve: — "Pouco ao N. da foz do Iguassú no Paraná e quasi na latitude em que se achava, na margem esquerda, o destruido povo de "Santa Maria Maior", desagua, pelo
lado direito, no Paraná, o rio Acaraí formado de vários rios".
Foi em território paranaense, por conseguinte, que a imprensa começou a aparecer na América.
2. — Santo Inácio Mini, à esquerda do rio Santo Antonio, afluente do Paranapanema.
3. — São Francisco Xavier, à esquerda do rio Tibagí.
4. — São José, à esquerda do Rio Tibagí.
5. — Anunciación. à esquerda do rio Tibagí.
6. — São Miguel, à esquerda do rio Tibagí.
7. — Santo Antonio, à direita do rio Ivaí.
8. — São Pedro, à direita do Paranapanema.
9. — São Tomé, à esquerda do rio dos Fachinais, afluente do Ivaí.
10. — Los Angeles, à direita dos rios dos Fachinais.
11. — Concepción ou Santa Maria, à direita do Iguassú.
12. — São Paulo, à esquerda do rio Ivaí.
13. — Jesus Maria, à direita do rio Ivaí.
*** O Conego João Pedro Gay, "História da República
Jesuítica do Paraguai", relaciona, assim, as reduções:
1. — Loreto
2. — Santo Inácio Mini
3. — São Xavier
4. — São José
5. — Anunciação
6. —- S. Miguel
7. — Santo Antonio
8. —- S. Pedro
9. — São Tomé
10. — Angeles
11. — Conceição
12. — São Paulo
13. — Jesus Maria.
*** Alfredo Ellis Júnior, "O Bandeirismo Paulista e o
Recúo do Meridiano" assinala as seguintes posições às reduções de Guaíra:
RIO PARANAPANEMA
1. — Loreto
2. — Santo Inácio
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ROMÁRIO MARTINS
RIO TIBAGÍ
3. — São José
4. — São Xavier
5. — São Paulo
6. — Encarnación
7. — Santo Antonio
8. — São Miguel
RIO IVAÍ
9. — Repete S. José
10. — São Tomé
RIO PIQUIRÍ
11. — Concepción
12. — Los Angeles
13. — S. Pedro
*** O mapa de Olmedilla, de 1775, assinala, ainda, outras reduções como as de
Copacabana, no rio Piquirí
Encarnación, no rio Tibagí
Los Archangeles, no rio Piquirí
Tambo, no rio Piquirí
*** Outros autores acrescentam as seguintes, situadas
no Rio Ivaí:
Santa Ana
Assiento de la Iglesia
São João Evangelista
São Roque.
*** Mapa da Capitania de São Paulo em 1800, assinala
as seguintes situações para as ruinas de 12 reduções:
REDUÇÕES DO PARANAPANEMA
1. — Loreto
2. — Santo Inácio
3. — São Pedro
HISTÓRIA DO PARANÁ
II
REDUÇÕES DO IVAÍ
4. — Jesus Maria
5. — São Tomé
6. — Archangelos
7. — Santo Antonio
REDUÇÕES DO TIBAQÍ
8. — São José
9. — São Xavier
10. — Encarnación
11. — São Miguel
REDUÇÃO DO IGUASSÚ
12. — Concepción
*** O célebre mapa "Paraquaria", 1646-1649, registra as
seguintes reduções, então não havia muito tempo destruídas:
1. — Loreto
2. — Santo Inácio
3. — São Joseph
4. — São Xavier
5. — São Pablo
6. — Santo Antonio
7. — Encarnación
8. — São Miguel
9. — Archangeles
10. — N. S. da Pacauana
11. — Tambo
12. — Santa Maria
13. — São Tome.
*** Como se vê reina certa confusão acerca não sòmente das situações das reduções, como, ainda, quanto às suas
denominações.
*** Eram as seguintes as denominações de diversas aldeias índigenas transformadas em reduções pelos jesuítas:
Ibitirembetá, São Francisco Xavier
Ipiturapina, Concepción
Iniaí, São Paulo
Tucutí, São José
Taioba, Los Angeles
70
ROMÁRIO MARTINS
Ipaumbucú, Santo Inácio
Natinguí, Encarnación
Ibituruna, São Miguel
*** Era constante o alargamento da influência dos missionários sôbre as aldeias indígenas de certo porte. De outras conseguiam êles retirar a população para as reduções
próximas, o que acontecia até mesmo de uma para outra redução, como a de "Santa Ana" transferida para a de "Los
Angeles".
Quando a ação missionária chegava a se exercer numa
aldeia de maneira a tornar eficiente a direção do jesuíta que
tinha à seu cargo instruí-la nos deveres cristãos, era considerada redução e lhe era dado um padroeiro cujo nome sucedia
à denominação índigena da localidade.
Aldeias indio-cristãs em preparo para a categoria de redução, eram, por exemplo, ao tempo da invasão bandeirante, as de "Cunhamungurú", no Ivaí e "Tambo" (já citada)
e "tatu", no Piquirí.
A grande maioria dos povos índigenas reduzidos à direção dos jesuítas era guarani, nos seus diversos matizes, porém índios de outras nações foram também aldeiados.
A redução de "S. José" era constituída de índios Camperos; a "Los*Angeles", de Caingangues e Cabeludos; a de "S.
Pedro", depois mudada para "São Tomé", de Guaianazes (por
alguns considerados tapuias); a de "Concepción", de Gualachos e Guanazes, ambos Guaianazes. Em outras, eram mais
ou menos numerosos os Carijós, Pés Largos, Teminós e Tupis.
*** Os índios aldeiados pelos jesuítas subiam a mais de
100.000 por ocasião do ataque que lhes deu, em 1629, a bandeira de Manoel Preto e Antonio Raposo Tavares. Foram
mortos na peleja 15.000 e 60.000 foram escravizados e vendidos em S. Paulo e em capitanias do norte.
Foi tal a oferta de escravos índios, que o preço que era
de 100S000 nesses mercados, baixou a 20$000 por "peça",
que era então como se qualificava o selvagem submetido à
escravidão.
Dos restantes uns debandaram pelo sertão e outros atravessaram o rio Paraná, conduzidos pelos denodados apóstolos de Guaíra à região entre os rios Uruguai e o Paraná, onde
incansàvelmente erigiram novas reduções.
HISTÓRIA DO PARANÁ
II
2 — A Origem das Missões Jesuíticas no Paraguai
A história das fundações indio-cristãs levadas a efeito
por missionários da Companhia de Jesus na Província de
Guaíra, constitue o magistral esboço do sistema, novo então
em todo o mundo, adotado pelos jesuitas para a conversão e
civilização dos índigenas.
Os episódios de que se viu cercada essa formidável empresa de superior idealismo religioso, rematados pela conquista bandeirante vinte anos após, não permitiram aos seus insignes realizadores os êxitos que depois, nas Missões meridionais do Uruguai, tiveram como justo prêmio de inarráveis
devotamentos e sobrehumanos sacrifícios, embora ainda aí
tivessem tido novamente, por epilogo, a guerra e a destruição.
Em Guaíra o sistema teve os seus delineamentos práticos,
a demonstração de sua eficiência, os seus primeiros resultados anunciadores de que nenhum outro plano de ação civilizadora do gentio lhe superaria em resultados.
À esquerda do Uruguai, onde resurgiram, redivivas, as
reduções debandadas de Guaíra, o sistema conseguiu colimar
os esperados êxitos, — e hoje ainda as ruinas dos templos
triunfais aí atestam a vastidão e a beleza das conquistas da
fé e da civilização.
A obra delineada no sertão paranaense e concluída na
pampa do Rio Grande, representa uma página de relevo e brilho na história americana, escrita em esplendidas realidades
pelos insignes missionários da Companhia de Jesus.
*** A origem mais remota das missões jesuíticas no Paraguai, a cujo govêrno pertencia o atual interlande paranaense, vem do pedido feito pelo primeiro Bispo de Tucuman,
D. Francisco Vitória, com sede em Santiago dei Estero, aos
provinciais da Companhia de Jesus no Brasil e no Perú para
que lhe mandassem alguns padres dessa ordem, à vista do
precário estado da religião em suas dioceses.
Do Perú lhe mandaram dois padres e um irmão leigo, e
do Brasil lhe remeteu Anchieta os padres Leonardo Armínio,
italiano, Juan Salonio, Tomaz Filds, escocezes, e Manoel de
Ortega e Estevão de Grão, portuguêses, tendo por superior
o primeiro.
Depois da acidentada viagem até Buenos Aires, poucos
anos antes fundada pela terceira vez, a missão veio a encontrar-se com os sacerdotes mandados do Perú.
72
ROMÁRIO MARTINS
Desde logo percebeu o padre Leonardo a inconveniência
de intervirem nessas missões, pertencentes a duas províncias
eclesiásticas e a dois govêrnos, em assuntos que diziam respeito a território que, embora pertencente a uma mesma coroa (Portugal estava então anexado à Espanha) ainda constituía ponto dé dúvida das conquistas ibéricas. Voltou, pois,
com o padre Estevão de Grão para o Brasil, ficando os demais,
que dissentiram desse escmpulo, ao serviço da catequese.
Barsena, vindo do Perú e Ortega do Brasil, ficaram em
Cordoba; e Salonio e Filds, em Santiago dei Estero.
Em 1588 Ortega e Filds percorreram a província de Guaíra, e de volta à Assunção informaram à Salonio, então seu
provincial, a existência de 200.000 índios na vasta região,
"que pareciam cidadãos talhados para o reino dos Céus".
Dessa exploração nasceu a idéia de se substituírem as
peregrinações missionárias por um método capaz de tornar
duráveis e frutuosas as conversões. Reuniram-se em Salta
os jesuítas já conhecedores do país, em suas diversas regiões,
por ocasião da visita do padre Esteban Paez recém-chegado
da Europa como inspetor dos trabalhos da dompanhia no
Perú, combinando-se que às expedições errantes se ajuntassem "os fundamentos dalguma cousa durável", pois que, "como a boa semente era a palavra, não bastando lançá-la à
terra e seguir avante deixando-a abandonada ao acaso, mas
era mister vigiá-la até dar frutos".
O padre visitador propoz, então, que "todo o país a léste
do Paraguai e ao norte do Prata se deixasse aos jesuítas do
Brasil, pela plausível razão de ficar ao alcance dêles, que já
eram senhores da língua falada nestas províncias e o Tucuman e Chaco recebessem do Perú seus missionários".
Esta resolução, recebida com regosijo em Tucuman, teve
em Assunção, onde já lavrava certa animosidade contra os
jesuítas, objeções inquietantes, argumentando-se que o Conselho das Índias não permitiria "que missionários portuguêses formassem estabelecimentos numa província catelhana", e, assim, que Portugal se encarregasse de fornecer socorros espirituais a um país que lhe não pertencia.
Até 1608 as missões continuaram como existiam antes:
peregrinando pelos sertões, defendendo, convertendo e batisando índios. Mas em razão mesmo dessa obra de proteção,
contra elas se levantou a opinião paraguaia, que via no jesuíta um obstáculo à escravização do gentio.
Mas ainda nesse ano um despacho da côrte de Madrid
transmitido ao Governador e ao Bispo de Assunção, lhes declarava "que os índios do Paraguai só pela espada do espíri-
HISTÓRIA DO PARANÁ
II
to fossem subjugados, salvo se fizessem guerra aos espanhóis,
justificando, assim, o emprego de medidas ofensivas. Doutra
forma não se haviam de empregar sinão missionários na sua
redução pois não queria Sua Magestade súbditos à força,
nem buscava privar da sua liberdade os povos desses países
sinão para arrancá-los à vida selvagem e dissoluta e fazê-los
conhecer e adorar a Deus tornando-se felizes neste mundo
e no outro".
O padre Diogo de Torres foi chamado a Assunção e consultado sobre a maneira de levar a efeito os altos propósitos
da côrte de Madrid. Prevaleceu, então, a idéia de serem os
conversos "aldeiados e governados independentemente da jurisdição de qualquer cidade ou fortaleza de Sua Magestade a
quem quer que, sob qualquer pretexto que fosse, quizesse sujeitar esses novos cristãos ao encargo de serviços pessoais".
Aos padres José Cataldino e Simão Maceta, ambos italianos, se incumbiu a missão de executar as ordens régias,
autorizados pelo Governador e pelo Bispo de Assunção.
Guaíra#foi o campo de ensaio do sistema.
Nessa extensa Província apenas havia, então, dois sacerdotes, em Ciudad Real e em Vila Rica. "Um era frade vagabundo que, tendo perdido o habito de sua ordem, deshonrava as vestes cléricais que em lugar dêle vestira, e o outro
tão ignorante que entrava em dúvida se possuiria os conhecimentos necessários para tornar válidos os sacramentos que
administrava". (Southey, História do Brasil, vol. 3, pág. 363).
Entretanto a população branca dessas duas cidades ainda de certa forma mantinha o espírito religioso dos seus antepassados, obscurecida embora pela depravação de costumes em que caíra e ansiava por uma oportunidade de legitimar seus casamentos "e de deitar fora a carga de pecados
desde muito acumulados, assegurar a seus filhos direitos à
salvação e obter para si própria passaporte regular para o
reino dos céus". (Southey, ob. cit. pág. 363).
Nestas condições, a chegada dos dois missionários despertou entre os guairenhos o maior contentamento; porém
"desde que ali se soube a espécie de sistema que os jesuítas
vinham autorizados a seguir, foram vistos com maus olhos".
"De nada serviu representar àquela gente, diz Southey,
que nada promoveria tanto os seus próprios interesses como
medidas de humanidade; que a prática adotada por ela diminuía ràpidamente a população; e que o único meio de o
evitar era fazer marcharem de par a civilização e a conversão. Taparam os espanhóis os ouvidos a todo o raciocínio,
recusaram guias e quando um cacique das tribus entre as
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ROMÁRIO
MARTINS
quais tinham os padres resolvido fazer o seu primeiro ensaio
veio a Vila Rica para guiá-los, foi posto a ferros e lançado
num cárcere. Com sua firmeza obtiveram os jesuitas a soltura do preso, e por êle guiados puzeram-se a caminho".
Foram por terra até o Paranapanema, atravessando o
sertão bravio de Apucarana e embarcando naquele rio aportaram, à margem esquerda, na foz do Pirapó.
Aí encontraram cerca de duzentas famílias guaranis que
Ortega e Filds haviam batisado e com elas fundaram a primeira redução, sob o novo sistema, a que denominaram N.
S. de Loreto.
É assim que descrevem os padres Techo e Charlevoix as
origens das reduções indepedentes de Guaíra.
A Loreto, grandemente povoada por índios arrebanhados e convertidos no vasto país, logo se ajuntou, a seis milhas distante, a redução de Santo Inácio Mini, também em
pouco tempo engrandecida.
A destemerosa e insigne falange missionária por sua vez
aumentou e as reduções pontearam o país de Guairacá nas
regiões do Iguassú, do Piquirí, do Ivaí, do Par&napanema e
do Tibagí e os soldados de Cristo "conceberam então a idéia
de uma república modelada pelo ideal que êles mesmos formavam da perfeição cristã". (Charlevoix).
3 — Os Êxitos do Sistema em Guaíra
O sistema adotado pelos jesuitas para a conversão do
gentio de Guaíra, assentou na vantagem da fundação de aldeias onde fosse constante a assistência dos religiosos, de preferência às visitas periódicas às suas tabas como ocorrera
até então.
A essas aldeias para onde removiam os conversos chamaram "reduções". Ao tempo da conquista do sertão, "reduzir" índios era prepará-los, como faziam os bandeirantes,
para vendê-los ou escravizá-los às suas fazendas. Mas parece que ao denominarem "redução" às aldeias que fundaram,
pretenderam os jesuitas significar que as constituíam "redutos", isto é, defesas, à intromissão dos perseguidores dos
índios, pois que ao tempo, nas terras da corôa de Castela, à
qual Guaíra pertencia, o gentio era repartido pelos senhores
brancos, sob o odioso regime da "Janacona" e da "Mitaya",
para que os servissem como escravos, ou simplesmente caçados como o faziam os paulistas.
Da idéia da "redução" sobreveio o alto pensamento de
se constituir, com o conjunto das "reduções", uma república
HISTÓRIA DO PARANÁ
II
guarani, segundo o ideal de perfeição cristã, da qual foi Guaíra a construção fundamental, prosseguida depois nas missões orientais entre os rios Uruguai e Paraná, em grande
parte em território atual do Rio Grande do Sul.
*** Santo Inácio Maior, ao ocidente do rio Paraná, foi
a primeira redução fundada de acordo com o novo sistema,
e a seguir Loreto e Santo Inácio Mini, ao sul do Paranapanema, assumiram desde logo, a partir de 1610, a máxima preponderância na obra civilizadora exsurgida no sertão sulamericano, ao ponto de, por ocasião do seu forçado abandono,
rivalizarem com as melhores povoações do Paraguai, contando a primeira novecentas famílias e a segunda oitocentas.
As igrejas eram maiores que as de Assunção e melhores
os seus ornatos, tendo os moradores chegado ao grau de civilização a que se propunha o sistema. (Southey, Hist. do Brs.
vol. 9, pág. 427).
Possuíam os conversos grandes rebanhos de gado, tinham extensas plantações e não só proviam amplamente a
própria subsistência, mas até da sua abundância socorriam
os aldeiamentos novos.
À princípio à cada família davam os jesuítas as sementes precisas e dois bois para o trabalho de aração. Viram, porém, em breve, que este sistema não se acomodava com a índole pródiga e imprevidente do gentio, e estabeleceram o regime das lavouras coletivas, armazenando os produtos a distribuir pela comunidade na proporção de suas necessidades.
Com o gado se procedeu da mesma maneira, reunindose os que haviam sido levados pelos primeiros fundadores de
reduções, em 1610, de maneira a se especializar sua criação,
com o que se multiplicaram satisfatoriamente.
Todos os demais trabalhos de interesse para o conforto
e progresso das reduções, foram sistematizados. Os próprios
padres não somente os dirigiam como êles próprios os realizavam como estimulo e ensinamento. Fizeram-se, para isso,
cortadores de madeira, carpinteiros, oleiros, carreteiros, lavradores, tratadores de animais etc.
Na administração de cada redução imperava a autoridade do cura, mas havia um Alcaide e um Corregedor que em
regra eram caciques dos mais prestigiosos, cargos que sem
dúvida seriam meramente honoríficos, destinados a estabelecer a ordem na povoação, nesse caso confiada aos próprios
índios.
O alcaide fazia executar os programas dos trabalhos e
das festas e mantinha a ligação necessária com os demais
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ROMÁRIO
MARTINS
caciques, visto como cada núcleo de cem famílias possuía o
seu chefe embora com autoridade muito reduzida pelo sistema.
A educação e alimentação das crianças era encargo público, embora ressidissem eías nas casas dos pais. Todos os
dias, porém, compareciam à igreja 150 meninos e outras tantas meninas, assistiam a missa, que era seguida de lições de
catecismo, leitura, escrita e música, e os rapazes almoçavam
com o reitor, alimento que lhes era dado por conta do celeiro da comunidade.
Em grupos diferenciados pelos sexos e pelas idades, ao
cuidado de censores escolhidos entre eles próprios, iam tratar de suas ocupações: os rapazes nas lavouras e na limpeza
das ruas e caminhos da redução e as raparigas na colheita
ou na fiação do algodão e outros misteres delicados.
Para tudo isso havia uma ordem estabelecida e rigorosamente seguida. À tarde faziam novamente oração no templo. Os rapazes jantavam com o reitor e as raparigas se
ocupavam dos trabalhos domésticos, nas suas respectivas casas, e folgavam em jogos que os padres lhes ensinavam ou
nos de uso tradicional dos índios, que eram em grande parte
inteligentemente tolerados.
A saída do templo ou a entrada para o trabalho eram
feitas com cânticos. O ensino era em guarani, língua oficial
da comunidade.
Os sinos, pifanos e campainhas, alegravam e estimulavam todos os atos a que os catechumenos eram chamados a
praticar no templo ou na praça da redução.
Às festas religiosas comparecia toda a população, obrigatòriamente. A do Santo padroeiro da redução era a mais
pomposa. Erguiam então os índios numerosos arcos de folhagem pelas ruas onde passava a procissão e a esses arcos
prendiam o produto das últimas caçadas e colheitas numa
mostra geral de suas atividades.
Seguiam-se festas profanas, algumas de origem bárbara,
que se prolongavam até a noite.
*** Da redução de Santo Inácio Mini, reorganizada e
transferida pelo padre Roque Gonzalez de Santa Cruz do local onde teve início para o definitivo, em 1612, diz Guevara
que era a mais bela povoação do seu genero, incessantemente aumentada.
O padre Roque tivera a boa lembrança de traçar um
modelo para as casas e o seu conveniente arruamento, o que
HISTÓRIA DO- PARANÁ 64
ii
foi realizado com sucesso e prevaleceu depois em todos os povos jesuíticos que se fundaram.
"A nova povoação era dividida em nove quadras, uma
para a praça, as outras cada qual com seis edifícios de cem
pés de frente, contando cinco habitações para as famílias.
(Teschauer, Vida e Obras do Padre Róque Gonzalez de Santa
Cruz, Rev. Hist. Geogr. Rio Grande do Sul, ano VIII, pág. 321).
Em carta ao seu Provincial conta o Padre Róque Gonzalez o que era uma festa do Padroeiro na redução de Santo
Inácio por êle fundada:
"Para a festa preparavam-se muitos dias, levantando
arcos na praça por onde havia de passar a procissão. Saíam
na véspera a cavalo e à noite faziam grande iluminação e
estrepitoso alarido com flautas, campainhas, tambores e
trombetas; — e todos à uma só voz chamavam por Santo Inácio, parecendo estarem fora de si de contentes. Mas o que
levou o regozijo ao auge foi verem subir uns foguetes, cousa
inteiramente nova para êles. Desta forma passavam toda a
noite em claro, ultimando os preparativos".
"No dia da festa apinhou-se a igreja de gente, de sorte
que muitos tiveram que ficar fora. Depois da missa cantada
começaram as dansas apropriadas. Muito agradaram uns rapazes pintados e adereçados com gosto, que vieram em nome
dos tuxauas principais do povo com seus presentes de papagaios, perdizes, porcos, tatús e outros animais para ofertá-los
ao Santo".
"Depois seguiram-se outros meninos com presentes cada
um dizendo o nome do tuxaua ofertante.
Finda esta cerimônia saiu a procissão, diz o Padre Róque, indo "um andor ricamente enfeitado e nêle a preciosa
relíquia com que Vossa Reverendíssima (refere-se ao Provincial) os mimoseou, e ao pé da relíquia uma bela imagem de
Nosso Santo Padre, propriedade da redução.
"O préstito passou por baixo dos arcos muito bem adornados e vistosos pela variedade de frutos e animais de caça
que os rodeavam, tendo-se esmerado os índios em levar vantagem uns dos outros".
*** p o r ocasião da festa do padroeiro havia a "bênção
das sementes" que deveriam ser plantadas, ato ao qual se
dava toda a solenidade merecida, pois da terra por êles próprios lavrada é que haviam de obter os recursos para se poderem manter em estado de civilização, isolados como se achavam, por dezenas de léguas, de outra qualquer sociedade cristã.
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*** Não são muitas as descrições e assim mesmo mais
ou menos fragmentárias, que se podem obter das reduções
de Guaíra. As que reunimos neste capítulo, contudo, já dão
uma idéia do delineamento da civilização da de Santo Inácio,
e, como se sabe, em todas as povoações dirigidas pelos missionários jesuitas regulavam o mesmo sistema de organização
e os mesmos elevados processos de ordem.
A educação das crianças, o entendimento de que essa
educação, nos seus três estados — físico, moral e intelectual
— era dever da administração pública e interesse imediato
da comunidade; o zêlo vigilante pela elevação dos sentimentos do gentio por meio das práticas cristãs; a tolerância da
hierarquia tribal e sua adaptação aos cargos correspondentes à organização espanhola; o conforto e a possível estética
das casas e urbanização do vilarejo; as grandes lavouras coletivas, armazenamento geral dos produtos e sua distribuição
sistemática ao consumo público; a criação pastoril, como a
introdução do gado bovino, suino, ovino e equino; a fiação
do algodão e da lã; a fabricação de farinhas de trigo, milho
e mandioca em escala capaz de prover abundantemente todas as necessidades da redução; a fabricação do queijo e do
vinho; etc., tudo isso é obra civilizadora em avançado início,
que em certas modalidades sobreleva mesmo o estado atual
de muitas das nossas sociedades políticas.
*** Quando nenhum núcleo de população branca ou
por brancos dirigida existia ainda em nenhum outro ponto
do território hoje paranaense, e Paranaguá, o primeiro formado por portuguêses, somente cerca de 40 anos mais tarde
havia de ser fundado, já os missionários da Companhia de
Jesus mantinham, em franco elance de ordem e de progresso,
em recantos dos vales do Paranapanema, do Tibagí, do Ivaí,
do Piquirí e do Iguassú, treze povoações indio-cristãs, com
uma população de mais de 100.000 habitantes.
4 — 0 Exôdo dos Catechumenos
As reduções de Loreto e de Santo Inácio Mini, pelas suas
situações no extremo norte da província de Guaíra, distantes por conseguinte das zonas de maior concentração desses
estabelecimentos e dos caminhos seguidos pelos bandeirantes, que eram no alto Tibagí, ficaram a salvo dos ataques
paulistas.
HISTÓRIA DO- PARANÁ
79
Diante da premente situação da obra admirável em quasi sua totalidade caída em ruina ao ímpeto da bandeira de
Raposo e Manoel Preto, cumpria aos seus devotados construtores salvar os catecumenos remanescentes, debandados e extraviados no sertão.
Em obediência, pois, ã previdente recomendação do seu
provincial Padre Francisco Vasques Trujillo, reuniram-se os
jesuítas em conselho e resolveram abandonar Guaíra, para o
que concentraram nas duas citadas reduções poupadas, os
12.000 conversos que conseguiram salvar da escravidão.
Os padres Montoya, Dias Tanho e Simão Maceta, foram
os incumbidos de dirigir o exôdo, auxiliados por mais quatro
padres.
Três figuras formidáveis, que a história do cristianismo
projetou, como um clarão, nos sertões meridionais do Novo
Mundo, que o destino escolhera, ainda uma vez, para a missão quasi sobre-humana de pôr a salvo 12.000 criaturas perseguidas por toda a espécie de perigos, através da imensidade das distâncias, da inclemência dos inimigos, das precarias condições do exôdo!
É Montoya quem relata, através do resumo que vamos
tentar fazer, o que foi essa travessia pelo Paranapanema
abaixo, depois pelo Paraná, até a mesopotamia Paraná-Urugui, onde os denodados apóstolos iam reconstruir a formidável empresa da fé fracassada em Guaíra. (Montoya, "Conquista Espiritual", Anais da Biblioteca Nacional do Rio de
Janeiro, vol V I ) .
Em pouco tempo 700 jangadas e numerosas canoas estiveram prontas, à margem do Paranapanema, desde a foz do
Pirapó à de Santo Inácio, e foram lançadas ao grande rio
ponteado de cachoeiras, e 12.000 índios, guiados por sete padres, se confiaram àquelas águas em rápido declive para o
Rio Mar.
"Parecia um dia de juizo, diz Montoya, aquele em que
fizemos a mudança".
A dois dias de viagem, as vedetas distribuídas pelas possíveis entradas dos bandeirantes e pelas vizinhanças das reduções abandonadas, alcançaram a flotilha, com os últimos
avisos. Os mamelucos tinham atingido as povoações do Paranapanema, e, irritados por encontrá-las abandonadas, depredaram os seus templos e estabeleceram-se nos aposentos
dos missionários "que foram pousadas de vida santa, manchando-os com muitas mulheres que tinham apanhado, fazendo ver a essas paredes entre as quais se passavam vida
sem mácula, procedimentos imundos e hediondos".
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ROMÁRIO MARTINS
Do lado dos espanhóis da Ciudad Real, na foz do Piquirí, vinham também péssimas notícias. Constâva que "uns
cristãos, moradores de Guaíra, ali se tinham entrincheirado com alta estacada para nos esperarem e caírem sôbre nossos filhos "escreve Montoya.
"Nós, os sete padres, nos reunimos e conversamos a respeito. À nossa retaguarda deixamos os de São Paulo, inimigos dos nossos filhos; à nossa frente, do lado para onde havíamos de ir, temos nos de Guaíra outros inimigos. De que
• maneira nos aviremos ? Si demorarmos muito talvez nos alcancem os portuguêses que vêm ao nosso encalço; si formos
para diante estaremos às mãos dos brancos que nos esperam.
Certamente si aqui ficarmos as jangadas se avariarão e não
será mais possível irmos por água e passarmos aquela cachoeira terrível", — diz referindo-se aos Saltos das Sete Quedas.
Montoya resolveu seguir à frente da flotilha, em canoa,
e se entender com a gente entrincheirada à margem do Paraná .
"Entrei no seu arraial, declarei-lhes a, condição pacífica
de nossa gente e mostrei-lhes também que êles eram maus.
Não quizeram ouvir-me em verdade e sacaram cinco espadas
dirigidas para meu peito, querendo agarrar-me, mas não me
deixei vencer por êles e safei-me por entre as espadas, para
junto dos meus companheiros. Outros padres foram ter com
êles, sem resultado. Mais vezes lhes repetimos nossos rogos
para que nos abrissem o caminho e como de nada dessem fé,
me abalancei a falar-lhes forte dizendo-lhes: — "Já por três
vezes nós nos humilhamos bastante para vos pedir que nos
desseis caminho e não quizesteis ouvir-nos. Por aqui, contudo, havemos de passar! Acautelai-vos, pois! Si fizerdes mal
aos nossos filhos, si vos assoberbardes e os matardes, sereis
malditos! Já vos declaramos bastante". E vendo eu uma mulher no meio dêles, disse ainda: — "Arredai essa mulher para
que se não ache neste dia um cadáver de mulher entre os
cadáveres dos homens"!
Já então os espanhóis de Guaíra sabiam quão numerosa
era a gente que os padres conduziam e êles eram em número muito inferior. A avalanche passaria a isso se dispuzessem
e em tais condições resolveram os guairenhos espanhóis desistir da arriscada empresa e lhes ceder o passo.
"Ali pousou a gente toda que saiu das jandagas e das
canoas". Os sacrifícios que até então haviam assediado a tumultuaria caravana de retirantes, estavam, porém, bem longe do seu fim. Um obstáculo formidável lhe deparava a na-
HLSTÓBXÂ DO P A R A N Á
81
tureza na zona das cataratas do Guaíra, e era mister transpô-la.
Devido à grande fúria com que se precipitavam as águas,
não foi lançada a esquadrilha de jangadas. "Não obstante,
porém, por experiência, lançamos 300 canoas vazias, com este intuito: ao menos uma veríamos sair salva, pois em verdade depois de vencermos 25 léguas por terra, precisaremos
embarcar outra vez".
As 300 canoas se espatifaram e assim reduzidas a pedaços eriçaram as águas turbilhonantes.
Mais de 30 léguas era, pois, preciso percorrer à pé, por
"caminhos aspérrimos", e ainda assim às pressas, pois "segundo se sabia vinham os paulistas ràpidamente à retarguarda".
A rudeza da viagem obrigava a redução das cargas ao
mínimo possível. "Cousas destinadas à adoração de Deus, as
violas, rabécas, flautas, trombetas, foram sendo deixadas à
toa".
Dentro de oito dias de extenuante caminhada chegaram ao ponto do rio onde esperavam embarcar de novo "supondo que os padres residentes no baixo Paraná tivessem para ali mandado canoas e mantimentos".
"Ali não encontramos cousa alguma. Os padres estavam
muito mais longe e as notícias que nós lhes tínhamos mandado somente depois de muita demora chegaram até êles".
Acamparam, então, por alguns dias, que foram empregados na construção de canoas e de balsas de taquarussú. Foram os retirantes organizados em quatro colunas — três de
pessoas mais fortes, capazes, ainda, de continuar a penosa
marcha a pé, margeando o rio Paraná, e a restante dos doentes, velhos e estropiados, que seguiria embarcada. "Todas essas embarcações tinham, porém, péssimas condições de navegabilidade e muitas delas sossobraram. Muita gente também pereceu por se extraviar na floresta, à cata de frutos.
Centenas de índios morreram assim".
A fadiga, os obstáculos cada vez maiores e os mantimentos, reduzidos a quasi nada, as doenças, os acidentes que se
multiplicavam, iam penetrando de desalento a expedição.
O próprio padre Montoya, em dado instante, pareceu
descrer da salvação. E de mãos postas bradou para o céu
esta aflita exclamação: — "Meu Deus! Seria somente para
isto que tiraste esta gente daquela terra para em caminho
vir depois perdê-la, oh meu Senhor ? Em verdade então puzeste-me à frente deste povo para, depois de me entristecer
com a sua miséria, vê-lo morrer assim por fim de contas ?
História do Paraná -— 6
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ROMÁRIO MARTINS
Quem sabe si não fôra preferível a essa gente, em vez de vir
ser aqui cousa para saciar os peixes, ter-se-lhe deixado ficar
às mãos do inimigo, pois às mãos dêles podia ainda viver, ao
passo que aqui perece e se torna pasto da voracidade dos animais!"
*** Nesta triste emergência, porém, chegaram os socorros. As canoas dos padres do baixo Paraná receberam os retirantes e os transportaram à outra margem do rio, junto ao
Iberibe, onde acampou, quasi aniquilada, a gente fugitiva.
Não estava, ainda assim, findo o martírio!
Os alimentos trazidos de Corrientes pelos padres e pelo
Mestre de Campo Manoel Cabral, apenas chegaram para os
primeiros dias. Os recursos naturais da região foram todos
consumidos.
Sobreveio a fome, com todos os seus horrores... "Nada
chegava bastante. Por esse motivo couro de vaca já seco, e
até cobras, sapos e mais quanta cousa se via, agarravam para comer".
Em consequência, uma epidemia devastou os fugitivos.
"Dois mil morreram depois de terem tomado o sacramento".
Tinham debalde tratado de mandar fazer roças e debalde repartido sementes pela gente | Devorados pela fome ou
comiam as sementes que deviam plantar, ou depois de as
haverem plantado as tiravam da terra para comê-las. "Esta
imprevidência a que eram levados pelo desespero, ameaçava
a todos de um mal maior que a própria epidemia e por isso
àqueles que assim procediam mandamos meter na cadeia,
só os soltando depois que as plantações tinham brotado e se
desenvolviam. Se assim não fizessemos, a fome não se acabaria e toda aquela gente teria perecido".
*** Mas tanto sacrifício ia finalmente terminar. "As
possibilidades do sertão fizeram nascer às margens dos ribeiros uns aipos que crescem até ao tamanho de meia vara
e têm gosto semelhante ao sal. Cada dia os arrancavam e
Deus nosso Senhor os fazia brotar outra vez para ter o povo
o que comer, e assim a gente sarou prontamente das camarás de sangue que tinham dizimado a povoação".
"Aos judeus deu Deus o maná no deserto. Como este
maná encontraram também os nossos filhos o alimento e
o remédio que os salvaram".
A seguir a situação se transmutou. Novos recursos lhes
trouxeram os padres do baixo Paraná. Treze mil vacas fo-
HISTÓRIA DO- PARANÁ
83
ram postas à disposição dos torturados pela fome, que com
esse recurso se fartaram por alguns dias.
Chegou de novo a estação propicia às plantações, e essa
gente se empenhou em se garantir com futuras colheitas, que
foram abundantes em milho, feijão, mandioca, batata e regular em algodão.
Foi adquirido um rebanho de 1800 ovelhas, cuja lã supriu
a deficiência do algodão. Plantéis de porcos, patos, galinhas
e pombos, se multiplicaram bastante e tudo voltou em abundância àquela gente sábia e devotadamente dirigida.
Um templo foi erigido, grande e belo, e a vida dos antigos cristãos de Loreto e Santo Inácio, estimulada pelas provações, exsurgiu de novo para prosseguir a obra que todas
as perseguições e todas as vicissitudes não puderam completamente destruir.
Southey, historiador protestante, diz: "Tantas calamidades teriam desanimado homens estimulados por motivos
menos altos que o zêlo religioso. Continuaram os jesuítas
com os seus esforços com o mesmo ardor, mas infelizmente
para um lado que os expunha a novos ataques dos seus vigilantes inimigos.
E Guaíra renasceu no Tape do Rio Grande do Sul, mais
bela e mais formosa e florescente.
De novo veio a ser perseguida e devastada ?
Contudo nenhuma obra de paz e de amor foi mais bela
do que essa que os jesuítas edificaram, com alma e coração,
nos sertões do Novo Mundo.
CAPÍTULO
CAMINHOS
1 —
2 —
3 —
4 —
5 —
6 —
7 —
V
HISTÓRICOS
Peabirú ou Caminho de S. Tomé
Caminho Fluvial do Cubatão
Caminho Terrestre do Cubatão
Caminhos do Itupava e do Arraial
Caminho de Sorocaba a Viamão
Estrada da Graciosa
Estrada para Mato Grosso.
1 — Peabirú ou Caminho de S. Tomé
Chamavam os índios Peabirú a um caminho précolombiano que se estendia por mais de 200 léguas, da costa de S.
Vicente ao Rio Paraná, atravessando os rios Tibagí, Ivaí e
Piquirí, por onde os povos índigenas se comunicavam com o
mar e com as regiões mais distantes do ocidente. Ao poente
do Paraná o caminho prosseguia, atingindo o Perú e a costa do Pacífico.
Os bandeirantes utilizaram-se do caminho de Peabirú
em todas as direções da linha tronco e dos seus ramais. Se
vinham pela linha tronco, o itinerário era S. Vicente-Piratininga (São Paulo), Sorocaba, Botucãtú, Tibagí, Ivaí, Piquirí. Se vinham pelo Tietê, atravessavam o Paranapanema próximo a foz do Pirapó, subiam pela margem deste em direção
ao Ivaí, que atravessavam pouco acima do seu afluente então denominado rio da Guia, margeando à esquerda o rio
principal, até ao atual Campo do Mourão.
A igual distância do Ivaí e do Piquirí, o caminho que se
bifurcava para o sul ia ter ao Iguassú no ponto em que este
rio, na sua margem esquerda, recebe o Santo Antonio. (Mapa da Capitania de S. Paulo, de Rodrigues Montezino, n.° 19
A, da Coleção do Barão do Rio Branco).
Por esse caminho ou por parte dêle transitaram, no
século XVI, numerosas pessoas e expedições, das quais, em
1541, Cabeza de Vaca e seu séquito militar, em direção ao Paraguai (Assunção); Joahann Ferdinando, vindo de Assunção com a missão de incrementar o cultivo da mandioca em
Santa Catarina, para o suprimento dos navios castelhanos, em
1549; os companheiros de Hans Staden ("a maior parte dos
nossos", diz o autor das Viagens e Cativeiros entre os Selvagens do Brasil) que em 1551 deliberaram seguir por terra à
Assunção; Ullrich Schmidel, em 1553 vindo do Paraguai para
S. Vicente; o grande missionário Padre Leonardo Nunes
quando pretendeu reunir em aldeia crianças índigenas para
88 F>2
ROMÁRIO MARTINS
as educar; os irmãos Pedro Correia e João de Souza, pacificadores do Carijós do ocidente e vítimas de sua abnegação
apostólica; Juan de Salazar de Espinosa, Cipriano de Góes e
Ruy Diaz Melgarejo, governador de Vila Rica do Espírito Santo, no Guaíra, aos quais as autoridades vicentinas negaram
licença para seguirem para o Paraguai, por terra, e que não
somente o fizeram, em 1556, "sin hacer dano a la tierra ni a
cosa delia", como levaram 12 soldados (do séquito de Salazar) e 6 portuguêses (do de Góes), as esposas de Salazar e de
Góes e duas cunhadas do primeiro. (Taunay Hist. Geral das
Bandeiras Paulistas, vol. 1, 206); Diogo Nunes na sua viagem ao Paraguai e ao Perú; Braz Cubas e Luiz Martins, que
em 1562 vararam trezentas léguas de sertão; etc., tudo isso
antes e depois de haver Tomé de Souza, em 1552, mandado
obstruir o caminho que da costa de Santa Catarina ia ter ao
Rio da Prata (Assunção) e que era um dos ramos da linha
tronco de Peabirú.
Gentil de Moura, em comunicação feita ao Instituto Histórico de S. Paulo, em 1910 (O Caminho do Paraguai a Santo André da Borda do Campo), identificando o itinerário seguido por Ullrich Schmidel, o alemão que regressou de Assunção em 1553, onde, como militar, serviu aos govêrnos de Fernando Mendonza, Irala e Cabeza de Vaca, — dá do caminho
de Peabirú as melhores informações dentre as de todos os
autores:
"Partindo de Assunção, desceu o Paraguai e subiu o Paraná até a barra do Iguassú; daí seguiu pela margem direita até a altura do rio Cotegipe; em seguida atravessou os
rios Piquirí, Cantú e outros afluentes desses rios; transpoz
a serra da Esperança; passou pelas cabeceiras do Curumbataí e foi cruzar o Ivaí nas proximidades de Terezina. Depois,
em rumo de sudoéste, foi passar nas cabeceiras do Tibagí,
onde deixou o caminho para Santa Catarina, pelo qual subiu Cabeza de Vaca. Aí, tomando à esquerda, pendeu para as
matas do vale do Assunguí, passou pela aldeia dos Bilreiros
e de Carieseba, onde logo adiante encontrou a encruzilhada
do caminho que descia para Cananéa.
"Prosseguindo, porém, sempre à esquerda, deixou o vale do Assunguí e foi sair nos Campos da Faxina, Capão Bonito e Itapetininga, pelos quais seguiu até as proximidades
de S. Miguel Archanjo, deixando outra encruzilhada que
servia para ligar Cananéa à região de Piratininga.
"Desse ponto, diz o autor citado, pelos campos de Sarapuí e de Sorocaba, foi sair em Biesaie, mais tarde Maniçoba
ou Japíuva e hoje It,ú, donde procurou o rio Tietê por cujas
HISTÓRIA DO- PARANÁ
89
margens seguiu até as proximidades do rio Jurubatuba. Descansou três dias na aldeia desse nome até que finalmente
chegou a S. André".
Após a entrada dos padres jesuitas no território de Guaíra (1610), o caminho de Peabirú foi dado como sendo o trilho percorrido pelo apóstolo São Tomé em sua peregrinação
na América e passou a denominar-se caminho de São Tomé.
A versão da vinda do apóstolo ao Novo Mundo, era, aliás, corrente entre os índios da região atravessada pelo Peabirú
mesmo em sertão não visitado ainda por missionários. Não
somente no Brasil e no Paraguai mas em toda a América do
Sul era corrente entre os indígenas a notícia de que um homem extraordinário por aí andára pregando o Evangelho;
que fôra êle quem ensinára como se podia utilizar a Mandioca e a Herva-Mate, que depois disso se tornaram base da alimentação geral; que predissera o fastígio e a destruição de
Guaíra; que anunciára a vinda de missionários que lhes haviam de dizer as mesmas cousas que êle dizia. Numa rocha
à margem do Piquirí diziam haver as pegadas de Sumé ou
Zumé ou Tomé e que os trilhos que percorreu de uma a outra costa do continente (do Pacífico ao Atlântico) nunca
mais se fecharam. Que esse trilho era o Peabirú.
O conego Fernandes Pinheiro sugere que "a tradição de
S. Tomé é obra e invenção dos jesuitas"; mas o Padre Rafael
Galanti (Compendio de História do Brasil, vol. I, 117) diz
que a "Cópia der Newen Zeytung auss Presillg I Landt", que
deve ter sido impressa em 1508, segundo Wiese, refere a mesma tradição na costa do Brasil. Southey (Hist. do Brasil, vol.
I. 324) diz que o nome Zomé) segundo todas as probabilidades é uma corrupção de Zemi, do Haiti, divindade ou pessoa divinizada" e que no Paraguai chamavam-na Paizume,
palavra composta com que (os índigenas) designavam os sacerdotes Southey acrescenta: ~~ "Os jesuitas, que acharam
S. Tomé no Oriente, também lhe descobriram os vestígios
no Ocidente".
2 — Caminho Fluvial do Cubatao
Desde os primeiros tempos da história do litoral, e, a
seguir, do planalto, a via Porto de Barreiros — Porto Real
(Morretes) — Porto de Cima, foi o roteiro único até a raiz
da Serra do Mar, até a abertura do Ramal da Graciosa para
Antonina e até mesmo algum tempo depois. Criticando a
guerra de portos que tanto prejudicou o progresso das comu-
90 F>2
ROMÁRIO MARTINS
nicações no Paraná e que chegou a aliciar contra o porto de
Morretes o alto espírito do primeiro Presidente da Província,
ao ponto de o fazer dizer que a abertura da Graciosa em direção de Antonina "libertaria o comércio das forcas caudinas
do rio dos Morretes, — escreveu o engenheiro Monteiro Tourinho: — "Enganaram-se todos, porque construiu-se a estrada da Graciosa e como consequência forçada (da diretriz —
S. João-Antonina) a Província teve de suportar a despeza
dos ramais e Morretes ou Barreiros continuou, como dantes,
a ser um importante ponto de embarque intermediário do
porto de Paranaguá".
O caminho fluvial do Cubatão, navegado por canoas,
constituía-se de duas secções: porto do Rocio de Paranaguá
até o de Barreiros, e deste, pelo rio Nhundiaquara, (também
chamado Cubatão) até o Porto de Cima, onde se interrompia
a navegação. Daí em diante, rumo do planalto, o caminho
era percorrido a pé, até Curitiba, pelas diversas picadas da
Serra. Havia duas secções desse caminho, para efeito tarifário: de Paranaguá-Morretes, e de Morretes-Porto de Cima e
vice-versa, respectivamente.
A Câmara de Paranaguá estabelecia o quantum dos fretes e passagens e arrendava-os por contrato. Contrato das
Passagens do Cubatão e depois Contrato das Canoas, foram
as denominações que tiveram esses arrendamentos dos serviços de transporte.
É interessante saber as tarifas que recaiam sôbre viajantes e mercadorias que transitavam por esse caminho. A
pauta constante de Edital de 18 de Junho de 1804, da Câmara Municipal de Paranaguá, para o Porto de Cima era esta:
Por pessoa
Arroba de farinha de Trigo
Arroba de Açúcar
Alqueire de Trigo em grão
Alqueire de Feijão
Alqueire de Sal
Cada Couro
Barril de Vinho ou Aguardente
Alqueire de Congonha
Fardo de carga não especificada
Peça de Algodão, simples, 100 rs., dupla ..
Cento de Tainhas
Cento de Paratis
160 réis
40 "
40 "
80 "
80 "
200 "
40 '
100 "
40 "
240 "
160 "
80 "
40 "
HISTÓRIA DO- PARANÁ
91
Nas demais secções a taxa de trafego era relativa às respectivas distâncias.
Em 1772 o Tenente Coronél Afonso Botelho de Sampaio
e Souza, Comandante da Expedição a Guarapuava, fez abrir
um caminho que, a partir de Barreiros, margeou à esquerda do rio Cubatão, afim de transportar os trens de guerra
dessa expedição, vindos de Paranaguá. No Caminho da Serra, de Porto de Cima à Borda do Campo, fez também melhoramentos, avivando os "trilhos" e desbastando as matas laterais. Nesses serviços empregou uma companhia de Ordenanças e outra de Auxiliares. Vieira dos Santos, (Memórias
Hist. de Paranaguá, 157) observa: — "Foi nessa ocasião que
se fez o caminho pelo cume da Serra, rompendo o grande penedo do Cadeado a fogo e pólvora, fazendo pela beirada dêle
um transito estreito à beira de um precipício medonho, quando o primeiro caminho era fraldeando a Serra, mas o tempo
o arruinou".
3 — Caminho Terrestre do Cubatão
Uma das primeiras vias de comunicação entre o planalto de Curitiba e o litoral foi a denominada do Cubatão, que
ia a Morretes, pois daí para o mar o caminho era a via fluvial do Nhundiaquara até ao porto dos Barreiros. Cubatão
significa terra montuosa, de morros e picos, de "acu-antan",
nome que passou ao rio e à localidade, pois "morretes" é uma
boa tradução do toponímico tupí-guaraní de que se trata.
As picadas então existentes eram as do Arraial Grande, por
S José dos Pinhais e a do Atúba. Ambas somente davam
passagem a pedestres e além disso a segunda era perigosíssima .
Em 1743 Manoel Muniz Barreto e Frutuoso da Costa
Braga se propuzeram a construir uma estrada mais segura,
de oito braças de largura, que se prestasse ao transito de cavalgaduras para o transporte de carga, até então feito às
costas de índios e escravos; mas sob a condição de que, construído esse caminho, lhes fosse dado o monopólio do pedágio por 8 anos e de que, durante esse tempo, fosse fechado o
transito pelas picadas existentes. A proposta foi aceita, em
vereança de 1 de Dezembro (1743) feita na presença do Ouvidor da Comarca e dos "homens bons da Vila"; mas quando a construção ia em franco avanço, rompeu entre os curitibanos, que aliás haviam aplaudido o projeto, — uma oposição que assumiü caráter partidário entre as duas facções em
92 F>2
ROMÁRIO MARTINS
que na época se dividia a opinião, — a dos "Arraigados" e a
dos "Forasteiros".
Em 1745 ainda ia acesa a grita contra o contrato do Caminho do Cubatão. Estando então em Curitiba o Ouvidor
Geral, a reclamação lhe foi levada com grande alvoroço popular. O Ouvidor proveu "que o povo pudesse continuar com
o transporte de cargas às costas" e "que aos contratantes se
mantivesse, pelo prazo do seu contrato, o monopólio do transporte por meio de cavalgaduras".
Nem o povo nem os contratantes se conformaram com a
decisão. "A decisão foi estemporânea e prematura, escreve
Ermelindo de Leão. Se a estrada aberta não desse transito
a animais, perderiam os contratantes o direito de uso e gozo da indústria de transportes. Mas antes da conclusão das
obras não era justo reformar o contrato para satisfazer desejos populares que feriam a boa razão e que eram o protesto da rotina contra uma tentativa progressista e de real valor". (Aut. cit., Dicc. Hist. Geogr. 575).
Diante de tais ocurrências pararam as obras da abertura do Caminho do Cubatão, até 1798, quando o Ouvidor dessa época decididiu que o melhoramento se realizasse a despeito da rotineira objeção dos curitibanos.
4 — Caminhos do Itupava e do Arraial
Ao se instalar a Província do Paraná eram três as estradas que ligavam o litoral com as regiões de Serra Acima e
nenhuma satisfazia os seus fins senão muito precàriamente:
— a da Graciosa, do Itupava e do Arrraial. Da primeira, que
foi a que prevaleceu, trataremos em separado.
A do Itupava desenvolvia seu percurso de Curitiba a Morretes em 9 léguas e Vi, (légua de 2821 braças e 9 palmos) distribuídas do modo seguinte:
Curitiba ao Canguirí
Canguirí à entrada da mata
Entrada da mata ao cume da Serra
" Cume à raiz da Serra, pouco mais de
3
iy 2
2
1
Raiz da Serra ao Porto de Cima
1 Vt
Porto de Cima a Morretes
1 Vi
9y4
HISTÓRIA DO- PARANÁ
93
Do Porto de Cima e de Morretes partiam ramais para
Antonina. O itinerário de Curitiba e Antonina pela estrada
do Itupava e seus ramais era o seguinte:
Curitiba a Porto de Cima
Porto de Cima a Antonina
8
3
11
Curitiba a Morretes
Morretes a Antonina
9lA
3 y2
11%
Tratando desta estrada em relatório apresentado em 1.°
de Julho de 1854, ao Conselheiro Zacarias de Góes e Vasconcelos, Presidente da Província, o Tenente Coronél de Engenheiros Henrique de Beaurepaire Rohan a descreve nestes
termos: . . . "precipita-se pelo costão do Cadeado e apresenta declives até de 40% e os zig-zags que nela se observam e
que se multiplicam de alto abaixo são um testemunho da
imperícia dos que a delinearam ou um monumento de miséria dos tempos em que se construiu esssa obra admiràvelmente má. Entretanto é por ela que transita a maior parte
das tropas e viandantes que fazem o comércio entre a Serra
Acima e o litoral, fato de que poderão duvidar os vindouros,
quando a construção de uma estrada regular oferecer ao comércio uma descida em que se observem todos os preceitos da
arte".
A estrada do Itupava, entretanto, transpunha a Serra
do Mar por menor percurso que a da Graciosa e a do Arraial.
Vieira dos Santos (Mem. Hist. de Paranaguáq regista a versão
de que o trilho serrano do Itupava foi indicado por uma anta a um caçador da Borda do Campo, que a perseguia. O
animal ao fugir embrenhou-se pela mataria da Serra e ao
seu encalço fez o mesmo o caçador, que em breve tempo, pelo
trilho aberto pelo paquiderme, atingiu Porto de Cima, quando esse percurso, pelos trilhos então existentes, demandaria
muito mais tempo. Avivado esse trilho, dêle resultou a estrada do Itupava, péssima pelas suas condições técnicas mas
muito mais curta no seu desenvolvimento, "que pela Graciosa era o duplo do de Itupava", segundo o engenheiro Villalva.
A do Arraial era de preferência frequentada pelos moradores de S. José dos Pinhais e da Lapa (então Vila do Prín-
94 F>2
ROMÁRIO
MARTINS
cipe), isso mesmo durante o bom tempo. Em dias de chuva
esse caminho se tornava instransitável e os próprios moradores de sua vizinhança preferiam o do Itupava. Segundo o
Barão de Antonina, que em 1829 fez a medição dessas estrada, seu percurso era de 8 léguas, assim:
S. José dos Pinhais à entrada da Mata
Entrada da Mata à Raiz da Serra
3 Yz
2
Raiz da Serra a Morretes
2Vz
8
A estrada do Arraial tomou esse nome do Arraial Grande dos mineradores de ouro, que a construíram para sua comunicação com o litoral e para as explorações auríferas que
fizeram na Serra. Beaurepaire Rohan que a percorreu em
1854, achou-a má.
"Em Serra Acima parte dela percorre longitudinalmente o leito de dois ribeirões, o que é um defeito notável, porque na ocasião das enchentes não há meio de operar o transito em semelhante paragem. Na Serra tem declives de
28%. Para chegar daí à planície inferior percorre uma morraria enfadonha como o é a do Cabrestante". (Relat. do aut.
cit.).
Tanto a estrada do Itupava como a do Arraial mereceram as piores referências do ilustre engenheiro militar citado acima, incumbido de opinar sôbre a possibilidade do seu
melhoramento no sentido de se dotar a Província de uma via
de comunicação conveniente à rodagem. "Pelo lado artístico,
nenhuma delas tem uma só braça de extensão de que se possa aproveitar para a rodagem si não em relação ao declive
longitudinal que às vezes se apresenta bom, pelo menos quanto à largura e materiais de que foram construídas no lugares
em que se mostram algumas obras de arte. Essas obras consistem apenas em alguns miseráveis pontilhões, que se acham
em estado de ruina, e em horríveis calçadas com que se procurou consolidar o humus das florestas, as quais, acompanhando as ondulações com inclinações que frequentemente
excedem 30%, não servem sinão para estropiar os animais,
pôr em risco a vida do viandante e dar emprego aos calceiteiros que nelas se acham sem proveito. Nos campos, onde o terreno apresenta suficiente consistência, foram elas abertas
pelo andar dos animais". (Rei. do aut. cit.).
HISTÓRIA DO- PARANÁ
95
5 — Caminho de Sorocaba a Viamão
Denominava-se Caminho de Sorocaba o caminho de tropas que de S. Paulo ia a Viamão passando pelos campos de
Vacaria, no Rio Grande do Sul.
A secção meridional desse caminho, isto é, de Curitiba
aos campos do Rio Grande, é mais moderna que a de S. Paulo
a Curitiba. Primitivamente essa via de comunicação chegava a Curitiba passando por Campo Largo e S. José dos Pinhais, mas com a abertura da estrada da Mata, do Rio Negro para o Sul, as próprias tropas lhe foram dando curso
mais direto, seguindo da Lapa ao rio do Registro.
Foi esse caminho que originou várias povoações do planalto: Itararé, Jaguariaíva, Lança (Pirai), Iapó (Castro),
Carrapatos, Santa Cruz, (origem de Ponta Grossa), Palmeira, Campo Largo — que eram primitivamente lugares de
pouso e currais de descanso ou invernadas de gado. De ambos os lados desse caminho surgiram outras povoações mais
distantes do seu curso, porém ainda debaixo de sua influência: — Triunfo, Conchas, etc.
"O caminho para São Paulo, pelos Campos Gerais, foi
aberto desde os primeiros tempos do povoamento. O traçado
cortava apenas alguns capões (onde os viajantes descançavam ou faziam suas pousadas) preferindo-se em geral o campo aberto, onde a conservação dos caminhos era muito mais
fácil. Desde que se saía de Curitiba, andava-se fazendo uma
enorme curva até o passo de Itararé para São Paulo. Sôbre
esse caminho primitivo se foram formando povoados, tornando-se mais notáveis aqueles onde as caravanas (tropas) costumavam fazer o pernoite". (Rocha Pombo, O Paraná no
Centenário, 118).
O "Mapa Geográfico da América Meridional", de Olmidilla, 1775, traça a estrada de S. Paulo até a localidade Pitanga, nas nascentes do Tibagí, e daí em diante assinala as
localidades por ela atingidas. Talvez a falta de ligação pela
convenção adotada na secção de S. Paulo a Pitanga tivesse
sido esquecimento do gravador, porque é facílimo reconstituir, pelas localidades sucessivas e numeradas com precisão,
a traça do caminho até Viamão.
Itinerário, por esse mapa:
São Paulo, Jarocabas (Sorocaba), Registo, Cadaz, Pedroso, Escuma, Hanguá, Rio Verde, Morungaba, Samambaia,
Pinsá, Araraz (à esquerda do rio Jaguariaíva) Rocha, Caiacanga, Pitanga, Taiacóca, Cambajú, Porcos, Pelado, Cabo
96 F>2
ROMÁRIO MARTINS
Largo (sic de Campo), Frei Carlos, Campo do Tenente, Passa
Três, Espigão, Capão Alto, Campo Alegre, Papagaios, Curitibanos, Frei João (à direita do rio Uruguai), Tributos, Pinheiros Altos, Portão, Frutas, Tomido, Vacaria, Alto da Serra, Rodante, Viamão.
Em 1800 a situação dessa estrada era a seguinte:
Ao sul do Itararé — Cinzas, Castro, Garambeí, Pitanguí,
Ponta Grossa, Carrapatos, Pouso, Registo (no rio Iguassú),
Vila do Príncipe (Lapa), Campo do Tenente, Rio Negro, Butiatuba, Rio Negrinho, Alto do Morro Grande, Espigão, Ponto
Alto, Corisco, Curitibanos, Cachorros, Canoas, Lages, Rio das
Pelotas. (Mapa da Capitania de S. Paulo, 1800).
De antigo Mapa da Coleção do Arquivo Militar de ano
não determinado e intitulado "Demonstração do Caminho
de S. Paulo a Curitiba com os rios, morros, serras e fazendas",
consta: — S. Paulo, Espinheira, Sorocaba, Rio Amado, Sarapucú (fazenda), Rio Lambari, (fazenda), Rio Tapetininga
(Registo) Rio Capivari (fazenda), Rio Paranapanema (fazenda, Rio Parnapitanga (fazenda), Rio Apiaí (fazenda), Rio
Taquarí (fazenda) Rio Perituba (fazenda), Rio Verde (fazenda), Rio Itararé (fazenda chamada "S. Paulo", divisa da
Comarca de Paranaguá), Rio Jaguaricatú (fazenda), Rio
Jaguariaíva (duas fazendas), Rio Pirai, Rio Iapó (8 fazendas), Capão da Cilada, Rio Pitanguí (fazenda), Rio Tibagí
(7 fazendas nas suas cabeceiras). Curitiba.
Pelo visto ligava-se grande importância a esse caminho,
que a tinha, inegâvelmente, pois foi, em seu tempo, a única
comunicação terrestre de São Paulo aos confins meridionais
do Brasil e o incentivo para as povoações que, devido a êle,
pontearam os campos do seu percurso e que, muitas delas,
se transformaram em vilas e cidades, como, no Paraná, —
Jaguariaíva, Pirai, Castro, Ponta Grossa, Palmeira, Campo
Largo, Lapa, Rio Negro.
6 — Estrada da Graciosa
Um dos primeiros cuidados do Conselheiro Zacarias de
Góes e Vasconcelos ao assumir a presidência da Província
que lhe coube instalar (ofício de 21 de Dezembro de 1853),
foi o de determinar ao Tenente Coronél de Engenheiros Henrique de Beaurepaire Rohan, "que examinasse as estradas
que de Serra Acima se dirigem às povoações do litoral, especialmente a da Graciosa que comunica a vila de Antonina
com a cidade de Curitiba, informando qual a mais vantajo-
H I S T Ó R I A DO- P A R A N Á
97
sa e que melhor se preste ao transporte de carros e carruagens, para, no caso de existir alguma nessas circustâncias,
promoverem-se as obras necessárias afim de que esse transporte se faça comodamente e sem interrupção no tempo das
águas —, e na hipótese contrária abrirem-se novas picadas
em busca de direção cuja declividade não exceda 6%".
As estradas que então de Serra Acima se dirigiam ao litoral eram as da Graciosa, do Itupava e do Arraial. Logo ao
primeiro exame as duas últimas foram consideradas imprestáveis ao fim em vista.
A da Graciosa também não apresentava condições para
sua transformação em via de rodagem, mas com modificações
no seu curso foi a que veio a servir. Em Julho de 1854, tendo
o Presidente de solicitar recursos à Assembléia Provincial e ao
Govêrno Imperial para realizar o seu intento, determinou ao
engenheiro da Província que lhe fornecesse planta e orçamento da construção a fazer-se. Pela resposta de Beaurepaire
Rohan (ofício de Í9 de Julho de 1854) vê-se que a diretriz do
projeto afastou-se mais ou menos e raramente coincidiu
com a estrada existente, tendo sido as obras orçadas em
250:0000$000. Foram apenas melhoradas as secções da Capital à Borda do Campo e da raiz da Serra até Antonina. Todas as demais distâncias sofreram modificações, inclusive o
alargamento geral para 25 palmos.
A lei n.° 9, de 12 de Agosto de 1854, autorizou o Govêrno
da Província a mandar fazer a estrada da Graciosa entre
Antonina e a Capital, podendo aplicar na construção as sobras do imposto do Registo do Rio Negro e das demais barreiras, até a quantia de 30:000$000 por ano.
Essa tentativa para dotar a Província de comunicação
rodoviária do litoral com o planalto foi sem dúvida um grande passo, mas o problema continuou, por muitos anos ainda,
porque o que então se fez foi, por assim dizer, obra de emergência.
O Govêrno Imperial veio, por fim, em auxílio da nova
Província. Em 1866 as obras estavam em andamento, dirigidas pelo notável engenheiro Antonio Rebouças, que então
opinava fosse abandonada a linha direta S. João-Antonina,
constante do projeto e se adotasse outra que passando por
Porto de Cima e Morretes se dirigisse àquela cidade em lugar
de construir-se duas linhas de igual importância, ou uma
principal direta a Antonina, com dois ramais.
O então Presidente da Província, Dr. André de Padua
Fleury, apoiou desde logo esse projeto, porém a Assembléia
Legislativa o combateu em memorandura de 15 de Maio de
História do Paraná — 7
98 F>2
ROMÁRIO MARTINS
1867, dirigido ao Govêrno Imperial. Venceu o prosseguimento da construção da Graciosa em direção ao Porto de Antonina, com ramais para Porto de Cima e Morretes.
Essa estrada, iniciada como vimos em 1854, somente ficou concluida em 1873, na administração do Presidente Venâncio José de Oliveira Lisboa. Os seus trabalhos foram sucessivamente conduzidos pelos engenheiros Villalva, Chandler, Rebouças, Monteiro Tourinho e pelos ajudantes dos dois
últimos, engenheiros Pereira Dias, Gotteb Wieland, Schwartz
e Parigot.
A estrada da Graciosa teve os seguintes principais períodos históricos: — Aberta em 1807, por ordem do Conselheiro
Antonio José de Franca e Horta, Governador e Capitão General de S. Paulo. Em 1820 a Graciosa não satisfazia, absolutamente, às necessidades do transito e motivava representações das Câmaras das vilas de Curitiba e Paranaguá. A 17
de Julho desse ano, Carta Régia dirigida a João Carlos Augusto de Olnhausen, Governador da Capitania de S. Paulo, determinava-lhe que atendesse a essas reclamações e encarregassse o Coronél de Milícias de Curitiba, Inácio de Sá SotoMaior, de tornar comoda para os viandantes e transportes
de gêneros, a travessia da Graciosa.
"No longo intervalo entre 1820 e 1853, ano da instalação
da Província, nenhum documento nos dá notícia da estrada
da Graciosa", diz o engenheiro Monteiro Tourinho; sabendose, apenas, que por grande parte desse tempo esteve a cargo
do Cél. João da Silva Machado, depois Barão de Antonina".
De 1854 em diante sofreu as primeiras modificações técnicas no sentido de ser melhorada e condicionada ao transito
de veículos. De 1866 em diante até sua conclusão em 1873,
foi modificada quasi que inteiramente, passando, somente
então, a poder ser considerada verdadeiramente uma estrada e prestando ao desenvolvimento do Paraná relevantes serviços, até que a sucedeu, em 1886, a Estrada de Ferro Paranaguá a Curitiba. Mas ainda assim a Graciosa continua a
sua missão economica. Abandonada, por muitos anos, na
Presidência Carlos Cavalcanti foi reconstruída e até hoje é
a artéria em que circula o sangue vivo e quente de grande
parte de nossa produção agrícola, florestal e industrial, destinada aos demais Estados e ao exterior da República.
7 — Estrada para Mato Grosso
Ao irromper a guerra com o Paraguai, o Govêrno Imperial promoveu a exploração dos grandes rios da Província do
HISTÓRIA DO- PARANÁ
99
Paraná que pudessem servir a comunicação com a Província
de Mato Grosso: — o Ivaí, o Tibagí e o Paranapanema.
Dando início a essa importante indagação técnica, o então Presidente André Augusto de Padua Fleury, requisitou,
para a realizar, os notáveis engenheiros alemães José e Francisco Keller, cuja chegada ao Paraná coincidiu com a invasão
de Mato Grosso pelos paraguaios. Dos seus relatórios (constantes dos anexos da "Fala dirigida à Assembléia Provincial", em 1866, pelo Presidente Fleury) consta a possibilidade
de navegação "por vapores de roda" nos seguintes rios:
IVAÍ. — Da barra à Corredeira do Ferro, em uma extensão de 138 quilômetros 804 metros (22,5 léguas) e por mais
de 24 kl. 573 m. (4 léguas) "uma vez que se desembarace
daquela corredeira, formando um canal de 50 m. de comprimento", o que na época viria a custar apenas 2:000$000. Para completa navegabilidade desta secção do rio, com sua canalização, foi calculado que se gastariam 2.194:085$000.
"Em canal construído com tal despesa, um barco a vapor, de
força de 16 a 18 cavalos, terá na descida a marcha de 3 m.
por segundo, ou 10 kl. 800 m. por hora podendo fazer 108
quilômetros por dia de 10 horas (17,6 léguas) e na subida a
de 2,5 m. por segundo ou 9 quilômetros por hora, avançando
por dia 90 quilômetros (14,5 léguas); por onde se vê que gastará na viagem redonda 11 a 12 dias, percorrendo 183 léguas".
TIBAGÍ E PARANAPANEMA. — Tem o primeiro, da Colonia Militar do Jataí até a barra do Paranapanema, 77 quilômetros 764 metros (12,59 léguas) e o segundo 220 kl. 502
mts. (35,72 léguas) desde a barra do Tibagí até sua foz no Paraná; constituindo ambos uma linha fluvial de 289 kl. 366 m.
(48,3 léguas) consideradas de um só rio". Da barra do Paranapanema à corredeira da Serra do Diabo, na extensão de 81
quilômetros 250 metros (13,16 léguas) esta linha pode ser percorrida por vapores de roda. "Os embaraços à navegação existem, portanto, entre aquela Serra e o Jataí; mas todos reunidos perfazem apenas 11 quilômetros 812 metros (1,9 léguas),
enquanto que no Ivaí elevam-se a 12 léguas.
Para se desembaraçar esta secção (35,16 léguas) dos impecilhos existentes "e se conseguirem canais das dimensões
apontadas para o Ivaí, isto é, de 5 m. de largura e 0,7 m. de
profundidade, é necessário extrairem-se do fundo do rio
18.343 m. c. de pedra que, orçados em 20$000 importarão em
336:820$000, — elevando-se a 632:320$000 a despesa para a
100 F>2
ROMÁRIO MARTINS
navegação de embarcações à sirga e a 584:320$000 para as
de vapor com corrente ou cadêa mergulhada".
*** Durante alguns anos as comunicações pelo ocidente paranaense com Mato Grosso, o Paraguai, a Bolivia e
até com o porto peruano de Islay, no Pacífico, andou preocupando técnicos, estadistas e capitalistas. Em 1876 estava
acesa e fulgurante a discussão do problema, considerado do
seu ponto de vista estratégico e economico.
De tudo quanto se fez, nesse sentido, numa década, ficaram os traçados do engenheiro William Loyd, de uma estrada de ferro de Curitiba a Miranda (Mato Grosso), linha mixta de aproveitamento dos rios, Ivaí, Paraná, Ivinheima e Brilhante; do Capitão Cristian Palm, engenheiro suéco, de uma
estrada transcontinental, atravessando as províncias do Paraná e de Mato Grosso à Bolivia e à parte meridional do Perú,
sem intercalação da navegação dos rios; do engenheiro Monteiro Tourinho, que toma o traçado Lloyd no vale do Iguassú
(quilômetro 79) e prolonga a linha por este vale buscando
Guarapuava, as nascentes do Piquirí, descendo pelo vale deste até sua confluência no Paraná e por este rio até o salto
das Sete Quedas, defronte de Iguareí, prolongando-se ao poente do Paraná até atingir o caminho de ferro de Tacna que
conduz ao porto de Arica, no Perú; as explorações dos engenheiros Keller e o projeto para tornar navegáveis por barcos
a vapor os rios Ivaí, Tibagí e Paranapanema; a proposta feita ao Govêrno Imperial, pelo Visconde de Mauá, em 1871, para que lhe fosse dada autorização para estudo e exploração de
uma linha férrea entre Curitiba e Miranda, intercalada com
a navegação dos rios Ivaí, Paraná, Ivinheima, Brilhante e
Mondego; a justificação do pedido pelo engenheiro Palm feito em 1782, ao govêrno da Bolivia para a realização do seu
projeto, com capitais inglêses, através do território boliviano;
os estudos e começo de execução do prolongamento da estrada da Graciosa, até a fronteira de Mato Grosso, confiados aos
engenheiros militares (Aviso de 4 de Julho de 1869) Antonio Rebouças Filho e Francisco Monteiro Tourinho; e finalmente a larga e notável discussão da matéria, estudada e discutida por uma das mais brilhantes pleiades da engenharia
brasileira civil e militar de então, — Beaurepaire Rohan, André Rebouças, Eduardo de Morais, Jeronimo Jardim, etc.
Ao engenheiro Antonio Rebouças coube conduzir a exploração, até o rio Ivaí, para o prolongamento da Graciosa.
A construção teve princípio a 15 de Abril de 1871, graças ao
espírito de pronta resolução do Presidente Venâncio Lisboa,
HISTÓRIA DO- PARANÁ
101
que nessa data e acompanhado dos deputados à Assembléia
Legislativa Provincial, lançou a primeira pedra da ponte sôbre o rio Ivo (na quadra da Rua 15 de Novembro entre as
ruas Muriel e Ébano Pereira, mais próxima desta). A nova
estrada tomou por ponto de partida o prolongamento da Rua
das Flores (atual 15 de Novembro), rompendo-se as casas
que com ela defrontavam na rua da Assembléia (atual Muriel) . Desenvolveram-se os serviços com rapidez nos primeiros
2.200 metros até ao Batél, secção a cargo do engenheiro Mauricio Schwartz.
A partir de Junho de 1872 foi o engenheiro Monteiro
Tourinho o diretor geral da construção, passando os serviços
a ser feitos por empreitadas. Na secção até Campo Largo foram contratantes de lotes o Comendador Manoel de Oliveira
Franco e Albino Schimmelpfeng; de Itaquí à Serrinha, Jacob
Hey; e 21 quilômetros de ligação dos lotes, na secção Curitiba-Itaquí, Lino de Souza Ferreira.
Durante a presidência Lamenha Lins foi contratada com
Jacob Hey a construção da magnífica ponte do Rio dos Papagaios, projeto do engenheiro chefe da construção, uma das
melhores das rodovias do Estado.
Toda a linha Curitiba-Campo Largo ficou terminada em
Outubro de 1878, na presidência Rodrigo Otávio de Oliveira
Menezes, e em Abril de 1882 foram entregues ao trafego 56
quilômetros da estrada para Mato Grosso perfeitamente macadamisados, conservados até hoje em condições excelentes.
CAPÍTULO
FATORES
1
2
VI
ÉTNICOS FUNDAMENTAIS
1 — Os índios Selvagens
1- — A antropologia não chegou ainda a conclusões definitivas, de controvérsias, sôbre a descendência do índio
americano, que uns investigadores como Morton, Simonin, Silvio Romero, o mais ardente defensor do auctonismo no Brasil, consideraram o homem encontrado na América "um produto do solo americano", e outros como resultante de uma
migração de povos semitas da Asia ou do tronco turano a que
pertencem atualmente as raças mongólicas. Entre os aligienistas se alinham Ladisláu Néto, que vê no nosso índio um
descendente de Chins ou Egi-pcios, Warnhagem dos Cários,
Berlioux dos Iibios ou Atlantes, sendo Teófilo Braga o máximo impulsionador dessa corrente.
A este respeito opina com notável acerto Rocha Pombo;
"Para o historiador não há no Brasil, como afinal em toda a América, mais que populações adventícias. Mesmo que
se venha a liquidar a questão da autoctonia e a ter como certo, portanto, no continente um vasto centro de criação, —
nem por isso o indicado critério terá de modificar-se, pelo
menos modificar-se radicalmente, visto como tal ou tais raças primitivas teriam desaparecido sem nada deixar que interesse à história propriamente. Os povos aqui encontrados
pela conquista européia não constituíam raça ou raças isoladas, exclusivas desta parte do mundo.
"Outra noção que podemos ter como perfeitamente apurada é a da unidade fundamental de toda a família americana. Por mais diferentes que pareçam às vezes quanto a caracteres de ordem secundária, o que é incontestável é que
um estudo mais profundo há de dar sempre a certeza de que
a infinita variedade de populações espalhadas pelo continente se reduzem todas a uma só raça. Isto não quer dizer que
as várias populações que se fixaram na América Ocidental
não tivessem tido o concurso de imigrantes de outras raças
106 F>2
ROMÁRIO MARTINS
ou não recebessem o influxo de civilizações diferentes". (Aut.
cit. História do Brasil, vol. II, 82).
*** Nossa população índigena, por ocasião do descobrimento e da conquista, "achava-se organizada em tribus democráticas constituídas por um certo número de famílias ligadas por estreita solidariedade", tendo cada tribu um chefe eleito que representava a comunidade e uma assembléia
de guerreiros.
O chefe denominava-se Morubichaba e a assembléia Nheemongaba, porém nenhum destes poderes era eficientemente
exercido sinão em casos de guerra e de crises graves que afetassem a comunidade.
*** A família era constituída quasi geralmente pela poligamia e até mesmo pelo comunismo de mulheres, como entre os Caiapós, mas havia tribus monógamas, como, por
exemplo, a dos Guaicurús. Mesmo, porém, sob a segunda
forma matrimonial, o que havia não era uma grosseira promiscuidade, pois ao homem cabia sustentar a mulher e o filho durante todo o período da gestação e amamentação e fazia-o devotada e carinhosamente. Quando poligamo, o homem se ligava a quantas mulheres podia sustentar, porém a
primeira adotada era a que tinha os direitos de esposa.
Era em geral exigida a puberdade completa às donzelas
para o casamento e a maioridade de 25 anos para os rapazes.
Os graus de parentesco para o matrimônio eram examinados
com rigor, princípio eugênico que abona as suas leis constitutivas da família.
A segunda geração se regulava pela do pai, em oposição
ao que se nota em alguns povos bárbaros da África. O pai
denominava ao filho Taira, (o que procedia do seu sangue)
e a mãe chamava-lhe Membira (o que procedia do seu seio).
*** Entre os usos e costumes seguidos pela família e pela sociedade índigena brasileiras contam-se os seguintes, dignos da mais alta civilização: — a respeitosa fraternidade de
convivência em uma mesma "taba"; o culto aos mortos, geral em todas as tribus; a hospitalidade praticada até mesmo
com os próprios inimigos, ao extremo de infamar a quem
transgredia esse ponto de honra da raça; o respeito às esposas, que jamais maltratavam; a veneração aos seus cantores,
que "seguros viajavam poetisando e cantando por entre os
contrários, bem acolhidos de todos, como os trovadores da
idade média"; o amor paternal levado aos máximos desvelos
pela próle; o estoicismo que demostravam ante o sofrimento
ROMÁRIO MARTINS
107
é até mesmo ante a morte; a amizade aos animais domésticos,
que por prazes criavam (Xerumbados) e que jamais matavam; o desconhecimento absoluto do roubo ; o respeito aos
germens da vida, na proibição à colheita de ovos de pássaros
silvestres; a boa fé e o desprendimento, enfim, de que nos fala Pero Vaz de Caminha, primeiro cronista europeu qué entrou em contacto com o indígena brasileiro, e que nô-lo mostra confiante, na náu capitania dos descobridores, jogando
ao chão cavalheirescamente as suas armas leais em face de
Cabral, o que lhe fez dizer, numa clara visão do futuro: —
"São mais nossos amigos, que nós seus"...
*** Povos com tais, tão nobres e admiráveis sentimentos, não podiam deixar de ter idéias de um ente supremo,
criador de todas as cousas e da sobrevivência da alma como
partícula imperecível dessa essência divina.
Tinham-nas, sem dúvida, os nossos índios. Tupan era o
Deus dos tupis, que andou por muito tempo confundido com
o trovão, porque historiador ilustre (Varnhagem) mas com
êles injusto, entedeu de negar ao selvagem brasileiro capacidade de conceber a idéia de um ente superior, imortal e infinito .
Eles tinham não somente crença religiosa, como o seu
culto correspondente. Os Pagés eram os seus sacerdotes e
não bruxos e feiticeiros. As suas visitas às povoações motivavam festas comunais e a limpeza das picadas por onde devia
passar a autoridade religiosa do distrito.
A palavra do Pagé era ouvida com o mais profundo respeito e os seus conselhos obedecidos passivamente. Quando
imprecava, o sentimento que dominava os índios era o do terror. Ante a sua ex-comunhão, alguns chegavam a morrer de
medo. (Gabriel Soares, O Brasil em 1587).
*** O símbolo principal de sua religião era o Maracá,
espécie de chocalho, feito de uma cabaça que figurava uma
cabeça humana, vistosamente implumada. A parte interior
do Maracá continha seixos, que agitados produziam um ruído surdo. Como representação de um Deus Doméstico, figura em todos os lares e o Maracá da comunidade era guardado
em cabana especial, — o templo do selvagem, e visitado em
dias determinados pelo Pagé, que incensava-o com resinas
aromáticas e lhe ofertava flores, penas coloridas, água, fogo
e até alimentos. (Frei Ivo d'Eveux). Esse símbolo sagrado
dos tupis figurava em todas as festas e solenidades da tribu,
que lhe dedicava canto e dansas. Nas guerras e nas pelejas
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ROMÁRIO MARTINS
esportivas ia à frente das falanges, conduzido pelo Pagé, como a insígnia de honra da Nação, — como bom auspício de
triunfo.
*** A crença numa vida além da morte, na imortalidade da alma por conseguinte, era geral entre os índios brasileiros de todas as nacionalidades.
Os tupis da costa diziam que a alma dos bons depois da
morte ia habitar além das Montanhas Azuis (Serra do Mar)
em lugar maravilhoso, vedado aos traidores. (Alcides d'Orbigny). Os Caigangs do Paraná acreditavam que as almas
dos bons e dos bravos iam habitar o Paiquerê que eram os
campos paradisíacos cuja situação nem êles próprios sabiam
determinar.
Outras tribus pensavam que depois da morte passariam
a uma outra vida em a qual se ocupariam unicamente de caçadas. Por isso a morte, em algumas cabildas, era festejada
com cantigos alegres. (Anibal Mascarenhas, Curso de História do Brasil).
Os mortos não teem entre os povos civilizados culto mais
sentimental do que entre muitas das tribus índigenas brasileiras .. Algumas os sepultavam dentro de casa. Outras
iluminavam as sepulturas, cobriam-nas de flores e consagravam aos finados os seus mais delicados produtos de arte
cerâmica.
*** A teogonia dos nossos índios tem idéias fundamentais de grande elevação moral e de beleza incomparável à das
concepções semelhantes entre os gregos e os romanos.
Do seu sistema geral constam as divindades seguintes,
presididas por TUPAN, o Criador Supremo: — Guaraci ou
Coaraci entre os Guaranis do Sul (Sol, de "guara" vivente e
" c " mãe) sob cujos auspícios se desenvolvia a vida animal;
Jací (Lua, de "Ja", vegetal e "cí", mãe) que presidia a vida
vegetal; e Rudá ou Peruda, promotor da reprodução dos sêres, — o Deus do Amor.
Não tinham os nossos selvagens nenhuma "concepção de
espírito sobrenatural cuja missão fosse exclusivamente a do
mal, como é entre nós a concepção do Satanaz". (Couto de
Magalhães, O Selvagem). Assim é que os seus semi-deuses
pagãos como Anhangá, Currupira e Caapóra, protegiam, respectivamente, os animais do campo a floresta e os animais da
mata contra as depredações dos homens.
No desempenho de sua missão protetora, essses numes
selvagens muitas vezes teriam de julgar e castigar os ho-
HISTÓRIA DO- PARANÁ
109
mens e assim a ação que desempenhavam passaria, aos
olhos dos próprios beneficiários de sua justiça, por atos de
crueldade.
Estes numes protetores da floresta e das espécies animais
inferiores, resultaram de uma moral em perefita correspondência com as imediatas necessidades do aborígene. Vivendo da caça e dos frutos silvestres seus deuses não podiam
deixar de presidir e proteger, sôbre tudo, a essas limitadas ecferas da criação, preservando-as de destruções prescindíveis.
"Por muito rude e bárbara que à primeira vista pareça
uma instituição qualquer de um povo, ela deve ser estudada
com respeito. As instituições fundamentais dos povos, qualquer que seja seu grau de civilização ou barbaria, são os resultado necessário das leis eternas de moral e justiça que
Deus criou na consciência humana, leis que no fundo são
as mesmas no selvagem e no homem civilizado, embora susceptíveis de manifestações diversas segundo o grau de adiantamento a que cada um tem chegado". (Couto de Magalães,
O Selvagem).
Nos nossos índios, a crença no sobrenatural assumia fôrmas de superstição sem dúvida grosseiras e rudes quasi sempre, e nem podia ser de outra maneira. Mas essas fôrmas
já eram os primeiros clarões de alvorada de um espírito religioso em marcha para uma moral mais alta e já nesse sentido encaminhava, como demonstra a facilidade com que
compreenderam, os Guaranis do Sul principalmente, os ensinamentos dos missionários jesuítas na sua gloriosa cruzada
redimidora.
*** o grau de cultura artística e industrial dos aborígenes brasileiros e conquistas outras de civilização, eram suficientemente elevados em correspondência com o desenvolvimento social das diversas tribus ou nações. A música, o
canto, a dansa, (Poracê) as artes ornamentais adaptadas ao
adorno e à tecelagem como o delicado desenho linear das
Urupemas; a cultura e diversos usos do milho, da mandioca;
da batata, de numerosos outros tubérculos nativos da nossa
flora e a variedade e excelência dos seus inventos na fabricação de farinhas, de mandioca (Cuí) levada à finura da do
trigo (Curimã) a de guerra (Uiatã), as feitas de peixe (Piracuí) reconhecidas excelentes até na Europa; os demais produtos do milho que ainda hoje se usam tão geralmente como a cangica (Acangic) a farinha (Abativí) e as suas aplicações culnárias como a deliciosa pamonha, a pipoca (Popoka),
a Kiréra, sucedanea do arroz; o licor (Abati); a observação in-
JLQ
F>2
ROMÁRIO MARTINS
teligente de qualidades medicinais de numerosas plantas; a
fabricação de vinhos, licores e especialidades fermentadas;
de anilinas, tóxicos e antídotos; de aparelhos de pesca e caca* de conservas alimentícias perfeitas; o conhecimento da
higiene e a obediência a regras admiráveis que para o estado
atual dessa ciência são fundamentais, como a mudança de
habitação em caso de certas doenças, o expurgo das cabanas,
a limpeza do corpo por meio de banhos frios tomados pela
manhã e à tarde; a elevação da temperatura por meio do
fogo no interior dos seus lares; uma terapeutica precisa, com
específicos e tópicos para todas as moléstias desde
a eficacia da dieta, das emissões sangineas e dos calmantes nas moléstias inflamatórias, aos sodoríficos, diaforéticos e depurativos nas humorais". Foi deles que se estendeu por todo o
orbe civilizado o conhecimento da quina, da ipecacuanha,
aue fez a glória e a fortuna do médico holandês Dr. Adriano
Helvetius; da salsaparrilha, do óleo de copaiba e centenas de
outras de uso atual entre seus descendentes e entre nos mesA
cerâmica, talhas para água (Igaçabas), panelas
(Cumãs), vasos diversos (Cuiambucas); os objetos domésticos de madeira ou couro, canastras ou arcas (Patigiias, Pan a c â ) ; as rêdes de resistente e belo tecido ( « a s
cordas (Musuranas); as suas armas de caça e de combate, desd e o a r c o ( TJ ir apara) capeado de cipo-embê e as flechas alígeras eem]tfumadas; as clavas formidáveis, de quatro faces
framarana) ornamentadas de anéis de
multicores as
zaSias de arremesso (Curabis); as lanças hervadas (MuS
etc - todo esse apresto da paz e da guerra primava
p S acabamento, era manifestação de um apreciavel estado
de expontaneidade criadora.
p e n a s
*** Seus conhecimentos científicos, embora _fundados
em puro empirismo, denotaram continua obseryaçao da nat u r e z a
e chegaram a realizações admiráveis. Eles fizeram,
numa flora imensa como a nossa, a nomenclatura especifica
Sos vegetais "de acordo com uma classificação que ja se base" a n f observação dos caracteres morfológicos da planta .
(Anibal Mascarenhas, História do Brasil).
O reino animal estava igualmente determinado por denominações características específicas.
"Em astronomia diferençavam as constelaçoes ma s notáveis, às quais subordinavam mitos religiosos' (Aut. e^obr
cit ^ A influência exercida por certas fases da lua nas pian
tíções i o corte de madeiras, na ação de alguns antelmmti-
HISTÓRIA DO- PARANÁ
111
cos, nas conveniências da pesca e da caça, foi admitida pelos
seus descendentes mestiços e ainda têm plena aceitação na
atualidade sertaneja e rural.
A extração do violento veneno da mandioca ao ponto de
reduzi-la por um processo simples ao alimento são, generalizado hoje por toda a população do país e já com exportação
para o exterior, "revela tanta ciência que os índios mesmos
atribuíam tão grande invenção a São Tomé como os gregos
atribuíam a Céres o ensino da cultura do trigo". (Gonçalves
de Magalhães, Os indígenas do Brasil perante a História).
O fogo, que a humanidade em seu início conseguia atritando o sílex, os nossos índios fàcilmente obtinham pelo atrito, mais fácil, da madeira, à cargo de qualquer criança. Este
processo teve nas tribus brasileiras uma influência que atingiu a inventos industriais preciosos, como o da pronta e perfeita conservação da carne pelo moqueio no próprio local das
caçadas e a comunicação semafórica de umas para outras
tribus errantes na floresta.
*** A língua tupi, no século seguinte ao do descobrimento, penetrou de tal maneira no uso geral paulista que o
Padre Vieira, em 1694, escrevia ser certo estarem tão ligadas
as famílias de portuguêses e índios em São Paulo, que "a língua que nas ditas famílias se falava era a dos índios e a portuguêsa iam os mesmos aprender à escola".
Se o português era a língua oficial, que entrava em todas as relações da comunidade paulista, nos arraiais e nas
vilas como nas cidades era a tupi frequentemente empregada por fâmulos e senhores. "Até o começo do século X V I I I
(Teodoro Sampaio, "O Tupi na Geografia Nacional") a proporção entre as duas línguas faladas na colonia era mais ou
menos de três para um, do tupi para o português".
Todos falavam ou compreeendiam essa língua que até
quasi o fim do século X V I I I foi realmente a língua geral como os jesuitas a denominaram, não somente para os tupis
como para a generalidade das populações sertanejas.
As saudações eram feitas em tupi: — Enecoêma, Bom
dia. As próprias orações eram comumente feitas nessa língua: — Santa Curuçá rangana rece — Pelo sinal da Santa
Cruz, dizia o cristão curitibano, como aliás o de toda a América, persignando-se ao toque da Ave-Maria.
Na língua tupi eram denominados os rios, as serras, os
campos, as aldeias. Nas especificações botânicas e zoológicas
o tupi se espraiou e se fixou por toda a parte. "Ao seu contacto (T. Sampaio, obra cit.) alteravam-se a sintaxe e a pro-
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ROMÁRIO MARTINS
sódia portuguêsas. Desapareceram as vogais mudas ou breves e prevaleceram as graves e agúdas. Os verbos tupis modelaram-se pelos do português, incorporando-se em grande
número neste último, como incorporaram-se os nomes de
plantas, animais, frutas e objetos de uso doméstico".
Nos arraiais de mineradores como nas "bandeiras", o tupi era a língua oficial. Imperava na colonia de tal maneira,
(Loc. e aut. cit.) que a conquista se fazia "tendo por veículo
a própria língua dos vencidos" — que era a língua da multidão.
Na nomenclatura geográfica do Paraná o tupi prevaleceu por toda a parte, e na própria região dos tapuias apenas
ficaram, assinalando os antigos domínios dos Coroados, as
denominações primitivas de Xanxerê, Chopin, Chapecó e
poucas outras. Até mesmo os nomes originários dos maiores
rios da região — "Goio-Covó" e "Goio-En", cederam às denominações de "Iguassú" e "Uruguai" — da língua indígena
triunfante na toponímia nacional.
Era este o estado geral de cultura dos índios do nosso
país ao tempo da conquista européia, tomado por norma a
dos tupis do sul, Guaranis, mais adiantados na escala do desenvolvimento intelectual.
2- — Mas o território hoje paranaense não foi habitado
somente por tupís-guaranís e suas variedades etnográficas,
e até foi, depois das invasões e destruições de Guaíra, dominado mais vasta, embora menos volumosamente pelo Crens
(Caigangs e suas variedades) e pelo Gês (Botucudos).
Desbaratadas, no segundo século do descobrimento, as
populações guaranis aldeiadas pelos jesuítas e escravizadas
pelos castelhanos no sertão entre os rios Tibagí, Paranapanema e Paraná, começaram, tempos depois, a se infiltrar nesse
sertão e no de Palmas, ao sul do Iguassú, as hordas dos Caigangs.
Dominaram os territórios de Castro, Guarapuava e Palmas, que inicialmente compreendiam todo o interior do Paraná. Aí opuzeram a maior resistência ao povoamento, atacando os tropeiros nas suas excursões pela estrada de S.
Paulo aos campos da Vacaria (Rio Grande do Sul); os descobridores e posseiros dos campos de Palmas, as primeiras instalações de Guarapuava e até a própria vila de Curitiba, em
data incerta, onde o grupo atacante foi batido e bàrbaramente degolados os prisioneiros.
Entre êles próprios, porém, existiam prestigiosos caciques amigos dos povoadores brancos, e entre esses se notabi-
HISTÓRIA DO- P A R A N Á
113
lisaram, pelos auxílios, que prestaram a esses povoadores, os
caciques Condá e Virí, guerreiros formidáveis dos sertões do
Piquirí e de Palmas.
Em 1858, com a criação da Colonia Militar do Jataí e
após revez que lhes inflingiu Virí que lhes avassalou os toldos
no vale do Piquirí, numerosos chefes Caigangs se apresentaram ao diretor dessa colonia pedindo paz e oferecendo amizade.
O govêrno geral do Império não somente lhes aceitou as
propostas como determinou a fundação de aldeiamentos que
os agremiasse. Esses aldeiamentos foram os de São Jeronimo e de São Pedro de Alcantara, o primeiro entregue ao zêlo
e às virtudes de Frei Luiz de Cemitille, que o fez prosperar, e
o segundo ao frade Timoteo de Castel-Nuovo, um vulgar
especulador, que ia pondo a perder a obra dos pacificadores
do sertão.
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Os Caingangs abandonaram a aldeia de São Pedro de
Alcantara e se estabeleceram nos sertões do baixo Piquirí, do
Ivaí e do Iguassú, onde são regressivamente numerosos, porém jamais atacaram os povoadores brancos, como o haviam
prometido, antes foram sempre prestimosos às comissões exploradoras e construtoras de estradas naqueles rumos.
*** Telemaco Borba (Atualidades Indígenas, 6 e 7), que
por longos anos os estudou, dêles dá um expressivo retrato
falado nesta passagem:
"São índios bem conformados, de estatura regular, peito largo, cheios de corpo, mãos e pés pequenos, dedos finos,
cabeça regular, testa e olhos pequenos, estes um pouco oblíquos, maçãs do rosto salientes, nariz chato, boca grande, lábios grossos, dentes grandes e bem dispostos, orelhas pequenas, pescoço curto. Arrancam os cabelos do corpo, inclusive
os das sobrancelhas e pestanas. Tanto homens como mulheres os trazem tonçurados como os frades, com uma larga coroa no centro; são de cor baça e feições grosseiras e feias".
Frei Luiz de Cimitille assim os descreve:
"São francos, alegres e conversadores. Ao primeiro canto do galo levantam-se e procuram água para se lavar. Ao
voltarem assentam-se ao redor do fogo e do cacique, de quem
recebem as ordens, que cumprem sem observações e com
pontualidade".
"Gostam muito de criar galinhas, especialmente brancas e pintadas. Domesticam bichos e aves silvestres. O cão,
porém, é o seu animal predileto e fazem com prazer todo sacrifício para obterem este lugar-tenente do homem, que lhes
Histãria do Paraná — 8
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ROMÁRIO MARTINS
é da maior utilidade. Para obtê-los fazem viagens à Curitiba, distante umas sessenta léguas e à Faxina, em São Paulo,
ainda mais distante".
"Sustentam-se de caça, peixe, mel e frutas; plantam algum milho e feijão".
"As suas armas são grandes arcos, — Uy, feitos de pau de
guaiuva, enleiados com casca de cipó imbê; suas flexas, Dou,
medem dois metros de comprimento, com farpas de osso de
macaco ou de ferro, pintadas com muita habilidade. Além
dessas armas usam lanças, — Urugurú, de folhas de facas
muito polidas, tendo as hastes dois metros de comprimento,
mais ou menos, fazendo com elas guerra e também as suas
caçadas, nas quais mostram grande tino e habilidade".
*** Seu caráter é o da mais franca independência. Cada
grupo de 50 a 100 indivíduos dirige-se por si próprio sob a
direção de um cacique, porém a autoridade deste somente
pode se exercer por meios brandos e suasórios. Quando essa
autoridade pretende impor suas decisões é abandonada, até
mesmo pelos filhos e demais parentes e a horda escolhe um
outro chefe mais liberal.
São os Caingangs muito obsequiadores. Entendem que
nunca devem negar o que lhes é pedido, mas exigem para
com êles o mesmo proceder da parte de quem quer que seja.
"Uma das maiores injurias é chamá-los de pouco generosos,
deimacá, na sua língua". Altaneiros e independentes, não
prestam obediência a ninguém senão quando tratados com
boas maneiras.
*** Acreditam numa divindade bemfazeja a que chamam Tupan, como os Guaranis. Essa divindade acolhe os
valentes depois da morte, proporcionando-lhes a vida eterna
sem trabalho, num país onde a caça se oferta ao caçador, não
tendo este necessidade de a perseguir no mato. As almas
dos inértes e covardes ficam morando na própria terra, onde se alimentam com minhocas.
*** Têm os sentidos da vista e do olfato muito sensíveis, apurados pela prática tradicional das caçadas. Avistam os objetos à distância a que não os percebem olhos deshabituados. Caminham na mata como em campo aberto,
com agilidade e orientação admiráveis. Distinguem pelo olfato a proximidade das cobras e de outros animais. Distinguem pela audição à distância, o pizar macio e solérte do tigre.
HISTÓRIA DO PARANÁ
*** As mulheres Caingangs são hábeis tecelãs de tangas e túnicas feitas com a fibra da ortiga grande. As tangas
para as mulheres e as túnicas ou mantos, Curintuxa, para os
homens. São essas as únicas vestes das tribus independentes,
isto é, das que não entraram em contacto com os usos e costumes das populações brancas.
*** Os Caingangs, em sua situação primitiva, não têm
habitação permanente. Mudam-na constantemente para os
sítios onde abundam a caça e os frutos nativos do sertão.
Seus ranchos têm geralmente 25 a 30 metros de extensão. São cobertos e cercados com folhas de palmeira e não
têm divisões internas nem janelas. Apenas uma abertura
em cada face serve de porta, pela qual uma pessoa só abaixada pode passar.
Cada família conserva acesa, dentro desses ranchos, uma
fogueira. A roda dela se deitam sôbre cascas de árvores estendidas no solo, com os pés para o fogo, indistintamente
homens, mulheres e crianças.
Quando o rancho fica muito sujo e pulguento, queimamno e constroem outro sem do primitivo aproveitarem nenhum
material.
*** O Caigang é parco no fabrico de objetos de uso doméstico. Seus principais utensílios são a panela de barro, —
Cócron; o machado de pedra, — Póbéng-, o pilão, — Craie;
a peneira e o cesto, — Queinhe; a cuia de porongo, — Rundia; e instrumentos cortantes, feitos de pedra-lascada, —
Toi. Os que vivem em aldeamento ou já entraram em contacto comercial com os brancos, são ávidos por objetos similares da indústria civilizada.
*** São poligamos. Geralmente casam-se com quatro a
seis mulheres, quasi sempre da mesma família. Não casam
com as filhas dos irmãos, que consideram como suas filhas,
mas preferem as filhas das irmãs para suas esposas. São raras as desavenças entre o marido e suas mulheres e entre estas entre si.
Os homens não se casam antes de 18 a 20 anos de idade. Quando pedem uma moça, (Tetan) e anue ao pedido o
pai da preferida, o noivo fica desde logo agregado à família
da noiva e o casamento dado por concluído, sem nenhum cerimonial . Mas quando a noiva não atingiu a idade matrimo-
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ROMÁRIO MARTINS
nial, que é de 10 a 12 anos, o noivo passa a servir o futuro
sogro em todos os afazeres precisos à sustentação da família deste, até poder casar-se.
Muito raro é o marido abandonar uma de suas mulheres,
mas não o é abandonarem as mulheres seus maridos, quando ainda moças, e se unirem a outros jovens da tribu.
*** Seus instrumentos musicais são: buzina, — Caquire, de chifre de boi ou de taquara; flauta, — Coque, de taquara; maracás, — Xu, que são porongos cheios de seixos; e um
outro instrumento a este semelhante, — Otorérê, que é um
canudo de taquara ligado a uma cabaça furada em diversos
pontos.
Desses instrumentos se servem com muita habilidade,
chocalhando-os ou tocando-os com a boca e até com o nariz.
Seus jogos e diversões, — Caingire, têm todos o aspecto
e fragor de combates pessoais ou coletivos, cuja arma é o cacête, mas deles não resultam ofensas nem inimizades, mesmo quando se maltratam além do que lhes é permitido. Os
que saem mais maltratados desses encontros são considerados campeões, — Turumanin (valentes) e como tais julgados pelos que tomaram parte no "divertimento".
Quando a peleja esportiva se realiza à noite, os cacêtes
são acêsos numa das extremidades, — Pingirê. Telemaco
Borba, que presenciou a essas competições, do Cangire e do
Pingirê, diz que este segue o mesmo violento desenvolvimento daquele e produz os mesmos ferimentos... acrescidos das
queimaduras.
*** Dentre os seus enfeites figuram a Crânios que é
uma camiseta sem mangas, muito justa ao corpo, só usada
nas festas; a Arangretará que é um cocar de penas de variadas cores, o seu mais belo ornato, realmente. Seus colares são
rústicos e grandes demais, feitos de dentes de animais ou de
contas brancas. Também usam untar-se e colar no corpo
penas de certas aves de cores vistosas, sendo que também se
pintam com carvão em ocasiões festivas. Usam envolver as
pernas, do tornozelo até meia distância do joelho, com película de cipo-imbê, como enfeite e também para defesa contra
mordedura de cobra.
A sua principal indumentária, porém, é o vasto manto
branco que lhe cai dos ombros aos pés e que usam com grande garbo, obra de habilidade das tecelãs da tribu.
HISTÓRIA DO- PARANÁ
117
*** A tradicional hospitalidade dos Caingangs se revela às vezes de maneira bem curiosa. Telemaco Borba descreve a recepção que é habitual, feita ao visitante de um toldo:
"Quando algum selvagem se aproxima de algum toldo
dos de sua nação, diz o conceituado observador conterrâneo,
oculta-se junto ao local em que os ali moradores costumam
tomar água até que aviste algum dêles. Então fala do seu
esconderijo e diz quem é, e o que ouve vai dizer aos demais.
"Preparam-se todos para receber o hóspede. Se tem parentes no toldo, o que lhe é mais próximo deita-se e cobre
o rosto com o Curú, enquanto que sua mulher prepara alguma iguaria para o esperado.
"Este, ao chegar, sem cumprimentar ninguém, vai entrando como em sua própria casa e deita-se junto ao que está
também deitado e com o rosto coberto. A mulher deste traz
as iguarias que preparou e põe-nas ao alcance de ambos. Senta-se então o anfitrião, convida o hóspede e comem juntos,
silenciosamente, o prato da hospitalidade.
"Findo o repasto o visitante diz ao que anda, o que tem
sucedido no acampamento onde mora, o que viu e lhe aconteceu no caminho, etc. Si na narrativa há algum caso de
morte de algum parente ou conhecido, isso motiva grande
choro entre as mulheres presentes, que assim pretendem consolar o hóspede.
"Geralmente estas visitas constituem pretextos para
festas nas quais se embebedam com Goiofá que é a sua bebida nacional, feita de milho fermentado e água e a que chamam também Quiquí quando adicionada de mel de abelha".
São muito francos do que têm nos seus ranchos. Quando alguém os visita a primeira cousa que lhe perguntam é se
tem fome. Nos dias de abundância nem fazem essa pergunta, vão pondo a comida diante da pessoa e lhe dizem simplesmente — Aco, coma.
3 . — O terceiro grupo nacional indígena representado
no Paraná é o dos GÊS, ao qual se filiam os Botucudos, que
se supõe terem entre os seus ascendentes o Homem da Lagoa Santa e os Itiófagos dos Sambaquis, — dos mais ínfimos
tipos humanos dos nossos tempos pré-históricos.
Cumpre-nos fazer, por conseguinte, uma apreciação embora resumida sôbre esses três fatores iniciais do povoamento do nosso país, si bem que longínquos e obscuros, de rude
intelecto, de civilização primitivíssima, mas que constituem
élos da cadeia étnica dos nossos povoadores, primeiros atores
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ROMÁRIO MARTINS
no cenário da vida ameríndia, cujo drama estudamos neste
capítulo.
*** "Homem da Lagoa Santa" foi o nome dado aos restos humanos encontrados em cavernas, por Peter Lund, em
1844, na região dos distritos de Curvelo, Sete Lagoas e Lagoa
Santa, em Minas Gerais, associados a restos fosseis de mamíferos pertencentes ao período quaternário.
"Todos os crâneos (do Homem da Lagoa Santa, mostram os traços característicos da raça americana; possuem
notàvelmente a forma piramidal, o que constitui o traço que
a raça mongólica e a raça americana têm de comum. Possuem também a fronte muito baixa e estreita, que é o traço
mais constante pelo qual a raça americana se distingue da
mongólica". (Peter Lund, Cartas publicadas na Revista do
Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro").
*** A indagação sôbre si o "Homem dos Sambaquis"
tem representantes nas raças índigenas que ainda habitam
ou nas que recentemente habitaram o nosso país, foi feita
por antropólogos e etnólogos de elevado mérito, nacionais e
estrangeiros.
Estudados os sambaquis e os seus restos humanos, o que
ficou admitido foi que a nossa pré-história não fica suficientemente aclarada senão em parte, isto é, que dos índios atuais
ou históricos, os crâneos dos Botucudos têm notáveis analogias com os encontrados nas ostreiras do litoral do Paraná e
de Santa Catarina e estudados pelos eminentes antropólogos brasileiros J. B. de Lacerda e J. Rodrigues Peixoto.
Dos seus estudos o professor J. B. de Lacerda concluiu:
1.° Que não existe homogeneidade de caracteres em todos os seus elementos componentes, nos crâneos do Homem
dos Sambaquis.
2.° Que a divergência de caracteres é devida à influência de alguns fatores, entre os quais a sexualidade.
3.° Que do lado de caracteres divergentes, a morfologia
das séries estudadas apresenta certos caracteres fixos, que a
fazem destacar o tipo do meio das suas variantes.
4.° Que as formas dos crâneos encontrados nos Sambiquís estabelecem notáveis analogias entre aqueles crâneos
e os crâneos dos Botucudos.
HISTÓRIA DO- PARANÁ
119
Outro estudo notável, com o mesmo objetivo, é o do Dr.
J. Rodrigues Peixoto nos crâneos de índigenas, existentes no
Museu Nacional do Rio de Janeiro.
Destacou êle quatro tipos bem caracterizados: o do "Homem da Lagoa Santa", o do Botucudo, o do Homem dos Sambiquís do Sul e o do Tupi. Pelo estudo desses crâneos, o Dr.
Rodrigues Peixoto formulou a hipótese de ser o Homem dos
Sambiquís representante do da Lagoa Santa e possivelmente o Botucudo um produto do cruzamento de ambos, pois naquelas duas raças os caracteres craneológicos se reproduzem
atàvicamente em alguns crâneos da terceira.
O tipo do Homem da Lagoa Santa era mais ou menos
dissimulado, diz o eminente professor. Era um crâneo maior,
de paredes muito espessas, de aspecto muito mais grosseiro
e caracterizado por um prognatismo ainda mais considerável
que o dos negros da África Ocidental.
O tipo do Homem dos Sambaquis dos nossos Estados
meridionais e que na egrégia opinião citada parece ter sido
um dos antepassados do Botucudo, é um crâneo subdolicocéfalo que oscilando até a braquicefalía, demonstra não pertencer também a uma raça pura. Seu índice nasal, extremamente uniforme, apresenta-o como exemplo de um tipo humano dos mais leptorrinios.
Desses estudos se constatou a presença, nos sambaquis,
de uma raça antepassada do Botucudo, de raros representantes atuais.
O Homem dos Sambaquis é esse tipo caracterizado pelos estudos craneológicos referidos. Mas nem sempre foi dessa raça o habitante, habitual ou temporário, das ostreiras
da costa marítima do sul do país.
As mesmas indagações que chegaram àquele resultado
se referem a um quarto tipo de crâneos, da mesma procedência e que foram constatados como pertencentes a índios tupis: pequenos, curtos, baixos, muito menos prognatas e eurignatas, de contornos mais brandos e linhas mais suaves,
mesaticefalos, com tendência à braquicefalía, de orbitas magasemas e nariz platirrineo.
*** Do estudo dos artefatos encontrados nos sambaquis,
não tem resultado uma distinção dos que são obra dos originários habitantes desses depósitos arqueológicos e dos que
pertencem aos seus sucessores tupis.
Essa distinção deveria ser feita in loco, onde tais artefatos fossem encontrados ao lado das ossadas a que correspondessem .
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ROMÁRIO MARTINS
No Museu Paranaense existem numerosos machados de
pedra desenterrados de sambaquis do nosso litoral; alguns
tão grosseiros quanto à fôrma e feitio, que tanto parecem demonstrar o início da arte de confecção de tais instrumentos
como a primeira fase do seu fabrico.
Serão obra acabada do Homem dos Sambaquis, ou representarão a primeira fase de sua manufatura ? Retirados
do seu jazigo antes que tal pergunta fosse respondida, agora
a interessantíssima indagação somente poderá ser feita por
um confronto de peças idênticas a que não faltam as condições acima apontadas.
Na minha opinião, sem valia aliás ante a elevação do
assunto, é que, à parte esses instrumentos, nenhum outro artefato dos sambaquis pode, sem contestação, ser atribuído
exclusivamente ao rude tipo humano que primeiramente os
habitou.
São todos, os que já vi, de evidente manufatura tupi
idênticos aos encontrados nos planaltos, tanto os de pedra
machados, massêtes, pontas de flexa; como os cerâmicos
— panelas, igaçabas, tijelas etc.
Não fossem, pois, as imperativas soluções do problema
dadas pela craneologia, e, diante de tais artefatos arqueológicos nenhum americanista certamente admitiria um Homem
dos Sambaquis ètnicamente diverso do tupi do planalto.
Esses artefatos se caracterizam tanto pela igualdade dos
materiais de que se compõem como pelas fôrmas de que se
revestem. Vão do massête formidável e do machado de pedra
polida, cortante, agressivo, — às fôrmas minusculas desses
objetos, de uma delicadeza de acabamento que revela paciência, gosto e inteligência, e o primitivo itiófago do sambaqui
não podia ter essas qualidades.
Demais, o habitante permanente da nossa costa marítima não teria onde buscar certos materiais constantes de objetos que têm sido encontrados nas ostreiras, como, por exemplo, o quartzo hialino, de que é feita uma linda ponta de flexa encontrada no sambaqui da ilha Goulart, em Antonina,
pelo sr. Inácio Pinto e que pertence hoje à coleção arqueológica do Museu Paranense.
*** A primeira explicação do que seja um Sambaqui, foi
dada por Fr. Gaspar da Madre de Deus em 1797, nas suas Memórias da Capitania de S. Vicente e nos seguintes termos:
"índios particulares em todo o tempo e povos inteiros
e mcertos mêses vinham mariscar na costa; escolhiam entre
os mangais algum lugar enxuto onde se arranchavam e dali
HISTÓRIA DO- PARANÁ
121
saiam como enxames de abelhas a extrair do lodo os cetáceos
marítimos. É indizível a imensidade que colhiam de Ostras,
Berbigões, Amenjoas, Sururús, de várias castas e outros mariscos; mas a pesca principal era de Ostras e Berbigões ou
porque gostassem mais dêles ou porque os encontrassem em
maior cópia e os colhessem com facilidade.
"De tudo isto havia e ainda hoje há muita abundância
nos mangais da Capitania de S. Paulo. Com os tais mariscos
se sustentavam enquanto durava a pescaria, e o resto secavam e assim beneficiado conduziam para suas aldeias onde
lhes servia de alimento por algum tempo. As conchas lançavam a uma parte do lugar onde estavam congregados e
com elas formavam montões tão grandes que parecem outeiros a quem agora os vê soterrados.
. . . "Na maior parte delas (das ostreiras) ainda se conservam inteiras as conchas e nalgumas acham-se machados,
de seixo muito rijo, pedaços de panelas quebradas e ossos de
defuntos, pois que se algum índio morria no tempo da pescaria, servia de cemitério a ostreira, na qual depositavam o
cadáver e depois o cobriam com conchas".
Dado que houvesse existido um Homem dos Sambaquis
como demonstram sérios estudos antropológicos, a descrição
de Frei Gaspar se refere à segunda fase da história das ostreiras, supondo-a originária . Na sua época não se podia entender de outra maneira.
Resumindo as considerações que vimos fazendo em tôrno
do interessantíssimo assunto, de acordo com as investigações dos mestres, temos a seriar na pré-história brasileira:
1.° O Homem da Lagoa Santa, do período quaternário,
identificado por Lund, Quaterfages e Gaudry.
2.° O Homem dos Sambaquis estudado pelos antropólogos brasileiros Rodrigues Peixoto e Batista Lacerda.
3.g Os Botucudos, com caracteres craneológicos que
apresentam com os do segundo tipo notáveis analogias.
4.° Os Twpís, raça invasora que deslocou o habitante do
Sambaqui e o substituiu no domínio dos litorais.
O aparecimento de tupis nos arraiais do Homem dos
Sambaquis, denota o período de invasão do litoral por outra
nação vinda de além através dos planaltos. Trata-se sem nenhuma dúvida dos Tupiniquins e Carijós que os europeus vieram encontrar na posse da nossa costa marítima por
ocasião do descobrimento.
122 F>2
ROMÁRIO MARTINS
Não admira que estes índios desalojassem os primitivos
ocupantes dos Sambaquis pois que eram mais inteligentes,
mais audazes e sem dúvida mais numerosos, porque já então,
parte considerável do sertão era por êles dominada.
O Homem dos Sambaquis teve o destino que estava reservado, no evolver de séculos, ao seu descendente — o Botucudo, que jogado pelo invasor para os ínvios sertões do Sul,
veio a sucumbir, ainda em nossos dias, exterminado pelo colonizador branco.
Enquanto a terra era sòmente sua, repartia a existência
entre os lugares onde mais fácil lhe era a subsistência orgânica, — sua única preocupação. Ora vivendo de caça e de
frutos nativos dos planaltos, ora na estação hibernal valendo-se das reservas naturais das ostreiras que o mar acumulava em determinados pontos da costa, o Homem do Sambaqui,
o Botucudo, e, depois ainda, o Tupi, preencheram essa enfiada de séculos que a nossa pré-história jamais poderá dizer
quantos foram, e que ficaram, nos grosseiros artefatos encontrados nas colinas conchilíferas da nossa planície marítima, atestando o baixo nível intelectual nos primeiros e nos
segundos ausência completa de um pensamento materializado em qualquer forma particular de arte, tão elevada e
distinta nos povos americanos que habitaram o litoral do Pacífico e entre os povos ceramistas de Marajó.
*** Segundo Batista Caetano, Sambaqui significa literalmente "montão de ostras"; de tambá e quí, colina cónica
como peitos de mulher". Acrescenta o eminente tupinista: —
"Nos substantivos guaranis a mudança do t em h aspirado ou
gu, fôrma a passagem do valor absoluto relativo; como os
portuguêses na sua língua não têm aspiração, davam-na por
ç ou s. Além disso em palavras compostas o genitivo ocupa
o primeiro lugar, e daí resulta hambaquí, colinas de conchas,
Pode também ser estropiamento de hambakiab, refugo ou
varredura de conchas.
4 . — Por fim temos a tratar dos Botucudos, terceiro élo
das raças sem história que habitaram nosso país.
Dos Botucudos do Paraná há apenas as informações do
engenheiro militar Jacques Ourique, que se interessou por
conhecê-los e estudá-los quando, de 1882 a 1884, esteve no
Rio Negro como chefe da Comissão Mixta de Terras e Limites.
Alguma cousa, isto é, tudo quanto se sabe do Botucudo
meridional, se deve a esse ilustre brasileiro. O que se segue,
resume suas investigações.
HISTÓRIA DO- PARANÁ
123
Habitavam as matas das encostas marítimas da Serra
do Mar até ao rio Timbó, nas bacias dos rios Negro e Iguassú, ao norte da zona, e até ao rio do Peixe, na bacia do Pelotas, ao sul. Os índios coroados, seus inimigos, habitantes
entre os rios do Peixe e Timbó, para oéste, reconheciam estes
dois rios como limite de suas possessões.
Em 1868 e 1877 tentou-se aldear os Botucudos, tendo sido encarregado dessa missão o grande e hábil sertanista Joaquim Francisco Lopes. Foi para isso escolhido um sítio na
estrada de Lages, a 5 léguas da então Vila do Rio Negro, dando-se-lhe o nome de Aldeiamento d.e S. Tomaz do Papanduva. Nunca, porém, conseguiu Lopes avistá-los, a despeito do
seu tino em lidar, por muitos anos, com selvagens, e a tentativa foi abandonada.
Várias crianças dessa tribu foram aprisionadas por bandeiras bugreiras e levadas para o Rio Negro. Jacques Ourique
descreve uma delas. "Esta criança, bonita e bem constituída, tinha o cabelo completamente rapado, não usava tanga
e simplesmente trazia como adorno um T de madeira bem
polida suspensa de um furo no meio do lábio inferior, com
a perna vertical pendente para o exterior — e cordas de embira enroladas em volta dos tornozelos e dos pulsos, as quais
afrouxava quando queria correr ou fazer qualquer outro
exercício."
Um outro pequeno índio, aprisionado nos matos da Estiva e batisado e criado no Rio Negro, forneceu preciosa notícia sôbre sua gente. Tez requeirnada e fisionomia característica dos nossos selvícolas, diz o autor citado — sendo para assinalar a harmonia das linhas, talvez em consequência da
idade, que "fazem lembrar o rosto das donzelas indígenas,
mormente quando, na interrogação, volvem lindamente os
olhos negros e rasgados". E acrescenta: — "No aveludado
húmido do olhar, há um expandir tal de inteligência, que
faz esquecer a proveniência do bugrinho".
Boa memória, facilidade de apropriação e grande tino
observador, conservava todas as reminiscências da vida das
selvas e jogava ainda o dialeto dos seus, embora certamente
com defeitos devidos à sua pouca idade. Sua descrição do
Salto de Canoinhas, que Jacques Ourique conhecia, foi-lhe
feita com precisão, pelo que se segue que suas informações
são verdadeiras.
Do botoque disse ser apenas um adorno preso ao lábio
inferior através de orifício nunca maior de um centímetro
de diâmetro. Não usavam, além desse, qualquer outro enfeite.
124 F>2
ROMÁRIO
MARTINS
Alguns traziam o cabelo, que os adultos usavam crescidos, atados por uma fita de embira. Viviam em constante
emigração, de Serra Acima para Serra Abaixo, a procura de
frutos e de caça. Em virtude dessa vida errante, suas cabanas eram provisórias, feitas de varas arcadas e atadas nas
extremidades superiores e cobertas de palmas de gerivá ou
gissára.
Suas armas eram o arco e a flecha com ponta de ferro
ou madeira, o arco e virote para caça e a massa de madeira,
com quinas, de cerca de metro e meio de comprimento, sua
formidável arma de combate, que costumavam deixar sôbre
o corpo da vítima.
Cremavam os seus mortos, colocando-os debaixo de uma
pilha cónica de lenha e queimavam-na. Enterravam as cinzas, em pequenas sepulturas.
Não conheciam o direito de propriedade senão com relação à caça, que pertencia a quem a abatia. Si os cães- quer
de índios quer de sertanejos corriam uma anta e o sertanejo
chegava primeiro à acuação e matava, — os índios Botucudos
se retiravam, mesmo quando em grande número. Mas si a
matava o índio, cumpria ao sertanejo retirar-se. Quanto ao
mais, não reconheciam direitos: — matavam cavalos e burros cuja carne apreciavam, sempre que os encontravam fora
de vigilância; pilhavam roças de milho; tinham em grande
apreço objetos de ferro, com os quais faziam pontas para as
suas flechas e lanças, etc. Destas pilhagens "que para o pobre e ignorante selvícola era um direito legítimo, nasceu a
luta atroz das represálias que os trouxe horrorizados e arredios da civilização", escreve Jacques Ourique.
Os Botucudos do sul, fisicamente considerados, eram
"altos, robustos, bem conformados e dotados de fisionomia
regular e simpática. Sua força múscular e elevada estatura
foram proverbiais em ambas as províncias", do Paraná e de
Santa Catarina. Eram sagazes, astutos e pacientes, e notáveis fisionomistas, pois reconheciam, após muitos anos, pessoas que houvessem visto uma única vez. Imitavam com rara habilidade os sons emitidos pelos animais da floresta e as
palavras das pessoas, que ouviam dos seus esconderijos. A este respeito conta o autor citado: — "Por mais de uma vez
o servente que tinha a balisa no estacamento das picadas, fixava-a ao ouvir a voz do agrimensor gritar: — Aí! enquanto que este nada dissera. Era o selvagem que acompanhava
o serviço das turmas, oculto no mato, só se manifestando por
estes e por outros idênticos atos da agreste inteligência e
pueril divertimento".
HISTÓRIA DO- PARANÁ
125
Sua paciência e perseverança eram admiráveis. Durante dias e até mêses aguardavam a ocasião propícia aos ataques que faziam aos tropeiros e aos odiosos "afugentadores".
Os seus inimigos viam nessas precauções atos de covardia,
pois preferiam "que o índio se atirasse nú e armado de simples cacête ou arcos cujas flechas se desviam com o menor
obstáculo, ao encontro das balas certeiras de suas carabinas
e do golpe afiado das suas adagas".
2 — O Colonizador Ibérico
O território hoje paranaense foi primeira e efetivamente povoado, após o descobrimento, por portuguêses e espanhóis e seus descendentes vindos das vilas da capitania
paulista, de S. Vicente, Piratininga, Paraíba do Sul, etc.
Dizemos "efetivamente" porque os primeiros a ocupar
terras do Paraná atual foram espanhóis do Paraguai conforme se verá do capítulo referente ao povoamento de Guaíra.
Esse povoamento, porém, não teve continuidade histórica, dele restaado, desde as primeiras decádas do século XVII, apenas as ruinas de suas pequenas cidades.
Há que dar, pois, preferência àqueles que fundaram as
nossas duas primeiras povoações orientais, até os nossos dias
existentes, que foram Paranaguá no litoral e Curitiba no planalto, descendentes, como ficou dito, dos dois povos ibéricos
que entre si partilharam o centro e o sul do Novo Mundo.
O Português faz parte da série de tipos antropológicos
classificados sob a denominação de tipos Europeus Morenos,
com os seguintes caracteres: olhos negros ou pardos, cabelos
pretos e pele branca, amorenando fàcilmente sob a ação solar. (Paul Topinard,
UAntropologie).
"Os demais caracteres que lhe são comuns com o Tipo
Europeu Louro, são: tez sempre branca nas crianças, barba
abundante, cabelos finos, lisos ou ondeados, crâneo apresentando um oval de contornos regular, arcadas zigomáticas
ocultas, fronte larga na base, sem ser fugidia nem bombeada
no vertice, bossas frontais sobresaindo distintamente porém
sem excesso, rosto antes oval do que alongado mas sem exagero dos ossos malares, nariz de ponta fina e paredes laterais reunindo-se em ângulo agúdo, narinas elípticas quasi
paralelas, esqueleto do nariz leptorrhineo ou mesorrhico,
maxilas e dentes dispostos em uma linha quasi reta, boca pequena, dentes retos compridos, branco-azulados ou brancoamarelados, sujeitos à cárie; queixo saliente, orelhas de fôrma oval alongada, estatura mediana, peito amplo, espaduas
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ROMárIO
MARTINS
largas, curvatura dos rins bem pronunciada, músculos firmes". (Anibal Mascarenhas, História do Brasil).
Acrescenta o autor citado: — "Estes os principais caracteres do Tipo Europeu Moreno; no português, porém, que é
o resultado de numerosos cruzamentos, todos estes caracteres são muito variados".
O quanto podem afirmar os estudiosos da origem dos
primeiros povos que ingressaram na península ibérica e se
amalgamaram com os nativos aí encontrados, esses povos
foram os Iberos, da raça uralo-altaica, do tronco turano com
vestígios no dialeto euskara ainda falado entre camponêses
espanhóis das Vascongadas.
Outras migrações se sucederam na península, arianas
e semíticas.
Cronologicamente, a começar das mais antigas, foram aí
ter os celtas, os fenícios, os gregos, os cartaginêses (libiocosfenícios), os romanos, os suevos, os godos e os árabes.
As raças principais formadoras do tipo étnico Português,
foram a Ibera, dominante em 85% da população, a Nórdica
(Minho, Douro, Tras os Montes e as duas Beiras, donde procediam numerosos dos nossos povoadores seicentistas), Celta ou celtizados (14% da população, sendo o Minho o seu
centro de maior frequência) influências semíticas dos Árabes no Alentejo, dos Fenícios nas costas do litoral, dos Judeus
de tipo armenoide e negroides berberizados Mouros, em tipos
isolados, manifestações de atavismo; os tipos germanoides
que na proporção de 5% apareceram entre os recrutas de
1917, segundo verificaram antropologistas americanos.
As do tipo Espanhol são as mesmas, os tipos germanoides, entre os recrutas espanhóis, segundo os antropologistas
Yoke e Yokun, foram verificados na proporção de 10%.
*** A constituição do direito português, bem como a
do espanhol, procede principalmente de três origens: o romano, o germânico e o canonico, aliás formadoras das leis
gerais entre todas as nações modernas. (Vide, para melhor
estudo desta matéria, a História do Direito Nacional de Martins Júnior e Raças Históricas da Península Ibérica e sua Influência no Direito Português de Julio de Vilhena).
*** A língua portuguêsa, como a espanhola, pertence
ao grupo das línguas neo-latinas ou romanicas. "Constituiuse sôbre um fundo de latim bárbaro e com elementos subtraídos às línguas dos diversos povos que peregrinaram pela
península Ibérica ou desta região fizeram a última estação
HISTÓRIA DO- PARANÁ
127
do seu movimento migratório. (Anibal Mascarenhas, História do Brasil).
A literatura, a partir da independência do condado de
Porto Cale até a passagem de Portugal para os domínios de
Castela, pode-se dividir em três épocas: — a dos trovadores
(séculos X I I a X I V ) , a dos poetas palacianos (século X V ) e
a dos quinhentistas (século X V I ) , da renascença do espírito
clássico que se vinha elaborando nos conventos e na universidade de Coimbra desde a independência do país.
Esta última fase (1500-1581) foi da luta entre o classissismo e a literatura popular ou medicoica do lirismo provençal de fôrmas galezianas dos trovadores.
No século X V I surge Camões com os Lusíadas, o poema
padrão do gênio português e assinala, em páginas luminosas,
a entrada triunfal da literatura portuguêsa na arena das
conquistas intelectuais da humanidade.
É o século dos historiadores e dos clássicos da língua,
— Damião de Góes, Fernão Lopes, Antonio Galvão, João de
Barros, Diogo do 2outo, do Teatro de Gil Vicente. Mas é
também o século da inquisição, que, dominando Portugal, interrompeu o surto das letras e das artes. (Vide, para melhor
estudo desta matéria a História da Literatura Portuguêsa de
Teófilo Braga).
*** Nas artes sobressai a arquitetura sobre a pintura e
principalmente sôbre a música.
Os estilos árabes e romanos começam a ser influenciados pelo gótico, embora ainda confusamente, no mosteiro de
Leça do Balio, até que a Igreja da Batalha marca, nas suas
filigranas e rendilhas de granito, nas louçanias de suas ogivas, flechas e arabescos, na estatuária grave e magestosa, —
a presença de um dos mais belos monumentos góticos da Europa, "na mesma linha das catedrais de Strasburgo, Colonia,
Notre Dame e York". (Anibal Mascarenhas, Curso de História do Brasil).
Na pintura, Grão Vasco (última metade do século X V )
havia se destacado genialmente sôbre os demais pintores secundários, decorando a Sé de Vizeu, e arte da iluminura ainda no século X V I repetia artistas de mérito.
A música quinhentista ainda era muito primitiva, variando entre as fôrmas ingênuas ou místicas das melopéias
populares e do cantochão conventual.
*** Ao tempo do descobrimento e da colonização do
Brasil, o povo português se achava dominado por uma fé ar-
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ROMÁRIO
MARTINS
dente e constante na religião cristã. O cristianismo presidia
todas as suas manifestações, individuais e coletivas, até mesmo as de caráter político.
Suas próprias excursões temerárias por mares e terras
distantes, eram impelidas pelo desejo de levar a cruz de Cristo e os seus ensinamentos ao seio do gentilismo.
Os seus artistas eram inspirados pelas cenas da Idade
Média. Seus nautas e seus soldados partiam como se fossem para uma verdadeira Cruzada da Fé e por toda a parte,
entre todas as classes, entre todas as inteligências, da mais
rude à mais culta, "a devoção religiosa exteriorisava esse subjetivismo religioso em complicado culto e variadas práticas
místicas" — escreve o autor acima citado. Mas juntamente
com a fé na religião consagrada e oficial, acrescenta, — "era
geral a crença em uma infinidade de superstições".
Os feiticeiros, as bruxas, os lobishomens, as mulas sem
cabeça, as sereias, as almas do outro mundo, povoavam a
imaginação do povo — e toda essa família estranha foi transportada para o Brasil, onde veio cruzar os sacis, os currupiras, as oiáras da grei cabocla.
3 — O Africano Escravizado
O terceiro fator étnico que influiu na formação do povo
brasileiro foi o representado pelo negro africano transado na
sua pátria e trazido para a nossa, como escravo, pelos conquistadores .
Como os índios, os negros foram agentes da riqueza colonial, individual e pública, e elemento formador da nossa
nacionalidade. Procediam da faixa litoral da África "entre a
Guiné, na costa ocidental, até Moçambique, na costa oriental" e também da Costa de Mina; aqueles das cabildas dos
Berberes, Jalofos, Mandingas, Felupos, Congos, Angolas, Benguélas, etc.
*** Falavam línguas diversas, segundo sua procedência,
denominadas Kinkunda, Yoruba, Congo, Loango, Benguéla,
Mandinga, Camba, Molua, Wolof e seus dialetos, quasi todas,
porém, pertencentes ao grupo Bantú (Abel Hovelacque) indicativo do plural de homens.
As línguas deste grupo, filiadas à família das aglutinantes, são em geral suaves e harmoniosas.
"Têm fonologia poderosa. As palavras acabam sempre
em vogais,, principalmente a e o, e apresentam alterações re-
H I S T Ó R I A DO- P A R A N Á
129
guiares de vogais e consoantes, pelo que se lhe deu o nome
de línguas aliterais.
"Os radicais são quasi sempre monossilábicos e as palavras formam-se pela adição a esses radicais de partículas modificativas, sempre prefixas. Depois desta junção os radicais
se transformam em verdadeiras raizes que originam outras
palavras. Os verbos são também modificados na sua acepção
por meio de adição de partículas". (Anibal Mascarenhas,
História do Brasil).
*** Fetichistas ao extremo, adoravam ídolos de grosseira confecção e até mesmo simples pedaços de osso, penas, etc.
Alguns autores, porém, atribuem-lhes noção de uma divindade superior, o Zaambí ou Zumbi, servida por sacerdotes de
grande influência.
O que é certo é que os africanos introduzidos no Brasil
acreditavam na eficiência de fórmulas magicas e no poder
de espíritos maus.
São sem couta os casos de bruxarias praticados pelos
escravos negros, havendo entre êles sociedade de bruxedos
que se denominavam "Cangeré". Das suas práticas supersticiosas algumas passaram à nossa sociedade e até mesmo se
disseminaram por todos os povos ocidentais, como por exemplo o uso de "Figas".
*** Como artistas foram detestáveis. Os seus trabalhos
de pintura eram de uma infantilidade sem progresso, e a sua
escultura era informe. Na música e na dansa, porém, revelaram gosto e aptidão. Os seus instrumentos musicais eram:
o "Caxambú", tambor alongado, de um só diafragma, e diversos chocalhos. Sua dansa predileta o "Jongo", era o prazer dos terreiros das senzalas, que por um instante lhes fazia esquecer sua miserável condição de escravos.
*** Quasi todas as tribus eram polígamas e a fôrma
de casamento a compra de esposas. Mas em algumas tribus
já as mulheres iam conquistando certos direitos domésticos.
*** Seu regime político era, em geral, democrático, porém tribus havia que eram monarquicas, com uma classe
dinástica hereditária, donde saiam os reis, e outra, nobre
e vitalícia, produtora de conselheiros.
Ao povo cumpria obedecer e fazia-o passivamente até
mesmo quando o chefe era "déspota até ao assassínio e até
à loucura sanguinária". (Levingstone).
História do Paraná — 9
1 3 0 F>2
ROMÁRIO
MARTINS
*** Os sentimentos dos negros escravisados em nosso
país eram, em regra, os melhores possíveis, embora sua pouca capacidade de assimilação da cultura ariana se mostrasse desde logo evidente.
Gerações brasileiras de brancos deveram-lhes por longo
tempo desde o leite que as criou até essa dedicação afetuosa
que as seguiu na vida. Desde o trabalho isolado e rude que
mantinha a economia de lares os mais modestos, até o esforço de conjunto, nas fazendas, que realizou fortuna.
Sua influência no caráter brasileiro não pode ser obscurecida. O negro africano concorreu e muito, com a exuberância dos seus instintos afetivos, de resignação e de cordura,
despertados pela disciplina das senzalas, — para este espírito de tolerância e de desprendimento que fôrma o fundo do
nosso caráter..
*** No território paulista, que desde 1853 em diante
constituiu a Província, hoje Estado do Paraná e onde a indústria fundamental foi a pecuária a cargo de índios e seus
mestiços, e não a agrícola para a qual o negro era preferido,
— a introdução de africanos foi insignificante e ao tempo da
proclamação da República (recenseamento de 1890) a proporcionalidade do negro com o total da população atingia apenas
a 5,17%, um dos três menores coeficientes de todo o país, ao
passo que em S. Paulo era de 12,97%, no Rio de Janeiro, de
26,79%, e na Baíia de 29,30%.
Os tipos cruzados das três raças fundamentais brasileiras (portuguêsa, brasilio-guaraní e africana) era também, a
esse tempo, apenas de 18,66% (proporcionalidade do sul), enquanto no Norte do país, na Baía por exemplo, era ainda de
46,19.
*** Mais de um quarto de século é passado sôbre as verificações referidas (censo de 1890), e nesse período de tempo, como é natural, mais se elevou o teôr ariano da população paranaense pelo movimento natural e social de sua dinâmica, isto é, pelo excesso de natalidade verificado sôbre os
óbitos, pelos casamentos de descendentes de europeus puros
com mestiços dos dois tipos fundamentais da nossa sociedade e pela ininterrupta corrente imigratória, de slavos, germânicos e latinos, vultosamente encaminhada para as nossas
terras.
*** Aos tipos antropológicos resultantes de cruzamentos de indivíduos da raça negra (africanos) com indivíduos
HISTÓRIA DO- PARANÁ
131
brancos (europeus) e amarelos (brasilio-guaranís), foram
dadas, desde a segunda metade do século XVI, denominações
tupis tiradas das características peculiares a cada ordem de
mestiçagem.
Aos tipos resultantes desses cruzamentos, em que entrou
o sangue africano, se chamou:
Mulato — Branco e Negro.
Caboré — índio e Negro.
Xibáro — Caboré e Negro.
Curibóca — índio e Caboré.
Do ponto de vista antropológico o Caboré (também
chamado Cafuza e Zambo), pareceu o mais interessante a
von Martius e a Roquete Pinto — lembrando-lhes o Papua
de Nova Guiné pelo "cabelo encarapinhado, característico,
alto, como se a cabeleira fosse artificialmente levantada" e
pela tez bruno-café.
Do ponto de vista intelectual e social, porém, o mais notável tipo mestiço do Negro foi e é o Mulato, como fora o
Mameluco entre os mestiços de índio.
Ambos produziram perfeitos tipos eugênicos, que exerceram em nosso país larga e profunda influência, notabilisando-se em todas as manifestações da inteligência.
O Brasil seiscentista já "era o inferno dos negros, o purgatório dos brancos e o paraíso dos mulatos" — no dizer de
um cronista. E estava, então, o tráfico africano por assim dizer em ensaios, só chegando a se acentuar em continuas e
vultosas correntes no século XVIII, quando o "homo afer"
passou a suceder o indígena brasileiro nos trabalhos agrícolas e domésticos.
Às suas colonias da América não somente os portuguêses mas também os espanhóis, inglêses e francêses, a esse
tempo remetiam o escravo negro como matéria prima de
consumo economico, em grandes levas, primeiramente aos
centos, depois aos milhares, como manadas de gado dos currais para os mercados.
Na história desse hediondo comércio, "não há quasi nação européia que não esteja largamente representada, umas
mais cedo, outras mais tarde". (Afonso E. Taunay, Hist. Geral das Bandeiras).
Substituídos, pois, por africanos, os indígenas brasileiros que haviam servido à fase de formação da sociedade colo-
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ROMÁRIO
MARTINS
nial e realizado o ciclo glorioso dos descobrimentos, conquista e defesa do sertão e a exploração das minas com o mameluco, — ao escravo negro coube continuar e desenvolver o esforço economico da colonia na grande lavoura do café, do
açúcar, do algodão e do fumo, e concorrer com o seu sangue,
forte e generoso, como elemento da nossa raça.
Dos seus cruzamentos com o Branco, surgiu então esse
tipo de mestiço — o Mulato, a que se destinava larga e profunda influência social à seguir a independência política do
país.
Si nos tempos da Colonia ao Mulato acompanhou sempre o preconceito das classes maiorais, sendo-lhe recusados
os empregos públicos, o sacerdócio, a própria inclusão no
exército senão em regimentos especiais "de pardos" e até
mesmo se estabelecendo para ele alçada especial subalterna
na justiça pública, — por ocasião do advento da independência nacional já essa prevenção tinha cedido ante mulatos de notável inteligência, cultivada nos cursos secundários
e superiores fundados por D. João VI.
A sociedade brasileira já ia então reconhecendo as qualidades de inteligência de certas individualidades desse tipo de mestiço, embora e em regra nêle continuasse a ver
ainda "pouca solidez de estrutura moral" e "pouco equilíbrio
de caráter", inferiores mesmo a tais qualidades entre os Mamelucos. (Roquete Pinto, Antropologia).
*** São tais os efeitos do cruzamento de mestiços de
negro observados no Brasil, que se pode prever, ainda para
este século, o desaparecimento total dos seus restantes índices etiópicos na fisionomia da parte da população nacional
que lhe é correspondente.
Está assim o nosso país fazendo a sua evolução étnica e
social muito mais ràpidamente do que o fizeram quaisquer
dos povos europeus e realizando, muito mais perfeitamente,
a assimilação dos elementos bárbaros que entraram na formação das suas populações. Desses elementos não herdou o
brasileiro as qualidades egoísticas como as que habitam o
fundo psicológico das populações do Velho Mundo, antes, pelo contrário, constituiu-se, por desígnio insondável da Criação, um dos mais nobres tipos morais da Humanidade, do
ponto de vista social, político e moral.
Em confronto com povos do nosso próprio continente, resolvemos o problema negro com mais acerto do que êles: absorvendo o sangue de Can no "cerne da nacionalidade", de
que nos fala Euclides da Cunha referindo-se ao mestiço do
HISTÓRIA DO- PARANÁ
133
branco ibérico com o brasilio-guaraní. "Não se nos enquistou como problema insolúvel gerador de ódios de raça, nos
destinos da nossa grei, antes o resolvemos com a ajuda dos
arcanos providenciais, com êle elaborando um dos tipos antropológicos e etnográficos de mais notáveis qualidades ascencionais de que tem notícia a história moderna. Em quatro ou cinco gerações selecionadas para cima, não se o distingue do mais puro caucásico". (Américo Werneck, Um punhado de verdades).
"Os próprios negros retintos, sem mescla de sangue europeu, apresentam feições que se vão aproximando das raças
brancas: nariz afilado, beiços relativamente finos, olhos
grandes, testa larga, prognatismo quasi nulo, corpo desempenado. Só a carapinha e a cor se mantêm inalteradas".
(Aut. e Obr. cit.).
*** A população negra e mestiça de negro, nunca foi
numerosa no Paraná. Em 1780 nas vilas e freguezias de que
se compunha a Comarca de Paranaguá atingia a 12.941 os
habitantes, sendo apenas de 3.316 o número de escravos daquela origem.
O máximo total a que os escravos negro e mulato atingiram entre os paranaenses, foi, em 1872, de 10.560 numa
população branca de 116.162 almas.
Mais de meio século passado sôbre essa verificação censitária, elevou a população paranaense a mais de 1.000.000
de almas pelo aumento natural e pela imigração de europeus, e nela realizou, pelo cruzamento, grande baixa na percentagem de sangue africano, que ao proclamar-se a República já era, aliás, representada no Paraná por um dos três menores coeficientes dos Estados Brasileiros.
CAPITULO
VII
BANDEIRAS E BANDEIRANTES
1 —
2 —
3 —
4 —
Bandeiras Quinhentistas
Bandeiras Seiscentistas
Bandeiras Setecentistas
Bandeiras Povoadoras
1 — Bandeiras Quinhentistas
1541. D. Alvaro Nunes Cabeza de Vaca. Nomeado "adelantado" (governador) do Paraguai, com a missão de tomar
posse para a corôa de Castela das terras ao ocidente da linha limitrofe com as de Portugal, na América, — aportou
em Cananéa, que considerava porto espanhol e em S. Francisco, desembarcando a 29 de Março de 1541 na ilha de S.
Catarina, das três localidades se apossando em nome do seu
rei.
Com 250 homens de armas, 36 cavalos e alguns índios
vaqueanos, subiu o rio Itapucú, atravessou a Serra do Mar,
à margem oriental do Campo do Tenente e o Iguassú nas
proximidades da Araucária.
Daí seguiu Cabeza de Vaca com sua gente em demanda
do Rio Tibagí, onde chegou com 2 dias de viagem ao sítio da
atual Estação do Lago, alcançando, na altura da Aldeia de
Tapapurassú, a estrada que de Piratininga e Cananéa conduzia ao Paraguai. Prosseguindo, alcançou o Rio Taquarí
(Ivaí), onde foi socorrido com viveres que lhe ofereceram os
índios guaranis chefiados por Abangabí. Diz Gentil de Moura, ilustre geógrafo e historiador paulista, que o Ivaí foi
transposto pela expedição "entre o Salto do Ubá e a cidade
de Terezina".
De aldeia em aldeia de índios guaranis, como a do cacique Tocanguir, no Corumbataí, a expedição transpoz as serras da Esperança e do Cantú, fazendo um estágio reparador
de forças numa outra aldeia de guaranis e deixando, junto
ao Rio Cantú, Francisco Arejon com 14 espanhóis que afrouxaram na travessia. Reiniciada a viagem (1.° de Janeiro de
1542) com grandes sacrifícios, escassearam-lhes de tal maneira os viveres, que "tiveram de se alimentar de vermes de
taquara, que fxitavam, e de se dessedentarem com a água
das chuvas passadas que as canas guardam por muito tempo" . Chegaram por fim ao Rio Iguatú (Rio do Cobre) braço
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ROMÁRIO
MARTINS
principal do Piquiri, donde Cabeza de Vaca despachou dois
índios levando cartas para os oficiais espanhóis de Assunção,
avisando-os da sua viagem. Desse ponto a expedição rumou
com segurança no sentido do Iguassú, cuja barranca alcançou
a 31 de Janeiro, após 8 dias de marcha. Qual, porém, o ponto
deste rio atingido pelos expedicionários após a sua longa digressão pelas regiões de Araucária, Estação de Lago, Salto de
Ubá, Rio do Cobre e Catanduvas?
"Pela latitude que encontraram, de 25 e meio, parece
que o ponto da chegada deve ser correspondente ao meridiano de Catanduvas, que nos mapas do Paraná corresponde
mais ou menos à barra do Rio Cotegipe" — diz-nos Gentil de
Moura.
Uma vez aí, souberam dos índios que poderiam navegar
o Iguassú, mas que o gentio do Piquiri era hostil a essa passagem, devendo por isso se precaverem. D. Alvaro Nunes tomou as precisas precauções, dividindo em três a expedição
pela seguinte fôrma: duas seguiram pelas margens, à pé e
à cavalo, e a terceira, com o governador e 80 besteiros e espingardeiros, por água, em canoas compradas aos índios informantes. Assim chegaram todos aos Saltos de Santa Maria, onde vararam por terra as canoas, descendo até a barra
no rio Paraná.
Somente aí encontrou a expedição os tais índios hostis
aos viajantes contra os quais a preveniram os de Catanduvas.
Eram guaranis e em grande número. Diante, porém, dos
presentes que lhes foram dados voltaram à calma e até mesmo auxiliaram os itinerantes na travessia do rio. Novamente foi, então, dividida a bandeira castelhana. Cincoenta arcabuzeiros e besteiros e trinta doentes desceram, embarcados,
o Paraná e subiram o Paraguai, até Assunção; e a parte restante, com o governador, continuou por terra e chegou à capital paraguaia na manhã de 14 de Março de 1542.
1544. Domingos Martinez de Irala, cedendo a instâncias
dos caciques da província de Guaíra que lhe pediam proteção contra os índios tupis, aprestou uma forte expedição
militar e à frente dela marchou, dando combate e vencendo
os indígenas perseguidores das tribus reclamantes. Por essa ocasião, "admirado dos recursos e riquezas desta bela província e querendo, também, assegurar a liberdade de suas
comunicações com a costa do Brasil e com a metrópole, pon,do a nascente colonia ao abrigo das invasões dos portuguêses,
Irala decidiu fundar a cidade de Ontiveros, junto à margem
HISTÓRIA DO- PARANÁ
139
do Paraná, a uma légua distante de sua grande cachoeira".
(Alfredo Demersay, História Geral do Paraguai).
155. Nuflo de Chaves à frente de tropas que lhe foram
confiadas pelo governador Irala, partiu em Setembro com
o duplo objetivo de castigar tupis e conter portuguêses do
Brasil em suas incursões. "Chaves, depois de sair vencedor
de muitos combates, voltou a Assunção e o governador fez
logo partir a Rui Diaz Melgarejo com cem soldados para reduzir e distribuir em "comendas" os índios subjugados".
(Alfredo Demersay, obr. cit.).
1555. Capitão Rodrigo de Vergara que por ordem de Martinez Irala "adelantado" no Paraguai, conduziu a Guaíra sessenta espanhóis e com êles iniciou a cidade de Ontiveros nas
imediações da foz do Piquirí. Não teve bom êxito essa iniciativa, pois Ontiveros foi abandonada por sua população, já
em 1557 muito reduzida. Foi, então, tentada por Vergara a
mudança da povoação para três léguas distante, com a denominação de Ciudad Real dei Guaíra, repartindo-se, então,
entre sessenta soldados "comendeiros" os índios submetidos,
que Furnes (Ensayo de la Historia Civil dei Paraguay, tomo
I, pág. 162) informa terem sido 40.000. "Estes estabelecimentos (Ontiveros e Ciudad Real) que ao princípio prosperaram, não tardaram a decair pelo excessivo trabalho, exigido
por senhores ávidos de riquezas para quanto antes deixarem
o país e regressarem à Europa a gozar dos frutos de suas
violentas exações e de sua avareza". (Alfredo Demersay,
obr. cit., pág. 36).
1576. Ruy Dias Melgarejo, por determinação do "adelantado" João de Garay, fundou Vila Rica do Espírito Santo, na
província de Guaíra, a duas léguas do rio Paraná; "mas a
vizinhança dos portuguêses e o temor de seus ataques, em
breve obrigaram os fundadores a passar o rio, e foi somente
em 1580 que, depois de haver ocupado sucessivamente diversas posições, a cidade foi transferida definitivamente para
o lugar em que atualmente se acha". (Lat. 25.° 48' 57"; Long.
0.58° 51' 59"). Aos habitantes desta nova cidade foram reunidos os de Ciudad Real, que "reduziram a "comendas" a população da província e a repartiram entre si, completando
desta arte a obra principiada por Nuflo de Chaves em 1555"
(Alfredo Demersay, obr. cit., pág. 49).
Ruy Diaz Melgarejo era sevilhano. Serviu seis anos no
exército espanhol e em 1540 veio para o Paraguai com a es-
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ROMÁRIO
MARTINS
coita de D. Alvaro Nunes Cabeza de Vaca, de quem foi fiél
auxiliar no govêrno de Assunção, protestando sempre contra os que depuzeram esse "adelantado" e chefiando a reação
legalista. Em 1554 foi obrigado, por motivos políticos, a fugir para S. Vicente, pelo caminho dos índios (Peabirú depois
Caminho de S. Tomé), regressando ao Paraguai, no ano seguinte, por S. Francisco. Atravessou, pois, duas vezes, o
imenso sertão de Guaíra. Seu adversário político, mas seu
parente e admirador de sua inteligência e energia Martinez
de Irala, então no govêrno de Assunção, recebeu-o com agrado e o incumbiu de continuar o apossamento de Guaíra, iniciado em 1554 por Garcia Rodrigues de Vergara que fundára
Ontiveros próximo à foz do S. Francisco no Paraná. Fundou,
então Ciudad Real dei Guaíra nas proximidades da foz do
Piquirí e em 1576 estendeu o domínio castelhano até ao Ivaí,
onde, na foz do Corumbataí, fundou Vila Rica do Espírito
Santo em 1580 e para oeste até Mato Grosso onde fundou
Santiago de Xerez.
Melgarejo exerceu em Guaíra um domínio sem contraste, se bem que, em 1560 e nalguns anos seguintes, tivesse tido formidáveis embates com a população indígena, revoltada contra sua prepotência, e em 1570 contra o próprio govêrno paraguaio, que pretendeu lhe dar sucessor na pessoa
de Alonso Riquielme, sobrinho de Cabeza de Vaca, que êle
aprisionou e manteve algemado por muito tempo e continuou
a fazer, com mais violência ainda, o avassalamento dos índios, pelos sertões a dentro, "combatendo siempre con aquela fortuna que le aio nombre de capitan invencible", no dizer do seu biográfo Barros Arana.
Dele diz Afonso de E'. Taunay, que "era um desses terríveis homens de ferro de que foi a Espanha quinhentista
pródiga, e sua ação no nosso continente mostrou-o absolutamente notável como conquistador e povoador, no sentido brutal dos termos e de suas acepções americanas".
Sucedeu Melgarejo na governação de Guaíra, Don Antonio de Anasco.
1585. — O Capitão Mor de S. Vicente Jeronimo Leitão,
a quem moradores de Santos e de S. Vicente requereram autorização para que fosse feita guerra de prêa aos Carijós de
Paranaguá, não somente defere o pedido como êle próprio se
põe à frente da "bandeira" escravagista. Dessa bandeira fez
parte Diogo de Unhate, escrivão da Comarca de S. Paulo
que em 1614, 29 anos depois, alegando sua participação na
peleja, requereu e lhe foi concedida "uma data de sesmaria
H I S T Ó R I A DO- P A R A N Á
141
de terras na parte que se chama Paranaguá, começando na
barra do rio Ararapira, costeando a rumo de nordéste pela
costa até a barra de Superaguí, costeando a rumo de sudoéste toda a terra que houver dentro destes dois rios e duas léguas pelo mato dentro, estendendo-se esta data desde a ponta do Iguacetuba, correndo ao norte até dar no primeiro rio
grande". (Livro de Registros de Sesmarias, de S. Paulo).
Ainda hoje conserva o seu nome um rio em Superaguí, o que
parece atestar que Unhate povoou as terras que lhe foram
concedidas, porém em 1636 "era morador na vila de Santos",
passando por ser fundador de S. Sebastião conjuntamente
com João de Abreu. (José Jacinto Ribeiro, Cronologia Paulista, 1 vol., pág. 364).
Fizeram parte como dirigentes desta bandeira, "primeira
afirmação positiva da escravização dos índios". (Taunay,
História Geral das Bandeiras Paulistas, 1 vol., 171) além dos
citados Capitão Mor e Escrivão da Câmara de São Paulo, —
Diogo Teixeira de Carvalho, Afonso Sardinha, Antonio de
Proença, moço fidalgo da Câmara do Infante D. Luiz, Sebastião Leme. Manuel Ribeiro, Paulo Rodrigues, Manoel Fernandes Ramos, Domingos Dias, o velho, padre Sebastião de
Paiva, Salvador Pires, o moço, e Afonso Dias. (Arquivo Municipal de S. Paulo, Livro do Tombo).
Informa Taunay, referindo-se a toda a região dos Carijós, que "durante seis anos Leitão assolou as aldeias de
Anhembí. ( * ) Pretende o depoimento de jesuítas que tais aldeias chegavam a ser 300 com 30.000 habitantes que os portuguêses e mamelucos, seus filhos, exterminaram ou arrastaram ao cativeiro".
A bandeira de 1585 primeira lançada no sertão dos Carijós, foi pedida ao Capitão Mor Leitão como — uma necessidade para os habitantes de S. Vicente, — para a aquisição
de escravos, — para "alargar a terra", — sob o pretexto de
vingar a bandeira mandada ao sertão por Martim Afonso e
trucidada pelos selvagens à margem do Iguassú em 1531.
1594. Jorge Correia. Substituindo a Jeronimo Monteiro
como Capitão Mor da Capitania de S. Vicente, Jorge Correia
dirige contra os Carijós irrequietos e os Tupinaens, ao sul de
S. Paulo, uma expedição não só registrada por Pedro Taques, como constante da Provisão de cavaleiro fidalgo, outorgada por Don Francisco de Souza a Sebastião de Freitas
( * ) Anhembí era o nome do supremo quichána dos Carijós de Paranaguá.. Era, também, a denominação primitiva do rio Tietê..
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MARTINS
que dela fez parte depois de sua chegada da Baía. (Registro
da Câmara Municipal de S. Paulo, vol. 1, 104, cit. por Alfredo Ellis Júnior, O Bandeirismo Paulista e o Recuo do Meridiano, 12).
1595. Manoel Soeiro leva uma bandeira de prêa contra
os Carijós do litoral paranaguense. Dessa bandeira fez parte Sebastião de Freitas, que figurou na bandeira de Jorge
Correia com o mesmo objetivo.
2 — Bandeiras Seiscentistas
1601. Hernando Arias de Saavedra "adelantado" de Assunção, desde o início do seu governo tratou de dilatar o domínio espanhol com novas conquistas. Combateu os índios
insubmissos onde êles assim se manifestaram, em direção ao
estreito de Magalhães, cerca de 200 léguas ao sul e no Grande Chaco e triunfou dos Guaicurús. "Não se saiu com tanta felicidade de suas expedições dirigidas à vasta província
de Guaíra, cuios habitantes se tinham rebelado para se livrarem das exãções e maus tratamentos dos comendadores".
Avultado número dos seus soldados foram sacrificados na luta, desanimando Saavedra de submeter os guairenhos. De
volta à Assunção, vencido pelas flechas guaranis do imenso
exército regionalista de Guairacá, teve uma iniciativa inteligente: — sugeriu a Felipe III, seu soberano, a renúncia das
armas na submissão do gentio e a sua substituição pela conversão confiada a missionários que lhes levassem a palavra
do Evangelho. A Carta Régia de 1608 é resultante dessa sugestão e aos padres Simão Maceta e José Cataldino, jesuítas
italianos, foi confiada a pacificação e a civilização de Guaíra.
(Alfredo Demersay, obr. cit., pág. 53).
1609. Nicolau Barreto, com "um enorme corpo de 300 índios mansos de arco, mamelucos e europeus", percorreu o Caminho do Piquirí que de São Paulo atravessava o território
de Guaíra até a confluência daquele rio no rio Paraná, e prosseguiu, rumo do Perú visando Potosi, tendo atravessado os
rios Paraguai e Pilcomayo, — em busca de ouro peruano.
(Alfredo Ellis Jr., obrs. cit. págs. 19 e Segs.).
1607. Manoel Preto. Diversas bandeiras levou ao sertão
de -Guaíra. Em 1607 chegava a S. Paulo, de regresso de uma
farta caçada de índios nas provimidades de Vila Rica do Es-
HISTÓRIA DO- PARANÁ
143
pírito Santo (rio Ivaí), com esse gentio povoando a sua fazenda de N. S. da Expectação (hoje N. S. do Ó ) .
Voltou ao Guaíra em 1611, 1618, 1623 e 1629, quando faleceu no sertão, flechado pelos índios que perseguia. Em 1618
tirou grandes contingentes de índios das aldeias de Jesus
Maria e de Santo Inácio; em 1623-24 atacou outras reduções
e aprisionou cerca de 1.000 índios; e em 1629, com Antonio
Raposo Tavares, realizou a destruição das reduções de Santo
Antonio, S. Miguel, Jesus Maria, Encarnación, S. Xavier e
S. José.
1611. Pero Vaz de Barros, sob os auspícios de D. Luiz de
Souza investe sôbre Guaíra. Esta bandeira é por alguns autores atribuída ao mando de Fernão Paes de Barros, filho
de Pero Vaz, que nem siquer existia nesse tempo, pois nasceu
em 1623 segundo investigações de Basilio de Magalhães e
Gentil de Assis Moura.
Pero Vaz atacou com êxito o povo do cacique Taubiu e
outras aldeias de índios independentes de Guaíra, conseguindo arrebanhar centenas de famílias, que alguns autores elevam a 800. Já iniciada a marcha de regresso para S. Paulo
foi a coluna atacada pelo governador do Paraguai D. Antonio de Ansco, sendo obrigada a abandonar a prêsa. Foi esse
o maior revés bandeirante em Guaíra, talvez ocorrido devido
ao próprio número, tão vultoso, de prisioneiros.
1612. Sebastião Preto. Segundo Basilio de Magalhães e
Taunay, este notável sertanista em 1612 se encontrava no
Guaíra e a ésse sertão voltou em 1623.
1615. Lazaro da Costa. Em 1615 o Capitão Lazaro da Costa lançou-se "com grande acompanhamento de paulistas e
índios mansos" contra os Carijós do sertão do sul.
1623. Henrique da Cunha Gago, o velho, em Novembro
deste ano estava internado no Sertão dos Carijós "provàvelmente no Guaíra" diz Alfredo Ellis Jr., obr. cit., 48. Faleceu
nesse sertão.
1628. Antonio Raposo Tavares e Manoel Preto, que com
uma formidável bandeira constituída de 900 mamelucos e
2.000 índios auxiliares, dirigidos por 69 paulistas qualificados como loco-tenentes de Raposo, partiram de S. Paulo a 18
de Setembro de 1628 e em Março de 1629 atacaram as reduções jesuíticas de Guaíra pela parte suleste, (Basilio Maga-
144 F>2
ROMárIO
MARTINS
lhães, obr. cit.). O itinerário desta bandeira não está isento
de controvérsia entre os seus historiadores, que adotam "a
subida da Ribeira de Iguapé", divergindo deles Afonso de E.
Taunay (Hist. Geral das Bandeiras Paulistas, tomo II, 74),
que opina pelo caminho do planalto, em direção a Itararé,
"comunicação pré-colonial chamada pelos índios Peabirú e
caminho de S. Tomé pelos jesuítas, que com uma largura de
8 palmos e a extensão de 200 léguas, ia da Capitania de S.
Vicente, na costa do Brasil, até às margens do rio Paraná,
passando os rios Tibagí, Ivaí e Piquirí".
Esta bandeira construiu à esquerda do Tibagí um campo entrincheirado, "palisada e fuerte de paios, cerca de nuestras aldeas", (Padre Simão Maceta em sua reclamação ao
Governador Geral do Brasil) daí partindo os destacamentos
atacantes.
Durante quatro mêses estiveram os paulistas acampados
nessa posição, "captivando com mucha crueldad a los gentiles que aun no estavan reducidos por falta de padres".
Assim se mantiveram os bandeirantes e as autoridades
religiosas de Guaíra neste entendimento, chegando os padres a ministrar o sacramento do batismo aos índios enfermos, em pleno acampamento paulista e o da confissão aos
guerreiros bandeirantes a seus próprios chamados. Por vezes, pelo campo paulista passaram índios munidos de salvo
conduto jesuítico".
Ocorreu, porém, um incidente que pretextou a deflagração do ataque às reduções. Um índio chamado Tataurana
escravizado por Simão Alvares em anterior excursão e presente nesta bandeira, outrora "cacique muy grande y de muchos vassalos", fugiu do acampamento bandeirante e foi asilar-se na redução de Santo Antonio, alegando ser seu antigo
catechumeno. Reclamado o fugitivo pelos paulistas, o padre
Pedro Mola recusou-se a restituí-lo alegando ser "injusto cativar-se um homem livre e cristão".
No dia seguinte, 30 de Janeiro de 1629, foi a redução
assaltada por ordem de Antonio Raposo Tavares "a sacar por
fuerça de armas no solamente al dicho Tataurana, sino tambien a toda la demais gente que el padre estaba dotrinando",
escreve padre Mola em carta ao seu Provincial.
Afonso de E. Taunay, obr. cit., dá um conciso mas claro
resumo da Relación de los agravos que hizieram algunos vezinos y moradores de la vila de S. Pablo de Piratininga, saqueando las Aldeas de los Padres de la Companhia de Jesus,
em la Missión de Guayra e Campos dei Iguaçu em la governación dei Paraguay.
H I S T Ó R I A DO- P A R A N Á
145
Não houve resistência alguma, escreve Taunay, fazendo os bandeirantes dois mil prisioneiros. "Destruyeron a toda la aldea, queimando muchas casas, ribando la yglesia y
casa dei padre", diz a Relación de los agravros.
Quem dirigiu o assalto a Santo Antonio foi o próprio Simão Alvares, relatam os pares Mancilla e Maceta. Destruida
a redução, recolheu-se com a prêsa para a palissada.
A 23 de Março, cerca de dois mêses depois da destruição
desta redução, os paulistas sob o comando de Antonio Bicudo
de Mendonça, atacaram a de S. Miguel de Ibituruna, mas a
encontraram abandonada, e a 29 do mesmo mês Manoel Mourato, com um destacamento do exército de Manoel Preto, atacou a de Jesus Maria, onde aprisionou a população, entre a
qual 1.500 homens válidos.
Pedro Vaz de Barros e Braz Leme, com outro destacamento, seguiram outros rumos, com insucesso. Os índios de
Caaiú, no Ivaí e em Ibiaguira lhes ofereceram tenaz e violenta resistência. "Volvieram sin gente e com mucha perdida e muerte de los suyos por las guerras continuas que lhes
hizo el gentio bravo en que dieram".
Os catecumenos das reduções da província de Taiobá,
Encarnación, S. Paulo, Los Angeles e S. Tomé abandonaram
suas aldeias e se internaram no sertão. Os índios debandados acusavam os padres de conluio com os paulistas e procuravam atacá-los.
Assolado o Guaíra, começou a retirada da bandeira, de
regresso a S. Paulo, com os índios prisioneiros que iriam povoar as fazendas dessa e de outras capitanias, vendidos até
na Baía e em Pernambuco. Por toda a parte acompanharam os escravizados os padres Mansilla e Maceta, afim de
lhes conseguir a liberdade. Seus protestos e rogos incansáveis não tiveram êxito. A cumplicidade na razia de Guaíra
atingia a quasi toda a população paulista, as autoridades
mais qualificadas e até aos padres.
Taunay, obr. cit. 95, diz: — "Foi empresa cruel, crudelíssima mesmo, ninguém o pode negar. Teve porém as mais
notáveis consequências para o futuro do Brasil. Não fôra a
ação de Antonio Raposo Tavares, e a fronteira do Brasil seria hoje o Paranapanema. E Mato Grosso também não nos
pertencera, hispanisado pelas reduções dos Itatins".
*** Raposo Tavares voltou ao sertão paranaense em
1631, atacou os "pueblos" espanhóis de Vila Rica e os restos
de Ciudad Real dei Guaíra, e, transpondo o rio Paraná, atingiu com sua obstinada e intrépida apressividade, o "pueblo"
História do Paraná — 10
146 F>2
ROMÁRIO MARTINS
de Santiago de Xéres. Em 1636 atingiu a província de Tape, (Rio Grande do Sul) com uma bandeira de 120 paulistas
e mais de 1.000 índios tupis. "Tomou a bandeira o caminho
do Guaíra, passando pelo Assunguí e Sertão dos Carijós",
diz Ellis Jr. obr. cit., 82.
1628. Mateus Luiz Grou, que partindo de S. Paulo a 18
de Outubro, atingiu o rio Assunguí tendo atravessado o sertão de Ibiaguira, "passagem forçada para a penetração na
região das reduções do alto Tibagí". "De S. Paulo às nascentes do Assunguí, mede, em linha reta, cerca de 400 quilômetros, o que quer dizer que a bandeira teve a vencer mais
de 600 quilômetros através de obstáculos naturais de todo
o gênero, devendo levar para chegar ao seu alvo pelo menos
três mêses, de onde se conclue que em Janeiro de 1629 devia a expedição estar trilhando nas proximidades de Ibiaguira". (Basilio de Magalhães, Rev. Inst. Hist. Bras., tomo
esp. vol. II; Afonso de E. Taunay, História Geral das Bandeiras Paulistas, Tomo II, 75).
1648. Antonio Domingues. Esta vultosa bandeira é assinalada no sertão em Junho de 1648, no testamento e inventário de Antonio Dias, segundo pesquizou Alfredo Ellis Juniior (obr. cit. 144), porém são conjeturais as notícias das regiões que atingiu, dadas pelos que a registam nas crônicas
bandeirantes. O ilustre autor citado acima diz que "infelizmente nos documentos examinados não encontrou dados
para concluir quais as -paragens por onde andou essa grande
turma de desbravadores do sertão e conquistadores de índios".
E indaga si seria uma das muitas bandeiras assinaladas
por documentos espanhóis em terras paraguaias, nesse ano
de 1648, referidas por Taunay, o grande iluminador do penumbroso esforço bandeirante ou si seria uma parte do segundo socorro paulista ao nordeste, nessa época ocupado pelos batavos de Nassau. Parece-nos que podemos intervir nessas pesquizas com um elemento esclarecedor de que a bandeira de Antonio Domingues palmilhou território paranaense.
E é assim que a lista de alguns dos seus componentes,
trazida à publicidade por Ellis, consta o nome de Balthazar
Carrasco dos Reis, um dos primeiros povoadores de Curitiba,
lugar que certamente escolheu para sua morada por o haver
conhecido por ocasião da passagem da bandeira de que fez
parte. O fato não é improvável. Repetia-se, comumente, en-
HISTÓRIA DO- PARANÁ
147
tre os aventureiros das bandeiras, "que se afazendavam nas
sesmarias que lhes eram da,das com generosidade nos sertões paranaenses", como bem diz Ellis Júnior (obr. cit., 202).
Balthazar Carrasco dos Reis, em 1645, residia na Parnaíba onde senhoreava escravos índios por êle preados no sertão
e em 1648 fazia parte da bandeira de Antonio Domingues.
Em 1661, 13 anos depois, quando obteve uma sesmaria no
Barigüi (a primeira concedida em Curitiba), já nesse sítio
residia "há alguns anos, com sua família", onde mantinha
criação de gado vacum, ovino e cavalar, conforme consta do
seu testamento feito em Curitiba a 22 de Julho de 1697, ano
em que faleceu.
A bandeira de Antonio Domingues, foi que motivou o
afazendamento de Balthazar Carrasco dos Reis "nos campos
do novo povo de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais" conforme diz a Carta de Sesmaria que a este povoador passou Salvador Corrêa de Sá, Governador do Rio de Janeiro, a 29 de
Junho de 1661.
1637. Francisco Bueno, irmão de Amador Bueno, o aclamado Rei em S. Paulo, filho do sevilhano Bartolomeu Bueno
da Ribeira e pai do Anhanguera, o velho. Saiu com numerosa tropa de paulistas e índios em princípios de 1637, de S.
Paulo, com destino à província dos Tapes (Rio Grande do
Sul) "passando, talvez, pelas cabeceiras do Ribeira, clássico
caminho do Guaíra e nascente do Tibagí. Atravessando os
Estados do Paraná e de Santa Catarina, penetrou no Rio
Grande, surgindo em Maio no rio Taquarí". (Alfredo Ellis
Júnior, obr. cit. 91).
Esta foi a bandeira que lançou o terror entre os Tapes,
atacados pelo sul e pelo norte. Os habitantes de Santa Tereza, em número de 4.000, entregaram-se-lhe sem resistência . Atacou, à seguir, S. Carlos de Caapi, Apostoles de Caazapaguazú, Candelária e Caaró, destrindo todas essas reduções
jesuíticas da Província do Uruguai, tendo consumido dois
anos nesses embates no sertão do sul.
1638-1661. Fernão Dias Paes Leme, o futuro caçador de
esmeraldas, saiu de S. Paulo em princípios deste ano, em demanda do sertão riograndense, "com uma formidável quadrilha de assalto". Alfredo de E. Taunay, o notável historiador das bandeiras paulistas, é de opinião haver esta bandeira
percorrido o Guaíra devastado na sua travessia para as regiões da província de Tape, onde arrazou as reduções do
Ibicuí e outras.
148 F>2
ROMÁRIO
MARTINS
Em 1661, depois de longa trégua à sua ação sertanista
Fernão Dias lançou-se de novo ã vida bandeirante, no sertão de Guaíra, onde por largo tempo (três anos segundo alguns cronistas) acampou com sua tropa na região central
do Apucarana, junto ao "reino dos índios da nação Guaianá".
Reinavam aí três grandes caciques ciosos de sua soberania:
Sondá, Gravitai e Tombú, rivais entre si e em continuas
guerras.
Ornais poderoso era o rei Tombú, que tinha organizado
seu govêrno com verdadeiros requintes magestáticos. À
frente do seu rústico palácio havia como armas do reino um
ramo seco com três araras vivas. Havia leis e costumes que
eram seguidos com severidade. Assistia-o no paço um mestre de cerimônias, que introduzia os vassalos às audiências
reais..
Falavam-lhe os seus súbditos "com os joelhos em terra,
sem jamais levantarem os olhos para a face do rei".
Sua saída do paço era feita em andor em que ia sentado, carregado sôbre os ombros de quatro dos principais do
reino. À sua passagem o povo se ajoelhava, na mais passiva
reverência e submissão, e nessa atitude ficava até que passasse o rei.
Fernão Dias poz cerco às feitorias e sementeiras desses
três reis, mas lhes fez ver não ser sua intenção vencê-los pelar armas, mas sim fazer com êles amizade e conduzi-los para o grêmio da igreja. Levou, porém, anos para os convencer. Quando o conseguiu, marcharam todos em direção a S.
Paulo, onde chegaram 5.000, sendo estabelecidos à margem
do Tietê, abaixo da vila de Santa Ana do Parnaíba. Sondá faleceu na viagem e poucos anos depois, no seu novo reino,
Tombú.
1640. Gabriel de Lara. A presença deste capitão povoador em Paranaguá é anterior a esta data, porém é ela a que
com precisão assinala a interferência de Lara nos destinos
dessa povoação, obtendo do Governador do Rio de Janeiro,
Duarte Correia Vasqueanes, consentimento para a ereção
do Pelourinho, símbolo da justiça d'El-Rei, o que se realizou
a 6 de Janeiro.
Lara passa por ser o primeiro povoador de Paranaguá
não porque se saiba ter sido seu primeiro habitante, que muito presumivelmente não foi, — mas porque, sem contestação, foi quem encaminhou os primeiros passos de sua organização política.
HISTÓRIA DO- PARANÁ
149
Gabriel de Lara já encontrou moradores fixos em Paranaguá, onde se iniciava o povoamento na ilha da Cotinga,
sendo um desses moradores Domingos Gonçalves Peneda ou
Caneda, de quem fala Ermelino de Leão (Dicionário Histórico e Geográfico do Paraná, 777) dizendo existir a seu respeito um manuscrito na biblioteca do Museu Britânico que o
declara fundador daquela localidade e o qualifica "homem
régulo e matador", fugido de S. Vicente com seus sequazes.
Em 1614, um quarto de século antes de se ter notícia
certa da presença de Lara em Paranaguá já era concedida
uma sesmaria a Diogo de Unhate entre as barras do Ararapira e do Superaguí, hoje no Município de Guaraquessaba,
onde, aliás, já em 1549, Hans Staden encontrára portuguêses de S. Vicente traficando com Tupiniquins.
Tudo isso, porém, é impreciso e pertence a um passado
que decerto nunca será conhecido à plena luz de documentos.
É, pois, a datar da ação de Gabriel de Lara, que começa
a história de Paranaguá, do seu povoamento, da agremiação
do indígena restante das preações às atividades dos povoadores, do descobrimento e exploração de minas de ouro, da sua
organização social, da sua fundação política. Lara é o Capitão Mor, o Ouvidor, o Alcaide, o Loco Tenente do Donatário, o Governador da Capitania em nome d'El-Rei.
De 1640 a 1682, quando faleceu, ocupou todos os postos
do poder público na terra que encontrou como um indeciso
núcleo de aventureiros e que soube conduzir e desenvolver
de modo a torná-la o mais importante centro de civilização,
no seu tempo, de todo o confim meridional da Colonia, depois de S. Vicente.
1649. Eleodoro Ébano Pereira foi o nome com que passou
à história do descobrimento, exploração, barretamento, marcação e quintagem de ouro no distrito de Paranaguá e nos
mais das repartições (partes, localidades) do sul da Capitania Geral do Rio de Janeiro e ao mesmo tempo do povoamento dos lugares onde estabeleceu arraiais de "mineradores, alguns deles origens de populações efetivas.
São diversos os Eleodoros (ou Leodoros) Ébano (ou Ébanos, Eubanos) citadps nas crônicas vicentistas, pelo que a
identidade do fundador dos arraiais que deram origem a Curitiba, não tem andado isenta de confusões com a de outras
personagens da história colonial, a despeito de haver dois
pontos de elucidação que excluem diversas dessas confusões,
150 F>2
ROMÁRIO MARTINS
que são a documentação da presença de Ébano em nossa terra nos anos de 1649 a 1652, — e o seu sobrenome Pereira
tirado de seu avô materno". (Vieira Fazenda, Elucidaçao HistÓTÍCCL)
Ébano não podia ter vindo em tão ardua missão sertanista ao "Mar e Costa do Sul" como diz em seus editais e ofícios (Arch. Mun. de Paranaguá), muito avançado em anos.
A mais moderna personagem desse nome que aparece nas
crônicas e referências de historiadores, é o Ébano que em
1638 foi Vereador no Rio de Janeiro (Auto de Correição feito pelo Ouvidor Geral Diogo de Sá da Rocha, a 3 de Março,
descoberto por Vieira Fazenda) e que 11 anos depois, em
1649, podia estar à frente da administração das minas de Paranaguá.
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Ébano se qualificava "General da Armada das Canoas de
Guerra desta Costa e Mar do Sul, de ordem do Administrador Geral das Minas Duarte Corrêa Vasqueanes por Sua Magestade que Deus guarde, etc." (Arquivo Municipal de Paranaguá, ofício ao Capitão Mor Gabriel de Lara, de 4 de Março
de 1649).
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Salvador Correia de Sá e Benevides, Governador do Rio
de Janeiro, chamava-o "Capitão Eleodoro Ébano" e acrescentava — "que com poderes está administrando as Minas de
Ouro da Capitania de Paranaguá e das mais desta repartição. (Arquivo Municipal de Paranaguá, ofício de 5 de Maio
de 1652).
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Não pode ser confundido, por conseguinte, como pretenderam alguns cronistas, com seus homonimos e parentes
(sem Pereira). O Eleodoro Ébano Pereira que de 1648 a 1652
(datas precisas, constantes dos dois documentos citados acima) é o Eleodoro Ébano Pereira a quem Pedro Taques atribue o descobrimento e entabolamento de minas de ouro em
Paranaguá em meados do século X V I I (1648) e nao como
pretendeu preclaro e saudoso historiador paranaense, o Heleodoro Eobanos "filho do poeta alemão Eoban, de Hessen,
que o dicionário Larousse menciona». (Vide Pedro Taques,
Hist. da Capitania de S. Vicente; Afonso de E. Taunay, Hist.
Geral das Bandeiras Paulistas, vol. V, 199).
O Eleodoro Eobanos que Hans Staden encontrou na Bertioga em 1552, como feitor de engenho e o que estava em Paranaguá, em 1648, como administrador das minas de ouro do
sul são duas personalidades homonimas, — pois entre as
duas citadas datas decorrem 96 anos, e, ainda assim e precuso
convir que o encontrado como feitor na Bertioga, para exercer este mister, deveria ter algumas dezenas de anos, duas
HISTÓRIA DO- PARANÁ
151
pelo menos, — o que tudo soma 116 anos em 1648 e 120 em
1652!
Argumenta-se que antigos cronistas, repetidos por modernos, fazem remontar o descobrimento e a exploração de
ouro em Paranaguá ao ano de 1578 ou 1580 (Vieira dos Santos, Memória Histórica de Paranaguá) e que, assim, Ébano,
incumbido de as descobrir e administrar, nesta época é que
estava desempenhando a sua incumbência. O ofício de Salvador de Sá, citado acima, destrói essa asserção.
Mas ainda que assim não fosse, que não houvesse essa
insofismável prova, haveria a de que entre os anos de 1578 e
1580, Paranaguá estava na posse absoluta dos índios Carijós; que o primeiro recontro com os brancos nessa região se
deu no ano de 1585 com a bandeira de Jeronimo Leitão; e
que ainda em 1594 e 1595, repetiram tais pelejas as bandeiras de Jorge Correia e de Manoel Soero.
É evidente, diante destes fatos, que não era possível a
exploração de ouro em tais condições, em terras ainda inteiramente dominadas pelos selvagens. Ao dizer de Pizarro
(Memórias Hitsóricas do Rio de Janeiro, que motivou repetições de autores nossos contemporâneos) de que antes de 1578
já eram exploradas as jazidas auríferas de Paranaguá, não
pode ser dada, por conseguinte, senjão uma bem limitada extensão, isto, ainda assim, com prudentes reservas.
1679. Manoel de Lemos Conde. Quando Don Rodrigo de
Castelo Branco esteve em Paranaguá com sua aparatosa expedição pesquizadora de prata, era ali Lemos Conde provedor das minas e havia anunciado o descobrimento de jazidas
desse mineral ao Governador Geral Furtado de Mendonça
e ao próprio rei de Portugal. Foi-lhe, pois, confiada uma
bandeira para ir ao sertão buscar a prata que afirmara ter
sido descoberta e descobrir outras se possível fosse. A bem
aprestada expedição transpoz a Serra do Mar, penetrou
nos Campos Gerais, derivou para o sul até ao Iguassú e o
Uruguai e nada descobriu. Entretanto, a esse tempo, era corrente em Paranaguá a existência de prata além da Serra e
até mesmo na própria Serra.
Lemos Conde foi vítima da ilusão coletiva que fazia supor o sertão um imenso cofre de todas as riquezas que as
ambições desejassem. Don Rodrigo, irritado com o desengano, destituiu-o do cargo de Provedor das Minas, confiscoulhe os bens e prendeu-o. Em 1681, ainda preso, Lemos Conde suicidou-se. E com êle desapareceu uma ilusão que fizera e desfizera tantas esperanças.
152 F>2
ROMÁRIO
MARTINS
1680. Salvador Jorge Velho, celebrado sertanista, descobriu e explorou minas de ouro no sertão de Curitiba, "de onde trouxe considerável riqueza e para onde voltou outra vez,
em 1699, com seu irmão Simão Jorge Velho". (M. E. de Azevedo Marques, Apont. Hist. da Prov. de S. Paulo, vol. II, 140).
"A vila de Curitiba, em serra-acima, tem minas de ouro de
lavagem, e tão antigas que foram descobertas no ano de
1680, pelo paulista Salvador Jorge Velho, em diversos ribeirões e sítios, cujas lavras existem ainda com avultado rendimento". (Pedro Taques, História da Capitania de S. Vicente,
escrita em 1772. Vide Rev. do Inst. Hist. Bras., vol. IX, 267).
Não se trataria, talvez, de uma bandeira regular, do tipo clássico paulista, a entrada de Salvador Jorge Velho no
então chamado Sertão de Curitiba, pois não a vemos assinalada por nenhum dos pesquizadores do bandeirismo.
É de presumir, porém, que o audaz sertanista viesse à
empresa que por vários motivos requeria ajuda, com um corpo de aventureiros, grande ou pequeno, e esse corpo era uma
bandeira, no sentido de "entrada", expedição.
3 — Bandeiras Setecentistas
1720. Zacarias Dias'Cortes. Atribue-se a este sertanista
curitibano, o descobrimento dos Campos de Palmas. O intento da bandeira que dirigiu ao sul do Iguassú e que atingiu o
norte do Uruguai, foi a exploração do ouro que se dizia existente no morro do Ibituruna, onde as lendas da época situavam maravilhosas riquezas. A precedência deste descobrimento foi-lhe contestada por Fidel Franco Bolloto que para
isso justificou em juizo haver feito uma estrada no sertão,
associado com o capitão Gabriel Alves de Araujo e outros
curitibanos. Bolloto não conseguiu provar que sua exploração tivesse atingido os campos de Palmas, mas sim que havia explorado parte do sertão do sul.
A bandeira de Zacarias Dias Cortes descobriu e explorou
as lavras de Inhanguera das quais tirou, sob juramento que
fez perante o Provedor das Minas, apenas 1.000 oitavas responsabilizando-se pelo pagamento dos quintos reais, por não
poder pagá-los na ocasião.
Os seus descobrimentos tiveram, entretanto, grande repercussão. O Governador da Capitania de S. Paulo, que então era Rodrigo Cesar de Menezes, oficiou à Câmara de Curitiba para que exigisse de Cortes uma planta da região e um
diário do seu percurso, o que foi feito, pois Varnhagem possuiu
HISTÓRIA DO- PARANÁ
153
esse roteiro das minas do Inhanguera e diz que as terras ao
norte dos campos da Vacaria (Rio Grande do Sul), "isto é,
entre as cabeceiras do Uruguai e do Iguassú, eram já muito
conhecidas desde o século anterior, pelos mineiros de Curitiba, e por um antigo roteiro deles (que consigo levava o sargento mor Faria e que temos à vista) acerca das minas de
Inhanguera, haviam com toda a certeza chegado ao pé do
morro do Bituruna "que vai afocinhar no Uruguai" que tinha um campo "ao pé mui grande, mui razo e com muitos
butiás que dão muito e boa farinha e por baixo dos butiás
tem muita herva mimosa". E acrescenta o grande historiador
brasileiro: "Destes informes temos provas evidentes que os
nossos antigos mineiros tiveram exato conhecimento do campo modernamente chamado de Palmas e explorado de novo,
pois até tratam do "mato grosso carrasquento" que havia
para o sul e do rio que aí corre (o Chapecó) pelo pé da Serra
Negra, o qual diz o tal roteiro, vai buscar as cabeceiras de um
monte que fica a léste dela, pequeno e de forma cónica, com
uma campina ao pé". (Visconde de Porto Seguro, Varnhagem, História Geral do Brasil, II, 852).
Essa prova de que a bandeira do mineiro curitibano Zacarias Dias Cortes devassou os campos de Palmas e explorou
as lavras de Inhanguera, constituiu um dos argumentos do
Barão do Rio Branco na defesa dos direitos do Brasil ao território das Missões. (Vide Questão de Limites Brasileira-Argentina, vol. II, 125).
1730. Manoel Rodrigues da Mota. Os descobrimentos feitos pela bandeira de Zacarias Dias Cortes induziram o governador da Capitania de São Paulo, Antonio Caldeira Pimentel
a verificá-los e levar a efeito uma via de comunicação com
Viamão (Porto Alegre, R. G. S.) propugnada pelo sertanista
Bartolomeu Paes. Para isso confiou uma bandeira à direção do Sargento Mor Francisco de Souza Faria (que se guiou
pelo roteiro de Zacarias Dias Cortes, conforme diz Varnhagem) e a seguir outra a Manoel Rodrigues da Mota, indicado
pela Câmara de Curitiba. Mota fez às expensas suas todas
as despesas da bandeira que levou ao sertão do sul e que abriu
a picada até aos campos de Lages. A bandeira do Sargento
Mor Souza Faria, composta de milicianos e aventureiros paranaguenses, partiria da Laguna (S. C.) e o objetivo de ambas era. facilitar o transito até a Colonia do Sacramento, que
ao tempo era causa de desavenças entre portuguêses e castelhanos.
154 F>2
ROMÁRIO
MARTINS
As picadas, do norte e do sul, não se encontraram e foi
preciso lhes corrigir as diretrizes. Nova bandeira foi levantada, para proceder a retificação, e Manoel Rodrigues da
Mota manteve-se no sertão à sua custa.
Deve-se-lhe, pois, a abertura da "estrada do Mota" que
tantos serviços prestou ao povoamento do Rio Grande do Sul
e dos Campos Gerais de Curitiba e ao comércio de gado com
Sorocaba, — denominação que facilmente se alterou, pouco
depois, para "estrada da Mata", porque do rio Negro para o
sul atravessava região intensamente florestada.
1756. Angelo Pedroso. Este sertanista, diz Ermelino de
Leão, "explorou o sertão do Tibagí do qual levantou uma mapa, desenhado por Manoel Angelo Figueira de Aguiar, no qual
se vê a menção de dois campos de Guarapuava: um entre o
Rio Grande do Registo (Iguassú) e o rio Ubatuba (Ivaí) e
outro entre os rios Ivaí, Tibagí e Paranapanema". (Dic. Hist.
Geogr. do Paraná, 804).
Não se sabe se Angelo Pedroso levou para essa exploração grande ou pequena comitiva, nem o que pretendeu sua
entrada nesse sertão.
1760. Estevão Ribeiro Bayão, Capitão de Auxiliares da
Freguezia de S. José dos Pinhais, comandou a segunda bandeira exploradora do Tibagí, composta de 75 bandeirantes
curitibanos e sãojoseanos.
1768. Domingos Lopes Cascaes com 30 bandeirantes sem
remuneração, partiu a pé, de Curitiba, para o Sertão do Tibagí, a 5 de Dezembro. No porto de Caiacanga (no Iguassú)
embarcou numa monção de 3 canoas e desceu o Iguassú
"cousa de 70 léguas" até onde os saltos interrompem a navegação, e regressou a Caiacanga, após esta exploração, gastando três mêses na penosa viagem.
1769. Francisco Numes Pereira, Capitão de Auxiliares da
Vila de Iguapé, saiu de Curitiba a 12 de Agosto com 80 praças iguapenses e cananeanas, 2 alferes, 1 sargento, 4 cabos
e 1 tambor.
1769. Bruno da Costa Filgueira, que saiu de Curitiba, a
28 de Agosto com o fim de explorar os sertões da margem direita do rio do Registo (Iguassú), até a sua barra no Paraná.
1769. Antonio da Silveira Peixoto, comandou a quinta
bandeira levada ao ocidente, exploradora do território então
HISTÓRIA DO- PARANÁ
155
chamado sertão do Tibagí. Era negociante na vila de Paranaguá e ali alferes de Auxiliares. Fizeram parte desta bandeira vários oficiais de Auxiliares, 2 sargentos, 4 cabos e 77
praças. Entre os oficiais figurou como tenente o sargento
Candido Xavier de Almeida e Souza, descobridor dos campos
de Guarapuava, que faleceu em 1831 como marechal, tendo
feito brilhante carreira política.
No posto de capitão seguiu Silveira Peixoto em Outubro
de 1769, embarcando com sua tropa no porto do Rocio, em
canoas, até ao rio Cubatão, (Morretes), donde transpoz a
Serra do Mar a pé, chegando a Curitiba a 16.
1771. Guarda-Mor Francisco Martins Lustosa, por escolha e determinação de D. Luiz Antonio de Sousa, Governador da Capitania de S. Paulo, que lhe forneceu 37 praças e
23 aventureiros voluntários, foi endereçado aos Campos de
Guarapuava com o declarado intento de descobrir ouro" para que sua riqueza convidasse os povos a habitá-lo se desse
as utilidades necessárias não só para enriquecer o Real Erário mas também para sustentar as guarnições das duas praças projetadas (Iguatemí e Vila Rica) e alguns fortes que é
necessário estabelecer". (Ofício de D. Luiz Antonio ao Conde
de Oeiras, de 3 de Dezembro de 1770).
Fosse verdadeiro ou não esse declarado intento, o certo
é que a bandeira do Guarda Mor Lustosa foi tão somente a
batedora do caminho por onde deveria entrar nos Campos
de Guarapuava o Tenente Coronel Afonso Botelho de Sampaio e Souza, secretário do govêrno da Capitania e chefe das
expedições a Guarapuava.
1771. Capitão Francisco Aranha Barreto, que com 1 Tenente, 2 Alferes e 70 praças dos Auxiliares de Curitiba e Paranaguá, partiu de Paranaguá para reforçar a guarnição da
praça de N. S. dos Prazeres de Iguatemí, seguindo "em direitura pelo rio de D. Luiz" (Ivaí). As viagens chamadas "diretas" de Curitiba a Iguatemí eram feitas "pelos rios Iguassú ou em parte por terra e pelos rios Ivaí e Tibagí". (Nota
da redação da Publicação Oficial dos Documentos Interessantes para a História e Costumes de São Paulo, vol. VII, 30).
De passagem por Morretes, onde permaneceu de 23 a 28
de Outubro, aí prestou honras militares ao Tenente-Coronél
Afonso Botelho de Sampaio e Souza, que então marchava para a conquista de Guarapuava. A 31 se encontrava em Curitiba com a sua tropa, à qual o mesmo Tenente-Coronél passou revista.
156 F>2
ROMÁRIO
MARTINS
4 —- Bandeiras Povoadoras
1809. Diogo Pinto de Azevedo Portugal, nomeado pelo govêrno de S. Paulo para chefe da bandeira povoadora dos Campos de Guarapuava, recém-descobertos e explorados, partiu
com esse destino e intento em meados de 1809, com cerca de
300 pessoas armadas e o padre curitibano Francisco das Chagas Lima, grande catequista de Queluz cujo glorioso sacerdócio iria ainda mais fulgurar nessa missão. (*)
( * ) Segundo apontamentos do Padre Julio Ribeiro de Campos, foi o
Padre Francisco das Chagas Lima Vigário de Curitiba de 1784 a 1794.
Desse grande sacerdote diz também o notável padre curitibano Conego
Dr. Ildefonso Xavier Ferreira ( o aclamador do Príncipe D. Pedro a primeiro
Rei do Brasil) do Prólogo às Constituições Primeiras do Arcebispado da Baía,
publicadas em 1853.
. . . "desde que se perdeu a arte e a maneira particular dos jesuitas na
catequese dos indígenas, não se tem podido chamar com proveito os selvagens
nem ao grêmio da Igreja nem mesmo à sociedade civil. Alguns sacerdotes
têm feito serviços, neste gênero, dignos da consideração do govêrno e da gratidão da posteridade. N o começo do presente século apareceu nesta Província,
(S. P a u l o ) um génio raro, um desses ornamentos do clero de S. Paulo, —
o virtuoso curitibano Padre Francisco das Chagas Lima, que estando Capelão
da Aparecida (em Guaratinguetá) foi mandado a Queluz, hoje vila rica e populosa ao pé das Arêas para catequizar os índios (Purís) que viviam naquele lugar lutando com a penúria, com a fome e com a miséria, conseguiu aldear
os índios, reduzi-los à fé católica e proporcionar aos fazendeiros aqueles ricos
terrenos para a cultura do café. H á passado meio século e sabemos que ainda
existem descendentes dessa horda, ali subsistente e a vila de Queluz é uma das
mais florescentes da Província.
"Poucos anos depois (1808) foi mandado este apostolo a Guarapuava,
ao sul da Província, e tendo outros recursos do govêrno, porque já existia
no Brasil a Família Real Portuguêsa, conseguiu catequizar três nações diversas (Carnês, Votorões e Dorins)
cujas línguas falava perfeitamente, contando
já inumeráveis filhos arrancados à idolatria, mas seus trabalhos foram destruídos pelo comandante da expedição, que, contra a vontade do Padre missionário, queria misturar e com efeito misturou, os soldados com os indígenas,
facilitando assim a desenvoltura dos soldados entre os selvagens, também a
ela propensos. Este passo foi bastante para que o padre enlouquecesse, e assim findou seus tristes dias na vila da Parnaíba, seis léguas da cidade de S.
Paulo, em companhia de seu virtuoso irmão, o vigário João Gonçalves Lima".
Equivocou-se o ilustre autor das Contribuições
Primeiras no Arcebispano
na Baía. O Padre Francisco das Chagas Lima retirou-se de Guarapuava a Parnaíba em Outubro de 1828, contando então 70 anos de idade , e a esse tempo Diogo Pinto de Azevedo Portugal (que realmente misturou seus milicianos com as tribus aldeiadas pelo missionário, o que entre ambos motivou
contínuos atritos) já não era comandante da expedição e do povoamento de
Guarapuava. É injustiça se lhe atribuir a loucura do Padre Chagas. Naturalmente seu desequilíbrio mental, agravado pela idade, proveio da perda do
seu memorável esforço na catequese, com a destruição do aldeiamento de
Atalaia, em 1825, estabelecimento que nunca mais poude ser reconstruído, pelo menos com a eficiência e a grande esperança dos primeiros tempos.
HISTÓRIA DO- PARANÁ
157
A posse efetiva dos Campos de Guarapuava, cuja denominação abrangia os vastos territórios de Guaíra donde os
paulistas haviam, no século XVII, expulsado as organizações civis e religiosas dos castelhanos, já havia sido tentada
sob o govêrno de D. Luiz Antonio em combinação com a política do Conde de Oeiras, (Pombal) — novamente entrou
nas cogitações portuguesas com a vinda de D. João regente
do Reino, para o Rio de Janeiro.
Embora o Tratado de S. Ildefonso (1777) tivesse resolvido o traço das fronteiras entre Portugal e Espanha quanto
aos seus domínios americanos, ainda era, contudo, motivo de
cogitações, a necessidade de ocupar territórios conquistados
pelos paulistas além da Linha Meridiana que entre as duas
coroas dividia os respectivos direitos em terras do Novo Mundo.
E havia razão para isso. A posse do vale oriental do Uruguai, a fronteira com o Paraguai, a questão das Missões com
a Argentina, somente ficaram definitivamente reguladas,
respectivamente, em 1857, 1872 e 1894.
Ainda em 1835, na Fala que à Assembléia Provincial de
S. Paulo dirigiu o Presidente da Província Coronél Rafaél
Tobias de Aguiar, referindo-se à necessidade de se incrementar o povoamento dos Campos de Guarapuava e de se ocupar
os de Palmas, "para evitarem-se contestações com os vizinhos, que no volver dos anos podem suscitar as pretenções
que tiveram sôbre Vila Rica e Guaíra outrora destruídas pelos nossos antepassados".
Já em 1808 o Príncipe Regente, em Carta Régia de 5 de
Novembro, determinava ao Capitão General da Capitania de
S. Paulo, que fosse feita guerra aos índios que impediam o
povoamento e dadas sesmarias nos Campos de Guarapuava
e ao longo das vias de comunicação com esses campos, a partir de Curitiba,
tudo isso "tendo presente o quasi total
abandono em que se acham os Campos Gerais de Curitiba e
os de Guarapuava, assim como todos os terrenos que desaguam no Paraná e formam do outro lado as cabeceiras do
Uruguai, todos compreendidos na Capitania de S. Paulo".
(Romário Martins, Documentos Comprobatórios dos Direitos
do Paraná na Questão de Limites com Santa Catarina, vol.
II, 85).
As providências iniciais então tomadas, fazem luz sôbre
a urgência e a importância das medidas determinadas. Criouse a Junta da Real Expedição e Conquista de Guarapuava,
abriu-se o voluntariado de povoadores, organizaram-se corpos de Milicianos em Curitiba para proteção da expedição e
158 F>2
ROMÁRIO
MARTINS
confiou-se sua direção, militar e administrativa, a Diogo Pinto de Azevedo Portugal, elevado ao posto de Tenente-Coronél.
Diogo Pinto foi o diretor do serviço de povoamento dos
Campos de Guarapuava até ao ano de 1816. Seu caráter autoritário e violento fez com que tivesse excusados atritos com
povoadores e milicianos e até mesmo com o grande Padre
Chagas, o apostolo do gentio, ídolo dos Camés, glória da catequese .
A povoação que pretendeu fundar no Atalaia, lugar considerado para isso impróprio, não progrediu. O desgosto lavrara entre os povoadores e os milicianos desertavam. Estes
fatos, chegaram ao conhecimento da Junta da Real Expedição e Conquista de Guarapuava, com sede em S. Paulo, que
tomou uma desastrada providência: fez retirar a tropa miliciana para a borda dos Campos Gerais a um lugar denominado Linhares (nome daddo em honra do Ministro Conde de
Linhares) — e conservou o Padre Chagas na sua missão, mas
desamparada de todo o auxílio. No ano seguinte (1817) porém, a vista de informações pessoalmente levadas a S. Paulo
pelo missionário, o govêrno paulista fez regressar a tropa a
Guarapuava, mas sob o comando do Tenente Antonio da Rocha Loures, nomeado chefe da conquista e a 11 de Novembro
de 1819, alvará régio criava a Freguezia de N. S. de Belém.
Foi mudada a sede da povoação para aprazível planíce entre
os rios Coutinho e Jordão, légua e meia ao sul de Atalaia, conforme opinára o Padre Chagas, ficando na antiga sede o aldeamento dos índios sob a direção do índio Luiz Tigre Gacon com a ssídua assistência do Padre catequista. Os índios
Votorões aldeiados, postos sob o cacicado de um estranho à
sua tribu, mostravam por vezes o seu desgosto, e, diante disso, Tigre Gacon fazia sortidas contra os Votorões é Dorins
não aldeiados, o que excitou os ânimos destas tribus.
A revanche não tardou. A 26 de Abril (1825) os Dorins,
em grande massa, assaltaram a aldeia da Atalaia e a despeito da heróica resistência dos Camés mataram muitos deles
e lançaram fogo à povoação. Avistado o clarão do incêndio
pela tropa de Belém, foi com ela Rocha Loures em socorro
da praça atacada, mas só encontrou o brazeiro fumegante e
o campo semeado de cadáveres.
Durante a batalha o Padre Chagas Lima orava. Salvouo o seu fiel servidor Reginaldo, carregando-o às costas até a
um capão próximo onde se haviam homiziado os Camés vencidos na refrega.
HISTÓRIA DO- PARANÁ
159
A povoação de N. S. de Belém de Guarapuava também
não prosperava, pelo menos como se fazia preciso, na conformidade dos desejos do govêrno paulista. Em 1835, (Fala do
Presidente Rafael Tobias de Aguiar na abertura da Assembléia Provincial) era tida por decadente devido à ação "rotineira" e "apoucada inteligência" do seu dirigente de então.
1809. Atanagildo Pinto Martins — A existência de extensos campos ao sul do Iguassú que se dividiam dos de Guarapuava apenas por um sertão de poucas léguas de largura,
marginal desse rio, era sabida desde o século XVII, quando
os paulistas os atingiram com suas bandeiras levadas às regiões do Goio-En (rio Uruguai) nas depredações que fizeram
nas Missões do Uruguai.
Os comissários Portuguêses e Espanhóis que em 1759
procederam a demarcação da fronteira encontraram em vários pontos da região de Palmas sinais evidentes da dominação brasileira no citado século. (Barão do Rio Branco, Memorial ao Arbitro na Questão das Missões, vol. II, 218).
No Diário da primeira demarcação lê-se (aut. e obr. cit.)
com a data de 6 de Março de 1759:
"Não distante desse segundo arrecife se achou na margem um morteiro, id est, pilão velho, que pelo seu feitio conheceram os paulistas ser dos seus compatriotas que o deixaram em alguma das suas antigas malocas, id est, das incurões que faziam contra os índios desses povos e também se
viu um pequeno roçado de muitos anos que se atribuiu aos
mesmos".
O Diário da segunda demarcação também refere vestígios semelhantes entre o arroio da Corredeira Comprida e a
foz do Chapecó:... "encontramos vários tiestos de ollas de
barro bien cocido y con molduras, que sin duda deben ser de
los paulistas quando frequentaban este rio para hacer sus
correrias a los pueblos de Missiones".
Perto das cabeceiras do rio Saudade, afluente ocidental
do Chapecó e na longitude da foz deste, no Campo Erê, encontraram-se restos de fortificação antiga, os chamados "Muros", que em 1887 o 1.° comissário brasileiro explorou, reconhecendo que em torno dessa posição "tinha havido um entrincheiramento formado por dupla estacada revestida de
terra."
*
Roteiro bandeirante citado por Varnhagem demonstra
"que os antigos paulistas conheceram a região modernamente chamada Campos de Palmas" então denominados dos
Biturunas.
160 F>2
ROMÁRIO
MARTINS
Só foram, porém, explorados e ocupados a partir de 1839
por vários motivos: a precedência da exploração dos de Guarapuava e suas melhores condições de defesa contra as tribus selvagens, promovida pelo govêrno da Capitania; a circunstância de os campos de Palmas estarem ocupados por
indios bravios e distantes de qualquer proteção oficial; o desconhecimento de caminhos que lá fossem ter, só sabidos do
gentio que disso fazia segredo; e a carência de povoadores
brancos, uma vez que os Campos de Guarapuava tinham capacidade bastante para os que nesse tempo se afazendaram
no sertão.
Não ficou perdida, contudo, a tradição da existência desses campos nem descuidada a conveniência de, por êles, se
procurar uma vereda que comunicasse Guarapuava com a
região norte do Rio Grande. O Tenente-Coronel Diogo Pinto
de Azevedo Portugal, Comandante da Expedição àquela praça incumbiu o Major Atanagildo Pinto Martins de procurar
essa vereda para ser melhorada e dar vasão ao comércio de
tropas. Guiada pelo indio Jongong, que conhecia quanto era
arriscado penetrar em direitura em pleno Campo dos Biturunas ocupado por multidão de selvagens, "guiou-os um
pouco mais ao oriente e passando pela ponta ocidental dos
Campos de Palmas, saiu nos da Vacaria". (Joaquim José
Pinto Bandeira, Notícia da Descoberta do Campo de Palvias,
na Rev. Inst. Hist. Bras. 1851, págs. 385 e segts.).
Não tendo conseguido o objetivo da sua missão, determinou Atanagildo que Jongong com oito homens voltasse
em procura do caminho que se desejava, mas o índio, que relutára cumprir essa ordem por saber que iria defrontar-se
com tribus bravias, ciosas dos seus redutos, desapareceu na
floresta não mais voltando.
Quando os Campos de Guarapuava já se achavam divididos em fazendas prósperas e chamavam a atenção de novos criadores de gado para as suas possibilidades, passou-se
a olhar os Campos de Palmas como ofertantes de possibilidades que algumas pessoas, mais animosas, entenderam de
conquistar, a todo custo, aos índios.
Duas foram as bandeiras então lançadas nessa audaz
tentativa.
1839. Joaquim Ferreira dos Santos, morador em Guarapuava, organizou uma bandeira de exploração e posse dos
Campos de Palmas, a essa empresa associando diversos sitiantes e povoadores locais.
H I S T Ó R I A DO- P A R A N Á
161
Bem informado sôbre os rumos através do estreito sertão marginal do Iguassú, por picada mal aberta que achou,
até ao lugar denominado Alagoa, que já era campo que fazia parte do de Palmas. Voltou, então, a Guarapuava afim
de transportar animais para os campos descobertos, o que
fez a custo de sacrifícios sem conta, não prevendo, ainda assim, que outras dificuldades aguardavam o seu regresso e o
dos seus companheiros nos campos a esse tempo tão ambicionados, como se vai ver.
1839. Pedro de Siqueira Cortes, homem empreendedor,
propoz-se fazer parte da expedição precedente, chefiada por
Joaquim Ferreira dos Santos, e, como não fosse admitido, organizou por sua vez uma bandeira e com o mesmo objetivo
lançou-a ao sertão, abriu uma vereda abaixo do "passo" descoberto por Ferreira dos Santos e saiu nos Campos de Palmas na sua maior extensão, queimou-o e retirou-se, seguindo pela picada que os primeiros exploradores abriram, que
era a direção mais curta.
Encontraram-se, nesse trilho, as duas bandeiras e disputaram os seus direitos.
— Uns e outros dos posseiros dos Campos de Palmas, em
número de sessenta, empregaram-se durante todo o ano de
1839 na introdução de gado, trazido de Guarapuava e na precipitada fundação das suas fazendas, mas cada vez era mais
viva a desharmonia entre todos. "Os que chegavam depois,
escreve o cronista do descobrimento, não respeitavam precedência e lançavam seus animais aonde julgavam próprio, estivesse ou não o lugar ocupado, deixando a decisão do negócio ao arbítrio das armas", derrubando casas e arrazando
currais. (J. J. Pinto Bandeira, obr. cit. 388).
Enquanto a dissenção lavrava entre os posseiros, o gentio rondava ameaçador, os seus periclitantes estabelecimentos. A anarquia reinante e o receio de um ataque dos índios,
foi, entretanto, que determinaram um entendimento preliminar entre os chefes e a gente das duas bandeiras povoadoras, segundo o qual as questões da posse seriam confiadas à
solução de dois árbitros buscados entre cidadãos estranhos
a tais competições e de alto conceito na Comarca. A escolha
recaiu no Capitão Domingos Inácio de Araujo e Alferes José
Caetano de Oliveira, que apresentaram razões de excusa, sendo substituídos pelo Dr. João da Silva Carrão e José Joaquim
Pinto Bandeira, dois notáveis curitibanos, que saídos de Curitiba a 4 de Abril de 1840 chegaram ao lugar da contenda a
28 de Maio.
História do Paraná — 11
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ROMÁRIO
MARTINS
De passagem por Guarapuava ali encontraram o famoso indio Condá, cacique de uma horda Caigang domiciliada
em Palmas e conseguiram que este índio os acompanhasse e
prometesse acomodar sua gente permitindo aos novos ocupantes dos campos o seu labor pacífico, com o qual todos lucrariam . Condá mias tarde cumpriu o prometido, reunindo sua
gente aos conquistadores.
Conta o arbitro Rafael Bandeira (obr. cit.) que a chegada dos dois comissários achavam-se os sócios reunidos em
um só ponto, receiosos de alguma tentativa dos índios, cuja
suspeita minorou com a presença, ali, do principal".
As duas sociedades foram separadas pelo lageado denominado Caldeiras, ficando a de Pedro de Siqueira para o poente e a de José Ferreira para o nascente. Mas ambas ficavam isoladas de qualquer via de comunicação com Curitiba,
centro de recursos de que necessitavam, e assim propoz-se
um dos sócios, Francisco de Paula e Silva Gomes, que mais
tarde seria o grande propugnador da elevaçao da Comarca
a Província, — a entrar no sertão, com alguns companheiros,
afim de explorar em qualquer ponto sua extensão navegave!
"para por esta via terem segura e mais pronta comunicaçao
com a cidade de Curitiba", o que conseguiu o intrépido sertanista. Mas, ainda assim, como atingir, a partir dos campos a travessia até ao rio, varando os sertões marginais,
quando as circunstâncias obrigavam os posseiros a se nao dispersarem, por serem poucos e ainda assim baldos de recursos?
Conseguiram, então, que fosse executada lei paulista d*
16 de Março de 1837, que havia criado uma Companhia de
Municipais'Permanentes justamente "para com ela fazer-se,
por parte do govêrno, a descoberta destes campos" - - e assim os Campos de Palmas, antes homizio de feroz gentio, desde logo passaram a servir ao progresso e a civilizaçao.
CAPÍTULO VIII
ORIGENS
DA ADMINISTRAÇÃO
PÚBLICA
1 —- S, Vicente e Santo Amaro
2 — Os Donatários e suas Jurisdições
3 — Os Prepostos dós Donatários e as Sesmarias
4 —• Â Capitania de Paranaguá (1660-1710)
5 — Os Capitães-Mores
(i _ _ Ouvidoria de Paranaguá (1723-1812)
7 —- Os Ouvidores.
1 — S. Vicente e Santo Amaro
É ponto geralmente sabido da história do Brasil, que o
sistema de colonização adotado por Portugal nos seus domínios americanos foi o da divisão da costa do país em capitanias hereditárias, doadas a fidalgos que as pudessem fazer
prosperar e defender, como com bom resultado já havia sido feito nas ilhas da Madeira e dos Açores.
Foram duas as porções territoriais dessa ordem, que interessam ao presente estudo: — a de São Vicente, doada a
Martim Afonso de Souza, desde a barra de São Vicente ou
de Santos até 12 léguas ao sul da ilha de Cananéa, isto é,
até à barra setentrional da enseada de Paranaguá; e a de
Santo Amaro, doada a Pero Lopes de Souza, que se extendia
da barra de Paranaguá até ao sul da Laguna.
A denominãçao de Capitania de Santo Amaro dada à
porção mais meridional da doação feita a Pero Lopes de Souza, não teve razão de ser senão em virtude de pertencer ao
donatário da porção de 10 léguas de costa compreendida entre Curupacê e a Bertioga,' onde Gonçalo Afonso, na qualidade de Ouvidor nomeado pela viuva do donatário, erigiu Vila
a povoação da Ilha do Guaíbe, com a denominação de Santo
Amaro de Guaíbe. Tanto assim é que muito tempo depois da
doação foi que se passou a chamar Ilha de Santo Amaro
àquela ilha e às 50 léguas das duas porções meridionais daquele donatário; mas ainda assim, ao herdar Lopes de Souza
a Capitania assim denominada, sucedendo à Isabel de Lima
de Souza Miranda, neta de Pero Lopes, "ninguém sabia qual
era, onde tinha a sua verdadeira posição e de quantas Jéguas
se compunha essa capitania". (Fr. Gaspar de Madre de Deus,
Memória para a História da Capitania de S. Vicente, pág.
187).
O direito à sucessão das capitanias de S. Vicente e de
Santo Amaro, terminou em 1711, quando, essas Capitanias
foram incorporadas à Coroa, mediante indenização. (Alvará
166 F>2
ROMÁRIO
MARTINS
de 22 de Outubro de 1709, escritura pública de 19 de Setembro de 1711).
2 — Os Donatários e suas Jurisdições
Foram donatários dessas capitanias:
1 o _ Martim Afonso de Souza, de 1534 a 1571. (São Viccntc)
2.o _ Pero Lopes de Souza, filho de Martim Afonso de
Souza, de 1572 a 1586. (Santo Amaro).
3.° — Lopes de Souza, de 1587 a 1610.
40 — Condessa de Vimieiro (Mariana de Souza Guerra)
por cessão feita por Lopo de Souza, filho bastardo de Lopo de
Souza e confirmação Régia de 22 de Outubro de 1621.
5.o _ conde de Monsato, D. Alvaro Pires de Castro e Souza, bisneto de Pero Lopes de Souza, que em 1623 expulsou de
S. Vicente a Condessa de Vimieiro.
6.° — Martim Afonso de Souza, filho de Pero Lopes de
Souza, da Capitania de Santo Amaro. A este sucedeu sua irmã.
7.o
d . Jeronima de Albuquerque Souza. A esta sucedeu 8.o
sua—filha.
d . Isabel de Lima de Souza Miranda.
9.o _ Lopo de Souza, Donatário da Capitania de São Vicente e também da de Santo Amaro por doação por sua prima D. Isabel Miranda.
IO.0 — D. Sancho de Faro de Souza, 1646.
ll.o __ Diogo de Faro de Souza, filho de D. Sancho, em
1648.
12.° — l.o Conde da Ilha do Príncipe, D. Luiz Carneiro,
em 1678.
13.° — 2.° Conde da Ilha do Príncipe, D. Francisco Luiz
Carneiro,
filho
do precedente,
em d1691.
14.o
Marquez
de Cascais,
. Luiz Alvaro de Castro e
Souza
até_ 1711.
*** As duas capitanias (de São Vicente e de Santo Amaro) vieram a pertencer a Lopo de Souza, a primeira por sucessão hereditária e a segunda por nomeação da 8.a Donataria; mas o Conde de Monsato, D. Alvaro Pires de Castro e
Souza, bisneto do primeiro Donatário (Pero Lopes de Souza)
reclamou em demanda judicial a de Santo Amaro. Essa demanda foi prolongada, manteve-se durante a vida de Lopo de
Souza e prosseguiu com sua irmã D. Mariana de Souza da
HISTÓRIA DO- PARANÁ
167
Guerra, Condessa de Vimieiro, perdendo-a o Conde em 1678,
à favor de Francisco Luiz Carneiro de Souza, Conde da Ilha
do Príncipe, por interferência de El-Rei.
Continuaram assim as duas Capitanias na posse de um
só Donatário, mas as consequências deste longo e agitado
pleito deram lugar a uma longa série de complicações na administração de ambas, até que D. João V as adquiriu para a
sua Coroa (1709-1711). Restaurada a Capitania de São
Paulo, (Carta Régia de 6 de Janeiro de 1765) e tornada independente da do Rio de Janeiro, "daí avante a autoridade
toda inteira achou-se concentrada na pessoa do Governador
da Capitania; as incertezas e hesitações deixaram dde aparecer na gerência da administração pública e esta começou a
seguir uma marcha regular". (Machado de Oliveira, Quadro
Histórico da Província de São Paulo).
3 — Os Prepostos dos Donatários e as Sesmarias
Os donatários ou seus procuradores em seus nomes, por
sua vez concediam grandes glebas sesmeiras a pessoas com
posses para movimentar sua exploração e essas sesmarias foram muito ambicionadas, pois acenavam à vaidade e à ambição. Dessas grandes propriedades territoriais resultaram a
possibilidade do apossamento do sertão onde surgiam, em
várias zonas propicias, as fazendas no sul e os engenhos no
norte, índices de abastança e de dignidades.
O domínio sesmeiro ia de duas léguas em quadra a dez
léguas e mais, regulando-o as Ordenações do Reino, os Forais, os Alvarás, as Provisões. A Provisão Régia de 19 de
Maio de 1729 reduziu a primitiva amplitude das sesmarias
limitando-a ao máximo de três léguas. De 1780 em diante as
sesmarias passaram a registrar a cláusula de fôro anual por
légua, assim passando os sesmeiros à condição de simples foreiros.
Esta perda da propriedade plena constituiu uma revolução no direito de propriedade territorial. O proprietário rural, até então pleno senhor da terra, transformou-se num
emfiteuta do Estado, tendo de sua propriedade territorial
apenas o domínio útil.
No território que é hoje o Paraná as grandes sesmarias
ao tipo das do norte do país, concedidas aos senhores de engenho para a cultura da cana, do café, etc., não existiram.
Às mais notáveis personalidades da sociedade curitibana do
segundo século do descobrimento, ao próprio Capitão Povoa-
168 F>2
R O M á r I O MARTINS
dor Mateus Leme, o mais notável e abastado da coletividade,
o patriarca da grei seiscentista, senhor de numerosas "peças"
de gentio da terra, não foi concedida senão uma sesmaria da
extensão de uma légua de "testada" e outra de "sertão", nas
duas margens do Barigüi.
4 — A Capitania de Paranaguá (1660-1710)
K Capitania de Paranaguá, criada para firmar no quinhão meridional de Pero Lopes de Souza a posse de seu sucessor hereditário, o Marquês de Cascais, — não passou de
uma unidade de segunda ordem entre as demais capitanias
e esteve sempre subordinada ao Govêrno Geral do Rio de Janeiro e depois ao de São Paulo.
Em 1654 a Câmara deu posse da Vila a Diogo Vaz de Escobar, Governador da Capitania de Itanhaen, assim reconhecendo ser a localidade pertencente ao Conde da Ilha do
Príncipe, — mas em 1656 empossou a Simão Dias de Moura,
igualmente Governador da dita Capitania, porém representante do Marquês de Cascais, que mantinha, com o Conde,
acirrada demanda pela sucessão nos direitos do primitivo
donatário da parte meridional da Capitania de Santo Amaro.
Valendo-se de sua vitória sôbre o Conde da Ilha do Príncipe, o Marquês de Cascais, representado por seu Procurador,
nomeou a Gabriel de Lara Capitão-Mor, Ouvidor e Alcaide
Mor da Vila, garantindo-se ainda mais, dessa maneira, na
influência social desse personagem.
A Câmara local, porém, relutou em dar posse a Lara nesses postos, somente o fazendo em 1660. Neste ano se achava
em Paranaguá o Governador da Capitania de Itanhaên, Antonio Barbosa Soto Maior, com o intento de tomar posse da
Vila para a sua jurisdição, e em tais condições pareceu oportuno à Câmara completar a organização do govêrno local
com a investidura de Lara nos cargos para os quais o nomeára o Marquês de Cascais, o que fez a 15 de Março do
ano acima referido.
Os poderes conferidos a Gabriel de Lara pelo herdeiro
da Capitania de Pero Lopes de Souza fizeram-no administrador de todos os interesses do donatário na porção meridional
do feudo: seu Lugar Tenente e Procurador, Capitão Mor, Ouvidor e Alcaide Mor.
A secção meridional da Capitania de Santo Amaro que
principiava na altura da barra de Paranaguá e corria 40 lé-
HISTÓRIA DO- PARANÁ
169
guas para o Sul, como dizia Lara, passou, pois, a constituir,
em 1660, com a posse deste, a Capitania de Paranaguá.
Em Novembro do mesmo ano chegou a Paranaguá, em
inspeção às minas de ouro, o Governador do Rio de Janeiro
General Salvador Corrêa de Sá e Benevides, que desde logo
verificou ser uma das causas do escasso rendimento da mineração a contenda entre os herdeiros de Pero Lopes, que
periodicamente perturbavam a vida da pequena povoação
da costa por meio dos seus prepostos em Itanhaên.
Nessas condições o Governador determinou — "que a
Vila se conservasse em nome de Sua Magestade como se tinha criado"; — que não se reconhecesse "nenhum dos donatários pleiteantes à sua posse, visto êles próprios duvidarem
dos seus direitos".
Nos seus editais, Gabriel de Lara, daí em diante, se dizia "Povoador da Vila de N. S. do Rosário da Capitania de
Paranaguá em nome de Sua Alteza e com os mesmos poderes
Lugar Tenente e Procurador do Marquês de Cascais nas Vilas
de 40 léguas da parte do Sul", que era a extensão da costa
que se pretendia fosse correspondente à doação feita a Pero
Lopes de Souza.
A Vila e a Capitania de Paranaguá ficaram assim constituídas de todos os orgãos políticos: o legislativo representado pela Câmara, o judiciário pela justiça ordinária na investidura do Ouvidor e o executivo na do Capitão Mor e Alcaide Mor. "Desde então a alçada dos governadores de Itanhaên não as atingiu e as deixou viverem por si mesmas, apenas obedecendo à jurisdição, nos casos gerais, dos Governadores Gerais do Rio de Janeiro.
5 — Os Capitaes-Mores
Gabriel de Lara ocupou os seus cargos de 1660 a 1682,
quando faleceu.
Seguiram-se-lhe como Capitães Mores:
Tomaz Fernandes de Oliveira, de 1683 a 1688.
Gaspar Teixeira de Azevedo, de 1689 a 1692.
Francisco da Silva Magalhães, de 1692 a 1698.
João Rodrigues França, de 1701 a 1710.
Em 1709, por Provisão de 9 de Novembro, decidiu o govêrno do Reino incorporar à Coroa os feudos doados em 1532
no extremo Sul da Colonia, comprando-os aos herdeiros dos
primitivos donatários, e em 1710 se constituiu a Capitania
Geral de São Paulo, à qual ficou pertencendo o nosso atual
território. v
170 F>2
6 _
ROMÁRIO
MARTINS
Ouvidoria de Paranaguá (1723-1812)
Não se conhece o ato régio que criou a Comarca de Paranaguá, mas tão somente a Carta Régia de "partecipação de
sua criação e provimento", que data de 17 de Junho de 1723.
Somente, porém, em 1724, por Provisão de 21 de Agosto,
foi nomeado seu primeiro Ouvidor, o Dr. Antonio Alves Lanhas Peixoto. Em Novembro de 1725 ainda não tinha o ouvidor Lanhas Peixoto tomado posse de sua Comarca, pois em
instruções que então lhe deu o Capitão General da Capitania
de S. Paulo, Rodrigo Cezar de Menezes, "ordenou diversas
diligências que Peixoto devia levar a efeito logo que passasse
para a sua comarca". (Alfredo de Toledo, Ouvidoria de Paranaguá, Rev. Inst. Hist. de S. Paulo, vol. XII, 264).
Ainda em 1725 foi feita a divisão das ouvidorias de S.
Paulo e Paranaguá. Uma da outra se separava por uma linha imaginária, balisada na costa de Iguapé e lançada para
o poente "até ao lugar das Furnas, exclusive". (Livro de Provimentos, 93, do Arquivo Municipal de Paranaguá).
O Ouvidor Lanhas Peixoto representou a Rodrigo Cezar contra a exclusão das Furnas da sua Ouvidoria, o que
arrebatava de sua jurisdição a povoação de Itararé que era
pertencente à vila de Curitiba. O Governador paulista, despachando essa representação, determinou ao Ouvidor de S.
Paulo (ordem de 28 de Junho de 1726) que convocasse o Ouvidor de Paranaguá e os oficiais do Senado da Câmara paulista e opinassem sôbre o assunto. (Doe. Interessantes para a
Hist. de S.. Paulo, vol. XX, 237).
Ao que parece a reclamação do Ouvidor Lanhas Peixoto
foi atendida, porque, transcrevendo o Termo de Divisão das
duas Ouvidorias limítrofes, Vieira dos Santos, em suas Memórias de Paranaguá, escreve: . . . "correndo (a linha imaginária partida da costa de Iguapé) até o lugar das Furnas, inclusive, que é sertão povoado" etc. (Aut. e obr. cit., 116).
A Ouvidoria de Paranaguá compreendia todo o sul do
Brasil, "até ao Rio da Prata. A oeste ia até as Furnas", no
sertão' povoado, e no "que estava por descobrir e povoar" a
linha que em Iguapé tinha a sua balisa, prolongada para oeste dividiria "as inovadas povoações. (Termo de Divisão da
Capitania de São Paulo em duas Ouvidorias, de 10 de Fevereiro de 1725).
Ao tempo de sua criação pertenciam-lhe as vilas marítimas de Iguapé, Cananéa, S. Francisco, N. S. do Desterro
(atual Florianópolis) a Laguna, e, em Serra Acima, a de N.
S. da Luz dos Pinhais de Curitiba, que eram as únicas exis-
HISTÓRIA DO- PARANá
171
tentes, tendo sido a de N. S. do Desterro elevada a esssa categoria pelo primeiro ouvidor de Paranaguá, a 26 de Março
de" 1726.
Em 1747, Carta Régia de 17 de Julho determinou a Gomes Freire "que o Ouvidor de Paranaguá passasse ao Rio
Grande e que ali criasse uma vila, dividida da de Curitiba
pelo sertão e Serra Acima". (Arquivo do Conselho Ultramarino, Lisboa).
Em 1749 começou a se desagregar o imenso território da
Ouvidoria de Paranaguá, que ia de Iguapé ao Rio dda Prata,
e que, por conseguinte, observado em mapa atual do sul do
nosso continente, abrangia parte do Estado de S. Paulo, os
Estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul e
os territórios até o Rio da Prata, incluindo a República do
Uruguai. Assim foi qUe a Carta Régia de 20 de Novembro
desse ano, expedida em virtude da Resolução do Conselho Ultramarino de 20 de Junho, criou Ouvidoria na Ilha de Santa
Catarina, dando-lhe por divisa com a de Paranaguá "a barra austral do rio S. Francisco, o Cubatão do mesmo rio e o
rio Negro que se mete no grande de Curitiba" (Iguassú); e
ao sul "os montes que desaguam para a lagoa Imeri". "Lagoa Mirim).
Em 1812, por Alvará de 16 de Dezembro, foi criada a Comarca de S. Pedro do Rio Grande e Santa Catarina, tendo
por sede Porto Alegre; e por Alvará de 12 de Fevereiro de
1821 a Comarca daquela denominação foi dividida, criandose a Comarca da Ilha de Santa Catarina e a Comarca do Rio
Grande do Sul. Por este Alvará a Ouvidoria de Paranaguá
que em 1749 havia perdido os territórios ao sul do rio S. Francisco e do Rio Negro, perdeu mais a vila de Lages, cujo termo a oeste era assinalado pelos rios Canoinhas e Marombas
e avaliado em 200 léguas quadradas.
Por Alvará de 19 de Fevereiro de 1812 foi transferida a
sede da Ouvidoria de Paranaguá para Curitiba.
A partir de 29 de Novembro de 1832 deixaram de existir
ouvidorias, extintas, nessa data, pelo artigo 8.° do Código
do Processo Criminal.
7 — Os Ouvidores
Foram Ouvidores com sede em Paranaguá até 1812 e desse ano até 1832 com sede em Curitiba, os seguintes magistrados :
1) — Dr. Antonio Alves Lanhas Peixoto. Erigiu vila a
povoação de Desterro (atual Florianópolis) a 26 de Março de
172 F>2
ROMÁRIO
MARTINS
1725; por determinação do Govêrno da metrópole (Carta Régia de 6 de Agosto de 1725) deixou sua Comarca e acompanhou Rodrigo Cezar de Menezes a Cuiabá "para o auxiliar no
estabelecimento do regime administrativo das minas e no
que fosse necessário" e em Maio de 1730 foi morto pelos índios paiaguás na embocadura do rio Jaguarí, em Mato Grosso . Mas já então não era considerado Ouvidor de Paranaguá,
visto ter aceito igual investidura em Cuiabá, que lhe foi dada
pelo arbitrário Governador paulista.
2) — Dr. Antonio dos Santos Soares. Nomeado em Resolução de 20 de Maio de 1730, confirmada por Carta de Provisão de 6 de Julho do mesmo ano. Este ouvidor deu ampla liberdade aos mineradores, permitindo, até, que qualquer pessoa pudesse explorar catas e faisqueiras que estivessem em
abandono, sem obrigação de as comprar. Seu estado de saúde foi precário durante todo o tempo que permaneceu em
Paranaguá, "pelo que não poude fazer correição nem ministrar com melhor justiça às partes", como escrevia o Conde
de Sarzedas a El-Rei a 23 de Março de 1734.
3) — Dr. Manoel dos Santos Lobato. Nomeado pela Resolução de 19 de Outubro de 1733 confirmada por Carta de Provisão de 4 de Maio de 1734. Durante sua jurisdição foram
criadas quatro Intendências de Minas na Capitania de S.
Paulo: em Goiaz, Cuiabá, Paranapanema e Paranaguá. O
Decreto de 28 de Janeiro de 1736, que criou essas Intedências,
autorizou o Governador paulista a nomear para a de Paranaguá o Ouvidor da Comarca. Seu primeiro ato nesse cargo
foi proibir que a cata Santa Fé, conhecida pelo nome de D.
Jaime, fosse explorada por particulares visto ter sido aberta
à custa da fazenda real. Lobato perdeu o cargo de Ouvidor
por se haver casado, em Paranaguá, (com D. Antónia da Cruz
França) pois pelo Regimento dado ao Ouvidor Geral do Brasil a 14 de Abril de 1628, art. 22 e Carta Régia de 27 de Março de 1734, o Ouvidor não podia casar nem mesmo ajustar
casamento no distrito de sua jurisdição, enquanto esta durasse, sob pena de ficar vago o seu ofício, sem necessidade
de processo algum.
4) — Dr. Gaspar da Rocha Pereira. Foi o sucessor do Ouvidor Lobato. Nada mais se sabe dele além disso.
5) — Dr. Manoel Tavares de Siqueira e Sá, ex-Juiz de
Fora da vila de Redondo, na província do Alemtejo, em Portu-
HISTÓRIA DO- PARANÁ
173
gal. Era um nome literário em evidencia, tendo sido Secretário da Academia dos Selétos, fundada no Rio de Janeiro em
1752.
,
6) — Dr. Antonio Pires da Silva e Melo Porto Carreiro.
Da Comarca, no seu tempo, foi desanexada Santa Catarina,
a 1.° de Junho de 1750, quando o Dr. Manoel José de Faria
tomou posse da nova Comarca ali criada pela Carta Régia
de 20 de Novembro de 1749. Até 1755 há vestigios seus na
Ouvidoria de Paranaguá, mas já não era Ouvidor em 1757.
7) — Dr. Jeronimo Ribeiro de Magalhães. Não se sabe
quando deixou a Ouvidoria, mas, depois dele, muitos anos levou a Comarca sem Ouvidor efetivo, sendo o cargo exercido,
na forma da lei, pelo vereador mais velho da sede. Em 1767
escrevia o Governador da Capitania de S. Paulo ao Vice-Rei
estar a Comarca de Paranaguá, "há muitos anos sem Ouvidor letrado", o que já havia feito presente a S. M.
8) — Dr. Antonio Barbosa de Matos Coutinho. Em 1777
era Ouvidor de Paranaguá, pois o elogiava pelos seus esforços, nesse ano, o Governador paulista Martim Lopes Lobo
de Saldanha em ofício de 21 de Abril de 1778 a Martinho de
Melo e Castro. Em 1779 fez correição na Vila de Iguapé.
9) — Dr. Francisco Leandro de Toledo Rendon. Nomeado a 2 de Abril de 1783. Era "irmão do Tenente General José Arouche de Toledo Rendon, primeiro diretor do Curso Jurídico de S. Paulo e de Diogo de Toledo Lara Ordonhes, Desembargador do Paço, Conselheiro de Fazenda, sócio correspondente da Academia Real das Ciências de Lisboa e AlcaideMor da Vila de Paranaguá por despacho de 22 de Janeiro de
1820". (Alfredo de Toledo, obr. cit.). A 20 de Janeiro de 1789
erigiu vila a freguezia de Iapó, com a denominação de Vila
Nova de Castro, em honra de Martinho de Melo e Castro, então Secretário d'Estado dos Negócios Ultramarinos.
10) — Dr. Manoel Lopes Branco e Silva. Nomeado a 12
de Outubro de 1789, tomou posse a 9 de Outubro do ano seguinte. Erigiu vila a freguezia de N. S. do Pilar da Graciosa,
com a denominação de Antonina "em memória do nome de
Sua Alteza Real o Príncipe Don Antonio", a 6 de Novembro
de 1797.
11) — Dr. João Batista dos Guimarães Peixoto. Em 1802
foi suspenso do cargo pelo Governador paulista, Antonio Ma-
174 F>2
ROMÁRIO
MARTINS
noel de Melo Castro e Mendonça. Fugiu para Pernambuco,
de onde era natural, afim de evitar ser recolhido a S. Paulo
conforme lhe ordenara aquele Governador.
12) — Dr. Antonio de Carvalho Fontes Henrique Pereira.
Tomou posse do cargo de Ouvidor a 9 de Fevereiro de 1804.
Tomou parte na vereança de Iguapé em que se tratou do refazimento da igreja matriz. O Governador França e Horta
em informação de 6 de Maio de 1805, prestada em obediência
a Aviso de 1.° de Dezembro de 1803, diz: — "O Ouvidor de
Paranaguá (Fontes Henrique) me tem dado decisivas provas
de sua ignorância e insuficiência para o importante cargo
que exerce". E acrescenta depois de longa justificação desse
conceito: — "Finalmente não se nega a aceitação de ofertas
avultadas, e pelos fatos que me têm sido presentes a este
respeito devo justamente concluir e asseverar a V. A. que é
nenhum o seu desinteresse e limpeza de mãos".
13) — Dr. João áe Medeiros Gomes. Nomeado por Decreto de 6 de Fevereiro de 1810, tomando posse a 19 de Março
de 1812. Foi o último Ouvidor com residência em Paranaguá,
pois o Alvará de 19 de Fevereiro de 1812 transferiu a sede da
Comarca para Curitiba, o que foi cumprido por este Ouvidor.
O citado Alvará deu a denominação de Comarca de Paranaguá e Curitiba à antiga Comarca de Paranaguá e criou na
Vila desta denominação um lugar de Juiz de Fora, ficando
daí em diante a Vila de Curitiba sendo a cabeça de Comarca
e residência dos Ouvidores.
14) — Dr. José Carlos Pereira de Almeida Torres. Contra
este Ouvidor o Govêrno Provisório de S. Paulo representou
ao Príncipe Regente. Durante sua gestão deu-se a desanexação da vila de Lages e seu termo da Província de S. Paulo e
sua união à de Santa Catarina (Alvará de 9 de Setembro de
1820) e da Comarca de Paranaguá e Curitiba a Comarca de
Santa Catarina. (Alvará de 1.° de Fevereiro de 1821). O Ouvidor Almeida Torres ocupou, depois, o lugar de Ouvidor da
Comarca do Rio das Mortes, com sede em S. João d'El-Rei, em.
1824; foi agraciado com o título de Visconde de Macahé; eleito Deputado pela Província de S. Paulo e Senador pela da
Baía, em 1843; duas vezes Presidente de S. Paulo, em 1829
e 1842 e do Rio Grande do Sul em 1830; Ministro do Império
em 1844; e Presidente do Conselho de Ministros em 1848.
15) — Dr. José de Azevedo Cabral.
HISTÓRIA DO- PARANÁ
175
18) — Dr. José Verneque Ribeiro de Aguilar, Empossouse a 26 de Julho de 1824. Foi, depois, Desembargador da Relação da Baía e a seguir da Casa de Suplicação do Rio de Janeiro. Casou-se em Curitiba com D. Ana de Sá Sottomaior,
filha do Coronél Inácio de Sá Sottomaior. Foi o último Ouvidor da Comarca de Paranaguá e Curitiba.
CAPÍTULO
IX
CICLO DA MINERAÇÃO DE OURO
1 — A Legislação e os Descobrimentos (1603)
2 — As Primeiras Minas de Paranaguá (1646)
3 — As Minas do Planalto
4 —- A Administração das Minas dos Distritos
do Sul (1645-Í652).
História do Paraná —
12
1 —- A Legislação e os Descobrimentos (1603)
Os esforços do govêrno português pelo descobrimento de
ouro no Brasil foram contemporâneos dos primeiros dias de
nossa história.
Já em 1531, ao aportar a S. Vicente a esquadra de Martim Afonso de Souza, este grande capitão luzitano lançava
ao interior desconhecido do país uma bandeira em busca de
ouro, fiado nas notícias de Francisco de Chaves, português
que se lhe apresentou em Cananéa. (Vide capítulo Bandeiras
e Bandeirantes).
Anchieta, em 1554, em carta de S. Paulo anunciava, como que indo ao encontro do desejo lusitano:... "agora, finalmente descobriu-se uma grande cópia de ouro, prata, ferro e outros metais até aqui inteiramente desconhecidos, como afirmam todos".
Todos viam ou supunham ver ouro, no século X V I . Monsenhor Pizarro sonhou com a exploração dele em Paranaguá
em 1578. Pedro de Almeida Peres Leme é de opinião que foi
Afonso Sardinha o primeiro descobridor de ouro no Brasil,
em 1590, na serra de Jaguanimbaba (Mantiqueira), na de
Jaraguá (termo da vila de S. Paulo), na Ventura (termo da
de Parnaíba) e na de Ibiraçoaba (termo da de Sorocaba).
Mas em vez de ouro, o que se sabe é que Pedro Sardinha explorou e fundiu ferro.
Madrugava ainda o século de 1600 e já o govêrno da metrópole, a 15 de Agosto de 1603, expedia o primeiro Regimento das Terras Minerais do Brasil e fazia concessões a descobridores de minas.
Por alvará de 2 de Janeiro de 1608 foi D. Francisco de
Souza nomeado Governador e Capitão General do Distrito
do Sul do Brasil (capitanias do Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Vicente) com especiais atribuições com relação às
minas, para o que "lhe foram consignados, diz Antonio Olinto, os seguintes auxiliares: — um procurador, um tesourei-
180 F>2
ROMÁRIO
MARTINS
ro, dois mineiros de prata, um mineiro de ouro de beta, um
ensaiador, um mineiro de pérola, um mineiro de esmeralda,
um mineiro de salitre e dois mineiros de ferro".
Mas as minas não correspondiam às visões e aos desejos
da metrópole.
Segundo Regimento de Terras Minerais foi expedido em
1618, a 8 de Agosto, ampliador das disposições do de 1603.
Por êle se vê que até então a mineração não havia dado resultado algum positivo. O govêrno, com o fim de estimular
descobrimentos, abriu mão de todas as minas, concedendo-as
aos seus respectivos descobridores e assim desistindo do intento de as monopolizar.
"Em virtude dessas novas concessões, diz Euzebio de Oliveira, as entradas se sucederam, contando-se, porém, os insucessos pelas tentativas feitas". É que não estava encerrado ainda o ciclo da caça ao índio, de resultados certos, atividade onde assentavam os interesses mais generalizados do
Brasil seiscentista.
2 — As Primeiras Minas de Paranaguá (1646)
Dentre as regiões onde primeiro apareceram notícias de
minas de ouro e que mais esperanças despertaram de grandes êxitos, figurou Paranaguá.
Em 1646 Gabriél de Lara manifestava em S. Paulo o
descobrimento das minas de ouro de Peruna e simultaneamente eram divulgados descobrimentos semelhantes em
Iguapé, Cananéa e nos sertões da Ribeira (compreendendo
o Apiaí) e do Assunguí (compreendendo o sertão das Furnas
e os campos de Curitiba).
As duas zonas principais de penetração de mineradores
e pesquizadores de minas, ao mesmo tempo ou com pequena
diferença, foram as do vale do Ribeira de Iguapé, compreendidos o Ribeirinha e o Assunguí, suas principais nascentes;
— e no Cubatão, atual Nhundiaquara, onde em 1653 já estavam assinaladas onze jazidas auríferas.
Ambos esses rumos eram tradicionalmente conhecidos.
Pelo Ribeira-Assunguí, penetravam os bandeirantes as regiões de Tibagí, Piquirí, Iguassú e mais tarde Uruguai, desde os primeiros tempos de suas incursões caçadoras de índios.
Em todo o litoral de Iguapé a São Francisco, foram descobertas e exploradas jazidas auríferas, até a Serra do Mar,
inclusive.
"O processo de extração de ouro com a "bateia" era o
geralmente seguido; mas por vezes desviavam temporaria-
HISTÓRIA DO- PARANÁ
181
mente o curso dos ribeiros e atacavam o leito descoberto retirando do fundo tanto minério quanto podiam". (Euzebio de
Oliveira, Geologia e Recursos Minerais do Paraná, 113).
*** Com as minas manifestadas por Lara, em 1646, ia
eficientemente começar o ciclo da mineração no Paraná e
até mesmo na Colonia. Antes que a exploração se iniciasse
regularmente, porém, já o governo da metrópole, pelo seu delegado, o Governador Geral do Rio de Janeiro, nomeava Administrador e Provedor para o seu desenvolvimento, pesqui2as de novas jazidas e defesa fiscal dos quintos reais.
Foi para esse fim que em 1645-1647 o Governador Geral do Sul do Brasil Duarte Corrêa Vasqueannes, expediu a
Eleodoro Ébano Pereira como Entabolador e Adminitrador
nos Distritos do Sul e o Provedor da Fazenda Real, Pedro de
Souza Pereira, a Mateus de Leão para seu delegado em Paranaguá, onde mal se tinham descoberto as primeiras minas e
nem se sabia ainda se seriam produtivas.
Mas o próprio fato da presença de autoridades oficiais
nas regiões das minas então descobertas, contribuiu para
despertar o interesse por esse novo gênero da atividade economica sertanista e em breve Iguapé e Paranaguá se tornaram "as povoações mais florescentes da costa, enquanto não
foram descobertos os ricos aluviões de Minas Gerais". (Euzebio de Oliveira, Geologia e Recursos Mineirais do Paraná.
113).
No litoral foram notáveis, pelo menos pela esperança que
despertaram, as minas de Peruna (Santa Fé) de Don Jaime,
as da serranias da baía dos Pinheiros e as marginais do rio
Cubatão (Nhundiaquara).
3 — As Minas do Planalto
No interior a área da explloração proveitosa do aluvião
aurífero atingiu principalmente a vasta região do Assunguí, de Jaguariaíva e Tibagí e do Planalto de Curitiba.
Há notícias de longas explorações das famosas lavras do
Itaimbé (Assunguí) por ventura início da caça ao ouro no
Brasil, ao mesmo tempo que nas minas da Ribeira de Iguapé
à cuja região hidrográfica pertencia. As três principais investigações oficiais sôbre o Itaimbé foram das primeiras realizadas nos distritos auríferos do Sul: — por Ébano Pereira
entre 1645 e 1647, por Agostinho de Figueiredo em 1670 e
por Don Rodrigo de Castelo Branco em 1679.
Ainda na região do Assunguí foram notáveis as minas
de N. S. da Conceição, da Cachoeira e do Ribeirão, exploradas
182 F>2
ROMárIO
MArTINS
durante mais de 20 anos por Salvador Jorge Velho e seu genro Antonio Pires de Campos a partir de 1678 até 1699 e deste ano em diante também por seu irmão Simão Jorge Velho.
Em S José dos Pinhais há vestígios de grandes trabalhos de mineração nas lavras de Saraiva, nas da serra que
forma os vales dos rios Guaratubinha e da Prata. Em Lavnnhas no sítio denominado Fazendinha em Campo Largo, ha
indícios de exploração de ouro em veeiro de quartzo; e em
lugar incerto, ainda em 1712, o Capitão-Mor João Rodrigues
de França garimpava com sucesso.
As minas do Arraial Grande (S. José dos Pinhais) formadoras de um dos núcleos de origem do povoamento efetivo
de Curitiba pelo grupo de Balthazar Carrasco dos Reis poucos anos antes de 1661, ainda em 1741 eram satisfatoriamente exploradas pelos descendentes desse poliada seiscentista,
Gaspar Carrasco dos Reis e Baltazar Veloso da Silva e por
Salvador de Albuquerque.
De vez em quando no século XVIII, os governadores da
Capitania de S. Paulo ordenavam aos oficiais da Camara de
Curitiba que intimassem perante o Juiz Ordinário os desencaminhadores dos quintos reais "a declararem por suas consciências" as importâncias sonegadas aos quintos reais.
Por uma dessas declarações, feita em 1725, sabe-se alguma cousa do movimento da mineração nesse ano, no Distrito de Curitiba e dos nomes de diversos mineradores _
Em 1725 declararam "por suas consciências : João Veloso da Costa, haver extraído 200 oitavas; Zacarias Dias Cortes 200 oitavas; Manoel Soares da Silva, dever 12 oitavas;
Manoel Duarte de Camargo, dever 5 oitavas; Francisco Xavier dos Reis, dever 10 oitavas; Bento Soares de Oliveira
(minas de Catanduvas), dever 17 oitavas. Marcelino Rodnoues Angelo Pedroso e outros, descobridores e exploradores
de doze ribeiros auríferos no Tibagí, sem ordem legal, íoram,
então, processados.
De um outro documento, o "Registro da Entrega de Ouro em Curitiba ao Juiz Ordinário, com destino á Casa de
Fundição de Paranaguá, a 12 de Setembro de 17ál — se
verifica o declínio das extrações de ouro em po no terraço
curitibano, no Arraial Grande, Canguirí, Uvaporanga e Purunã.
Quintos remetidos, em oitavas:
Joan da Costa Borges (Arraial Grande), 120; Miguel Rodrigues Ribas (Arraial Grande), (fc libra); Frei Launano da
Silva 78 oitavas; Manoel Gonçalves Corrêa, 20; Manoel Rodrigues da Mota, 105; Agostinho Lopes (negociante), 15; Mi-
HISTÓRIA DO- PARANÁ
183
guel Rodrigues Ribas (mercador no Arraial Grande) 81 %;
Manoel Pinto do Rego, 20; Pedro Gouveia (ourives em Curitiba) 42; Padre Francisco Tomaz de Assunção Braga (mercador de "fazendas secas" no Arraial Grande), 117; Miguel
Rodrigues Ribas (mercador de fazendas no Arraial Grande),
42 Manoel Rodrigues da Mota, 25; Joan da Cruz Borges, 83;
Frei Lauriano da Silva, 1%; Alferes Manoel Moreira (pagamento dos mineiros das Minas Velhas do Arraial Grande),
20; Antonio de Aguiar (viajante), 18; Miguel Rodrigues Ribas (mercador de fazendas nas Minas Velhas do Arraial
Grande) 30; Joseph Dias Cortes (mineiro nas Minas Velhas
do Purunã), 31; Miguel Rodrigues Ribas (mercador nas Minas Velhas do Arraial Grande), 232; Padre Francisco Tomaz
de Assunção (mercador de fazendas no Arraial Grande), 116.
Vários mineiros fizeram mais de uma remessa, na mesma
data.
De 1.° de Janeiro a 31 de Dezembro de 1731, foi a seguinte a remessa de ouro dos quintos à Casa de Fundição de
Paranaguá, em oitavas:
. x .„
Joan da Cruz Borges (mercador no Arraial Grande), 4 7,
Capitão Braz Domingues Veloso (viajante, morador em Paranaguá) 32; João Pereira Braga (morador nos Campos Gerais) 30- Miguel Rodrigues Ribas (negociante na vila),
336%; Frei Lauriano da Silva, 40; Antonio de Aguiar, 44;
Joan'da Cruz Borges (morador em Paranaguá), 19; Juan
Dias Cortes (minerador nas lavras do Canguiri e Uvaporanaa) 112%; Agostinho Lopes (negociante na vila), 77%; Manoel Rodrigues Ribas (Arraial Grande), 73; Capitao Antonio Luiz Tigre, 50; Frei Lauriano da Silva, 80; Zacarias Dias
Cortes (mineiro nas Lavras Velhas do Purunã), 25; Juan da
Cruz Borges (morador em Paranaguá), 280; Guilherme
Paulo 200; Manoel da Costa Filgueira, 50; Miguel Rodrigues Ribas, 54; Agostinho Lopes, 47%; Manoel Alves Fontes 60- Sebastião dos Santos, 14; Manoel Rodrigues da Mota ' 100- Manoel Martinez de Faria, 78; Antonio de Aguiar,
16- Pedro de Gouveia (ourives na vila), 24; Capitão Antonio
Luiz Tigre 40" Sebastião dos Santos Pereira, por Juan Cruz
Borges, 85; Sebastião dos Santos Pereira, 33; Francisco Diniz Pinheiro, 90; Miguel Rodrigues Ribas, 481; Agostinho Lopes, 92 y2; Miguel Gonçalves Lima, 23; Sebastiao dos Santos
Pereira, 74; Miguel Gonçalves Lima (por conta de Juan da
Cruz Borges), 20; Manoel Gonçalves Lima, 23; Miguel Gonçalves Lima, 60; Francisco dos Reis, 20%.
Como é sabido, a mineração que tanto movimentou as
ambições nos tempos coloniais era feita com o braço escravo
184 F>2
ROMÁRIO
MARTINS
e por isso mesmo gratuito. Nestas condições não somente
foi economicamente possível, como, também, trouxe como
seu melhor resultado prático a conquista e o povoamento do
sertão.
Hoje, pelos processos adotados nesses tempos, a mineração do aluvião aurífero seria anti-economica.
Demais, mesmo nesses tempos, já se verificava que os
mercadores de gêneros alimentícios e de fazendas e armarinho, em dados casos ganhavam mais que os garimpeiros.
Da lista supra, de pagamentos de quintos reais, pode-se vêr
isso, — pois enquanto audazes sertanistas, homens célebres
na história do bandeirismo, como os irmãos Jorge Velho, os
Cortes, os Tigres, pagavam insignificantes quotas de quintos
reais, os mercadores como o Padre Francisco Tomaz com suas
"fazendas secas", trocadas por ouro em pó, os Rodrigues Ribas, os Juan da Cruz Borges, os excediam de muito, nos pagamentos desses direitos fiscais.
A mineração, ainda assim, a quasi toda a gente seduzia,
porque qualquer que fosse o capital acumulado, representava, então, uma fortuna.
A oitava de ouro, em 1703, valia, na Casa de Fundição
do Rio de Janeiro, 1$200. Nestas condições 1.000 oitavas, que
se acumularia com sacrifícios fáceis de imaginar, não passavam de 1:200$000. Mas esta quantia era "in ilo tempore",
uma riqueza. Da do porte, talvez, da de Salvador Jorge Velho, que Avevedo Marques diz ter levado de Curitiba para
São Paulo, e que mereceu ao historiador paulista o qualificativo de "considerável".
4 — A Administração das Minas dos Distritos do
Sul (1645-1652)
A primeira expedição oficial coordenadora dos serviços
de exploração de minas de ouro nos Distritos do Sul do Rio
de Janeiro, foi chefiada por Eleodoro d'Ebano Pereira e dela fizeram parte seu filho Gibaldo Ébano Pereira, Sebastião
Teixeira de Azevedo e outros.
Os Distritos do Sul onde a exploração do ouro se iniciava então e onde se deveria exercer a missão técnica, administrativa e fiscal de Eleodoro d'Ebano, compunham-se dos distritos de Iguapé, Cananéa e Paranaguá e dos distritos auríferos que lhe eram correspondentes, das minas da Ribeira e
das do Assunguí na região de Curitiba.
hISTÓRIA DO pABANA
185
De que êle se desempenhou das funções do seu cargo
movimentando os serviços de exploração das minas descobertas e promovendo o descobrimento de outras; organizando o trabalho e arraialando os garimpenros, de maneira a
garantir a boa ordem dos serviços de exploração, assegurando a cada grupo de mineradores o direito regimental às minas que descobrisse; dado, enfim, diretrizes sociais e econômicas a um serviço que se ia iniciando desordenadamente,
como é natural, em distritos até então fora das vistas de
qualquer autoridade pública; — atestam as crônicas e os
documentos, raros embora, do início do ciclo da exploração
do ouro.
De tal relevo foi a atuação do primeiro Administrador
das Minas do Sul, que Ébano Pereira passa por ter sido fundador de Iguapé e Cananéa, que aliás já eram vilas no seu
tempo; de Curitiba, cujo início de povoamento êle realmente
presidiu e cujo advento social preparou conjugando os seus
arrraiais e entre êles estabelecendo a coesão e a ordem; e de
Paranaguá que já era, por ocasião de sua chegada, uma povoação em véspera de ser elevada à Vila, mas onde, como
primeira autoridade representativa do Govêrno Geral do Rio
de Janeiro e pelas suas funções sôbre a generalidade da atividade economica dos moradores, gozou de formidável prestigio .
Uma atuação deste porte, na alvorada dos dias históricos de tais localidades, realmente conferem ao Administrador das Minas dos Distritos do Sul a qualidade de fundador
como aos demais pioneiros de sua organização social, mas
com relação a Curitiba, melhor do que às demais se ajusta,
em Eleodoro d'Ebano Pereira, a primarcialidade desse título.
A expedição ou bandeira oficial movimentadora e coordenadora dos serviços de exploração das minas do sul, foi
conduzida por Eleodoro d'Ebano Pereira, por ordem do Governador Geral do Rio de Janeiro, Duarte Corrêa Vasqueanes,
entre os anos de 1645 e 1647, visto como foi quando Vasqueanes governou pela segunda vez o sul do país.
Os distritos auríferos a cargo da administração de Eleodoro d'Ebano Pereira e nos quais exerceu a sua missão oficial, compunham-se de Iguapé, Cananéa e Paranaguá, na
costa; e nos sertões correspondentes as regiões das minas da
Ribeira, do Assunguí de Cima no então chamado sertão dos
Pinhais.
A seguir ou concomitantemente com a expedição chefiada por Ébano e lançada aos Distritos do Sul, o Governador
da Fazenda Real já providenciava para a boa arrecadação
186 F>2
ROMÁRIO
MARTINS
dos quintos do ouro, criando, para esse fim, postos fiscais
em Iguapé, Cananéa e Paranaguá, sendo para o desta última localidade nomeado provedor Mateus de Leão, por provisão de 2 de Abril de 1647.
Não se pode afirmar se Mateus de Leão exerceu ou não
a Provedoria Fiscal dos Quintos do Ouro em Paranaguá. Mas
de qualquer modo sua nomeação, em 1647, demonstra as esperanças do Govêrno Geral do Rio de Janeiro na missão
trazida por Eleodoro d'Ebano aos Distritos do Sul.
Parece até que o Provedor nomeado pelo Provedor Geral não ocupou o seu cargo, porque o Provedor paulista Pascoal Afonso, a 27 de Novembro de 1649 requeria à Câmara
da Vila de S. Paulo que lhe ajudasse com seu apoio para,
acompanhado de índios, ir "à vila de Paranaguá, impedir e
atalhar que Eleodoro d'Ebano fundisse, barretasse e quintasse o ouro daquelas minas, por oficiais que para isso lá tem
feito, sendo que não tem ordem para o poder fazer". (Ata da
Câmara da Vila de S. Paulo, vol. V, 389).
Que Eleodoro d'Ebano tinha poderes do Govêrno Geral
do Brasil para administrar as minas da Capitania de Paranaguá e para cobrar "o ouro dos quintos", por meio de seus
exatores, Provedor e Tesoureiro, vê-se da ordem que salvador
Corrêa de Sá lhe dirigiu a 5 de Novembro de 1652. (Arquivo
Municipal de Paranaguá; Vieira dos Santos, História de Paranaguá).
Era êle, ainda então, a mais alta autoridade, o poder
sem contraste, "na Capitania de Paranaguá" (sic), no que
se referia à Administração das Minas. (Aut. cit.).
*** Além do Administrador das Minas dos Distritos do
Sul, dois outros personagens históricos, do mesmo nome, aparecem, um em S. Vicente, outro no Rio de Janeiro — e ssa
homonomia estabeleceu certa confusão de tais personagens
entre os cronistas setecentistas, confusão que chegou até aos
nassos dias. Cumpre, pois, aos que tratarem de assunto em
que figura o Administrador das Minas, a pesquiza da identidade dos Eleodoros Ébanos, para a elucidação desse emaranhado caso de nossa história colonial. É o que pretendemos
fazer, trazendo para este argumento a maior soma de informações até agora reunidas pelos observadores dessas três interessantes personalidades.
*** O primeiro Eleodoro era alemão e já em 1552 residia
em S. Vicente; o segundo era português, minhoto e veiu para o Brasil em 1565 com os reforços militares mandados por
HISTÓRIA DO- PARANÁ
187
Portugal para a defesa do porto do Rio de Janeiro; e o terceiro, filho do Eleodoro português, Administrador das Minas,
foi investido nas funções deste cargo no século seguinte, entre os anos de 1645-1647, pois foi nomeado pelo Governador
Geral do Rio de Janeiro, Duarte Corrêa Vasquanes.
O fato de Hans Staden, viajante alemão, dizer em seu
livro de viagem ao Brasil, em 1552, haver encontrado em S.
Vicente um seu campatrióta de nome "Heliodorus Hessus,
filho de Helius Eobanos", estabeleceu confusões entre esse
indivíduo e outro, seu homonimo vindo para o Rio de Janeiro em 1565, natural de Portugual, porque ambos tiveram ação
de relevo na guerra contra os francêses de Vilegaignon e os
tamoios seus aliados.
Helidorus Hessus, em 1552 era feitor de usina de açúcar
do genovês, José Adorno, em S. Vicente. Era filho de Helius
Eobanos, de quem diz Dryader, prefaciador do livro de Staden, (Viagens e Cativeiro entre os Índios do Brasil, Malburg,
1554) que era "o sábio mui famoso Euban de Essen" que Martinho Lutero denominára o "rex-poetarum" alemão, mas de
quem Mutiano disse que era "o rei dos beberrões".
Sabe-se que "Helidorus Hessus, filho de Eobanos" esteve na defesa do porto de Rio de Janeiro, porque o padre Simão de Vasconcelos (Crônica da Companiha de Jesus, vol.
3.°, 43) diz que José Adorno para lá levou "a sua gente de
S. Vicente" — e porque Azevedo Marques, {Apontamentos da
História de S. Paulo, 180), Teixeira de Melo, Efemerides Nacionais, vol. 1.°, 367, além de outros cronistas, — dizem que
"Heliodoro Euban foi tido por morto em Cabo Frio, numa
sortida contra os francêses".
*** Mas desde essa época começaram as confusões dos
cronistas com relação às duas personagens de nome semelhante. Teixeira de Melo, obr. cit., dando notícia da morte
de "Heliodoro Euban em Cabo Frio, bate o record dessas confusões quando se refere ao alemão "residente em S. Vicente",
"onde administrava uma fábrica de açúcar"; e quando acresta, no mesmo período, que "era natural de Portugal, primoirmão de Estácio de Sá";.
Já são numerosos os estudiosos da história quinhentista e seiscentista do Brasil que têm tentado revestir cada um
dos Eleodoros da sua correspondente identidade. Os resultados não foram até agora satisfatórios, porque os autores se
têm deixado emaranhar na teia de contradições que os séculos teceram em tôrno dessas personagens.
188
EOMAKIO
MAHTINS
*** Neste estudo se procura simplificar a questão. O
"Heliodoro" tedesco aparece em S. Vicente gerindo a usina de
açúcar de José Adorno, onde o encontraram Hans Staden
'em 1552 e em 1559 Jean le Cointe, Senhor de Boulés, o famigerado João de Boíés da tradição popular, preso por herezia
e remetido pela inquisição para Portugal, onde declarou ter
•sido hóspede, em S. Vicente, de "Liadoro alemão". Acompanhou seu patrão na defesa do porto do Rio de Janeiro onde
prestou bons serviços comandando trezentos guerreiros índios e mamelucos, aí morrendo, em 1569, numa sortida dada
aos remanscentes de francêses e tamoios entrinceirados em
Cabo Frio.
Nenhuma confusão deve ser tolerada, daí em diante,
com o seu homonimo lusitano. Este veiu para o Brasil com
as forças portuguêsas trazidas por Estácio de Sá, seu primo
irmão, com quem pelejou na deffesa do Rio de Janeiro, "comandando uma esquadra de canoas de guerra".
Frei Gaspar da Madre de Deus, na sua História da Capitania de S. Vicente, escreve:... "tendo chegado as canoas
desta Vila, das quais foi general Eleodoro Ébano Pereira"; e
Pedro Taques, Nobiliarquia Paulistana, diz... "de cuja armada foi general Eleodoro Ébano Pereira". Após a vitória
militar contra os francêses e a pacificação dos tamoios por
Anchieta, casou-se Eleodoro Ébano Pereira, no Rio de Janeiro, com Maria de Souza Brito, filha de João de Souza Pereira,'natural de Elvas, senhor do sítio de Botafogo. Até
1697 pode ser documentada sua presença no Rio de Janeiro,
onde foi um dos primeiros moradores, e no citado ano aí exerceu o cargo de Escrivão da Fazenda Real.
*** Desse casal é que provêm o Eleodoro Ébano Pereira
da história paranaense, por sua vez pai de Gibaldo Ébano
Pereira que fez parte da bandeira administradora das minas
dos Distritos do Sul, de 1645, cuja presença em Paranaguá é
documentada a partir de 1649. (Ofício de Eleodoro d'Ebano
à Câmara de Paranaguá, de 4 de'Março de 1649; ofício do
Governador do Rio de Janeiro Salvador Corrêa de Sá e Benevides, dirigido a Ébano, de 5 de Maio de de 1652; notas
sôbre Gibaldo Ébano Pereira Nobiliarquia Paulistana, de Pedro Taques, vol. 5, 507).
*** o ponto gerador de confusões entre os dois Eleodoros quinhentistas, — o alemão de 1555 e o português de 1565,
está, pois, na presença de ambos, como guerreiros, na defesa
do porto do Rio de Janeiro. A dualidade dessas duas personagens, porém, parece que fica bem elucidada pelas infor-
HISTÓRIA DO- PARANÁ
189
mações que pesquizamos na história, na crônica e nos arquivos do Brasil quinhentista. .
"Resta esclarecer a personalidade do Eleodoro que interessa à história paranaense, a do Administrador das Minas
dos Distritos do Sul, que por sua vez anda confundida com a
do "General das Canoas de Guerra", guerreiro de Estácio de
Sá, título que modificado para o de "General da Armada das
Canoas de Guerra da Costa e Mar do Sul", vamos encontrar
com o último Eleodoro.
Este segundo aspecto da questão não pode ser elucidado
pela maneira como se tem procurado fazê-lo — isto é — atribuindo ao Eleodoro português de 1565 e até mesmo ao alemão de 1555, a investidura nas funções de Administrador das
Minas (1645-1653) . Com as idades que tinham quando vieram para o Brasil, seriam mais que centenários em 1653, ano
mais moderno no qual podemos documentar a presença do
administrador em Paranaguá.
Há, pois, que admitir-se a existência de um terceiro Eleodoro Ébano "filho ou nçto" do português casado no Rio de
Janeiro com uma filha de José de Souza Pereira, como sugere Vieira Fazenda e concorda Rocha Pombo.
*** Algumas considerações a respeito dos dois Eleodoros português, -— pai e filho, segundo as razões deste argumento :
Alguns cronistas e historiadores antigos e modernos'remontam ao fim do século XVI as primeiras notícias de descobrimentos de ouro no litoral de S. Vicente, por uma bandeira chefiada por "Heliodoro Eobanos" e da qual faziam parte
seu filho Gibaldo e Sebastião Teixeira e outros. A alta autoridade de Taunay registra essa asserção, dizendo: — "A esta bandeira, organizada no Rio de Janeiro e daí partida, é
que se atribue o descobrimento de ouro de lavagem de Iguapé, Paranaguá e Curitiba. (Afonso E. Taunay, História Geral das Bandeiras Paulistas, vol. I, 170).
O primeiro caso, porém, não aconteceu, pelo menos até
1577, pois se sabe que Eleodoro Ébano, até esse ano, residiu
no Rio de Janeiro comerciando com "Pau Brasil" como se vê
de vales seus que figuraram no inventário de Mem de Sá
(1572) e em 1577 ocupava o cargo de Escrivão da Fazenda
Real e da Administração das Minas das Capitanias do Sul
na provedoria de Pedro de Souza Pereira, seu cunhado, irmão
de João de Souza Pereira, o "Botafogo", seu sogro.
Em 1653 o Provedor Pedro de Souza visitou as minas de
Paranaguá administradas por Eleodoro Ébano Pereira, seu so-
190
ROMÁRIO
MARTINS
brinho (filho do primeiro Eleodoro português e de Maria de
Souza Brito) "em busca da amostras de pedras auríferas". Pedro Taques Paes Leme, mformações sôbre as Minas de S.
Paulo, 88).
*** Também não seria esse Eleodoro, escrivão da Provedoria da Fazenda Real e da Administração das Minas das Capitanias do Sul, o pai mas o avô de Gilberto Ébano Pereira.
Mesmo que se tivesse êle casado no ano em que chegou ao Brasil (1565), Gilberto, se fosse o seu primogênito, estaria em
1570 com 5 anos de idade, no máximo. Se a bandeira tivesse ocorrido em 1584, ainda assim Gilberto teria somente 19
anos, e, naturalmente, com essa idade não seria citado entre
os chefes principais da importante missão, com Sebastião
Teixeira de Azevedo e outros velhos sertanistas.
Temos, pois, que admitir equívocos e confusões de data
e de pessoa, por parte dos nossos antigos cronistas. Pedro
Taques Paes Leme (História da Capitania de S. Vicente, in
Revista do Instituto Histórico Brasileiro, vol. IX, 2.a edição,
326) elucida o assunto datando de "meados do século XVII"
a vinda da bandeira mineradora e assim grafa os nomes dos
seus principais componentes: — "Leodoro Ébano Pereira, Tibaldo Pereira, Sebastião de Azevedo".
As datas já citadas, dadas como as do início dessa bandeira (1645) e da sua presença oficial em Paranaguá
(1649-1653), correspondem, essas sim, aos "meados do século
X V I I " dos quais fala Pedro Taques.
*** O Eleodoro Ébano Pereira dos velhos cronistas —português, minhoto, vindo para o Brasil em 1565 com seu
primo Estácio de Sá, "General das Canoas de Guerra" na defesa do Rio de Janeiro, onde casou-se, que negociou com "Pau
Brasil", que foi escrivão da Fazenda Real em 1577 — assinava-se, uniformemente, "Ladoro e Obanos".
O Eleodoro Ébano Pereira da história paranaense, pai
de Gilberto Ébano Pereira, Administrador das Minas do Distrito Sul Paulista, "General da Armada das Canoas de Guerra da Costa e Mar do Sul", — assinava-se, invariàvelmente,
"Eleodoro d'Ébano".
Este argumento é novo para a identificação dessas personagens homonimas. Os três documentos que o instruem,
devemo-los ao ilustre engenheiro e historiador paulista Snr.
Dr. Gentil de Moura, que a nosso pedido nos forneceu fac-similis da assinatura do Eleodoro minhoto vindo para o Brasil
em 1565.
HISTÓRIA DO PARAHÂ
191
No inventário de Mem de Sá (folha 22 do Arquivo de Capristano de Abreu), conhecimento de dívida de 125 quintais
de "Pau Brasil, de 1.° de Julho de 1572, — assinou "Ladoro
e Obanos; — no mesmo inventário, — conhecimento de dívida de 103 quintais de "Pau Brasil" — assinou "Ladoro e Obanos"; como Escrivão da Fazenda, dando posse, no Rio de Janeiro, à marqueza Ferreira, a 8 de Janeiro de 1577, das terras do Iguassú, sesmaria de Cristóvam Monteiro, avô da marqueza," a mandado do Juiz Antonio de Mario (traslado existente no Arquivo do Mosteiro de S. Bento, — assinou "Ladoro e Obanos".
Note-se, além da uniformidade das assinaturas, que sendo "Ladoro e Obanos" Escrivão da Fazenda, devia saber escrever com acerto — pelo menos o seu próprio nome.
São diversas as variantes de Eleodoro e de Ébano. Ao que
se vê em antigas crónicas, Ladoro, Liadoro e Liqdoro eram
fôrmas usuais e populares do nome Eleodoro. Exemplo: —
Pedro Taques escreveu "Liadoro Ébano Pereira" e Frei Gaspar da Madre de Deus escreveu "Eleodoro Ébano Pereira" —
ambos se referindo ao português; — Hans Staden escreveu
"Heliodoro" e João de Bolés escreveu "Liadoro". ambos se referindo ao alemão.
*** Q confronto a fazer-se, porém, não é somente quanto às várias fôrmas gráficas do nome das duas personagens
mais confundidas pela história, mas também quanto ao modo abreviadamente se assinavam: — o minhoto, vindo para
o Rio de Janeiro em 1565 e o Administrador das Minas dos
Distritos do Sul em 1645-1653, segundo se pode documentar.
Nesses dois casos, como vimas, o primeiro se assinava
"Leadoro e Obanos" (documentos citados) e o segundo "Eleodoro d'Ebano" (seu edital de 4 de Novembro de 1649).
*** O ponto de referência para a elucidação deste caso
tantas vezes debatido sem resultado definitivo, deve ser a
documentação pr ovante da presença de Eleodoro d'Ébano Pereira nos Distritos do Sul, quando, por designação do Governador Geral do Rio de Janeiro, Duarte Corrêa Vasqueanes
(1645-1647) administrou as minas que a esse tempo estavam
descobertas e as que depois se descobriram em vários trechos
da costa ao sul de S .Vicente e nas regiões da Ribeira e do
Assunguí. Pelo elevado número de anos que distanciam o
Eleodoro, guerreiro luzitano de 1565, do Eleodoro administrador das Minas dos Distritos do Sul, de 1653, — vê-se bem que
um seu homonimo, muito presumivelmente seu filho, pai de
192
ROMÁRIO
MARTINS
Gibaldo Ébano Pereira, foi o Eleodoro d'Ebano Pereira da
história paranaense.
Influem no conhecimento da presença e da ação desta
importante personagem dos primeiros dias do povoamento
de Paranaguá e de Curitiba, os seguintes documentos e informações principais:
a ) — Quadro do Registro das Sesmarias (Cartório da
Provedoria de S Paulo, Título 1643, n.° 10) onde se fizeram,
a partir do citado ano, as concessões de terras auríferas;
b) — Nomeação de Mateus Leão, em 1647 para Provedor
dos Quintos Reais do Ouro em Paranaguá, de cujo distrito
aurífero como dos demais do sul, era Ébano Pereira o administrador . (Vieira dos Santos, História de Paranaguá);
c) — Comunicação de Eleodoro d'Ebano aos oficiais da
Câmara de Paranaguá e ao Capitão-Mor da Vila (logo após
a criação dessas autoridades), de que ali se achava por ordem
e nomeação do Governador Geral do Rio de Janeiro, como
entabolador (administrador) e examinador (perito) das Minas descobertas e por descobrir (1649, Arquivo Municipal de
Paranaguá).
d) — Carta Régia de 28 de Novembro de 1651, a Pedro
de Souza Pereira, Provedor da Fazenda, referindo que Antonio Galvão, quando Governador da Capitania, havia mandado a El-Rei amostras de ouro que Ébano retirára das Minas
de Paranaguá. (Pedro Taques, Informações sobre as Minas
de S. Paulo, 86);
e) — Ofício do Governador Geral do Rio de Janeiro, Salvador Corrêa de Sá e Benevides, determinando a Ébano a remessa dos quintos do ouro existente na sua administração,
para serem enviados à rainha, a quem haviam sido concedidos. (1652, Arquivo Municipal de Paranaguá).
f — Protestos apresentados à Câmara de S. Paulo contra
as atividades de Ébano na fundição e quintagem de ouro em
Paranaguá. (1649, Atas da Câmara da Vila de S. Paulo, vol.
5, 389) .
g) — Mapa das Minas de Paranaguá, de 1653, atribuído
a Eleodoro d'Ebano Pereira, onde figuram as partes povoadas da costa, as situações das minas, e, no planalto, Curiti-
H I S T Ó R I A DO P A R A H Â
193
ba, constituída de dois arraiais. (Moisés Marcondes, Apontamentos para a História do Paraná).
*** Quando Eleodoro d'Ebano Pereira esteve administrando as Minas dos Distritos do Sul, em Iguapé, Curitiba,
Cananéa e Paranaguá, — somente Iguapé e Cananéa eram
vilas.
Paranaguá já contava com um pequeno núcleo de povoadores efetivos e aspirava sua elevação a Vila, conduzida
por indivíduos de "boa nota" e dentre os quais sobressaia
Gabriél de Lara. Curitiba, porém, ainda era uma nebulosa
social que se ia formando às margens dos rios auríferos, nos
arraiais mais ou menos estáveis de garimpeiros vindos do
planalto e da costa paulista pelos caminhos tradicionais que
iam ter ao porto da Ribeira, donde subiam os afluentes deste rio dominando as regiões de Ibiaguí (sertão do Assunguí),
os campos de Curitiba, a planície de Campo Largo e a Serrinha, em suas excursões de caça ao ouro.
Ébano Pereira foi a primeira autoridade pública constituída em. nome do governo português, que apareceu nesses
arraiais. E pelas funções de sua missão de movimentador, coordenador e administrador oficial das minas, — é bem de ver
a extensão de sua influência entre gente que na exploração
aurífera exercia a única atividade economica possível, em
tais lugares e nesse tempo.
Daí provém darem-no os cronistas como o fundador das
vilas de Iguapé, Paranaguá e Curitiba, — dada ao termo "vila" a significação da época, que era a de povoação efetiva, tivesse ou não aquele predicamento oficial.
Vieira dos Santos, seguindo a literatura histórica do seu
tempo, escreveu: — "A origem desta Vila (de Paranaguá)
também foi devida a Leodoro de Ébano Pereira, Capitão das
Canoas de Guerra, que então teria na dita povoação grande
influência sôbre os povos pela ingerência na administração
das descobertas das minas" — (História de Paranaguá, cap.
II, 17).
E assim Eleodoro Ébano Pereira agindo, em virtude da
importante função do seu cargo, em Iguapé e Paranaguá, como em Curitiba, nos dias fundamentais dessas povoações,
foi, realmente, um dos fundadores delas, e, no seu tempo, o
principal pela autoridade oficial que ali revestia a sua personalidade.
Tanto mais notável quanto, como diz Vieira dos Santos,
a sua influência se exercia sôbre a única atividade economiHistória do Paraná — 13
194
ROMÁRIO
MARTINS
ca desses povos — que era o descobrimento e a extração de
ouro.
Ébano já estava em Paranaguá antes de 4 de Março de
1649, data em que comunicou à Câmara, instituída nesse ano,
e ao Capitão-Mor da Vila, sua qualidade oficial de Administrador das Minas. Não há elementos para se precisar o ano
em que chegou a essa localidade, pois anteriormente àquela
data ali não existia nenhum serviço de administração pública. A única autoridade derivante do Govêrno Geral do Rio
de Janeiro com jurisdição nesse Distrito do Sul, — era a dêle próprio.
Antes, porém, de 1649, Ébano já se encontrava em Paranaguá, porque nesse ano sua atividade no serviço da quintagem, barretamoento e marcação do ouro, já motivava conflito de jurisdição com a Provedoria das Minas de S. Paulo.
A situação do Administrador das Minas no planalto, isto
é, no chamado Sertão de Curitiba, foi semelhante à da sua
presença em Paranaguá, antes de 1649. Também aí foi êle
cronologicamente a primeira autoridade do Govêrno Geral
do Rio de Janeiro. A esse tempo o povoamento da zona de
Curitiba, como ficou dito, existia em fôrma de acampamentos
de garimpeiros ponteando, principalmente, às margens dos
rios que descem das encostas orientais das serranias do Assunguí e ocidentais da Serra do Mar.
Essa região foi a do berço de Curitiba, berço embalado
pela ilusão do ouro durante mais de um século, — região onde a primeira autoridade régia, coordenadora do trabalho, e,
por conseguinte, fundadora da sociedade, foi, sem dúvida,
Eleodoro d'Ebano Pereira, — o vulto mais antigo e a ação
mais distante do povoamento do planalto.
Essa região aurifera, conhecida desde o século X V I porém somente explorada no século seguinte, — a princípio
fez parte do termo de S. João de Cananéa que "compreendia
as minas da Ribeira existentes nas terras dos Tupis e também as do Assunguí e Paranaguá, descobertas no país dos
Carijós". (Frei. Gaspar da Madre de Deus, Memoriais para a
História da Capitania de S. Vicente, 93).
Tão ricos distritos auríferos e de fácil acesso por vias tradicionais de comunicação partidas de Iguapé e de Cananéa
e constantemente percorridas, naturalmente mereceram da
bandeira que Ébano conduzia do norte, a partir do Rio de
Janeiro, a precedência do seu exame sôbre as minas do distrito de Paranaguá. De 1645 (data citada como a do início
da bandeira mineradora) a pouco antes de 1649, (data de
HISTÓRIA DO PARANÁ
195
sua presença em Paranaguá), Eleodoro Ébano Pereira esteve em Iguapé e em Cananéa, dos quais era um dos distritos
o Assunguí, onde, a esse tempo, já o ouro de lavagem atraia
o primeiro grupo de povoadores anônimos do planalto curitibano — os pioneiros, os desbravadores, os criadores, nas
seus arraiais, do primeiro esboço de vida social organizada,
que os grupos posteriormente vindos, a terminar no dirigido
por Mateus Leme em 1662 ou pouco antes, haviam de conduzir para a eclosão política resultante da fundação da Vila
em 1693.
CAPÍTULO
X
POVOAMENTO DO LITORAL
E DO PLANALTO
1 — Vicentistas do Superaguí (1549)
2 —
3 —
4 —
5 —
0 —
7 —
8 —
9 —
A Primeira Sesmaria
Início do Povoamento do Litoral (1646)
Origens do Povoamento de Curitiba
Os Arraiais de Garimpeiros do Assunguí
Os Primeiros "sítios" Efetivos (1648)
A Elite Seiscentista do Sertão Curitibano
A Ereção da Vila em 1693
Curitiba vista em 1720 pelo Ouvidor Pardinho
10 — Curitiba vista em 1820 por SainfHilaire
1 — Vicentistas no Superaguí (1549)
A primeira notícia do litoral paranaense nos é dada por
Hans Staden, aventureiro alemão, de Homberg, em Hessen,
que em 1549 veiu ao Brasil como tripulante de um navio espanhol que se destinava ao Rio da Prata. Devido a um temporal o navio de Staden foi forçado a procurar abrigo e imprevistamente aportou em Superaguí. Incontinenti "uma
grande embarcação com selvagens" se acercou do navio, mas
ninguém lhe entendeu a língua. Presenteados com facas e
anzóis, regressaram à terra os nativos, mas à noite outra embarcação visitou o navio castelhano, e nela vieram, com os
índios, dois portuguêses. Demos a palavra a Staden: — "Estes nos perguntaram donde vínhamos. Respondemos que vínhamos de Espanha. A isto replicaram que devíamos ter um
bom piloto, que pudesse nos levar ao porto, porque apesar de
êles bem o conhecerem, com uma tempestade destas não poderiam ter entrado. Contamos-lhes, então, tudo, e como o
vento e as ondas quasi nos fizeram naufragar; e quando estavamos certos de estar perdidos, enxergamos de repente o
porto. Foi, pois, Deus que nos guiou inesperadamente e nos
salvou do naufrágio; e nem sabíamos onde estavamos.
"Quando ouviram isso admiraram-se muito e agradeceram a Deus e disseram que o porto onde estavamos era Suprawray (Superaguí) e que estavamos a 18 léguas de uma
ilha chamada S. Vicente, que pertencia a El-Rei de Portugal
e lá moravam êles e aqueles que tínhamos visto com o navio
pequeno, que fugiram porque pensaram que éramos francêses.
"Perguntamos também a que distância estava a ilha de
Santa Catarina, para onde queríamos ir. Responderam que
podiam ser umas trinta milhas para o sul e que lá havia uma
tribu de selvagens chamados Carios (Carijós) e que deviamos nos acautelar contra êles. Os selvagens do porto onde
estavamos chamavam-se Tupini Kins e eram seus amigos, de
200
ROMAHIO
MARTINS
modo que não corríamos perigo". (Iians Staden, Viagens e
Cativeiro entre os Selvagens, do Brasil, 27).
Desta notícia se infere que a parte norte da costa de Paranaguá, em 1549, já era visitada por portuguêses de S. Vicente; que estes se entendiam muito bem.com os índios locais, com os quais certamente traficavam escravos; que os
nativos de Superaguí eram Tupinikins, residindo os Carijós
mais ao sul; e que aquele porto não era estranho aos navios
piratas francêses, visto assim o supôr a gente do navio arribado, uma pequena embarcação de índios e portuguêses que
evitou encontrar-se com o navio de Staden.
2 — A Primeira Sesmaria
A preação de índios Carijós, iniciada em 1585 (vide bandeira de Jeronimo Leitão) levou ao litoral paranaguense moradores de Santos e de São Vicente em grande número, que
aí não ficaram, mas que foram sem dúvida propagadores das
possibilidades que aí se ofereciam à aventura. Um desses
bandeirantes, Diogo de Unhatte, chegou mesmo a requerer
e a conseguir (1614) por sesmaria o istmo de Superaguí, 29
anos depois de o haver conhecido.
3 — Início do Povoamento do Litoral (1646)
Precedendo e a seguir a esses primeiros contactos com
a região da baixada paranaense, castelhanos e portuguêses,
degredados ou egressos da civilização, foram se homiziando
entre os índios de toda a costa do sul, vivendo a vida dos nativos e se asseivaj ando quanto êles. A tal gente não se pode
atribuir outra atividade a não ser a do próprio selvícola a
cujos costumes esteve de tal maneira afeita, que alhures chegou a perder a lembrança da própria língua de sua origem
nacional. .
Atribue-se-lhe a prática ou incitamento de várias tragédias ocorridas com os primeiros penetradores do sertão do
sul; ataques a indefesos centros iniciais de povoamento; o
extermínio da expedição de 80 portuguêses na região do
Iguassu, em 1531 (vide histórico da bandeira ao mando de
Francisco de Chaves); o assassínio dos jesuítas Francisco de
Souza e Pedro Correia, missionários dos Carijós de Paranaguá e de Santa Catarina; o assalto dado pelo castelhano Rui
Peschera, em 1535, à povoação de S. Vi.cente, etc.
HISTÓRIA I>O PARANÁ
201
Não foram, contudo, nem os traficantes com os Tupinikins, nem os preadores de Carijós nem os europeus alçados
que adotaram os seus costumes e se confundiram com êles,
gentes escassas e erradias — que iniciaram o povoamento de
Paranaguá, do que resultou seus primeiros núcleos de moradores efetivos dos quais surgiu a primeira vila.
Foram os caçadores de ouro que a partir do século X V I I
ali apareceram nas suas canoas, lanchas e almadias, vindos
das primitivas vilas paulistas, pelo canal do Varadouro, penetrados de audacia e de ambição, seguidos de índios mansos, seus aproximadores de relações com os nativos locais.
Não é verídica a versão de cronistas de que antes de 1578
já se minerava ouro em Paranaguá sendo dessa data e procedência as primeiras amostras remetidas a El-Rei, como dizem Pizarro, Vieira dos Santos e outros cronistas brasileiros.
Essa versão, examinada à luz de documentos, vem mostrar
que o fato ocorreu, não antes de 1578, porém no século seguinte, quando em virtude dessa ocurrência o Governador do
Rio de Janeiro expediu a bandeira chefiada por Eleodoro
Ébano para controlar (organizar, administrar) os serviços
de exploração de minas nos distritos do Sul.
Esses fatos condizem, excepção da data, que, aliás, só no
segundo é documentada. A história da mineração aurífera
em Paranaguá, porém, e em consequência a do povoamento
desse distrito, começaram em pleno século X V I I e não no
século X V I pois nada consta que justifique alguém houvesse
precedido ao grupo de Gabriél de Lara, que ali aparece em
1646, quando Lara foi a São Paulo fazer comunicação de descobrimento de minas de ouro na terra que estava explorando. Chegamos, pois, por dedução, a estabelecer que antes de
1646 e não antes de 1578, começou o ouro paranaguense a
motivar o povoamento do nosso litoral.
Não se quer com isso dizer que essa região, até então,
não tivesse atraido aventureiros moradores ou egressos das
vilas paulistas, nem que Gabriél de Lara tivesse sido o primeiro a se estabelecer nessa região. Quando êle ali aportou, por
ventura já encontrou pioneiros. Lara, em Maio de 1632, era
morador da vila de Iguapé, conforme declaração constante
do inventário dos bens deixados por sua mãe (Arquivo Público de S. Paulo, Inventários e Testamentos) e antes de 1646
residia em Paranaguá, onde descobria minas. Anterior a
1646 e posterior a 1632, é, por conseguinte, o ano da sua vinda.
Sabe-se que os bandeirantes de Jeronimo Leitão (vide
o histórico desta bandeira) que de 1585 a 1591 andaram pre-
202
ROMAHIO
MARTINS
ando índios na nossa baixada litoranea, não esqueceram a rég i o onde tiveram recontros com os Carijós, pois é> conhec da
I concessão da sesmaria dada em 1614 pelo Capitao e^ Ouvidor de Santos, a Diogo de Unhatte, entre os nos Ararapira e
Suneraguí Tivesse ou não vindo habitar essas suas terras,
infere-se que alguém por êle o fez, talvez parentes seus pois
Ò seu nome ficou assinalando, até hoje, um dos nos de Guaraciuessaba.
A região de Paranaguá, pelo menos as terras mais próximas de Cananéa e ocupadas pelos Tupinikins, amigos dos
portuguêses, já em 1614 possivelmente estavam em inicio de
Povoamento por gente aventurosa das povoaçoes paulistas.
A^terras mais ao sul, povoadas pelos Carijós ressentidos
das pelejas com os portuguêses, essas é de supor que so mais
tarde pudessem ser habitadas pelos brancos. E tanto e assim que seguindo um costume lusitano - os primeiros advenas prudentemente se domiciliaram na ilha da Cotinga e
somente se transferiram para o c o n t i n e n t e quando se convenceram de que aí podiam viver a coberto de qualquer hostilidade da parte dos índios.
^„„„v^
Enquanto isso não se deu é bem de ver que os descobrimentos de jazidas auríferas e suas explorações, estiveram vedados aos adventícios da Cotinga, aliás o centro inicial de
regular povoamento do nosso litoral. Isto teria ocorrido pouco! anos antes de 1646, ano em que Gabriél de Lara foi a S.
Paulo manifestar descobrimentos de ouro no distrito que estava povoando. É visível que a divulgação da existencia de
ouro em Paranaguá tivesse motivado novas entradas de aventureiros, reforçando-se, assim, o núcleo de moradores presididos por Lara, pois que em 1648 era esse Capitao Povoador
autorizado pelo Ouvidor Geral do Brasil, Manoel Pereira
Franco, e mnome d'El-Rei (Carta Régia de 29 de Julho de
1648) a práticar os atos legais precisos para a elevaçao da localidade à categoria de Vila, elegendo eleitores, vereadores,
juizes, procurador do conselho e escrivão, — o que se realizou a 26 de Dezembro do citado ano, instalando-se a Vila a
9 de Janeiro de 1649.
Do termo de juramento dos oficiais eleitos consta que a
última formalidade não foi cumprida a 1.° de Janeiro, "por
estarem no dia de ano bom todos aqui para que bem e fielmente servissem seus cargos". Esta explicaçao revela que os
primeiros povoadores de Paranaguá, após sua precavida concentração na Cotinga, se disseminaram em sítios, no continente Já havia passado o receio de que os hostilizassem os
nativos, dos quais uns se teriam retirado para o interior ou
202
ROMÁRIO
MARTINS
ando índios na nossa baixada litoranea, não esqueceram a região onde tiveram recontros com os Carijós, pois é conhecida
a concessão da sesmaria dada em 1614, pelo Capitão e Ouvidor de Santos, a Diogo de Unhatte, entre os rios Ararapira e
Superaguí. Tivesse ou não vindo habitar essas suas terras,
infere-se que alguém por êle o fez, talvez parentes seus, pois
o seu nome ficou assinalando, até hoje, um dos rios de Guaraquessaba.
A região de Paranaguá, pelo menos as terras mais próximas de Cananéa e ocupadas pelos Tupinikins, amigos dos
portuguêses, já em 1614 possivelmente estavam em início de
povoamento por gente aventurosa das povoações paulistas.
As terras mais ao sul, povoadas pelos Carijós ressentidos
das pelejas com os portuguêses, essas é de supor que só mais
tarde pudessem ser habitadas pelos brancos. E tanto é assim que seguindo um costume lusitano — os primeiros advenas prudentemente se domiciliaram na ilha da Cotinga e
somente se transferiram para o continente quando se convenceram de que aí podiam viver a coberto de qualquer hostilidade da parte dos índios.
Enquanto isso não se deu é bem de ver que os descobrimentos de jazidas auríferas e suas explorações, estiveram vedados aos adventícios da Cotinga, aliás o centro inicial de
regular povoamento do nosso litoral. Isto teria ocorrido poucos anos antes de 1646, ano em que Gabriél de Lara foi a S.
Paulo manifestar descobrimentos de ouro no distrito que estava povoando. É visível que a divulgação da existência de
ouro em Paranaguá tivesse motivado novas entradas de aventureiros, reforçando-se, assim, o núcleo de moradores presididos por Lara, pois que em 1648 era esse Capitão Povoador
autorizado pelo Ouvidor Geral do Brasil, Manoel Pereira
Franco, e mnome d'El-Rei (Carta Régia de 29 de Julho de
1648) a práticar os atos legais precisos para a elevação da localidade à categoria de Vila, elegendo eleitores, vereadores,
juizes, procurador do conselho e escrivão, — o que se realizou a 26 de Dezembro do citado ano, instalando-se a Vila a
9 de Janeiro de 1649.
Do termo de juramento dos oficiais eleitos consta que a
última formalidade não foi cumprida a 1.° de Janeiro, "por
estarem no dia de ano bom todos aqui para que bem e fielmente servissem seus cargos". Esta explicação revela que os
primeiros povoadores de Paranaguá, após sua precavida concentração na Cotinga, se disseminaram em sítios, no continente. Já havia passado o receio de que os hostilizassem os
nativos, dos quais uns se teriam retirado para o interior ou
HISTÓRIA DO PARANÁ
203
mais para o sul, outros teriam se incorporado aos invasores,
outros, enfim, desistido da defesa da terra, quebrada que fora sua resistência.
Os povoadores procuravam as glebas que lhes facilitassem a vida e aí habitavam com suas famílias e escravos índios, fazendo roças e pequenas criações, fundamentos indispensáveis à permanência na terra conquistada. Esses sítios,
uns a outros se ligavam pela relativa proximidade possibilitadora de mútuos auxílios, nas contingências e insidias da
vida sertaneja em terra mal domada ainda pela ordem e em
desproporção imensurável com a exiguidade dos grupos recém-vindos.
Frimeiramente esses sítios ponteavam zonas não distantes da costa onde se ia erigindo a povoação central, onde morava o Capitão Povoador, onde logo depois se construiu e se
levantou o pelourinho (1648), símbolo da autoridade. A seguir se animaram a subir os rios que descem da serra — o
Guaraguassú, o Almeidas, o Correias, onde descobriram ouro, até que os bons êxitos e a crescente ambição os levou à
Serra Negra, Tagassaba, Faisqueira, rios do Pinto, Guarumbí, Cubatão, etc.
Novas levas de aventureiros acorreram, sem dúvida, a
reforçar o incipiente grupo de povoadores pelos resultados
felizes conseguidos pelos primeiros vindos. E o núcleo branco cresceu, em fama e número, e chegou a constituir, na costa do sul, sede de Capitania (1660) e metrópole, por muitos
anos sem rival, chegando sua influência e jurisdição de sua
Ouvidoria a se exercer por "40 léguas da parte do sul".
*** Os primeiros povoadores de Paranaguá formavam
um núcleo de certa significação social, no qual alguns se elevavam, com grande distinção, pelas suas origens e pelo seu
próprio passado.
Não eram numerosos os povoadores do nosso primeiro
núcleo social litorâneo, pois apenas 15 nomes figuram no primeiro "termo de ajuntamento" da população, atendendo a
chamado de Lara e de 95 era o número dos que elegeram os
administradores da Vila no dia de sua fundação, em 1649.
Esses primeiros nomes que aparecem na nossa história
social e política, são, quasi todos, de gente de boa nota, com
antepassados e com antecedentes muitas vezes ilustres e respeitáveis: — fidalgos de boa linhagem castelhana como Gabriél de Lara, filho de Don Diogo Ordonez de Lara, morador
em S. Paulo; Diogo de Lara, seu irmão; Antonio e Manoel de
Lara, seus filhos; João Gonçalves Peneda, íntimo amigo e
HISTÓRIA I>O PARANÁ
205
Essas veredas pré-cabralinas precederam as que do litoral de Paranaguá vinham ter ao planalto através da Serra
do Mar. As do sul da Ribeira foram, sem dúvida, as únicas
percorridas pelos bandeirantes dos dois ciclos de penetração
do interior do continente: o da caça ao índio e o da primeira
fase. da mineração aurífera.
Conhecidas, pois, já eram diversas zonas da região do
planalto paranaense, muitos anos antes que aqui se concentrasse o primeiro núcleo de moradores efetivos.
As bandeiras que por aqui transitavam, quer em demanda das aldeias índio-cristãs de Guaíra, quer das missões orientais do Uruguai, não deixaram, provavelmente, povoadores.
Um ou outro aventureiro que acaso fosse atraído pelas condições do meio, bem ousado precisaria ser para trocar o objetivo e apoio de sua bandeira pela sorte indecisa de um isolamento no sertão, mesmo ao longo da traça de vez em vez
percorrida por bandeirantes.
É o caso de Balthazar Carrasco dos Reis, que tendo feito
parte da bandeira por Antonio Domingues levada ao rio Uruguai em 1648, quando conheceu os Campos de Curitiba, somente alguns anos antes de 1661 neles veiu residir, acompanhado de parentes, amigos e índios seus agregados, grupo
que em 1668 Gabriél de Lara, ao tomar posse da localidade,
em nome do donatário da Capitania, encontrou estabelecido
em redor de uma capela de palha e em sítios a pequenas distâncias da sede da povoação de Nossa Senhora da Luz dos
Pinhais.
*** Mas não foi esse o primeiro grupo povoador do planalto curitibano. Antes dele houve os que fundaram arraiais
de mineradores mais ou menos estáveis na região aurífera
atravessada pelos caminhos do Assunguí e do Arraial Queimado (Bocaiuva) e a seguir na Borda do Campo (Atuba, Vilinha, Vila dos Cortes) e no Arraial Grande (S. José dos Pinhais) próximo ao flanco ocidental da Serra do Mar.
Antes que surgisse o núcleo escasso e valoroso dos dezessete homens representativos da sociedade que Lara, em 1668,
encontrou na povoação de N. S. da Luz dos Pinhais, elevada
a Vila em 1693, Curitiba andou pairando naqueles arraiais de
garimpeiros, — ora no divisor das águas auríferas do Capivari e do Assunguí, ora à beira do campo que desce para a chapada do Cubatão e finalmente à fralda da Serra por onde
os homens de aventura do Arraial Grande romperam cami-
206
ROMAHIO
MARTINS
nho para o litoral, melhorando as aspérrimas veredas das antas e dos índios.
5 — Os Arraiais de Garimpeiros do Assunguí
Tudo faz crer que a primeira entrada e acampamento
de gente branca ao ocidente da Serra do Mar, isto é, no Sertão de Paranaguá, origem da povoação de Curitiba, tivesse
ocorrido na região meridional da Ribeira (Assunguí) por onde passava o caminho pré-cabralino que ia ter ao Tibagí e ao
Piquirí, — "o clássico caminho do Guaíra", como diz Alfredo
Ellis Júnior (O Bandeirismo Paulista, 91) e que tinha um ramal para o sul até o Campo dos Biturunas (Palmas) e para
o Tape no Rio Grande do Sul.
Não seriam, contudo, pelo que se sabe desses dias iniciais
de Curitiba, Eleodoro d'Ebano e os do seu grupo de mineradores e entaboladores do serviço das minas, os primeiros que
irromperam no planalto curitibano. Outros investigadores e
exploradores das riquezas minerais da terra os teriam precedido, em tempos sem memória, nessa época de aventura em
que o sertão era o grande fornecedor de possibilidades e de
ilusões e o de Paranaguá era então de mais fácil acesso para
os paulistas, por trilhos conhecidos de múltiplas bandeiras
que os percorreram para o éste e para o sul.
A história, porém, é exigente de nomes e de datas, e é
assim que na de Curitiba deixam de aparecer os esforços anônimos e as datas iniciais das origens do povoamento em nosso território, de quando os primeiros sertanistas vadearam a
Ribeira de Iguapé, subiram os vales do Assunguí e do Ribeirinha, infle tiram sôbre as nascentes do Capivari e fundaram
o primeiro pouso de suas fadigas com as primeiras pepitas
retiradas do escrínio das águas que descem das serras de
Itaiacóca, do Brumado e de Santa Ana.
O ouro nas bolsas de couro dos seus caçadores não tem
mais valia do que no fundo dos rios ou de suas matrizes.
Quando começou a chegar aos lugares onde se fez valor e o
fisco de El-Rei surgiu lhe reclamando os dízimos e a notícia
correu e despertou ambiçções, então sim, ao sertão aurífero
afluíram os primeiros grupos históricos de povoadores: — o
de Eleodoro d'Ebano, em 1647 com a administração das minas; o de Balthazar Carrasco dos Reis e Mateus Martins Leme que em 1661 encontramos já fora dos arraiais de mineradores, com morada habitual no Barigüi; estes ainda e mais
o grupo dos dezessete povoadores que assistiram a elevação
HISTÓRIA I>O PARANÁ
207
do pelourinho em 1668; o de Salvador Jorge Velho, que entre
1678 e 1680 movimentava as lavras do Ribeirão e de N. S. da
Cachoeira na região do Assunguí; o dos "três povos" que erigiram a Vila em 1693.
6
Os Primeiros "Sítios" Efetivos
Todos os cronistas e historiadores da Capitania de S.
Paulo que trataram da origem da fundação de Curitiba, atribuem a Ébano esse acontecimento. O administrador oficial
dos serviços das minas dos Distritos do Sul, foi, sem dúvida,
magna parte na alvorada dos dias históricos dos curitibanos.
Não foi,*porém, um povoador, no sentido social do termo.
Exercendo uma função pública, a de coordenador dos serviços
de mineração, — sua atuação sobre os elementos dispersos
que aqui por ventura encontrou e os que possivelmente trouxe, foi transitória, mas, ainda assim, contribuinte da formação de arraiais que, mesmo provisórios, foram como que a
nebulosa dos povoadores estáveis que os sucederam, concentrados por fim na Vila planaltina que por longos anos foi o
mais meridional dos redutos portugueses na sua colonia americana, — a estrela solitária erguida no planalto, guiadora
dos rumos de futuras conquistas ao ocidente e ao sul da grande pátria em formação.
*** A história oficial de Curitiba se inicia, porém, ininterrompidamente, em 1668, quando Gabriél de Lara, CapitãoMor de Paranaguá e Procurador do Donatário da Capitania,
tomou posse da povoação que estava surgindo nos Campos de
Curitiba, "em terras e limites da demarcação do Snr. Marquez de Cascais", nela encontrando dezessete moradores representativos da sociedade que aí se estava constituindo e
que lhe requereram a instituição da Vila.
Quando começou a se congregar esse pequeno grupo nos
nossos campos e pinhais do planalto e de que elementos sociais se constituia ?
O primeiro elemento de pesquiza nos é fornecido pela
passagem de Balthazar Carrasco dos Reis por esses campos
e pinhais, em 1648, quando fez parte da bandeira por Antonio
Domingues levada aos Campos dos Biturunas, no vale do
Uruguai, — e, depois disso, a carta da Sesmaria que lhe foi
dada de sua posse no Barigüi, em 1661, onde, segundo diz
208
ROMAHIO
MARTINS
em sua petição, já residia "há alguns anos" e era confrontante com Mateus Martins Leme.
São estes os dois nomes que primeiro figuram entre os
dos povoadores efetivos dos Campos de Curitiba.
Balthazar Carrasco dos Reis em 1645 residia na vila de
Parnaí (Capitania de S. Paulo); em 1648 passou por Curitiba, rumo do sul, na bandeira de Antonio Domingues; em
1661 já morava "há alguns anos" no Barigüi, onde tinha roça
e currais de gado bovino, cavalar e lanígero.
Mateus Martins Leme em 1637 morava em S. Paulo e
somente veiu habitar o Barigüi entre 1648 e 1661 (vide notícia sôbre Balthazar Carrasco dos Reis). Em 1691 era Capitão Povoador e Dizimeiro da povoação, pois é desse ano sua
primeira concessão de terras, feita a José Pereira y Quevedo.
Foi a êle que os povoadores requereram a criação da Vila, em
1693. Faleceu em Curitiba, a 6 de Outubro de 1697.
7 — A Elite Seiscentista do Sertão Curitibano
Os grupos de Mateus e de Balthazar eram aparentados
e constituíram a maioria representativa dos povoadores. Balthazar era neto afim de Mateus e Antonio, Mateus, Miguel
e Salvador Martins Leme eram filhos do Capitão Povoador.
André Fernandes, Gaspar e Belquior Carrasco dos Reis eram
filhos de Balthazar e Manoel Soares, Antonio Rodrigues Seixas e José Teixeira de Azevedo eram seus genros.
Balthazar tinha cinco filhas e é de supor que casadas
com povoadores da localidade.
O patriarcado do Capitão Povoador Mateus Martins Leme foi indiscutível e indisputável em quasi meio século de
sua residência no planalto curitibano.
A grei curitibana morava em sítios dispersos desse planalto, às vezes distantes da praça onde erigira a modesta capela para os santos do seu padroado.
Mateus Leme e Carrasco dos Reis moravam no Barigüi,
sendo que este tinha também outro sítio no Botiatuva; o Capitão Antonio Rodrigues Seixas, escrivão da Vila em 1693,
em Campo Magro; Manoel Soares e Aleixo Mendes Cabral, no
Passauna, "no caminho das minas do Itambé"; João Rodrigues Cid, no Cajurú; Antonio Rodrigues Cid, no Uberaba; etc.
H I S T Ó R I A I>O P A R A N Á
209
Tinham, porém, vários deles, casas na praça, para as
quais vinham de vez em quando e principalmente por ocasião de práticas e solenidades religiosas.
8 — A Ereção da Vila em 1693
Além do núcleo principal de povoadores, dos elementos
da elite seiscentista do sertão curitibano, havia os grupos de
aventureiros errantes arraialados nas regiões auriferas, ao
sabor dos descobrimentos e das explorações, provindos dos
primeiros dias da história da mineração; os gaúchos nômades, índios e seus mestiços, gente egressa de bandeiras e de
outros centros da população paulista; e os índios "administrados", peças do gentio da terra" como diziam os povoadores.
A falta de repressão desses elementos perturbadores da
vida do grupo ordeiro e patriarcal que o Capitão Povoador, já
velho e decrépito em 1693 já não podia conter dentro das conveniências da sociedade pacífica que até então conduzia, foi
que motivou a elevação do povoado a Vila, para que, com a
criação da justiça, houvesse "paz, quietação e bem do povo".
O pelourinho era, pois, o símbolo da autoridade regional
a constituir ou efeitivamente constituída. Mas não tendo
Lara em 1668, dado seguimento para completar o seu ato instituidor da Vila, as cousas políticas ficaram como si não tivessem tido início.
Envelhecido o patriarca de Curitiba, desmandados os povos, ameaçada a localidade de dissolução, Mateus consultou
em 1693 ao então Capitão-Mor de Paranaguá, Francisco da
Silva Magalhães, (1692-1707) sôbre a legalidade de um ato
que promovesse, à vista das requisições populares, a constituição da Vila. E tendo Magalhães lhe respondido que Lara
havia, em 1668, autorizado esse ato, tomou a deliberação de
aquiecer à vontade e às necessidades locais.
Pelos motivos alegados na petição do povo ao seu venerando patriarca, bem se pode ver que o estado da povoação
era de decadência e insegurança e que um impulso forte se
fazia preciso em prol da comunidade.
Nessas condições o venerável poliada fundador saiu, por
fim, de sua indecisão, e realizou a alta e justa aspiração de
toda a sua existência, o sonho que por tanto tempo lhe encantara a vida.
História do Paraná — 14
191
ROMAHIO
MARTINS
*** Foi-lhe feita uma petição nesse sentido, ( * ) à qual
Mateus Leme despachou assim: — "Junte-se o -povo. Deferirei o que pedem. Pinhais, 24 de Março de 1693". (a) Leme.
Cinco dias depois desta data reuniram-se os povoadores
na igreja do povoado e aclamaram "seis homens de sã consciência" para que estes nomeassem as autoridades da Administração e da Justiça. Sob juramento prestado perante o
padre Antonio de Alvarenga assim o juraram os seis eleitores aclamados, que foram Agostinho de Figueiredo, Luiz de
Góes, Garcia Rodrigues Velho, João Leme da Silva, Gaspar
Carrasco dos Reis e Paulo da Costa Leme.
Foram nomeados:
Juizes: — Antonio da Costa Veloso e Manoel Soares.
Vereadores: — Garcia Rodrigues Velho, Capitão Joseph
Pereira y Quevedo e Antonio dos Reis Cavaleiro.
Procurador do Conselho: — Capitão Aleixo Leme Cabral.
Escrivão da Câmara: — João Rodrigues Seixas.
10 — Curitiba em 1720, Vista Pelo Ouvidor Pardinho
Em carta do Ouvidor Geral Rafaél Pires Pardinho à ElRei, datada de Paranaguá aos 30 de Agosto de 1721, dá conta este magistrado da correição que fez "à vila de Curitiba"
( * ) Snr. Capitão Povoador. Os moradores todos assistentes nesta povoação de Nossa Senhora da Luz e Bom Jesus dos Pinhais e attendendo ao
serviço de Deos e de Sua Magestade, que Deos Guarde, paz, quietação e bem
deste povo, e por ser já oje mui crecido por pasarem de noventa homes, e
quanto mais crese a gente se vão fazendo mores desaforos, e bem se vio esta
festa andarmos todos com as armas na mão, apeloirou-se dos outros mais e
outros ensultos de roubos, como he notorio e constante pelos casos que tem
susedido e daqui em diante será pior, o que tudo causa o estar este dito povo
tão desemparado de governo e desiplina da justiça. E atendendo nós que
aodyante será pior por não aver a dita justisa na dita povoação, nos occorremos a Vmc. como Cpp.am e cabesa dela, e por ser já decrepito e não lhe obedeserem, seja servido promitir a que aja justisa nesta dita vila, pois nela a
gente bastante para exerser os cargos da dita justisa que faz nomero de tres
povos. E pela ordensão ordena Sua Magestade que avendo 30 homes se eleja
justisa e demais de que consta que Vom, por duas veses percurou aos Capitães Móres das capitanias debayxo lhe viessem criar justisa na dita povoação, sendo que não era necesario por ter ávido já aqui justisa em algum
tempo criada pelo defunto Capp.am Gabriel de Lara, que levanto pelourinho
em nome do donatario o Snr.. Marquez de Cascaes: — Pello que requeremos
a Vmc. da parte de Deos e d'el Rei que visto o que alegamos e o nosso pedir
ser justo ebem comum de todo este povo, o mande ajuntar e fazer eleysão
e crear justisa e camara formada, para que asim aja temor de Deos e d'el
Hei e por as coisas en caminho. E Receberá Mercê.
HISTÓRIA I>O PARANÁ
211
e diz que esta fica nos campos por detraz da Serra de Paranapiacaba, distante 15 léguas da localidade onde escrevia:
as primeiras 6 navegadas por uma destas baías e por um rio
(Cubatão ou Nhundiaquara) que vai quasi ao pé da serra e
em que há várias itaipavas e cachoeiras que se passam com
risco. As outras 5 em se subir a Serra é de matos que nela
há; e as últimas 4 de campos até chegar a vila que fica em
bastante assento ao pé de um ribeiro, com casas de pau a pique cobertas de telha e Igreja de pedra e barro, que os freguezes reedificaram há poucos anos".
Assim nos dá o Ouvidor Pardinho notícias das dificuldades de acesso de beira-mar à última vila nesse tempo localizada no planalto ao sul do país. Rememorando sua criação,
diz que ela se originara em povoação fundada haveria 80 anos
daquela data (1721) e por alguns moradores subidos de Paranaguá com algumas cabeças de gado vacum e algumas
éguas, que se multiplicaram em suficientes currais àquele
tempo, disso vivendo os moradores de arredor da Vila, em
distância até 7 léguas e pelo caminho que vai para São Paulo,
a partir de 1704 quando se "fabricaram" outros currais que
muito multiplicavam suas produções.
Para Sorocaba e para as minas de Cataguazes (Minas
Gerais) levavam à mercancia os curitibanos, uns por outros
anos, de 800 a 1.000 cabeças de bois e cavalos.
Curitiba, São José e Senhor Bom Jesus do Perdão constituíam duas íreguezias de um só Termo, com 200 casais e
mais 1.400 pessoas de confissão. Ainda a esse tempo, pelos
"matos da Serra de Paranapiacaba" se trabalhava nas catas
auríferas com algum proveito, embora a descoberta das minas de Cataguazes e depois das de Cuiabá, tivessem desviado muitos dos antigos mineradores paulistas.
É esta em resumo, a descrição que o citado Ouvidor Geral dá, em 1721, das condições naturais e da atividade da Vila de Curitiba, "remota terra" aonde êle permanecera de Setembro de 1720 a Fevereiro do ano seguinte, que todo esse
tempo lhe fôra necessário para atrair a êle "aqueles homens
ainda um tanto fora da lei e dos bons costumes".
11 — Curitiba em 1820, Vista por SainfHilaire
Curitiba vista em 1820 por Adolf ds SainfHilaire:
"Curitiba está situada a mais de 110 léguas de S. Paulo,
mais ou menos a 25° 51' 42" de latitude sul (indicação de Pizarro) e deve o seu nome à prodigiosa quantidade de arau-
212
ROMAHIO
MARTINS
cária brasiliensis que cresce nos seus arredores. Em guarani curii significa pinho e* tAba reunião, — reunião de pinheiros.
"Na época de minha viagem todo o mundo contava nessa cidade que os primeiros habitantes da região se estabeleceram primeiro num lugar chamado Vila Velha, que é mais
próximo da Serra de Paranaguá e onde construiram somente palhoças. Não sei se sua estadia nesse lugar tinha inconveniente para êles, mas aí não ficaram muito tempo. Segundo antiga lenda a imagem de Nossa Senhora da Luz, padroeira, tinha todas as manhãs os olhos voltados para o lugar
que hoje Curitiba ocupa e foi por essa razão, segundo a lenda que os colonos para ali se transportaram. Por si mesmos
êles proclamaram cidade (aliás vila), seu novo centro, inquietando-se pouco com direitos e autoridade de seu soberano.
"Curitiba foi construída numa das partes mais baixas
dum vasto plano ondulado que apresenta agradável alternativa de campos e bosques e que do sul ao nordeste se limita
pela Serra do Mar.
"Essa cidade tem a fôrma quasi circular e se compõe de
220 casas pequenas e cobertas de telhas, quasi todas só ao
res do chão, porém em grande número construídas de pedra.
Cada casa, como em Minas e Goiaz, tem o seu quintal, mas
aqui não se vê, nessas espécies de jardins, nem bananeiras,
nem mamoeiros, nem cafeeiros: são macieiras, pecegueiros
e outras árvores frutíferas da Europa que se costuma plantar .
"As ruas são largas e quasi regulares. Algumas foram
inteiramente calçadas, outras o são unicamente na frente
das casas. A praça pública-é quadrada, muito grande e coberta de grama.
"As igrejas são em número de três, todas construídas
de pedra. A que mais merece ser citada é a igreja paroquial,
dedicada a Nossa Senhora da Luz. Foi construída isoladamente na praça pública, porém mais próxima de um que
dos outros lados, prejudicando a sua regularidade. Não tem
torres nem campanário. A capela-mor e os dois altares laterais são bonitos e bem ornamentados, a nave é elevada e tem
trinta passos de comprimento, mas não tem aboboda e é sem
teto e desnuda.
"Curitiba não é menos deserta durante a semana, que
a maioria das cidades do interior do Brasil. Quasi todos os
habitantes são aqui agricultores que não ocupam suas ca-
HISTÓRIA I>O PARANÁ
213
sas senão aos domingos e nos dias de festa, quando se desobrigam dos seus deveres religiosos.
"Não se conta em Curitiba e nos arredores senão poucos
homens ricos. Vi o interior das principais casas da cidade e
posso dizer que nas outras sedes de comarca ou mesmo de
Termo, não navia nenhuma pertencente a homens honoráveis, que fosse menos ornamentada. As paredes eram simplesmente caiadas e o mobiliário das salas de visita compunha-se apenas de uma mesa e alguns bancos.
"Em nenhuma outra parte do Brasil eu havia visto tantos homens verdadeiramente brancos, como no distrito de
Curitiba. Os habitantes daqui pronunciam o português sem
a alteração que revela mistura da raça caucásica com a vermelha. São grandes e bonitos, têm os cabelos castanhos e a
tez rosada, maneiras agradáveis, fisionomia aberta e nada
têm do sarcástico humor (bazóíia) que frequentemente torna
insuportáveis os empregados e os comerciantes da capital do
Brasil.
"As mulheres têm traços mais delicados que as das outras partes do Império por onde viajei. Elas se escondem menos e conversam com desenvoltura.
" A hospitalidade dos curitibanos não é sobrepujada pela
dos mineiros. Si não são inteligentes como estes, têm mais
consistência e partecipam mais da natureza dos seus ascendentes europeus".
CAPÍTULO
XI
ORIGENS DA ECONOMIA RURAL
1 —
2 —
3 —
4 —
5 —
Minas, Fazendas e Invernadas
Arraiais do Planalto
A Herva-Mate em Guaíra
Os Currais e o Tropeirismo
Incremento e Decadência da Criação Pastoril
6 — Os Três Ciclos do Povoamento
7 — Entradas de Novos Povoadores
1 — Minas, Fazendas e Invernadas
Todas as atividades dos primeiros povoadores do território do nosso Estado, por mais de dois séculos, se exerceram
exclusivamente à beira dos rios auríferos e no pastoreio.
As minas atraíram os primeiros vindos. Foram elas que
nos trouxeram os grupos iniciais de povoadores brancos e
que lhes possibilitaram a existência durante quasi um século,
no litoral e em certas regiões do planalto.
A caça, a pesca, os frutos silvestres e as roças de emergência foram o primeiro apoio possibilitador da vida desses
homens de aventura que aos poucos foram penetrando o
sertão e lhe domando a braveza e lhe desencantando os mistérios. Onde os grupos mineradores batiam em zona rica de
aluvião aurífero e nela se arraialavam demoradamente, iam
se constituindo os primeiros lares índio-europeus, mais ou
menos fixos e as roças iam se estabilizando e se multiplicando.
Escasseados novos descobrimentos e as produçoes das
minas, os grupos advindos passaram a explorar o pastoreio
e esse novo gênero de vida foi exigindo esforços sedentários,
fixados em torno dos "currais" da criação e foram surgindo
os sítios e nas zonas dêles os arraiais estáveis, nebulosas de
aldeias, vilas e cidades.
Ao surto de novos descobrimentos de ouro noutras regiões do país, nas Minas Gerais, principalmente, a criação
se desenvolveu, e aos Campos de Curitiba vinham os aventureiros da Vila de Santa Ana do Parnaíba, centro de compra
e venda de ouro e de formação de bandeiras descobridoras,
buscar o gado preciso para as suas entradas e permanência
nos sertões de Sabará e de Ouro Preto.
Foi assim se desenvolvendo a criação nos campos do planalto curitibano, o que foi fazendo com que outros mineradores e bandeirantes de melhor teor social que os primeiros vindos, fossem se dedicando a esse gênero de atividade e esses
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ROMAHIO M A R T I N S
constituíram o grupo dos fundadores da Vila em 1693, mas
já com influência na povoação de N. S. da Luz dos Pinhais
desde 1668, quando nela se erigiu o pelourinho.
Sem se descuidarem dos trabalhos das minas, para os
quais dispunham de índios "administrados" sinônimo, nesse
tempo, de "escravisado", os homens do grupo de Mateus Leme foram se fazendo criadores de gado e as populações que os
sucederam não tiveram, no planalto de Curitiba e nos Campos Gerais, até o século de 800, mais rendoso meio de vida.
Aos poucos as atividades dedicadas à criação pastoril
foram se transferindo para os Campos Gerais, ao longo do
caminho de São Paulo aos campos da Vacaria, no Rio Grande do Sul, e ao longo desse caminho foram fundando novos
arraiais dos quais nasceram Jaguariaíva, Castro, Ponta Grossa, Palmeira e Lapa, e, no raio de ação dessas cidades de hoje,
outros povoados de criadores.
Tão próspera foi a indústria pastoril nos campos dos
dois primeiros terraços do planalto paranaense, que chegou
a influir, como vimos, tão decididamente, na formação de
cidades. Durante esse ciclo economico muito mais propiciador de fortunas do que o da mineração, havia fazendeiros
grandemente abastados e fazendas dentre as melhores do
país.
A de Caxambú, em Castro, do Snr. Xavier da Silva, por
exemplo, foi "a mais agradável e melhor tratada" vista por
Saint'Hilaire no Brasil, depois da de Ubá, a 25 léguas do Rio
de Janeiro. A de Jaguariaíva, do Snr. Cél. Luciano Carneiro,
era, na opinião do mesmo eminente viajante, "a mais considerável de todas, a partir de Sorocaba". Seu proprietário
projetava, nesse tempo, presentear o soberano com "quinhentas de suas vacas mais bonitas". O proprietário de outra fazenda, a da Fortaleza, Snr. José Felix da Silva, Tenente-Coronél de milicias "passava por um dos mais ricos proprietários
da Província de São Paulo".
Em 1820, ano em que o célebre naturalista francês percorreu os Campos Gerais de Curitiba, esses campos estavam
ponteados de fazendas e de invernadas desde as de grande
vulto até as dos sitiantes ou pequenos criadores. De Itararé
ao Registo de Curitiba, em 359 quilômetros de percurso, havia
outras fazendas, além das citadas, no Morungava, no liapó,
Guartelá, Castro Carambeí, Pitanguí, Santa Cruz, Caiacanga, nascentes do Tibagí, etc. e já nos Campos de Curitiba, até
o rio Negro, numa extensão de 449 quilômetros do mesmo
ponto de partida às proximidades da sede da Comarca, em
Itaquí, Piedade, Ferraria, Bacacherí e Borda do Campo.
HISTÓRIA I>O PARANÁ
219
2 — Arraiais do Planalto
Seduzidos pela justa ambição de algum conforto, os audazes sertanistas desse tempo devassaram todo o primeiro
planalto paranaense. Como tais serviços obrigassem ao "arraialamento", como se dizia então, isto é, à morada relativamente longa nos sítios auriferos em exploração, daí resultava a formação de aldeiólas ou arraiais que duravam largos
anos, às vezes, e para os quais de continuo se encaminhavam
novas levas de aventureiros, mineradores, agricultores, comerciantes, especuladores de toda ordem: caraíbas (brancos) , negros, caipiras (mestiços de índio e branco) e mulatos
(mestiços de branco e negro).
Com a exploração das minas em lugares dispersos, a necessidade de comunicação entre os arraiais iam formando
novos caminhos na brusquidez dos sertões.
A excelência dos capos encontrados no planalto curitibano, que foram denominados "gerais" pela sua enormidade, e que eram imemorialmente servidos por um longo caminho que ia ter a S. Paulo ao norte e ao sul penetrava nas
savanas do Rio da Prata, — despertou desde logo a atenção
dos criadores e se pontilhou de "currais". Diz o Ouvidor Rafaél Pires Pardinho em carta a El-Rei que a povoação de Curitiba se originou na subida de alguns moradores de Paranaguá para os campos daquela denominação, mais ou menos
no ano de 1640, conduzindo algumas cabeças de gado vacum
e cavalar "que se multiplicaram em fôrma que tem hoje
(1720) suficientes currais e é o de que comumente vivem
aqueles moradores que ainda estão situados nos redores da
vila em distância até 7 léguas".
Todo o serviço desses currais ou pequenas estâncias, era
feito por índios mansos que nessa ocupação se mostraram
sempre superiores aos negros e aos próprios brancos.
Esses currais foram se alongando na diretriz do caminho de tropas de São Paulo ao Rio Grande, a partir de 1711,
sob o influxo de novas levas de criadores irradiados dos núcleos portuguêses de Taubaté, Itú e Sorocaba, deste principalmente. Desses três centros partiram, diz Afonso E. Taunay, as migrações que senhorearam todo o Brasil central e
meridional. (História Geral das Bandeiras Paulistas, pág.
142).
3 — A Herva-Mate em Guaíra
Pelo lado de oeste, em Guaíra, a economia dos "pueblos"
espanhóis se restringia à Herva-Mate, conforme se vê do re-
220
ROMAHIO
MARTINS
la tório de d. Luis de Céspedes Xeria, Governador do Paraguai, a Filipe IV de Espanha, em 1628.
Chegado à Vila Rica, onde tomou posse do governo paraguaio, impressionou-o a "pouca abundância de viveres",
exceção de mandioca, milho e laranja. "No tiene baças ni
obejas ni outro ganado".
Já não era assim nas reduções dos jesuítas, onde remava a abundância.
Preciso e documentado é o fato de haver em 1613 entrado o primeiro gado vacum, ovino e caprino, para as reduções
dos jesuitas, de Loreto e de Santo Inácio, introduzido ali pelos padres Antonio Ruiz de Montoya e José Cataldmo, de
cujos plantéis 44 vacas lhes foram presenteadas pelo padre
Marcelo de Lorenzana, reitor do Colégio dos Jesuitas de Assução.
Sabe-se que os rebanhos eram prósperos nas reduções
jesuíticas de Guaíra, mas dai não resultou proveito para a
pecuária paranaense porque com a destruição dessas reduções o gado aí existente serviu para o exòdo das populaçoes,
nada restando ao território abandonado.
4 — Os Currais e o Tropeirisnio
Alguns dos primeiros povoadores de Curitiba (de 1668
em diante) possuíam pequenos rebanhos. O mesmo, por
ventura, teria acontecido com os pioneiros do povoamento de
Paranaguá, embora em menor escala ainda, devido as impróprias condições do meio e às atividades a que de preferencia se dedicavam.
Esta região era a que oferecia condições favoráveis à
criação de animais domésticos. Mas para que criá-los em
grande escala si até fins do século X V I I I Curitiba, seu único
centro de população, era insignificante e isolado das demais
vilas paulistas por imensuráveis distâncias e ainda assim por
falta de via de comunicação a não ser o trilho dos mdios, inçado de perigos ?
Cerca de quasi um século depois (1730) foi que a Vila
de Curitiba se ligou a S. Paulo ao N. e ao Viamão ao S. por
um caminho até então mal esboçado no sertão e esse caminho chegou a ser notável pelo comércio de gado que estabeleceu e que fez com que surgissem as povoações dos Campos
Gerais, que tiveram suas origens nos "pousos" e nos "currais" de descanso e refazimento ou invernada das tropas.
HISTÓRIA I>O P A R A N Á
221
O comércio e a criação de gado tiveram, pois, uma influência decisiva no povoamento do território paranaense
muito maior certamente que a mineraçao do ouro, que nao
fixava populações senão muito excepcionalmente como sao
o í casos de Paranaguá no litoral e Curitiba e Sao Jose dos
Pinhais no planalto.
A ligação de Curitiba com a pampa da Vacaria no Rio
Grande do Sul foi alvitrada aos curitibanos pelo Governador
da Capitania Antonio Caldeira Pimentel (1728-1730), que
lhes fez ver as possibilidades que dela adviriam menos aleatórias do que as provenientes do árduo labor do descobrimento e da exploração das minas.
Uma nova fase para a vida de Curitiba exsurgiu com a
mudança de atividade de grande número dos seus ^ b i t a « tes Alguns mineradores se fizeram tropeiros, mvernadores
e criadores de gado e retiraram das minas o pessoal necessário a esses misteres.
A esse novo meio de vida se afeiçoaram desde logo os
curitibanos. "Os mais ágeis
no dizer do Capitão-Mor Lourenço Ribeiro de Andiade se fize
ram comerciantes de gado, "comprando-os no Rio Grande e
vendendo-os em Sorocaba e em São Paulo e criando-os por
sua própria conta em fazendas que estabeleceram nos Campos Gerais e nos de Curitiba".
Nos primeiros tempos os lucros foram os mais animadores valendo um cavalo 25SOOO e um boi 8S000. A grande produção levada aos mercados compradores, porém, no fim do
século X V I I I havia determinado sensível baixa de preços
venclendo-.se então um cavalo por 4$000 e um boi por 2*000!
Assim mesmo porém, a indústria do transporte e da
criação T e gadcTse manteve com resultados satisfatórios par a a s p o u c a s necessidades da vida rural desse tempo visto
ter penetrado profundamente nos costumes e nos hábitos da
popSlTcão PO? sua vez os índios e mamelucos aos quais o
S a l h o da mineração não seduzia, encontraram na vida agitada dos campos de criacão e na condução de tiopas a Ion
gas di^tândas ocupações à feição de suas índoles a esse mister se afeiçoando de tal maneira que o Governador da CapitaS a D Luiz Antonio de Souza Botelho Mourão os Ij r e t o m
para a realização das entradas que lançou a t ^ a s as partes
do sertão do Sul. recomendando aos seus auxiliares essa
gente cavaleira de Curitiba como a mais própria para enfrentar índios e castelhanos com os quais se confundia .
222
ROMAHIO
MARTINS
5 — Incremento e Decadência da Criação Pastoril
Há documentos da agitação que a mudança de atividade
prática dos curitibanos promoveu.
A 4 de Maio de 1734, por exemplo, o Conselho Municipal
de Curitiba atestou "que João Alvares de Castro em sua vida
descobriu uns campos agrestes entre o Guarauna e Imbetuba e assim que os descobriu logo começou a queimar e botar
neles gado e cavalgaduras e começou a fábricar sítios e fazer aterrados, passagem das ditas criações, e haverá 15 anos
pouco mais ou menos e sempre os conservou em sua vida",
sucedendo-o sua viuva e o segundo marido desta Francisco
da Silva Xavier, "pagando sempre dízimos aos rendeiros dizimeiros".
Em 1735 o comércio de tropas entre Curitiba, Itú e Sorocaba estava estabelecido com certa intensidade e ao que
parece um tanto hostil ao pagamento dos direitos reais, como se depreende de um "bando" mandado publicar nessas
três vilas pelo Governador da Capitania de S. Paulo, exigindo fiança para os comboios de tropas que as percorressem.
Nesse tempo um dos maiores criadores e tropeiros curitibanos devia ter sido Cristóvam Pereira de Abreu, citado no
"bando", que em 1731 conduziu de uma só vez, de Curitiba a
Sorocaba, 800 cabeças de gado vacum e cavalar.
Essa nova ocupação dada aos curitibanos e a constituição, no Termo de Curitiba, de Companhias de Auxiliares que
obrigavam a revistas mensais da população moça, incompatibilizou grande parte do povo com os trabalhos da mineração
ainda remanescente e com a criação e o transporte de gado
que se iam fazendo promissores.
As duas indústrias entraram então (1768) em tal decadência, que o Governador da Capitania, Francisco da Cunha
Menezes, suspendeu o recrutamento daqueles que se ocupassem da agricultura, mister que conciliava os interesses da
defesa militar com os relativos aos meios de subsistência da
população local.
Desse estado de cousas resultou proveito. O CapitãoMor Lourenço Ribeiro de Andrade informa, em 1797: "Não
posso afirmar que o povo, no tempo presente, com a lavoura
esteja mais rico do que no tempo da mineração. Porém mais
luzido é manifesto".
As principais fazendas eram de pessoas moradoras em
Paranaguá, Santos e São Paulo, sendo dos habitantes de
Curitiba as pequenas propriedades do rocio da Vila. .
HISTÓRIA DO BARANA
223
A lavoura e a criação produziam excessos de trigo, feijão, milho, fumo e toucinho, que com a Herva Mate (então
chamada Congonha), eram exportados para a Marinha e ali
re-exportados para os demais mercados de S. Paulo, Rio e
capitanias do norte do país.
6 — Os Três Ciclos do Povoamento
A mineração, a criação e o comércio de gado e finalmente a roça, formaram sucessivamente os três ciclos do povoamento do nosso território.
Enquanto nossos antepassados andaram catando ouro
pelas vertentes das serras, não constituíram senão acampamentos provisórios que se deslocavam ao sabor de novos descobrimentos de grupiaras. Foi o ciclo da caça ao índio para
o trabalho das minas, em que o acampamento era o concentrador de arraiais provisórios.
Quando o ouro escasseou, deixando menos fortunas que
desilusões, os arraiais dos nossos imensos sertões servidos
apenas de trilhos selváticos para as comunicações com as
vilas mais próximas e que ainda assim jaziam a centenas de
léguas de Curitiba, ficaram em grande parte agremiados na
região do planalto, entre a Serra do Mar e o sertão próximo
e preságo. Foi então que procuraram salvar-se das contingências do próprio meio social que haviam criado, fundando
os órgãos mais precisos à justiça e à administração pública,
investigando as veredas mais acessíveis a outros centros de
populações e se dedicando à criação e ao comércio do gado.
Foi o ciclo pastoril e tropeiro, mais criador de êxitos felizes
que os que dera origem às entradas de preadores de índios e
de caçadores de pepitas auríferas.
Foi o ciclo da criação pastoril que iniciou a vida doméstica, a atividade prática, o estabelecimento da ordem nos nossos turbulentos e instáveis "arraiais" de mineradores. Foi a
criação "o quasi único aspecto tranquilo da nossa cultura;
por ela abriram-se as comunicações terrestres iniciadas pela
conquista e conservou-se, como ainda hoje se conserva, nas
estâncias sertanejas, o verdadeiro ou único tradicionalismo
da vida nacional". (João Ribeiro, História do Brasil, 184).
7 — Entradas de Novos Povoadores
Ao mesmo passo que a criação e o transporte de gado influíram para que as populações se agremiassem em deter-
224
ROMAHIO
MARTINS
minados locais de "pouso" e de "currais", a formação de "roças" com intentos industriais, isto é, com excessos comerciais, foi fixando essas e outras populações em lugares certos
e estáveis e dando origem às fazendas, às freguezias, às vilas e às cidades, como aconteceu com Jaguariaíva, Pirai,
(Furnas), Castre, Ponta Grossa, Palmeira, Campo Largo, Rio
Negro, etc.
A criação de gado, a lavoura do milho, feijão, trigo, etc.,
a industrialização e comércio do Mate de 1722 em diante (data da Resolução Régia que permitiu que o comércio de Congonha fosse feito com o Rio da Prata), obrigaram à vida sedentária os antigos homens de aventura, os nômades do ciclo
da mineração; e as comunicações mais fáceis e seguras, pelo
caminho das tropas ponteados de povoados, animaram as
entradas de outros povoadores.
Os vários climas do planalto, as pastagens abundantes
e fartamente irrigadas, a terra fértil, o caminho mais curto,
a meio termo do mercado de gado de Sorocaba com a região
grandemente produtora dos campos da Vacaria (Rio Grande
do Sul) a floresta repleta de materiais de fácil comércio (Herva Mate) e de construção economica (o Pinho), — eram outras tantas condições especialíssimas para as preferências
dos qtie, no século XVIII, buscavam a vida estável, as atividadee pacíficas, a segurança, as expectativas da fortuna, no sul
paulista, onde os sucessos dos primeiros povoadores acenavam às esperanças como estrelas guiadoras no firmamento
verde dos pinheirais.
CAPÍTULO
XII
MILITARIA
X — Fortaleza da Barra de Paranaguá. 1769
2 — Deíesa M i l i t a r de P a r a n a g u á . 1777
3 —
C a m p a n h a contra Artigas. 1 8 1 6
4 —- Pronunciamento dos Milicianos. 1821
5 — Revolução dos Farrapos. 1835-1842
8 — Combate do Cormorant. 1850
7 — Guerra do Paraguai. 1864-1870
8 — Revolução Federalista. 1894
9 — Campanha do Contestado. 1912-1915
História cio Paraná — 15
1 — Fortaleza da Barra de Paranaguá
A anulação do Tratado de Madrid (1750) por ocasião
da guerra entre a Espanha e Portugal (1761-1777) determinou a restauração da Capitania de S. Paulo e as providências à cargo do seu Governador e Capitão General Don Luiz
Antonio de Souza Botelho Mourão, tendentes à segurança das
fronteiras, de modo a possibilitar, finda a guerra, ser novo
tratado negociado com as mesmas ou melhores vantagens
para Portugal.
Foram criadas as vilas de Guaratuba, de Lages e o posto
militar de Iguatemí; tentou-se a ressurreição de Vila Rica,
realizaram-se o descobrimento, a exploração e o povoamento
de Guarapuava, etc.
Entre tais providências figurou a construção de uma
fortaleza na barra de Paranaguá e foi essa obra confiada ao
Tenente Coronél Afonso Botelho de Sampaio e Souza, Ajudante de Ordens do Governador Don Luiz Antonio. A 19 de
Janeiro de 1767 tiveram início as obras, e foram concluídas a
23 de Abril de 1789.
No sentido de diminuir as despezas da Real Fazenda, por
Portaria de 28 de Janeiro de 1766 o Governador da Capitania
pediu que as auxiliasse a Vila de Paranaguá da maneira que
lhe fosse possível. Da vereança convocada para tomar conhecimento dessa Portaria, vê-se que Paranaguá atravessava então uma fase de extrema decadência, economica e social, pois deliberou a Câmara que "atendendo ao miserável
estado da terra, a seus moradores lhes não convinha contribuir com cousa alguma para a mesma obra, pois que por limitada que fosse (a contribuição) a julgavam violenta". Que
essa Vila realmente era a mais numerosa de povo que tinha
a marinha, porém que "distinguindo a qualidade dos seus
moradores, se achariam só sessenta ou setenta com algum
tratamento, sendo tudo o mais gente de pé descalço". Que o
ouro que então produzia toda a Comarca, compreendidas as
228
ROMAHIO
MARTINS
vilas de Iguapé, Paranaguá, Rio de S. Francisco e Curitiba
"não excedia, um ano por outro, pelo manifesto da Intendência, a cem libras pouco mais ou menos" (Vereança de 28
de Janeiro de 1766).
O povo chegou a exprimir seu desapoio às obras da fortaleza, em comício que realizou a 2 de Fevereiro de 1766, ao
qual compareceram 76 pessoas. Parece, entretanto, que essa
relutância amparada na "pobreza da terra", acabou por ceder â força de vontade do Capitão General, pois Portaria do
Marquez de Pombal (então Conde de Oeiras) Ministro dos
Negócios do Reino, de 22 de Julho de 1766, dirigida ao Governador paulista, refere "o bom agazalho" dado pelos paranaguenses às obras das fortificações da barra, "dispostos,
com todo o gosto, para as referidas obras e prontos para concorrerem para elas com suas pessoas e com seus escravos".
A conclusão da Portaria revela os fins visados pela ação
desenvolvida pelo govêrno português através do seu representante na Capitania de São Paulo:
"É o mesmo Senhor (S. M.) servido louvar a V. S. o zêlo
com que tem promovido este útil estabelecimento e ordena a
V. S., no real nome de Sua Magestade, agradeça a esses bons
vassalos o amor e a fidelidade com que têm concorrido para
o mesmo útil estabelecimento e para com êle conhecerem os
Castelhanos, nossos inimigos dessas fronteiras, a diferença
que lhes fazem os portuguêses no amor e fidelidade ao seu
Rei e ao bem comum de sua Pátria".
A 23 de Abril de 1769 estava a fortaleza concluída e artilhada com duas peças de calibre 24, duas de 18 e duas de 12,
segundo Azevedo Marques. Todos esses canhões, nesse dia,
salvaram em honra do grande êxito desse esforço do Capitão
General e da maior obra de defesa da costa do Sul da Capitania.
2 — Defesa Militar de Paranaguá
A guerra que em 1761 resultou do chamado "pacto de
família" (dos Bourbons, de França e Espanha contra Inglaterra e Portugal), trouxe desastrosas consequências para a
segurança das fronteiras pactuadas na América entre os dois
govêrnos ibéricos.
Foi anulado o Tratado de Limites de 1750, realizado sob
a base do uti-possidetis das conquistas territoriais dos bandeirantes paulistas, e as antigas lutas recomeçaram, com
mais intensidade, tendo a dirigi-las Don Pedro Cebalos, que
HISTÓRIA I>O PARANÁ
229
com um poderoso exército se apossou da Colonia do Sacramento e invadiu o Rio Grande do Sul.
Com uma ostentosa armada e um exército que chegou
a somar 20.000 homens, Cebalos arrazou as fortificações do
Sacramento e se apossou da ilha de Santa Catarina e em
1777 quasi todo o sul reconhecido português pelo tratado de
Madrid (1750) estava "em poder dos espanhóis de Buenos Aires, mas logo, nesse mesmo ano restituido pelo tratado de S.
Ildefonso, (1777), perdendo-se, contudo, a Colonia do Sacramento, as Missões (orientais do Uruguai) e algumas terras
da fronteira meridional concedidas no Tratado anterior".
(João Ribeiro, História do Brasil, 326).
A Capitania de S. Paulo esteve, pois, ameaçada em seus
vários pontos indefesos da costa, especialmente Paranaguá
que era a localidade a esse tempo mais importante imediatamente ao norte da região já ocupada pelas forças de Cebalos.
Esse porto mereceu, por isso, especial atenção da defesa. Desde a ribanceira do Estaleiro os possiveis locais de
desembarque até ao Campo Grande, foram cobertos por trincheiras de grossos madeiros entrelaçados, acompanhados de
largos fossos, com acesso apenas por dois portões guarnecidos . "No lugar da ribanceira, próximo à barranca do Estaleiro e fronteiro à ilha da Cotinga e à entrada do rio, levantouse um fortim de pedra e cal, com vários lances de muros artilhados com doze peças". Fronteiro ao porto do Estaleiro se
encruzaram grossas amarras, sôbre o rio Taguaré, impedidoras da entrada de embarcações. No morro da Fortaleza e no
Cubatão colocaram-se outras peças de artilharia e na barra
do Sul algumas ronqueiras de alarme, com vigias em toda a
praia de Guaratuba. Durante mais de dois anos estas fortificações foram constantemente melhoradas, nelas trabalhando numerosas turmas de Ordenanças e de Auxiliares.
Um depósito de gêneros alimentícios foi estabelecido no edifício do Colégio dos Jesuítas e continuamente acumulava
mantimentos. (Vieira dos Santos, Memória Histórica de Paranaguá, 149).
A prolongada ameaça de invasão e conquista da Vila pelos espanhóis, foi útil a Paranaguá. Os aprestos bélicos para
a sua defesa movimentaram sua população e a dos povoados
próximos, colocando-as sob um regime de disciplina e trabalho. Por determinação das autoridades, quem não era soldado devia se ocupar decididamente da lavoura, produzindo,
principalmente, farinha de mandioca, que durante o período
colonial foi a boi a de guerra, quasi exclusiva; e pelo Govêrno
230
ROMAHIO
MARTINS
da Capitania a localidade foi olhada com muito mais interesse, nessa iminência de sua perda.
Nas demais vilas próximas, de Morretes a Curitiba, a
mocidade foi mobilizada para fornecer reforços e para a produção de alimentos.
Tudo isso fez Paranaguá viver alguns anos de animação,
operosidade e abastança, que não gozava desde que entraram
em declínio os áureos tempos da mineração.
3 — Campanha contra Artigas
Em 1816 recrudesceram as periódicas perturbações no
Rio da Prata, com a irrupção dos caudilhos Artigas e Frutuoso Rivera nas savanas da Banda Oriental, com intuitos militares sôbre o Rio Grande.
O concurso da Comarca" de Curitiba à "campanha de
Montevidéu" foi verdadeiramente notável, relativamente à
sua população. Os batalhões de Milicianos foram mobilizados para a defesa dos sertões do sul, além de 400 guerrilheiros de Curitiba, que, finda a guerra, ficaram residindo em
Montevidéu e no Rio Grande do Sul por semelhança de hábitos com os espanhóis e os gaúchos da fronteira riograndense.
Tanto se abusou em pedir reforços ao viveiro militar da
Comarca para a campanha do sul e depois para Guarapuava,
que por fim já os curitibanos preferiam "alargar a terra" como se dizia então, homiziando-se no sertão. A presença do
Coronél Diogo Pinto de Azevedo Portugal, incumbido do recrutamento num dado distrito, para a construção da estrada
para Guarapuava, motivava verdadeiro pavor. E era tal a
pressão exercida no povo que, "quando os maridos não apareciam, tornavam as mulheres responsáveis". (Saint'Hilaire,
Viagem no Interior do Brasil em 1820, pág. 100). Esta violenta è odiosa medida não era invenção do Coronél Diogo. Era
então de uso geral no país.
A campanha contra Artigas e depois as bandeiras ao
sertão da Comarca desfalcaram grande e rudemente as povoações curitibanas e aumentaram as riograndenses e da
Banda Oriental do Uruguai.
4 —- Pronunciamento dos Milicianos de Paranaguá
Eml821, a 15 de Julho, a Câmara Municipal de Paranaguá prestou juramento de obediência às bases cia Constitui-
HISTÓRIA I>O PARANÁ
231
ção decretada pelas Cortes Gerais Extraordinárias e Constituintes de Lisboa e de vassalagem a Don João VI, como Rei
Constitucional do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarve, ao Príncipe Regente do Brasil e à dinastia da Casa de
Bragança.
Na véspera desse dia, o Capitão Floriano Bento Viana,
que devia formar no ato com a sua quarta Companhia do
Regimento de Milícias, foi procurado pelo Sargento Mor de
Ordenanças Francisco Gonçalves Rocha e pelo Capitão Inácio Lustosa de Andrade e por êles convidado para iniciar uma
revolta tendente a separar a Comarca do govêrno de S.
Paulo, por ocasião da formatura dos milicianos. Ficou combinado entre os conjurados que quando o Juiz de Fora, Dr.
Antonio de Azevedo Mélo e Carvalho, proferisse a fórmula do
juramento, o Capitão Floriano Bento Viana desse o grito separatista, que êles, das janelas do Paço, o secundaria e apoiariam, bem como os membros da Câmara e o povo.
Isso, porém, não aconteceu. Somente o Capitão miliciano cumpriu a combinação. Prestado o juramento, disse: —
"Ilustríssimo Senhor. Temos concluído com o nosso juramento de fidelidade. Agora queremos que se nomeie um govêrno provisório que nos governe em separado da Província".
O Juiz de Fora respondeu "que ainda não era tempo e
que com vagar se havia de representar a Sua Magestade".
Ninguém lhe retrucou. Apenas, ainda, o Capitão Floriano,
que disse: — "O remédio logo se aplica ao mal quando aparece. Portanto não há ocasião melhor nem mais oportuna".
Diz Vieira dos Santos, (Mem. História de Paranaguá,
372) "que todo o povo ficou mudo e em grande quietude e
que aqueles mesmos cidadãos que influíram a esse herói,
emudeceram". Outros o denunciaram como rebelde e ao Desembargador José de Azevedo Cabral foi determinada a abertura de um inquérito. Mas os tempos passaram e Floriano
Bento Viana foi justamente considerado pela sua atitude. Fizeram-se seus admiradores o Ouvidor José Carlos Pereira de
Almeida Torres, depois Presidente de São Paulo (vide o capítulo Ouvidoria de Paranaguá) e José Inácio Alves Alvim,
espíritos liberais da época e ainda em 1848 Francisco de Paula
e Silva Gomes, máxima figura da separação da Comarca, lhe
escrevia do Rio de Janeiro, dizendo-lhe que ali "estava trabalhando a favor da obra tão heroicamente por V. S. iniciada
no ano de 1821, cujo feito patriótico será sempre lembrado
nos anais do nosso país".
Paula Gomes apelava para a sua valiosa influência, "em
tudo quanto se necessite para o benefício de nossa futura
232
ROMAHIO
MARTINS
Província, desinteressando-se até, se necessário fôr, de qualquer ressentimento particular para conseguir o nosso desejado fim, por que o amigo é bastante generoso para fazer
qualquer sacrifício a benefício da nossa pátria".
Essa carta, escrita 27 anos depois do pronunciamento
dos Milicianos comandados por Floriano Bento Viana, mostra que esse acontecimento teve uma alta significação.
Além disso, carta datada de 16 de Julho de 1821, dia seguinte ao do pronunciamento, relata as circunstâncias em
que o fato ocorreu e a sua extensão política. Essa carta, dirigida de Paranaguá por D. Córdula Rodrigues França a seu
filho Capitão José Martins de Araujo, tem a firma de JJ.
Córdula reconhecida pelo Tabelião de Notas da cidade de Sao
Paulo.
Narra a missivista certas circunstâncios que o cronista
Vieira dos Santos omite, para não comprometer, talvez, pessoas nelas envolvidas nos acontecimentos. E cita Francisco,
Bento e José Ricardo, o Capitão Mor e Paulinha, o Padre Vicente e Antonio e José da Costa como exaltados adeptos do
movimento. Ofício de Oynhausen, Presidente da Província,
de 4 de Janeiro de 1822, ao Cél. Inácio de Sá Soto-Maior, citado por Ermelino de Leão, determinou a prisão e remessa
para São Paulo, de outros conjurados: Joaquim Firmino, os
Bandeiras, João Gonçalves, Tenente João Martins.
A composição do govêrno provisório resultante da sublevação. já havia sido combinada, segundo a carta de D. Córdula' O Governador paulista seria o Presidente e o Ouvidor
da Comarca o Vice-Presidente. Nestas condiçoes o Presidente seria o mesmo da Província de São Paulo, José Carlos Augusto de Oynhausen, para lhe captar as simpatias, assumindo a presidência o Dr. José Carlos Pereira de Almeida Torres,
então Ouvidor da Comarca de Paranaguá e Curitiba, francamente favorável ao movimento.
Os demais membros do govêrno seriam:
Secretário da Guerra. — Cél. Inácio de Sá Soto-Maior,
Comandante do Regimento de Cavalaria de Curitiba.
Secretário do Interior. — Capitão José Luiz Pereira.
Deputados pela Agricultura. — Bento Gonçalves Cordeiro do Nascimento e José Gonçalves do Nascmiento.
Deputados pelo Comércio. — Capitão Mor Manoel Antonio Pereira e Capitão Bento Antonio da Costa.
Deputa<io pela Marinha. — Capitão Amaral, de Antonina.
HISTÓRIA I>O PARANÁ
233
Deputado pela Tropa. — Capitão Jacinto Xavier das Neves e Sargento-Mor Bastos.
Deputados pelo Cléro. — Padre Antonio Rodrigues de
Carvalho, de Morretes, e Padre Manoel Antonio da Costa
Nogueira.
5 — Revolução Farroupilha
A revolta que a 20 de Setembro de 1835 explodiu no Rio
Grande do Sul, de 1838 a 1840 obrigou à defesa do Sul da
Província de S. Paulo pelo incremento que teve nesses anos
e pelas tentativas feitas pelos Farrapos de invadirem a fronteira, o que realizaram em diversos trechos do territorio catarinense
As primeiras fôrças de linha que o govêrno imperial remeteu para essa defesa passaram a constituir a Divisão do
Rio Negro. Em 1838 aí se acantonaram 150 praças do 6.°
Batalhão de Caçadores, procedentes de Santos e 80 também de primeira linha, respectivamente comandadas pelo
Major João Feliciano da Costa Ferreira e Capitao Jose Marcelino do Amaral.
„
,
orin
Em 1839 a Divisão do Rio Negro foi reforçada com 200
nracas vindas do Rio de Janeiro comandadas pelo Major
Francisco de Paula Macedo Rangel e com 307, da mesma procedência, sob o comando do Major Antonio Alves Cruz.
Ao todo, 737 praças do exército.
Para o comando superior das Legiões do Sul (Guarda
Nacional) foi em 1840 nomeado o Cél. M a n o e l Francisco Correia Junior no impedimento do Cél. João da Silva Machado,
tendo também, a seu cargo todo o movimento de tropas, aimas e munições. O desempenho que este notável paranaguense deu a todos esses encargos, foi varias vezes elogiado
pelo presidente da Província.
,
.
A 7 de Fevereiro de 1840 chegou a Paranagua o General
Pedro Labatut, comandante em chefe_ da.defesa militar da
Província, que requisitou a incorporação de voluntários e de
guardas nacionais à divisão do seu comando.
A Comarca lhe forneceu os contingentes pedidos sendo
?oo guardas e 77 voluntários de Paranagua e Antonina, 2UU
guardas de Curitiba e 200 cavalarianos de Curitiba e Castro
num total de 677 praças e oficiais, nao contando as forças
S á ocupavam, então, o setor do Campo do Tenente e que
depois se incoporaram à Divisão do Rio Negro.
234
ROMAHIO
MARTINS
Nos Campos Gerais e em Curitiba parece que tinham os
Farrapos muitos adeptos. A notícia da derrota das forças do
brigadeiro Francisco Xavier da Cunha no Passo da Vitória
(R. G. do Sul) comunicada pelo Cél. Correia Júnior ao Capitão Manoel Antonio da Cunha, Comandante da Guarnição
da Vila do Príncipe (Lapa) acrescenta a possibilidade dos
rebeldes invadirem a Província "pela estrada do sertão (antiga estrada da Mata), mormente com o grande partido que
supõem ter a seu favor, nos Campos Gerais e em Curitiba)".
(Ofício de 26 de Dezembro de 1839, transcrito por Vieira dos
Santos, História de Paranaguá, 298).
A revolução dos Farrapos, pela independência do Rio
Grande do Sul e sua constituição em República, terminou em
1842 com a pacificação promovida pelo barão de Caxias, então presidente do Rio Grande e Comandante das Armas.
6 — Combate do Cormorant
O tráfico de africanos foi proibido no Brasil por lei de
1831. A proibição, porém, somente começou a se tornar vigiada em 1850 com o auxílio da Inglaterra. Desse ano em
diante a costa brasileira foi percorrida por cruzadores nacionais e inglêses, por acordo entre os dois países — mas essa mesma vigilância não impediu que tão hediondo comércio se fizesse, com riscos, embora, da maior gravidade.
Parece até, que foi depois da proibição de 1831, que em
Paranaguá tomou incremento o comércio de escravos.
Esta desobediência à humana lei trouxe como consequência, em 1850, a perseguição de uma galéra e três bergantins
negreiros, até ao porto da cidade, pelo cruzador inglês "Cormorant". No porto já se encontravam outras barcas, quando
entrou o cruzador. Foram aprisionados os bergantins D. Ana
e Sereia e a galera Campeadora. Para não se deixar prender
com sua negra carga, o comandante do brigue Astro, José
Francisco do Nascimento, teve uma resolução trágica, bradante de deshumanidade, — afundou seu navio.
O comadante do Cormorant, Capitão Hubert Schumberg
recebeu a visita do Guarda Mor da Alfandega, a quem entregou um ofício subscritado ao "limo. Snr. Comandante da
Fôrça da Cidade de Paranaguá", naturalmente referente aos
acontecimentos. O Guarda-Mor Francisco Pinheiro apresentou o ofício ao Coronél Manoel Antonio Guimarães (depois
Visconde de Nacar) Comandante da Guarda Nacional, que
se recusou recebê-lo. Igual procedimento tiveram o Delega-
HISTÓRIA I>O PARANÁ
235
do de Polícia José Francisco Barroso e o Juiz Municipal Dr.
Filastro Nunes Pires, pelo que o portador o colocou na Agência Postal.
Todos estes acontecimentos ocorreram no dia 29 de Junho de 1850. À noite a mocidade paranaguense resolveu tomar um desforço do capitão inglês, pelo que combinou ir à
Fortaleza da Barra e dar combate ao Cormorant. Entre essa
destemida juventude figuraram Manoel Ricardo Carneiro,
Caetano José de Souza, Bento Antonio de Menezes, José Cardenes do Amaral, Joaquim Caetano de Souza Ferreira, Antonio José de Medeiros, Custodio Borges, Antonio José da Costa
Junior, Francisco Pires, Paulo José Dias Cardoso, Vitor da
Silva Freire, Manoel José de Oliveira, Antonio Gonçalves Pindaí, Salvador do Prado, José da Cruz, João Feliciano dos Santos, Manoel Luiz Fernandes e outros, inclusive as tripulações
dos navios arestados. Pela manhã do dia seguinte esses improvisados guerreiros desembarcavam na Ilha do Mel. Um
entendimento com o comandante da Fortaleza, Capitão Joaquim Ferreira Barbosa, se impunha, antes de tudo. Para orador foi escolhido Manoel Ricardo Carneiro. Falou a linguagem cívica da mocidade do seu tempo e daquela hora de vindicta pariótica. Um navio d eguerra estrangeiro havia arestado embarcações nacionais dentro do porto e isso era suficiente para explicar e determinar uma reação pelas armas.
Ali estavam para ajudar a fortaleza a cumprir o seu dever.
Ao aparecer o Cormorant, rumo da barra, conduzindo os
brigues D. Ana e Sereia e a galera Campeadora, o Comandante da Fortaleza fez seguir ao seu encontro um escaler conduzindo o sargento da Guarda Nacional Tomaz José de Oliveira com a incumbência de entregar ao capitão do cruzador
inglês um ofício nestes termos: — "limo. Snr. Tenho ordem
do meu govêrno para V. S. não levar as barcas nacionais, que
não estão despachadas pelas autoridades da cidade e nem por
mim como comandante desta fortaleza, pois do contrário me
verei obrigado a fazer fogo e só assim poderá sair o vapor".
Este ofício não foi entregue. O escaler foi recebido com
um tiro de polvora seca e regressou. Ao mesmo tempo a fortaleza foi alvejada por bombas de calibre 80 e balas 36.
Travou-se a luta.
Funcionaram todos os canhões do forte e os do cruzador inglês, durante trinta minutos, pois nesse tempo o Cormorant já estava fora do alcance das balas da fortaleza e ancorava na enseada das Conchas. Aí os inglêses repararam
danos por ventura ocasionados no cruzador, tripularam a ga-
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lera Campeadora, incendiaram os brigues D. Ana e Sereia e
prosseguiram viagem conduzindo a galera, rumo do norte.
Nem assim arrefeceu o tráfico de africanos para Paranaguá, pois ainda em 1361 o governo do Império, por denúncias
levadas ao seu conhecimento, agia no sentido de extinguir o
contrabando humano feito então pela barra do rio Superaguí, onde podiam entrar, até o Guaraquessaba, embarcações
até 200 toneladas.
7 — Guerra do Paraguai
Sob a presidência de Carlos Antonio Lopes, na República
do Paraguai, seu filho Francisco Solano Lopes, em 1855, foi
mandado à Europa numa missão de estudos e observações
militares. De França onde realizou estes estudos, voltou ^Solano Lopes penetrado do espírito guerreiro que lá, como também na sua pátria quinze anos depois, havia de levar esses
dois países aos desastres de 70.
Nomeado Ministro da Guerra do Govêrno do seu pai,
criou no Paraguai um exército numeroso e aguerrido. Morto seu pai em 1862, sucedeu-lhe na presidência e deu largo
desenvolvimento aos seus formidáveis propósitos de aventura guerreira. Fez construir as fortalezas de Humaitá, Curuzú e Corupaití, contratou técnicos estrangeiros para missões
de instrução e construções militares; organizou uma frota de
guerra de oito vapores, montou arsenais para a fundição de
canhões e fabricação de toda a sorte de armamentos.
Quando em 1864 o Paraguai se sentiu fortemente preparado para uma guerra, deu-se entre o Brasil e o Uruguai então em guerra civil, um incidente que motivou a ocupação de
Montevidéu por forças brasileiras, prestigiadoras de Flores
contra os bandos de Aguirre, declarado inimigo do nosso
país.
Esse foi o pretexto para Solano Lopes apresar em águas
do rio Paraguai o vapor brasileiro "Marquez de Olinda" e mobilizar um corpo de exército de mais de 3.000 homens para
a invasão da Província de Mato Grosso. Após esses atos da
mais evidente hostilidade, declarou guerra ao Brasil. Mato
Grosso foi invadido e uma divisão de 11.000 homens foi lançada, através de Corrientes, contra o Rio Grande do Sul.
O govêrno brasileiro apelou para todos os seus recursos
militares. Convocou a Guarda Nacional, organizou batalhões
de Voluntários da Pátria.
HISTÓRIA I>O PARANÁ
237
A fórça de linha da guarnição da Comarca, composta de
153 praças e 9 oficiais, logo à primeira hora da guerra seguiu
para São Paulo; à incorporar-se às forças expedicionárias do
Coronél Manoel Pedro Drago.
Foi mobilizada a Guarda Nacional. Aviso de 4 de Agosto de 1885 determinou que essa Guarda dêsse 800 homens para guarnição e defesa da fronteira, tendo sido na mesma ocasião nomeado para a organizar, instruir e comandar, o Tenente Coronél José Maria Barreto Falcão. Esses guardas nacionais constituíram um Batalhão de Infantaria, um Esquadrão de Cavalaria e uma Companiha de Artilharia. Tais corpos "atingiram a um alto estado de disciplina e eficiência"
segundo referem os relatos oficiais. O Batalhão de Infantaria, com 8 companhias, composto de 402 -praças e 35 oficiais
foi mandado para Montevidéu, onde se reuniu às forças brasileiras.
Ainda em 1865 seguiram para o Rio de Janeiro os primeiros Voluntários da Pátria, que em número de 78 praças
e 3 oficiais foram incluídos no 4.° Batalhão de Infantaria,
que dali seguiu para a guerra; e um batalhão de 4 companhias, da Guarda Nacional, com 318 praças e 7 oficiais, que
a 24 de Maio seguiu para Santa Catarina, em transito para
Montevidéu, sob o Comando do Major em comissão José Artur de Murinelly.
Até ao fim de 1865 a Província havia contribuído para a
guerra com 1239 soldados, sendo: — Guardas Nacionais 517,
Voluntários da Pátria 416, Fôrça de primeira linha 221, Recrutas 85. (Relatório do Presidente Fleury, de 1866).
No primeiro ano da guerra já havia o Paraná contribuído com 1,41 da sua população livre, que era calculada então
em 87.491 almas.
Além desse total havia mobilizado nas imediações da
fronteira Argentina 174 praças da Guarda Nacional do Major Manoel Marcondes de Sá, empregados na construção da
estrada dos Campos de Palmas aos das Missões, em Corrientes.
A Província do Paraná, então com onze anos apenas de
existência, correspondeu brilhantemente a esse chamamento
às armas nacionais, mandando para todos os campos da luta
2.022 soldados, sendo 1296 guardas nacionais, 480 voluntários, 230 recrutas, 11 substitutos libertos, 4 libertos por particulares e 1 substituto.
Para que se sinta bem de que porte foi esse esforço da
mais nova província brasileira na defesa militar da nação,
238
ROMAHIO
MARTINS
damos a contribuição de todas as unidades políticas do Império, parceladamente:
Baía
Corte
Rio de Janeiro
Pernambuco
São Paulo
Ceará
Maranhão
Rio Grande do Sul
Minas Gerais
Pará
Mato Grosso
Piauí
Alagoas
Paraíba
Sergipe
Paraná
Santa Catarina
Rio Grande do Norte
Espírito Santo
Amazonas
Goiaz
15.227
11.467
7.851
7.136
6.504
5.648
4.536
4.483
4.070
3.877
3.298
2.705
2.656
2.454
2.254
2.022
1.537
1.311
966
574
542
"O total dessas forças foi de 91.218 homens, que somados aos que já existiam no sul, em 1865, dão 111.651 homens
que tomaram parte na guerra contra o Paraguai, não incluídas as forças da armada, as forças que diretamente seguiram
das províncias do sul e muitos paizanos que exerceram funções civis junto ao exército". (João Nogueira Jaguaribe,
Quanto Custou a Guerra contra o Paraguai).
8 — Revolução Federalista no Paraná
Antecedentes. Resultantes da luta de partidos provinda
da eleição do primeiro Presidente da República, foram os
acontecimentos políticos que motivaram a dissolução do Congresso Nacional e a renúncia do Marechal Deodoro, respectivamente a 3 e a 23 de Novembro de 1891, e a deposição dos
governadores, feita por Floriano Peixoto, seu sucessor na presidência .
Principalmente no Rio Grande do Sul os acontecimentos tiveram larga repercussão e motivaram da parte dos "Fe-
HISTÓRIA I>O PARANÁ
239
deralistas" (partidários de Gaspar da Silveira Martins) profunda exacerbação de ódios contra os "Castilhistas" (partidários do Governador Julio de Castilhos). Em Fevereiro de
1893, essas facções políticas estavam em armas, com a invasão do Estado pelas forças de Gumercindo Saraiva e de Vasco Martins, que iniciadas com 600 homens, recebiam concursos de vários chefes prestigiosos da campanha, entre os quais
sobressaia Jóca Tavares.
Parecia, contudo, possível evitar-se a propagação da
guerra, quando o episódio Wandenkólck, em Junho, reacendeu os ânimos. Esse almirante, ministro da marinha no primeiro govêrno da República, declarou-se contra os "Castilhistas" e lançou contra a barra do Rio Grande uma esquadrilha de navios mercantes armados em guerra, que foram,
afinal, aprezados pelo cruzador "República".
Em Agosto o Coronél Salgado, com 1.000 gaúchos, une-se
a Gumercindo em Lavras e ambos se lançam novamente em
ação. No mês seguinte a esquadra, sob a chefia do Almirante Custodio de Mélo se subleva no porto do Rio de Janeiro,
dando à revolução federalista seu formidável concurso e possibilitando-lhe airetrizes nacionais.
Aumentadas as forças iniciais que pelejavam no Rio
Grande, as do Coronél Salgado marcharam para a Laguna,
em Santa Catarina, onde o Govêrno era federalista e as de
Gumercindo para o Paraná, onde a revolução contava com
numerosos prosélitos, embora o govêrno fosse radicalmente
f lorianista.
A defesa do Estado. Afim de conter a marcha da revolução, o Govêrno da República designou o General Francisco
de Paula Argolo, que em Curitiba organizou uma divisão expedicionária que seguiu para Ambrósios com 300 homens com
apoio na Lapa, com três brigadas com 1.400 homens. Ambrósios ficou sob o comando do Tenente-Coronél Ismaél Lago,
e, a seguir, do Coronél honorário Adriano Pimentel.
Ao serem atacadas pelas forças de Gumercindo, as legais se retiraram para Tijucas, onde se fortificaram, mas onde tiveram de capitular, a 19 de Janeiro (1894) "atentas as
condições extremas a que havia chegado a praça", como diz
a ata da honrosa capitulação. As presas de guerra foram
abundantes em armas, porém excassas em munições.
*** Paranaguá foi tomada pela esquadra do almirante
Custodio de Mélo, no dia 15 (Janeiro de 1894) e esse foi um
dos motivos da praça de Tijuca capitular, quatro dias depois,
240
ROMAHIO
MARTINS
a 19. A 20 as forças revolucionárias entraram em Curitiba.
A 22 começou o cerco da Lapa.
Ataque e tomada de Paranaguá. Os navios da esquadra
do Almirante Custodio de Mélo, que forçaram a barra de Paranaguá na manhã de 15 de Janeiro de 1894, foram o cruzador "República" e os navios mercantes, armados em guerra,
"Esperança", "Pálas", "Urano" e "íris".
Em terra reinava a agitação e quasi que a desordem. Entre os elementos de sua defesa havia federalistas, do que é
exemplo a parte da Guarda Nacional, à qual se reuniram civis, que levou a efeito um sério levante, a 11 de Janeiro, sob
o comando de Narcizo França.
Começaram as prisões. Ao desembarque das forças da
esquadra, existiam na cadeia pública 110 presos, sendo 42
presos políticos e 68 Guardas Nacionais revoltosos.
A mais notável prisão de político foi a do prestigioso íe• der alista paranaense Coronél Teófilo Soares, residente em
Antonina, mas chefe espiritual da revolta dos guardas nacionais de Paranaguá, onde então se achava.
A conquista de Paranaguá deu-se assim:
A 13 de (Janeiro de 1894) apareceu à vista da fortaleza
da barra o vapor "Esperança", que sendo recebido com tiros
da bateria do forte, retrocedeu. No dia seguinte reapareceu
o "Esperança", acompanhado dos vapores "Urano" e outros,
que avançaram pelo canal da baía protegidos pelos canhões
do cruzador "República". Demais, a resistência da fortaleza foi uma mera formalidade, de nenhuma eficiência.
Logo flutuou no forte a bandeira branca da rendição.
Os navios passaram e foram ancorar em frente à ilha das
Cobras. Nessa posição ficavam ocultos das vistas da cidade,
o que, aliás, foi providência dispensável, pois a defesa de terra nada podia fazer contra a artilharia pesada dos navios
atacantes.
A defesa de Paranaguá apenas contava com seis canhões
de campanha e 400 homens sem adestramento militar: —
contingentes do "Batalhão Patriótico 23 de Novembro" e da
Guarda Nacional local. Afora essa gente, apenas meia dúzia
de artilheiros do exército.
Depois de quatro horas de bombardeio, calaram-se as
baterias da esquadra. Nessa altura do combate chegaram a
Paranaguá reforços de infantaria: — o General Pêgo Júnior,
Comandante do Distrito Militar com cerca de 100 homens da
Guarda Nacional de S. Paulo.
HISTÓRIA I>O P A R A N Á
241
Com a cessação do fogo parecia que os atacantes desistiam de Paranaguá e iam atacar Antonina onde julgavam
mais fraca a defesa e donde fariam seguir para Curitiba suas
tropas de desembarque.
O General Pêgo assim o entendeu, ao que parece, pois
retirou-se para Morretes com 60 homens da guarnição. A esquadra, entretanto, cessára fogo afim de receber o vapor
"íris" armado em guerra, que lhe trazia 250 homens de desembarque.
O "Urano" aproxima-se então do Porto d'Água, sem receio da artilharia da costa, e arria escaleres cheios de tropa.
A fôrça de artilharia comandada nesse local por Domingos
Nascimento e composta de 20 praças apenas, embalde tenta
repelir os adversários já em terra, protegidos pelas granadas
de bordo.
Sucedem-se os desembarques e o bombardeio continua.
Granadas explodem em todos os setores da defesa, que silenciam.
Só um setor resiste: — o da cadeia, na cidade, defendido pelo Capitão Julio Garcia, Guarda Nacional paulista, e
pelo Cabo Pedro Machado, do 3.° Regimento de Curitiba. A
tudo resistia a guarnição da cadeia, sitiada e violentamente
tiroteada pelos revoltosos: — aos parlamentámos do almirante e às balas dos fuzileiros navais.
Venceu-a, porém, a exortação de um prisioneiro, o Coronél Teófilo Soares Gomes, que assim salvou soldados e presos de um sacrifício inútil.
*** Há nomes que merecem citação na defesa de Paranaguá; além dos dois heróis da guarnição da cadeia. Entre
oficiais do exército, capitães Manoel José de Faria e Albuquerque e Servando Loiola; tenentes Domingos Nascimento
e João Pires de Albuquerque; Alferes João Negrão. Entre civis, guardas nacionais e patriotas, majores João Carvalho de
Oliveira e Alfredo Paes de Barros; capitães Leon Sounis,
Paulo Assunção, Francisco Negrão, Jesé Ferreira da Luz,
Benjamin Cesar Correia; tenentes Teófilo Marques, Anibal
Carneiro, Alvaro Natividade; alferes Pedro Viriato de Souza,
Clarimundo José Correia, Julio Perneta; sargentos Ismaél
Martins, João Natividade, João do Vale e Balduíno Munhoz.
E mais um pugilo de bravos com Carmelo Rangel à frente.
Duas mortes atingiram as fileiras da defesa: — as dos patriotas Francisco dos Santos Lima (Chico Padre) sargento
ajudante do "Batalhão 23 de Novembro" e Gabriél BitenHistória do Paraná — 16
242
ROMAHIO
MARTINS
court, do mesmo Batalhão. Este falecido depois, em consequência de ferimentos recebidos em combate.
*** o "Batalhão 23 de Novembro" que forneceu um contingente à defesa de Paranaguá, era assim constituido, segundo relata Pedro Viriato no "O Dia" de 18 de Junho de
1936:
Comandante, Domingos Nascimento.
Major, João Carvalho de Oliveira.
Capitães, Paulo Assunção, João de Tapitanga, José Ferreira da Luz, Gastão Sengés e Vicente Machado, que deixou
de exercer seu posto por estar no exercício de Governador do
Estado.
Tenentes, Ulisses Braga e Josino Tito da Costa Lobo.
Alferes, Amadeu Munhoz, Alvaro Pereira, João Natividade, João do Vale e João Batista da Costa Carvalho.
Outros oficiais foram designados para outras unidades:
— Otávio do Amaral, Artur Martins Lopes, Lassala Freire e
Francisco Guimarães, para o 6.° Batalhão da Guarda Nacional e Augusto Espinola para o comando de um Esquadrão
de Cavalaria Civil.
O Setor de Tijucas. A invasão do Paraná pelos federalistas, obedeceu a um plano concertado no porto de S. Francisco
entre chefes militares. Foi aceito o plano traçado pelo engenheiro reformado Coronél Jaques Ourique, aliás conhecedor
de todo o sul do Estado desde quando o percorreu a serviço
das explorações da comissão de limites entre o Paraná e Santa Catarina.
Da execução desse plano foi que resultaram os ataques
simultâneos a Paranaguá, Tijucas e Lapa. É informação do
General J. B. Borman, no I volume de Dias Fratricidas.
Já vimos como se desenvolveu o ataque a Paranaguá. Vejamos agora o que ao mesmo tempo se passava no setor de
Tijucas.
*** O primeiro choque contra a praça de Tijucas, se
deu a 11 de Janeiro (1894).
Ao contrário do que ocorreu em Paranaguá, em Tijucas
as forças legais puderam inflingir graves perdas aos atacantes, embora com número inferior de combatentes. As forças
HISTÓRIA I>O PARANÁ
243
legais segundo c autor citado acima orçavam, ao primeiro
encontro, (dia 11) por 200 combatentes apenas, reforçadas
depois, com a segunda ala do batalhão dos Franco Atiradores, soía o comando do Tenente-Coronél José Bevilaqua e com
outros contingentes.
As forças que pudemos relacionar foram, no setor de
Tijucas, constituidas pelas seguintes unidades:
— Contoingentes do 5.° e do 6.° batalhões de Guarda Nacional de Curitiba;
— Ala esquerda do Batalhão de Franco-Atiradores, comandada pelo Dr. Xandó;
— Ala direita do mesmo batalhão comandada pelo Tenente-Coronél José Bevilaqua;
— Baterias de Artilharia, comandadas pelos Tenentes
José Candido Muricí e Antonio Catão Maza, este ferido em
combate e falecido dias depois;
— Contingente do 17.° Batalhão de Infantaria do exército;
— Contingente da Guarda Nacional da Lapa;
— Contingente da Guarda Nacional de São José dos Pinhais, do comando do Major José Craveiro de Sá.
Do lado dos atacantes formavam forças numerosas, do
comando geral de Gumercindo Saraiva e compostas de unidades sob as ordens de Aparicio Saraiva, Coronél Sebastião
Bandeira, Tenente-Coronél Jaques Ourique, Folião e Coronél Norberto de Amorim Bezerra, comandante da artilharia.
Nos primeiros recontros os atacantes sofreram muitas
baixas e o próprio Gumercindo Saraiva estranhou encontrar
tão forte resistência, pois lhe haviam dito que entraria no
Paraná em passo de parada.
Nos dias seguintes a peleja foi árdua e prolongada. Comandavam, então, as duas facções, Gumercindo a federalista e o Coronél Dr. Adriano Pimentel, veterano do Paraguai, a
legalista.
Todos os ataques dos revoltosos repelidos, com grandes
vantagens para os legalistas, até que se feriu, a 16, o maior
dos combates, com o inimigo postado à cavaleiro do adversário. Várias foram as baixas nas forças legais, entre elas, feridos, o Comandante Ismaél Lago, o Capitão Orozimbo Mar-
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ROMAHIO
MARTINS
condes, os Tenentes Jesuino Dias de Camargo e Felix Seixas
de Araujo e nove praças, entre os quais três mortos.
O Comandante Pimentel determinou que fosse tomada,
à baioneta, a posição favorável do inimigo. Dessa difícil empresa foram incumbidos o Capitão Teodorico Guimarães e o
Alferes Jocelim de Alencar Oliveira, com um contingente do
17 0 Batalhão reforçado por praças escolhidos de outras unidades.
A posição foi tomada . E o Capitão Teodorico bravamente a manteve, repelindo a todos os contra-ataques, até que o
comandante geral resolveu o contrário, visto o inimigo estar
contornando todo o acampamento legalista.
Os ataques punham, agora, em situação difícil os defensores da legalidade que já resistiam com deficiência de munição e com consecutivas baixas. A 17 foram feridos (veio a
falecer) o bravo Tenente Pedro Bueno, da Guarda Nacional
de S. José dos Pinhais e mais três praças, e mortos cinco soldados.
O hospital da "Cruz Vermelha" à cargo do médico militar Dr. Brasílio Luz e do Dr. Jorge Meier, estava lotado de
feridos e era alvejado pelo inimigo. Aí, no exercício de sua
função humanitária, foram atingidos por bala dois enfermeiros, morrendo um deles.
A situação ia se tornando insustentável e uma retirada
era impossível devido a falta de cavalaria e desse elemento
dispunha profusamente o inimigo. A água, que só existia
fora do raio de trincheiras, era disputada à bala. Gêneros
alimentícios escasseiavam, pois o inimigo se apropriára dos
últimos comboios de reabastecimento.
Pela manhã de 17 surgiu diante do setor um homem agitando uma bandeira branca. Era o negociante Roberto
Hauer, aprisionado com um dos comboios, que trazia uma
mensagem em que o chefe inimigo intimava a praça a render-se, o que foi recusado, a despeito da precariedade de sua
defesa.
A 19 apareceu o mesmo emissário, com carta do Dr. Aníbal Cardoso, do acampamento de Gumercindo, insistindo com
o Comandante Adriano Pimentel na aceitação da proposta
de rendição, à vista da inutilidade de uma resistência quando Paranaguá e Curitiba estavam dominadas pelos revolucionários e a Lapa fechac[a por apertado sítio.
HISTÓRIA I>O PARANÁ
245
Desse convite resultou um encontro, na praça legalista,
do Dr. Anibal Cardoso que se fez acompanhar do Major Vitorino Ordini, da Guarda Nacional de São José dos Pinhais,
com o Coronél Adriano Pimentel Comandante da guarnição
de Tijucas, — e desse encontro resultou a capitulação.
*** Os capitulados foram em número de 750 e dentre
êles 1 coronél, 12 capitães, 16 tenentes, 27 alferes e 2 médicos militares.
As suas baixas totais foram, de 11 a 19 de Janeiro, 17
mortos e 41 feridos.
Sítio e Tomada da Lapa. O General Argôlo, que havia estabelecido o plano de defesa do Estado pela linha do Rio Negro, em fins de novembro substituiu esse plano pelo de concentração de todas as forças na cidade da Lapa. O General
Borman (Dias Fratricidas, vol. I, 156) diz que outra teria sido
a sorte da defesa legalista se este segundo alvitre de Argolo
tivesse sido tomado um mês antes e com uma fôrça mais numerosa, bastando que tivesse sido possível a ocupação da Serra de S. Bento antes do inimigo, para lhe impossibilitar a
invasão do Paraná pelo lado do Rio Negro.
Em fins de novembro, a expedição Argolo havia se recolhido à cidade da Lapa, onde a 2 de Dezembro passou o Comando de Distrito ao Coronél Ernesto Gomes Carneiro, retirando-se para a Capital Federal a chamado de Floriano.
Nos últimos dias do mês (27 de Dezembro) vários piquetes do inimigo mostraram-se nas proximidades da cidade
da Lapa, que então contava com uma guarnição de pouco
mais cie 700 homens apenas, devido a destacamentos dela retirados para reforço de Ambrósios e Paranaguá e diligencias
em localidades do Rio Iguassú, onde se formavam núcleos
revolucionários, — um total de cerca de 500 praças.
O Capitão Teodorico Guimarães com 100 praças do 17.°
de Infantaria, fôra mandado reforçar Tijucas; o Capitão Rosendo Marcondes também com 100 praças do 18.° de Infantaria da Guarda Nacional da Lapa, seguira com o mesmo destino, bem assim toda a ala direita do Batalhão Franco-Atiradores, sob o comando do Tenente-Coronél Dr. José Bevilaqua;
o Capitão Custódio Gonçalves Rolemberg, do Regimento de
Segurança do Paraná, com uma centena de guerreiros fôra
mandado bater, nos rios Negro e Iguassú, piquetes inimigos
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ROMAHIO
MARTINS
e rebeliões federalistas; e o Capitão Julio Garcia, da Guarda
Nacional de S. Paulo, com 130 praças do 108 e 11, destacava
para Paranaguá como reforço da defesa.
Outros pequenos contingentes do 18.° Batalhão de Guardas Nacionais da Lapa e dos batalhões patrióticos "Quinze de
Novembro" e "Floriano Peixoto", também da Lapa, comandados pelo Tenente Francisco Bacelar, andavam em diligências distantes da cidade.
Com o seu efetivo assim reduzido, a guarnição da Lapa,
a 15 de Janeiro (1894) viu o inimigo aparecer entre os quilômetros 3 e 4 da estrada que vai para o Rio Negro, e em número calculado (calculo oficial) em 1.200 homens.
Nesse dia romperam as hostilidades das duas frentes de
combate.
Foi a seguinte a posição das forças de defesa, segundo o
relatório do então Major' Felipe Schmidt, ao Ministro da
Guerra, de 5 de Julho de 1895:
"As nossas forças conservaram as suas posições. Na frente. a artilharia em'linha de batalha, tendo à esquerda acampado o 17.° de Infantaria e um pouco à retaguarda o piquete
do 8.° de Cavalaria de Linha; à direita, o Regimento de Segurança e 50 praças do 111 da Guarda Nacional de S. Paulo;
à retaguarda, cerca de 400 metros, no largo da Municipalidade o 18.° de Infantaria e o 13.° de Cavalaria da Guarda Nacional da Lapa. comandados, o primeiro pelo Alferes do exército, comissionado em Tenente-Coronél, Aristides Vilas-Bôas,
e o segundo pelo Coronél João Pacheco; mais à retaguarda
ainda, vigiando o extremo oposto da cidade, os batalhões patrióticos "Floriano Peixoto" e "Quinze de Novembro", que
guardavam no flanco direito a estação da estrada de ferro,
no centro o cemitério e na esquerda o engenho Lacerda.
"Dispostas assim as forças dentro da cidade e colocadas
duas guardas a um quilômetro e pouco para cada flanco, uma
à direita no alto da Cruz, e outra à esquerda no alto do Monge, duas coxilhas que dominam toda a cidade, aguardava o
Coronél Carneiro as hostilidades do inimigo".
O primeiro combate de infantaria ocorreu a 17. A cavalaria inimiga, sem ser presentida, contornára a cidade, na
noite anterior, tíroteando a retaguarda das posições legalistas.
As forças atacadas foram as dos batalhões patrióticos
da Lapa, da Brigada-do Coronél Joaquim Lacerda.
HISTÓRIA I>O PARANÁ
247
Esses batalhões foram logo reforçados com contingentes do Regimento de Segurança e do 18.° de Infantaria da
Guarda Nacional da Lapa, com os Sapadores de S. Paulo e
uma metralhadora. No alto do cemitério foram colocados um
canhão Krup e um Withworth e em sua proteção destacamentos do 17.° de Infantaria de linha e do 111 de S. Paulo,
sob o comando do Coronél Serra Martins. O comando geral
da ação foi feito pessoalmente pelo Coronél Gomes Carneiro,
auxiliado pelo Coronél Lacerda, comandante da Brigada atacada.
Após quatro horas de combate o inimigo retirou-se deixando vários mortos, animais e armas e os defensores cinco
baixas por morte e outras por ferimento.
O Comandante da Divisão elogiou calorosamente as forças lapeanas de patriotas e guardas nacionais, pela "coragem e galhardia" demonstradas nesse batismo de fogo.
"Estavamos porém cercados" escreve o Major Schmidt
em seu relatório. "O inimigo, dividido em duas colunas,
acampou na nossa frente e retaguarda, à distância aproximada de cinco quilômetros de um e de outro lado, nas margens das estradas de ferro e de rodagem, e cortando a linha
telegráfica interceptou de todo as nossas comunicações com
Curitiba".
Tudo dependia, então, da prometida vinda dos batalhões
Frei Caneca e Campineiros, para o rompimento do cerco e retirada sôbre Curitiba afim de se operar junção com as forcas do General Pêgo. Até que isso ocorresse, porém, era mister resistir. E o General Gomes Carneiro, enquanto esperava
esse auxílio, "fez levantar trincheiras em diversas ruas, fechando com elas cerca de dois terços da área da cidade, parte que podia eficazmente ser defendida pela nossa pequena
fôrça" escreve Schmidt em seu citado relatório. A rua das
Tropas, a estação da estrada de ferro, o cemitério e o engenho" Lacerda, ficaram fora da área entrincheirada.
Os dias 18 a 21 foram "quasi de armistício". A 22 três
cavaleiros, um deles agitando uma bandeira branca, procuraram parlamentar. O Coronél gritou-lhes que retrocedecem.
Não recebia parlamentários. Mandaria fazer fogo se insistissem.
O 17.° de Infantaria fez uma descarga. Do lado do inimigo cornetas e clarins tocaram "Avançar" e "Fogo". Diz
o Major Schmidt: — "De três pontos do Monge (morro do)
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ROMAHIO
MARTINS
outras tantas bocas de fogo dispararam sôbre a cidade e uma
fuzilaria cerrrada rompeu do mato e casas próximas às nossas forças de retaguarda".
Em dado momento cessou a fuzilaria atacante e apareceram no setor onde se achavam os coronéis Joaquim Lacerda, comandante da 2.a Brigada e Ducidio Pereira, comandante do Regimento de Segurança, os negociantes de Curitiba
srs. José Fernandes Loureiro e Artur Balster, que queriam
parlamentar em nome do comércio da capital.
Avisado o Coronél Gomes Carneiro, dirigiu-se em pessoa
aos parlamentámos, negando-lhes o direito de intervirem e
recusando-se a receber um ofício que traziam.
O regresso desses mensageiros determinou da parte do
inimigo um ataque violentíssimo na retaguarda e no flanco
esquerdo, ao mesmo tempo. Os setores da defesa recuaram
em vários pontos, após várias horas de combate, porém foram
mais tarde impetuosamente retomados.
O Major Inácio Costa, comandando forças do Regimento
de Segurança, dos guardas nacionais e patriotas da Lapa e
do 17.° de Linha, bateu e desalojou o inimigo das matas da
direita. E Clementino Paraná, Capitão do Regimento de Segurança, com forças da sua unidade e das demais citadas, expulsou em renhido combate à couce de armas, os inimigos
que se haviam fortificado na estação da estrada de ferro.
Foram os heróis do dia esses dois denodados guerreiros
do Paraná.
De 23 a 26 ioi diário e de sol a sol o bombardeio da Lapa
pelos quatro canhões Krup dos sitiantes. A defesa foi reduzida em seu raio e limitada às zonas de trincheiras. O inimigo ocupou a rua das Tropas e o Alto da Lapa.
De 28 de janeiro a 1.° de fevereiro, a cidade, exposta aos
tiros dos sitiantes, foi inclementemente batida. Em qualquer
das ruas o transito se tornou perigoso. "Não raro via-se cairem
feridos ou mortos aqueles que por necessidade do serviço ou por
atos comuns de imprudência, transitavam por elas".
De 2 a 6 de Fevereiro, os atacantes consolidaram suas
posições e mantiveram seguido tiroteio. A 7 já o inimigo tiroteava dos quintais da rua da Bôa Vista e a 7 forças muito numerosas atacavam todos os flancos da cidade.
Diz o relatório já tantas vezes citado: — "Trava-se então
renhido e mortífero combate, no qual os combatentes, se não
HISTÓRIA I>O PARANÁ
249
chegaram ao uso da arma branca, fuzilavam-se, entretanto,
apenas separados por cercas de tábuas que dividiam os quintais ou fechavam os lances de rua onde não existiam casas".
Serra Martins dirigia os setores de um lado da cidade e
Joaquim Lacerda os de outro. Gomes Carneiro a cavalo, estava em toda a parte, dando o exemplo e animando a resistência.
Foi assim que apareceu na trincheira erguida no cruzamento da rua das Tropas com a da Bôa Vista entre as casas
do Sr. Francisco de Paula e do Coronél João Pacheco, onde
a fuzilaria estava dizimando a guarnição.
Apenas chegára, uma bala de fuzil inimigo o prostrou
gravemente ferido. Foi recolhido à casa próxima, do Professor Pedro Fortunato de Souza Magalhães, onde ficou em tratamento, ao cuidado do Dr. João Cândido Ferreira, médico
da 2.a Brigada.
O duelo entre a trincheira e os atacantes recrudesceu.
Os patriotas lapeanos, do Batalhão Floriano Peixoto, Henrique José dos Santos e Alferes José Fidêncio Guimarães, comandante e sub-comandante desse setor, quasi que ao mesmo tempo cairam mortos e sob as suas armas. O Alferes-Aluno Gustavo Lebon Régis, que manobrava com eficiência um
canhão Krup, era posto fora de combate, gravemente ferido.
Mortos ou feridos, cairam todos os defensores da heróica
e fatidica trincheira. Calou-se o canhão, emudeceram as carabinas. Pela trincheira defendida agora pelos mortos, ia
passar, triunfante, o inimigo. Mas num supremo instante
apareceram para combater ao lado deles, o Coronél Lacerda,
o Major Menanaro Barreto e o Capitão Sisson, com reforços
de patriotas lapeanos e do 17.° de Infantaria de Linha.
E o canhão ribombou de novo. E as carabinas estalaram
novamente, no ritmo agônico dos tiroteios.
*** O dia era aziago por toda a parte. As casas da rua
Bòa Vista eram invadidas pelo inimigo e de continúo retomadas. Nesse empenho caiam, de parte a parte, dezenas de
combatentes.
No fragor de um desses assaltos, em que demonstraram
indomável valentia os lapeanos do Batalhão Floriano Peixoto. caiu morto por bala o Tenente-Coronél comandante desses patriotas, Dr. José Amintas de Barros, àquele posto elevado na véspera.
250
ROMAHIO M A R T I N S
Noutro setor é mortalmente ferido o Coronél Cândido
Ducidio Pereira, ídolo dos seus soldados do Regimento de Segurança.
A luta foi, por toda a parte, árdua e mortífera; mas, ao
cair da tarde, três tiros de canhão do inimigo comandaram,
do alto do Boqueirão, a retirada das tropas assaltantes.
*** Todos os prisioneiros confirmaram estar o Estado
inteiro, exceção da Lapa, em poder dos revolucionários. Não
houve meio de tornar essa desesperadora verdade só sabida
dos comandos e dos seus estados maiores. O seu conhecimento, até com detalhes, era público na cidade sitiada.
Daí resultaram desanimo e deserções. A causa da defesa perdia entusiasmo e esperanças. Reinava o fatalismo quasi em desalento,
No dia 8 ao se saber da morte de Dulcídio Pereira, os
seus soldados abandonaram as trincheiras e foram vêr, ainda uma vez, o seu querido e bravo comandante. Foi preciso
antecipar o enterramento para que as praças fossem de novo para seus postos.
Findára, também, quasi à mesma hora, a vida do Comandante Geral, Coronél Gomes Carneiro. A sua morte não
foi divulgada nesse dia. Os comandantes de unidades, que
haviam se reunido pouco antes, no depósito de munições, para trocarem idéias sôbre a situação, acharam-na extremamente grave. Havia, contudo, munição de guerra e alimentos para mais alguns dias; — e diante disso o Coronél Lacerda propoz que assumissem todos compromisso de honra de
defender a cidade até que se esgotassem os últimos recursos.
"De pé, braços estendidos e mãos sobrepostas, — foi essa promessa solenemente feita".
No dia 10 a notícia da morte do Coronél Carneiro era
conhecida de todos. A desolação era geral. Foi sepultado na
sacristia da Matriz, envolto na bandeira do 17.° Batalhão de
Infantaria.
*** Na manhã de 11 um emissário dos sitiantes trouxe
um ofício do General Laurentino Pinto Filho, comandante
do 2.° Corpo do Exército Revolucionário, dirigido ao Coronél Joaquim Lacerda, propondo a capitulação.
H I S T Ó R I A I>O P A R A N Á
251
Já então a impressão geral era de que a resistência se
tornára impossível e a derrota rondava as fortificações da cidade.
E a Lapa capitulou. ( * )
( * ) ATA DA CAPITULAÇÃO
"Aos onze dias do mês de Fevereiro de mil oitocentos e noventa e quatro, na cidade da Lapa, no Quartel General da segunda brigada, presentes os
genrerais Gumercindo Saraiva, comandante do exército revolucionário do Rio
Grande do Sul, e em chefe das forças em operações neste Estado; Antonio
Carlos da Silva Piragibe, comandante do primeiro corpo do exercito nacional
provisório; Laurentino Pinto Filho, comandante do segundo corpo do mesmo
exercito; Coronel Julião Serra Martins, comandante da primeira brigada; Coronel Joaquim Lacerda, comandante da segunda brigada; os oficiais abaixo
assinados, pertencentes ás referidas brigadas, por eles foi convencionada a
capitulacão da Praça da Lapa, sob as seguintes condições:
Os três generais, como representantes do Governo Provisorio da Republica dos Estados Unidos do Brasil, aceitam a capitulação, concedendo aos comandantes e mais oficiais da guarnição, todas as honras da guerra, atendena fôrma heróica por que defenderam a praça, rendendo-se apenas por circunstancias especiais supervenientes, sendo-lhes entregue todas as armas, munições e tropas. Aos oficiais é concedida plena liberdade e meios de transporte dentro do Estado, para com seus bagageiros tomarem o destino que lhes
convenha, sob condição de não mais tomarem armas contra a revolução, que
tem por f i m a defesa da Constituição e das Leis da Republica . E do mesmo
modo garantida a liberdade, vida e propriedade de todos os civis, que se acharem em armas e que não queiram aderir á nossa causa, devendo também fazer
entrega de armas e munições.
E por acharem todos conforme lavrou-se a presente ata, que assinaram:
Gumercindo Saraiva, Antonio Carlos da Silva Piragibe, Laurentino Pinto Filho Coronel Juilião Augusto de Serra Martins, Coronel Joaquim Lacerda Capitão Augusto Maria Sisson, Major Inácio Gomes da Costa, Alferes Secundino
Eustáquio da Cunha, Capitão José Olinto da Silva Castro, 2.« Tenente M a n o
Alves Monteiro Tourinho, Capitão Praxedes A. Moroc.nes Borba, Tenente
Tosé Lourenço C. Chaves, Alferes Alvaro Cezar da Cunha Lima, Capitao Clementino Paraná, Maior Frederico Koch Angelo, Tenente José Mansberge«,
Tenente José MeinU Alferes Amálio Cecílio de piiveira A.feres Dom i n go S
José dos Santos, Tenente Coronel Libero Guimaraes, Capitao Torquato P m
to Ribas, Alferes Pedro Hoffmann, Alferes Ascendino Ferreira do Nasc meno, Tenente Oscar Candido Capeli, Capitão D n José ^ t a r i comandante d o
pelotão de Sapadores, Alferes Candido Gomes Coelho (dos Sapadores) Alferes Junkwalder, Tenente Ricardo Wiegler, Alferes Quintino Jaguar.be de Oliveira, Alferes Candido José Pamplona, Alferes Max Sche, er, Alferes Antonio
Gom^s Ferreira, Alferes Manoel A. Botelho Ataíde, Major engenheiro Joaquim Gonçalves Júnior, Tenente Coronel Emilio & Blum . A m é r i c o V i d a A f e res Teodoro F. de Melo, Tenente Raimundo de Abreu, Major_Fehpe S ^ n n d t
Dr. Tenente-médico Felipe Maria Wolf, Capitao Jose Mana Sarmento de
Lima, Tenente Adalberto de Menezes".
9 — Campanha do Contestado
O vocábulo "sertão" designa lugar de floresta distante
de povoação civilizada, habitado ou não. Quando habitado,
252
ROMAHIO
MARTINS
sua população é em regra representativa dos primitivos aborígenes do país e em parte mestiça, de cruzamento com branco, e, em pequeno número, com preto.
Há muitos anos atrás entre esses povos apareciam bandos
de fanáticos, guiados à malandragem e à desobediência legal por indivíduos que lhes exploravam a rude crendice e a
ignorância das vantagens sociais.
Assim guiados se tornavam capazes de todas as audacias,
e a última grande manifestação de um tal estado psicológico da alma coletiva do habitante do sertão, foi motivada pela
ascendência de um aventureiro, o falso monge José Maria,
sôbre populações fanáticas dos campos e sertões do território
então contestado entre os Estados do Paraná e Santa Catarina, principalmente na parte catarinense.
*** José Maria apareceu no sertão de Campos Novos
após ter sido soldado do exército e de desertar da polícia paranaense. Era indivíduo ignorante mas relativamente inteligente e seu verdadeiro nome era Miguel Lucena.
De pronto percebeu o falso monge que o meio em que
se homiziara era favorável ao seu domínio e lhe poderia facilitar as mais audazes iniciativas exploradoras da ignorância geral.
Adotando o nome e a suposta qualidade de "monge" do
célebre fanático que anos antes tanto movimentára os sertões do Tibagí, o novo José Maria passou a fazer curas, a maravilhar os caboclos e em seguida a se fazer obedecer como
chefe supremo, com grosseiras idéias monarquicas. Mais de
2.000 fanáticos se prontificaram a lhe seguir o comando e
com a continuação das suas predicas esse número se tornou
muito mais avultado e se disseminou pelo sertão, principalmente de Santa Catarina. Seu primeiro centro de ação fôra
o sertão de Campos Novos, naquele Estado, onde chegou a
dominar.
Os seus homens de luta estavam armados de longos sabres e espadas curvas. As melhores dessas armas foram distribuídas pelos caboclos mais robustos e valentes, cujo conjunto denominou "Doze Pares de França".
Resolveu (1912) José Maria ocupar a vila catarinense de
Curitibanos, onde foi repelido. Passou-se então para o Estado
do Paraná, e nos campos do Iraní acampou com o seu improvisado exército.
*** As intenções perturbadoras da vida sertaneja e
ameaçadoras das populaçpes dos centros próximos, determi-
HISTÓRIA DO PAFANA
253
naram providências militares do Estado do Paraná e do próprio governo federal, no sentido do restabelecimento da ordem nas zonas de incursão dos fanáticos amotinados.
Um destacamento composto de 85 praças do 14.° Regimento de Cavalaria e duas secções de metralhadoras, com 51
praças, sob o comando do Tenente Coronél Alvaro Pedreira
Franco, em Setembro de 1912 foi mandado guarnecer a linha
da estrada de ferro São Paulo-Rio Grande, da estação do Herval à do rio Caçador. Um destacamento de 400 praças do Regimento de Segurança do Paraná sob o comando do Capitão
do exército dr. João Gualberto Gomes de Sá Filho, em Outubro do mesmo ano acampou a 8 léguas da cidade de Palmas, de onde, nc dia 20, à frente de 58 praças de infantaria,
algumas de cavalaria e uma metralhadora "Maxim", partiu
ao encontro dos rebeldes, entrando nos campos do Iraní às
6 horas da manhã do dia 22.
Pressentidos pelos bandos de José Maria, estes, em número aproximado a 300 indivíduos, parte a pé e parte montados, avançaram sôbre a pequena fôrça, atacando-a à armas de fogo e depois à arma branca. Dado o ímpeto e o imprevisto do ataque assim organizado, o bravo comandante
João Gualberto procurou, êle próprio, fazer funcionar a metralhadora, o que não conseguiu.
Logo ao primeiro embate a polícia perdia 12 homens e
outros tantos os fanáticos. Dado o entrevero, o "monge" atacou, armado de facão, o Capitão Gualberto, que com dois
tiros de revólver o prostrou sem vida. Mas por sua vez caia o
intrépido comandante da polícia paranaense, ferido de morte pelo golpe de facão que seu agressor lhe desfechára sôbre
a cabeça.
O destacamento teve 13 mortos e 16 feridos. Perdeu 40
fuzis, a metralhadora e 3.250 cartuchos, e em retirada precipitada reuniu-se ao grosso do seu regimento que acampára
próximo a cidade de Palmas, para onde também teve ordem
de marchar o destacamento Pedreira Franco que guarnecia
a região do Caçador.
*** Essas forças foram então aumentadas com 200 praças do Regimento de Segurança do Paraná, sob o comando
do 2.° Tenente Fabriciano do Rego Barros, e sertanistas civis
sob a chefia do Snr. Fabrício Vieira. As forças da polícia e
bem assim as civis, em fins de Outubro foram desagregadas
da expedição, visto ter o govêrno federal resolvido providenciar, com uma organização militar decisiva, sôbre o restabelecimento da paz e da ordem no Contestado, onde a presen-
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ROMAHIO
MARTINS
ça de forças estaduais poderia motivar desavenças devidas a
questão de limites Paraná-Santa Catarina, então incandescente .
A expedição federal, sob o comando do Coronél Antonio
Sebastião Bazilio Pyrrho, compoz-se do 5.° Regimento de Infantaria, do 14.° Regimento de Cavalaria, Segunda Companhia de Metralhadoras e dois canhões do 2.° Regimento de
Artilharia.
De 23 de Outubro a 29 de Novembro (1912) esta expedição explorou todo o sertão nas regiões de Porto União, Palmas e Iraní, nada encontrando de anormal. Os fanáticos já
haviam transposto a fronteira catarinense, regressando aos
municípios de Campos Novos e Curitibanos.
*** Os fanáticos entravam então numa segunda fase
de movimento, entrincheirando-se em redutos.
A zona das estações do Caçador e do Herval, mereceu,
por isso, toda a atenção das autoridades militares. Em Dezembro de 1913 uma companhia de guerra do 6.° Regimento
sob o comando do Capitão Adalberto Gonçalves de Menezes,
partiu de Curitiba para Porto da União e daí para o rio Caçador e outra companhia do 5.° Regimento sob a direção do
Capitão Espiridião José de Almeida para a estação do Herval.
Ambas visavam observar os rebeldes do reduto de
Taquarussú.
Ordenado o ataque a esse reduto, o que devia ser feito pelos dois destacamentos postados em pontos diferentes e distantes de invios caminhos e matagais imensos, a expedição do Capitão Adalberto aí chegou com antecedência da do Capitão Espiridião e teve de sustentar três horas de fogo com os rebeldes e em situação a mais crítica possível. A companhia Espiridião, por sua vez, fracassou, porque chegára quando a
outra já se havia retirado. E por sua vez retirou-se para Campos Novos.
As dificuldades de uma ação combinada entre duas forças distantes uma da outra e em zona de florestas que desorientam aos próprios "vaqueanos", foram as causas do insucesso do ataque ao reduto do Taquarussú. E esse insucesso
concorreu para estimular o banditismo, que então já estava
sendo explorado pela politicalha do município catarinense de
Curitibanos.
Nova expedição foi mandada contra o Taquarussú, composta do 54.° Batalhão de Caçadores, duas secções de metralhadoras, um esquadrão do 14.° de Cavalaria, uma secção de
HISTÓRIA I>O PARANÁ
255
Artilharia de Montanha e dos dois destacamentos anteriores,
— sob o comando geral do Tenente Coronél Duarte de Aleluia Pires, concentrando-se nos Campos do Espinilho.
O efetivo dessa tropa era de 754 homens, servidos por 140
animais cargueiros. Dividida em três colunas marchou para
o reduto visado e a 7 de Fevereiro (1914) estacionou no Campo dos Vicentes, a uma légua de Taquarussú.
Vencendo as dificuldades do terreno, que só permitia a
marcha a um de fundo, a vanguarda da tropa conseguiu tomar posição, no dia seguinte, na coxilha circundante do reduto.
Várias foram as tentativas infrutíferas feitas para evitar o bombardeio do reduto do Taquarussú. Não faltaram
pessoas generosas que com risco da própria vida procuraram
evitar esse combate, com a deposição das armas pelos rebeldes .
Nesse sentido são conhecidos e louvados os esforços do
então deputado federal paranaense Manoel Correia de Freitas, de um frade missionário e até de um feiticeiro de Campos Novos. Estei dois últimos foram mal recebidos e até vaiados pelos fanáticos exaltados.
Diante dessa atitude e recebida por forte tiroteio ao aparecer na coxilha. a expedição federal iniciou o ataque com
tenacidade e bombardeou o reduto com eficiência. Na manhã do dia 9 as forças federais ocupavam Taquarussú, reduzido a um montão de cinzas.
*** Os foragidos deste reduto e outros bandoleiros acoitar am-se no Caragoatá, a 5 quilômetros de Perdizes Grandes, domínio do fazendeiro catarinense Manoel Alves de Assunção Rocha, que tinha imenso prestigio sôbre os bandoleiros que em 1914 o proclamaram seu "imperador".
As mesmas forças que atacaram e destruíram Taquarussú, foram mandadas a Caraguatá com fins idênticos. Apenas o comandante, por doente, foi substituído pelo TenenteCoronél José Capitulino Freire Gameiro. Novas tentativas
de deposição das armas pelos rebeldes foram feitas, igualmente sem resultado.
Divididas as forças em duas colunas e a IV2 légua do reduto, foi a retagurda atacada por uma patrulha cabocla de
300 homens, que a cavalaria ao mando do 1.° Tenente Sardenberg dispersou e perseguiu. As forças atacantes prosseguiram sua marcha e a 1 quilômetro do reduto foram vivamente hostilizadas. Toda a marcha foi feita sob tenaz tiroteio e continuas emboscadas, dentro da mata bruta, que as
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ROMAHIO
MARTINS
metralhadoras do Tenente Leoniclas Marques e do aspirante
Isaltino varejavam de balas.
Houve um momento em que parecia que o inimigo ia dominar a situação, pois irrompia de todos os lados e a natureza do terreno era favorável às astúcias de um combate caboclo. Diante dessa triste previsão, com 26 homens mortos
e 21 feridos, o comandante Gameiro decidiu a retirada para
Perdizes.
*** Por sua vez os bandoleiros abandonaram Caragoatá
onde era precário o estado sanitário. Seus chefes transferiram o acampamento para Pedras Brancas (margem esquerda do Timbózinho) onde surgiu o reduto de Tamanduá. A
população desse acampamento era numerosa, consumindo
diariamente 40 rezes para sua alimentação. Foi por êles fortemente guarnecida a serra de Santa Maria e a zona do Caçador.
Esta nova arregimentação das populações rebeladas, exigiu novas providências do govêrno federal. Na fazenda dos
Pardos a 3 quilômetros de Calmon, foi feita a concentração
das forças que agiam no Contestado, acrescidas das do 7.°
Regimento de Infantaria com um efeitivo de 700 praças.
Em Março (1915) essas forças se achavam sob o comando em chefe do General Frederico de Mesquita, e em
Abril eram divididas em três colunas, a cargo do Tenente-Coronél Aleluia Pires e Major José da Costa Vilar Filho.
Movimentadas essas forças, às quais um pelotão de vaqueanos do Snr Fabricio Vieira prestava o inestimável concurso de seus conhecimentos da região, — o contacto com o
inimigo se deu em plena serra, onde se sucediam as emboscadas. Mas o reduto de Santo Antonio foi tomado, embora à
custa dos maiores sacrifícios.
Dissolveu-se então a expedição Mesquita, ficando no
Contestado apenas o 16.° Batalhão de Infantaria sob o comando do Capitão João Teixeira de Matos Costa, com base
em Porto União e guarnições no Timbó e em Canoinhas.
O Capitão Matos Costa empregou todos os seus esforços
para conseguir a paz sem praticar violências, mas os fanáticos lhe recusaram todas as sugestões e propostas e acabou
sendo vítima do seu nobre idealismo pacifista.
Nos primeiros dias de Setembro (1914) nova irrupção de
desordeiros, sob a chefia de Venuto Baiano (aliás Francisco
Paes de Farias) se manifestou com ferocidade nas fazendas
do Campo de São Roque e em seguida em Calmon, onde incendiaram casas e mataram pacíficos moradores. Esta esta-
HISTÓRIA I>O P A R A N Á
257
cão foi depredada, bem como a de S. João e a serraria "Lumber Company" que foi incendiada.
O Capitão Matos Costa, mais confiante na fôrça moral
dos seus sentimentos, se achava então no Timbó e daí partiu, em trem militar, com 60 homens apenas, desembarcando
a 3 quilometros da estação de S. João, com 40 praças e dois
sangentos, determinando que o trem com 22 praças e a maior
parte da munição, avançasse em seu socorro no caso de necessidade de uma retirada. Os bandidos ocultos em espesso
vassourai, abriram fogo cerrado sôbre a pequena fôrca desabrigada no leito da estrada.
O trem não se movia. E quando a luta desigual chegou
ao auge, o maquinista apavorado e sob os protestos de várias
pessoas, retornou a composicão à toda velocidade, até a estação de Porto União.
Dez soldados e o seu abnegado comandente, foram trucidados e os demais se extraviaram. Os civis assassinados em
Calmon e São João foram em número superior a 80.
*** A zona conflagrada pelos caboclos atingia, então, a
serra do Espigão, a léste, até muito acima de Campo Alto, seguindo para o norte até aquém da estrada de ferro, a começar
na serra do Caçador e a oeste na de Santa Maria; subia o
vale do Canoinhas até parte do Rio Negro e pelo Timbó até
ao rio Iguassú, especialmente na parte compreendida entre
os rios Timbó e Paciência.
Nesta fase da anarquia sertaneja resolveu o govêrno federal organizar uma forte expedição militar, superior a 6.000
homens, confiando-a ao comando do General de Brigada Dr.
Fernando Setembrino de Carvalho. Em Setembro de 1914,
essa expedição estava dividida em três colunas que agiam de
maneira a cercar os revoltosos em seus redutos e a evitar depredações nas localidades pacíficas. Então a zona conflagrada era de mais ou menos 160.000 Kms.2 (Setembro de 1914);
mas as providências militares na última fase da campanha,
circunscreveram os movimentos rebeldes a 60 Kms.2 e finalmente a 30 Kms.2.
O reduto de maior concentração do banditismo era situado na Serra do Caçador e se ramificava, para o sul, até
a Serra de Santa Maria. Os demais, entre o Paciência e o
Timbó, e, alhures, eram "redutinhos", guarnições de defesa,
cada um sob o mando de um chefe bandoleiro.
Dos combates havidos, o mais importante foi o dado ao
reduto de Santa Maria, iniciado a 8 de Fevereiro de 1915. A
História do Paraná — 17
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ROMAHIO
MARTINS
3 de Abril o destacamento do Capitão Potiguara conseguia
acantonar nas imediações da igreja do aldeiamento.
Esta sortida audaz, conseguida a custo de inarráveis sacrifícios, excitou a combatividade dos caboclos, que atacavam
desesperadamente, ocultos nas matas.
A 4 de Abril (1915) a coluna do Coronel Estilac Leal comunicava ao Comando Geral que ela se encontrava dentro do
reduto de Santa Maria. Mas enquanto o aldeiamento se consumia nas chamas de um incêndio generalizado, o inimigo
continuava a hostilizar as forças de ocupação e as que ainda
se achavam em marcha pelas serranias batendo os pequenos
redutos e impossibilitando as emboscadas.
*** Assim terminou uma luta que durou três anos e que
compungiu, de norte a sul, a alma nacional, pelas suas tristes peripécias e consequências.
Todos os esforços foram sem resultado em todas as fases da alucinação das nossas populações sertanejas, afim de
as conter na sua agressividade e de as fazer reingressar na
paz, na ordem e no trabalho.
Só o extermínio dos seus redutos deu resultado. Mas
quantas vidas simples que poderiam ser úteis ao desbravamento dos sertões e quantas outras, preciosas, das nossas organizações militares, afundaram para sempre nos campos,
nas matas e nas serranias do Contestado ?
*** Hoje a situação da zona sertaneja, em grande parte incorporada na vida de municípios prósperos, garante a
estabilidade da ordem e a evolução sistemática do seu desenvolvimento. A autoridade política e a escola, disseminadas
pelos bairros mais distantes, no interior dos dois Estados limítrofes, asseguram e incitam a civilização, onde naquela época
surtia uma população ignorante e fanática e por isso mesmo capaz dos mais absurdos desatinos.
ELEVAÇÃO DA COMARCA
E PROVÍNCIA
CAPÍTULO
1 —
2 —
3 —
4 —
5 —
6 —
7 —
8 —
9 —
10 —
11 —
12 —
13 —
XIII
Os Pioneiros
Pedro Joaquim de Castro Correia e Sá
Floriano Bento Viana
Francisco de Paula e Silva Gomes
Manoel Francisco Correia Junior
João da Silva Machado
Histórico dos Projetos
A Revolução Liberal de Sorocaba
O Barão de Monte Alegre
O Primeiro Projeto (1843)
Emendas e Requerimentos
Proposição no Senado (1850)
0 Projeto na Câmara (1853).
1 — Os Pioneiros
Os esforços pela elevação do território meridional paulista em uma nova Capitania e depois em uma nova Província,
duraram cerca de meio século. Tiveram início em 1811, numa representação feita a D. João VI pela Câmara Municipal
de Paranaguá por intermédio do Conde de Aguiar, — findaram em 1853 com a sanção do projeto do Senador Honório
Hermeto Carneiro Leão, Marquês do Paraná, a 29 de Agosto.
A ambição pessoal foi, no começo e no fim da longa jornada ,o móvel desses esforços.
2 — Pedro Joaquim de Castro Correia e Sá
Em 1811, Pedro Joaquim de Castro Correia e Sá, que foi
o ajudante de ordem de Sebastião Xavier da Veiga Cabral
da Camara no govêrno da Capitania do Rio Grande do Sul
e cuja aspiração era ser Capitão General, viu na Comarca de
Paranaguá, dilatada, pobre e distante da sede do govêrno
paulista a que estava sujeita, o campo propicio aos seus desejos.
Terceiro neto de Salvador Correia de Sá e Benevides, Governador do Rio de Janeiro (1659-1661) que em 1660 facilitára a efêmera fundação da Capitania de Paranaguá determinando que a Vila não reconhecesse a jurisdição dos que
pleiteavam a sucessão dos direitos dos primitivos donatários,
tinha Pedro de Sá, assim, na nossa história, uma credencial
de valia para sua ambição. O certo é que a Câmara de Paranaguá tudo fez para lhe realizar o desejo, subscrevendo, em
vereança de 6 de Julho (1811) a representação dirigida à Sua
Alteza Real, em que pediu a elevação da Comarca à Capitania e para a governar "um sujeito sábio e prudente", qualidades que encontrava, "na pessoa do Ilustríssimo Pedro
Joaquim de Castro Correia e Sá".
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ROMAHIO M A R T I N S
Essa representação não teve solução, mas o candidato
não se desesperançou. Deu-lhe a Câmara, no ano seguinte
(1812) em vereanca de 25 de Abril, uma formal procuração
para agir em seu nome, no Rio de Janeiro, com um longo
arrazoado sobre a necessidade de govêrno próprio numa terra
que depois de haver abastecido o exército de ocupação do
Rio Grande com 10.000 alqueires anuais de farinha e socorrido "a última fome que grassou em Pernambuco com 20.000,
ao tempo sua decadência via entrar pela barra dentro, em
cada um dos anos antecedentes, para cima de 2.000 alqueires" . Um govêrno próprio tudo faria prosperar de novo, bem
como outras cousas: — evitaria despesas, desinteligências,
despovoamento e dificuldades nas remessas das rendas dos
impostos, — pois que todas às vezes que o produto dos reais
créditos era remetido das vilas da Comarca para São Paulo,
num percurso, pela costa, de mais de 90 léguas, a escolta
composta de oficial, sargento e soldados milicianos obrigava
a uma despesa nunca inferior a 40$000.
Pedro de Sá, armado dos poderes que lhe foram conferidos agiu com desassombro, como se verifica de longa argumentação por êle levada ao govêrno e da qual nos dá notícia
Moisés Marcondes. ( Documentos para a História do Paraná, págs. 177-184).
Foi, pois, o gorado candidato a Capitao General, um ambicioso. Mas é verdade, como diz o autor citado, que ao seu
empenho egoísta devemos a origem, a expressão e o estimulo
das primeiras manifestações do movimento que havia de
triunfar em 1853.
A prevalecer o desejo parnaguara de 1811, a Capitania
ideada por Pedro Joaquim de Castro Correia e Sá se constituiria das seguintes vilas que a Comarca então abrangia:
1 — Paranaguá (cabeça da Comarca)
2 — Iguapé
3 — Cananéa
4 — Antonina
5 — Guaratuba
6 — Curitiba
7 — Castro
8 — Vila Nova do Príncipe (Lapa)
9 — Lages.
Nos anos de 1832, 1834, 1843 e 1853, se repetiram as solicitações da Comarca pela sua elevação à Província e algumas vezes a Secretaria dos Negócios do Império, em atenção
HISTÓRIA I>O PARANÁ
263
a elas, pediu informações sôbre as condições economicas principalmente, das Vilas do sul paulista, autoras dessas solicitações.
3 — Floriano Bento Viana
Por ocasião do juramento das bases da Constituição do
Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, a 15 de Julho
de 1821, o Capitão Bento Viana, que nessa solenidade comandava uma guarda de honra do Regimento de Milicianos postada em frente ao Paço da Câmara Municipal de Paranaguá,
pregou a separação da Comarca para que "se constituisse em
uma nova Província separada da de São Paulo.
Embora d3 acordo com os que faziam a política da Comarca, Floriano Bento Viana, no momento da ação se viu só,
pois os que lhe estimularam o intento falharam no momento
decisivo, receiosos das responsabilidades que naturalmente
desse ato decorriam.
Procurando, ainda, vencer essa defecção dos políticos que
à última hora procuravam comprometer somente o bravo militar parnaguara num movimento de êxito incerto, Floriano
Bento Viana aclamou um govêrno provisório para a nova
Província. (Vide capítulo Militaria).
A conjura, limitada aos milicianos, nada mais pôde fazer senão assinalar uma data nas páginas da história do idealismo paranistta e nessa história registrar um nome de ação
cívica: Floriano Bento Viana.
4 — Francisco de Paula e Silva Gomes
Em ninguém foi maior nem mais desinteressada do que
nele. a dedicação pela causa da elevação do extremo sul paulista à categoria de Província. Êle excedeu a todos os pregadores da aspiração separatista, pela constante vibração do
seu patriótico idealismo realizador.
Em todas as oportunidades, — nas suas relações políticas e sociais, no Rio Grande, em São Paulo, no Rio de Janeiro sobretudo, êle trazia à baila os seus argumentos sôbre as
necessidades da criação de uma nova Província em Curitiba,
necessidades nacionais de ordem política, economica e militar,
Era conhecido em todo o sul e na capital do Império, e
em toda a parte conceituadas a integridade do seu caráter, a
elevação do seu patriotismo e a inteligência com que sabia se-
264
ROMAHIO
MARTINS
duzir simpatias para a causa de que se fizera o movimentadoi magnífico, sem par do seu porte, em nenhum tempo, entre os curitibanos.
Anos e anos a fio êle fez o comércio de gado entre as
campanhas do Rio Grande e as feiras de Sorocaba, varando,
vezes sem conta, campos e sertões gaúchos e paulistas em
imensuráveis distâncias.
Vendido o gado, transformada a indumentária de tropeiro na de homem de sociedade, afeiçoava a longa cabeleira
(que diziam ser postiça) sob as abas largas do chapéu do
Chile e ia ter com os políticos da Côrte, de suas relações pessoais.
A esse tempo nenhuma tipografia havia na Comarca.
Paula Gomes fazia imprimir em avulsos os seus argumentos
em prol do seu absorvente ideal, no Rio de Janeiro, na "Tip.
Franc. rua de S. José, 64" e os distribuía profusamente por
toda a Comarca, por toda a Província, no Rio, em Minas e
no Rio Grande do Sul.
*** O ardoroso propagandista da elevação da 5.a Comarca de São Paulo à categoria de Província, nasceu em Curitiba a 4 de Fevereiro de 1802 e faleceu em Cruz Alta, R. G. S.,
a 9 de Abril de 1857, assassinado por um tapuio de 16 anos
que êle criara como filho e que era o piá das suas tropas.
Viu, porém, realizado o seu sonho. Mas enquanto, na
nova Província, surgiam nomes sem nenhuma expressão galgando as posições políticas, êle prosseguia na sua vida de tropeiro, sem ambições, sereno com a sua consciência de patriota, — somente pretendendo refazer pelo rude trabalho a que
estava afeito, sua fortuna gasta na propaganda da causa vitoriosa.
Não o conseguiu. Seu mais próximo parente o Snr. João
de Paula Gomes, pai do Snr. Major Antonio França Gomes,
dêle herdou os seus bens avaliados em 36:0001000, dos quais
o mais valioso era uma tropa de muares.
O violino de Paula Gomes foi entregue ao seu filho natural, "mestre" Generoso, pai do Snr. Benedito dos Santos Dinis, ambos herdeiros do talento musical do patriarca da constituição da Província.
A história, porém lhe inscreve o nome em letras refulgentes, nele resumindo todos quantos, de 1811 a 1853, tiveram parte na transformação política da Comarca meridional
paulista, na auspiciosa Província do Paraná e na esplendida
realidade do Estado de hoje.
HISTÓRIA I>O PARANÁ
265
5 — Manoel Francisco Correia Júnior
Manoel Francisco Correia Júnior foi um parnaguara dos
ilustres do seu tempo e na causa da criação da Província um
dos poucos batalhadores sinceros. Fez parte da "Sociedade
Patriótica dos Defensores da Independência e da Liberdade
Constitucional' , criada em Paranaguá no ano de 1826, e
quando, consolidada a conquista da independência do Brasil,
foi sua a iniciativa de se transformar, em 1853, essa corporação cívica em Irmandade de Misericórdia, da qual resultou a
fundação do hospital local, até hoje de benemérita existência. Em 1837 fundou a loja maçónica "União Paranaguense"
ao que parece a primeira criada no Paraná.
Em 1842, por ocasião da revolução paulista, Correia Júnior armou, fardou e manteve à sua custa um batalhão legalista, entusiasmado pela promessa de Caxias e Monte Alegre,
de que, finda a luta, a Comarca seria elevada à Província.
Após a pacificação foi ao Rio, ainda a serviço da causa
da Comarca. Diz êle nas suas memórias: — "No Rio tive o desejo tolo de ser útil ao meu país. Interessei-me pela separação da Comarca de Curitiba da Província de S. Paulo, separação que supunha faria a felicidade do meu país. (Esta convicção ainda a tenho hoje, 24 de Janeiro de 1848). Parecerá
aos que lerem alguns anos depois, estas memórias, que isto
me trazia consideração entre os meus concidadãos. É totalmente o contrário. Invejosos me desacreditaram, parentes
me perseguiram e eu me vi na dura necessidade, para salvar
o meu credito, de me pôr em lugar ermo, à face dos meus engenhos e aqui (Porto de Cima) estou trabalhando a ver se
posso deixar minha família sofrivelmente educada e desembaraçada, esperando que aprenda de mim que, neste mundo,
as melhores ações só trazem desgosto, e, portanto, vivendo
com honra deve fazer por ser independente, visto que só o
real serve e a maldade triunfa sempre das melhores, mais
generosas e desinteressadas ações".
Moreira de Azevedo referindo-se a Correia Júnior diz...
"viu os seus haveres abalados pelos sacrifícios que fez na qualidade de Coronél da Guarda Nacional, encarregado da defesa da Comarca, ameaçada em 1842 pelos revoltosos de São
Paulo".
João da Silva Machado, encarregado das providências
militares da Comarca, de cuja elevação à Província tirou o
maior e melhor partido, procurou obscurecer o valor da contribuição de Correia Júnior, a êle não se referindo em suas
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ROMAHIO
MARTINS
numerosas cartas ao Presidente de São Paulo sôbre a defesa
da Comarca, e mesmo depois, finda a rebelião, quando remeteu duas listas de curitibanos que deviam ser condecorados por serviço.:, prestados à defesa da ordem, naquela emergência, injustamente omitiu o nome de Correia Júnior que
tudo havia sacrificado naquele sentido.
E foi assim que, enquanto o advena interesseiro conquistou todas as posições que ambicionou, o parnaguara ilustre
e ardoroso idealista viu perdida toda a fortuna e dêle se afastarem alguns dos seus próprios parentes.
6 — João da Silva Machado
Como em sua origem, o remate do pleito separatista também teve por ardoroso patrono um aventureiro ousado e dessa vez feliz: o Tenente Córonél da Guarda Nacional João da
Silva Machado.
Sua presença em Curitiba por ocasião da revolta de Sorocaba (1842) lhe inspirou duas resoluções que êle levou à
cabo com completo sucesso: a de apossar-se de latifúndios
por todas as partes da Comarca e a de conseguir a elevação
dela à categoria de Província e fruir os proventos políticos
que daí adviriam.
Não houve região alguma da Comarca vastissíma, onde
êle não registrasse uma posse de terras escolhidas entre as
melhores. Não houve, também, é justo que se diga, esforço
que não despendesse no sentido de congregar prosélitos para
a causa da separação e constituição da Província.
Todas as honras e proventos lhe couberam no dia da vitória.
A Comarca fê-lo Barão de Antonina. A Província fê-lo
Senador. Uma vez no Parlamento e no Paço, cresceu em outras honrarias- Grande do Império, Fidalgo da Casa Imperial, Grande Dignatário da Imperial Ordem da Rosa, Oficial
da do Cruzeiro, Vereador Honorário de S. M. a Imperatriz.
*** Em todo o curso do movimento separatista da Comarca e da sua autonomia administrativa, somente aparecem, como vimos, três personalidades de realce, naturais dessa extensa circunscrição judiciária: FLORIANO BENTO
VIANA, em 1821, MANOEL FRANCISCO CORREIA JÚNIOR
e FRANCISCO DE PAULA E SILVA GOMES, ambos pouco
antes de 1842. Os demais, PEDRO JOAQUIM DE CASTRO
CORREIA e SÁ em 1811 e JOÃO DA SIVA MACHADO em
1842, foram oportunistas que visaram proventos, o primeiro
acenando aos parnaguaras com a elevação da Ouvidoria de
HISTÓRIA I>O PARANÁ
267
Paranaguá à Capitania Geral e o segundo seduzindo os curitibanos com a elevação da 5.a Comarca à categoria de Província.
No momento da vitória da causa pela qual trabalharam,
só existiam PAULA GOMES, CORREIA JÚNIOR e SILVA
MACHADO. Os dois primeiros morreram em 1857, quatro
anos depois da realização dos seus sonhos. Na política da nova Província não houve lugar para êles. Nem posições nem
honrarias, mas simplesmente o esquecimento. Ambos haviam sacrificado pela causa suas fortunas. Correia Júnior
foi viver num velho sítio em Porto de Cima, desiludido de
ideais, de amigos e de parentes. Paula Gomes fez-se novamente tropeiro vadeando os campos e sertões da Vacaria a
Sorocaba, morrendo numa dessas travessias.
7 — Histórico dos Projetos
As razões visíveis, motivadoras do projeto legislativo
desmembrando cia Província de São Paulo a sua Comarca
mais meridional e a elevando à categoria de Província, foram
de ordem geral e supremo interesse político: — a conveniência da defesa das fronteiras com as repúblicas Argentina e
do Paraguai e das instituições ameaçadas pelo movimento
republicano no Rio Grande do Sul.
Os debates parlamentares, longos e numerosos, de 1843
a 1853, se fizeram em torno dessas graves questões nacionais e se nitidizaram nessas ordens de considerações — a vizinhança com as duas citadas repúblicas de origem espanhola e por conseguinte herdeiras de dúvidas e pretensões territoriais que os tratados de Madrid, de 1750, e de Santo Ildefonso, de 1777; não expurgaram de todo de possíveis revivicências, e o movimento republicano riograndense, de 1835 a
1845, que de Plratininga ameaçára estender-se às outras províncias meridionais do Império.
A revolução liberal paulista irrompida em 1842 e com o
seu foco principal em Sorocaba, foi, entretanto, o motivo
principal, único talvez, da situação conservadora tomar a
peito o enfraquecimento político de S. Paulo com o desmembramento de sua extensa comarca mais meridional.
A origem dessa revolução, à qual Minas Gerais em princípio se aliára, proveio, como se sabe, de atos pelo Govêrno
Imperial praticados logo a seguir à forçada maioridade de
D. Pedro I I (1840), contra os quais os liberais paulistas e
mineiros protestaram por julgá-los contrários à índole democrática do regime. Tudo fizeram os paulistas no sentido de
268
ROMAHIO MARTINS
que tais leis não fossem executadas: — intensa propaganda
na imprensa, representações de várias Câmaras Municipais,
envio de uma delegação da Assembléia Provincial com a missão de conseguir a suspensão dessas leis. À vista dessa atitude a situação conservadora conseguiu do imperador decisões ainda mais racionárias, que culminaram na dissolução
da Câmara dos Deputados, antes mesmo de se instalar a legislatura de 1842.
Decidiram-se então os paulistas pelo apêlo às armas e
um exército liberal, confiado à direção do Brigadeiro Rafaél
Tobias de Aguiar e reunido pela influência política do padre
estadista Diogo Antonio Feijó, visou sua marcha contra a
capital da Província. Ao seu encontro foi, então, mandado o
exército imperial sob o comando do General pacificador Barão (depois Duque) de Caxias e foi assim sufocado o movimento, mas suas consequências políticas perduraram.
Adiante se verá de que modo essa revolução influiu decisivamente para a elevação da Comarca de Curitiba à categoria de Província,
8 — A Revolução Liberal de Sorocaba
Um episódio partidário, a oposição liberal de Feijó à situação conservadora de 1842, deu mais impulso aos propósitos de autonomia política atribuídos à 5.a Comarca de S.
Paulo, do que todas as considerações de ordem geográfica,
economica e administrativa que os parnaguaras e curitibanos, pelas suas respectivas câmaras municipais, periodicamente dirigiam aos poderes políticos da Colonia e do Império.
Essa oposição chegou, como se sabe, a sublevar Sorocaba e outras localidades da Província e era certo que arrastaria à mesma atitude a Comarca de Curitiba, em sua maioria
liberal. Diante dessas circunstâncias, foi mandado organizar
a defesa do govêrno nas vilas do sul paulista, o Tte. Cél. da
Guarda Nacional João da Silva Machado, tropeiro gaúcho,
conhecedor da região e relacionado entre os curitibanos.
Político hábil e ambicioso, mais ou menos ignorante mas
inteligentíssimo, viu João da Silva Machado que poderia realizar eficientemente a sua missão e ao mesmo tempo as suas
ambições, conseguindo que a 5.a Comarca ficasse neutra no
conflito paulista em troca de sua elevação à Província. Os
chefes conservadores estavam, por injunções partidárias,
contra a revolução; e os liberais, seduzidos pelas vantagens
HISTÓRIA I>O PARANÁ
269
que a elevação da Comarca à Província lhes proporcionaria,
não tiveram dúvidas em se manter em neutralidade diante
da agitação revolucionária irrompida na Província.
Aplainando convênio em Curitiba, Silva Machado conseguiu do Barão de Monte Alegre, político baiano Presidente
de S. Paulo e do Duque de Caxias, Comandante em Chefe
da Expedição Militar mandada contra os rebeldes paulistas,
que em troca da neutralidade dos curitibanos favorecessem
com seus prestígios oficiais a causa da fundação da nova
Província.
Finda a revolução de Sorocaba com a fácil vitória do
govêrno, Silva Machado tratou de cobrar os compromissos assumidos com a Comarca pelos dois chefes legalistas e ao
mesmo passo de pedir para os principais curitibanos condecorações honoríficas como "incentivo para os ligar mais ao
soberano". (Carta ao Barão de Monte Alegre, Arquivo do Barão de Antonina).
9 — - O Barão de Monte Alegre
O Presidente de S. Paulo não teve dúvidas em se dirigir
nesse sentido ao Ministro do Império, em longo ofício datado
de 30 de Junho de 1842, documento que o Snr. Eudoro Ramos
Costa tornou conhecido no seu artigo QUANDO O PARANA
ERA PAULISTA, inserto no "Correio da Manhã".
É interessante essa atitude do Presidente de S. Paulo
em se esforçar, com decidido empenho, em desmembrar da
província que administrava como preposto do govêrno, a extrema Comarca meridional paulista, lembrando até que ela,
ao se elevar à Província, poderia mesmo incluir as vilas de
Iguapé e Cananéa e seus termos se isso não se opuzesse a
vontade dos seus habitantes.
Registramos aqui esse documento, como mostra do que
eram, desde o Império, os trucs da politicagem e o alheiamento da maioria dos presidentes aos interesses íntimos das
províncias onde iniciavam suas carreiras políticas:
"N.° 28. limo. e Exmo. Sr. Julgo do meu dever levar a presença de V. Exa. como negócio importantíssimo e urgente, a
desligação da Comarca de Curitiba desta Província, e a criação ali de uma nova Província. Não me fundarei para reclamá-la na ansiedade que mostram os povos daquela Comarca por esta medida, em suas repetidas representações a este
respeito, no perigo que há de por mais tempo se continuar
270
ROMAHIO
MARTINS
á desatender a essas representações; nos perpetuos receios
que tem o govêrno à cada pequena comoção que aparece no
Império, de que a Comarca se agite e acompanhe o movimento por desgostosa de não merecerem atenção seus votos há
tão longo tempo manifestados; nas proporções, enfim, que
este estado de coisas oferece a todo o revolucioinário ou demagogo para envolver em seus planos de desorganização um
país muitíssimo interessante em todos os tempos, que atualmente ainda o é, muito mais pela proximidade em que fica
da Província do Rio Grande do Sul. Todos estes argumentos
resumem-se em que os povos daquela Comarca desejam ter
ao pé de si todas as autoridades e todos os recursos: mas como esses desejos apezar de muito naturais, nem sempre são
discretos, e muito menos compatíveis com os comodos e direitos dos outros membros da associação política, cumpre
deixar tais argumentos aos demagogos, separatistas, bairristas, e outros semelhantes para que na deficiência do mérito
pessoal procurem promover a própria elevação com esses
meios já gastos de captar a popularidade, e eu me pejaria de
produzi-los se êles fossem únicos, e se aliás a Comarca não
estivesse realmente nas circunstâncias de ser elevada à Província. Essas circunstâncias porém é que me parece que já
se dão atualmente. A Comarca de Curitiba contém já muito
mais de 40 mil habitantes, disseminados em um terreno vasto, que cada vez mais se alarga com a descoberta de campos
riquíssimos, que logo são ocupados por homens ativos e industriosos ou conquistados para a Civilização sôbre os indígenas selvagens, que pela maior parte são mansos e dóceis, e
não precisam de serem perseguidos e exterminados a ferro e
a fogo. As rendas gerais que nela se arrecadam serão de sobra para pagar aos novos empregados e o crescimento rápido
e progressivo delas não precisa de outra prova, mais do que a
que se colhe da alfândega de Paranaguá nos primeiros anos
de sua criação com o atual. A receita provincial também
chegará para as despezas, porque o imposto sôbre os animais
vindos do sul,, que se paga no Rio Negro para os cofres desta
província deve de justiça ser dividido entre esta e a nova que
se vai criar. Todas estas razões porém não seriam talvez bastantes, se a Comarca apezar de formar um dos limites da
Província ficasse toda ela ou maior parte ao menos a pequena distância do centro da administração. Isso, porém, é o
que não acontece, porque a vila de Castro, a l. a povoação
considerável que se encontra partindo daqui da Capital, por
terra, dista dela mais de 70 léguas, e todas as outras distam
mais de cem. Nem as comunicações se facilitam por mar,
HISTÓRIA NO PAHANA
271
porque o comércio toclo de Paranaguá faz-se com o Sul, ou
com essa Côrte, de maneira que o governo de nada é informado, se não por via oficial, e tarde. Daqui nascem os mais
graves inconvenientes para os povos, e os maiores trabalhos
e aflições para o governo do que tenho experiência própria,
além de ouvir as lamentações de muitos dos meus antecessores, que reputavam como a causa mais onerosa o encargo
de administrar esses lugares remotos, até onde não se podia
estender fiscalização alguma. Quanto aos limites que se poderiam assinar à Província, bem que muitos queriam que
fossem os da antiga Comarca ou Ouvidoria de Paranaguá e
Curitiba que compreendia no litoral Iguapé e Cananéa e seus
Termos que hoje contém algumas povoações florescentes; não
me animo contudo a pronunciar-me em favor dessa opinião,
sem estar bem convencido da vontade dos povos desses Termos, pois é este um dos casos que essa vontade bem averiguada pode ser um argumento decisivo, pois não se trata de
emancipá-los duma jurisdição a que estavam sujeitos, mas
sim de dar-lhes a opção entre duas. Aliás, essa agremiação é
indiferente para a criação da Província, porque independe
dela a Comarca com o seu território e população forma uma
Província não insignificante. Sobre a sede do govêrno, podese asseverar com menos receio de errar que essa prerrogativa compete à cidade de Curitiba, já importante, situada no
centro da Comarca e por isso mais ao alcance dos outros pontos dela. Tais são as reflexões que me pareceu levar ao conhecimento de V. Ex. em abono da pretenção dos povos de
Curitiba, que tendo ficado imunes da rebelião que rebentou
na Província, e resistindo a todas as insinuações, convites,
ameaças de chefes dos rebeldes, fazem-se credores de toda a
consideração de S. M. o Imperador, e mereceriam talvez o benefício que há tantos anos imploram, ainda que êle custasse
algum sacrifício aos outros membros da família brasileira, o
que, felizmente, não acontece. Deus guarde a V. Exa. Palácio do Govêrno de S. Paulo, 30 de Julho de 1842. limo. e Exmo.
Snr. Candido José de Araujo Viana — Barão de Monte Alegre". — (Registro dos ofícios dirigidos ao Ministro do Império", vol. 8.° pág. 100 verso e seguintes, do Arquivo do Estado
de São Paulo).
O sucessor do Barão de Monte Alegre, como êle baiano e
conservador, o Visconde de Macaé, secundou essa sugestão,
baseada numa representação da Câmara de Paranaguá através da qual se vê a ação pertinaz de Correia Júnior, Paula
Gomes e Sliva Machado, e no ano seguinte (1843), em sessão
de 29 de Abril, o deputado paulista Carneiro de Campos apre-
212
ROMAHIO
MARTINS
sentou à Assembléia Geral o projeto da elevação da Comarca
à Província.
Foi, pois, o próprio govêrno paulista, por dois dos seus
presidentes em transito e por um dos seus representantes no
Parlamento, o Deputado Carlos Carneiro de Campos, depois
Visconde de Caravélas, todos os três baianos, quem lançou
pràticamente o projeto do desmembramento do sul de S.
Paulo e de sua elevação a uma Província nova, aliás, a última que se criou no Império. Artes da política de ambições
habilmente dissimuladas pelos seus profissionais, sob a capa de aspirações e de interesses públicos.
10 —- O Primeiro Projeto Criador da Província
Carneiro de Campos justificou esse projeto dizendo que
a elevação da Comarca de Curitiba à Província se fundava
na necessidade do Império criar baluartes contra as idéias
anarquizadoras que se manifestavam nas repúblicas vizinhas
e que tentavam invadir o Rio Grande do Sul e na de sub-dividir o território em maior número de centros administrativos para se obter uma defesa mais eficaz das fronteiras do
Brasil. E prosseguindo:
"O território da Comarca vai confinar com as repúblicas vizinhas. Toca não só com o Rio Grande do Sul onde têm
penetrado essas idéias anarquizadoras, como com essas repúblicas. Portanto a invasão se poderá dar também ali, senão agora, em alguns anos.
"Eu julgo, Snr. Presidente, que é tempo e mais que tempo de cuidar daquela parte da fronteira do Império. Muitos,
repito, olhando para a desordem do Rio Grande, julgarão que,
abafada ela, tudo está conseguido. Eu não considero assim.
Qualquer que seja o êxito da luta entre Uribe e Francia, o
govêrno que ficar há de procurar influir no Rio Grande e
dar que fazer constantemente às autoridades do Império.
"E porque acontece isto ?
"Porque o Rio Grande é fronteira, limítrofe desse país.
E pergunto: — O território da Comarca de Curitiba não é limítrofe com esse país ? não é limítrofe com o Rio Grande?"
O govêrno Imperial, representado pelo Ministro da Marinha, Rodrigues Torres, depois Visconde de Itaboraí, em sessão de 1.° de Julho, declarou-se favorável ao projeto pela razão de ser a Comarca meridional paulista que se pretendia
elevar à Província, "limítrofe da República do Paraguai e da
H I S T Ó R I A I>O P A R A N Á
273
Província argentina de Entre-Rios" pelo que julgava ser
"conveniente aos interesesses nacionais criar uma administração que se ocupasse muito especialmente de tratar dos
melhoramentos dessa parte do território, de povoá-lo, de colonizá-lo".
Na sessão seguinte o deputado por São Paulo, Joaquim
José Pacheco, manifestou-se a favor do projeto.
Trecho do seu discurso:
"Demais, nós sabemos a extensão dessa Comarca. Os
novos campos chamados de Palmas, campos fertilíssimos há
pouco descobertos, que talvez distem mesmo da cidade de
Curitiba cento e tantas léguas, vão confinar com outros Estados .
"É portanto muito conveniente que na Curitiba exista
um governo, para que, com novo impulso, esses campos possam ir sendo povoados. Nós ganharemos muito nisso porque os limites entre esses Estados e a Comarca de Curitiba
não são conhecidos, (aludia à questão das Missões com a
República Argentina) e esses lugares há de pertencer àqueles que primeiro dêles se forem apossando e os forem cultivando".
O representante paulista baseou sua opinião na circunstância da Comarca de Curitiba ter fronteiras internacionais
e se referindo aos Campos de Palmas aludiu ao seu apossamento por fazendeiros de Guarapuava, dizendo-o "há pouco
descobertos", quando esses campos estavam descobertos desde o século XVII. Êle quiz significar ser urgente a posse, pelo
povoamento generalizado, desses campos, "porque esses" lugares haviam de pertencer aos que primeiro os ocupassem".
O deputado mineiro Bernardo Jacinto da Veiga, em sessão de 19 de Junho, declarou-se favorável ao projeto, pelas
mesmas razões.
11 — Emendas e Requerimentos
A 9 de Agosto Carneiro de Campos, autor do projeto, teve de impugnar uma emenda do deputado Saião Lobato elevando a Província a Comarca de Sapucaí em Minas Gerais,
e então disse:
"Eu creio que por mais de uma vez fiz ver à Câmara que
a posição daquela Comarca (a de Curitiba), a sua proximidade ao Rio Grande do Sul e a circunstância de ser limítrofe
com país estrangeiro, olhando para a conveniência de fortificar de mais em mais a fronteira do Império, — tudo isso
História do Paraná — 18
274
ROMAHIO
MARTINS
era consideração muito atendível e que justificava o projeto"/
Opunha-se à emenda que pedia a elevação de Sapucaí à
categoria de Província, porque essa Comarca não confinava
com uma Província devastada pela guerra civil, que era a do
Rio Grande do Sul e com o estrangeiro.
Essa inoportuna emenda de Saião Lobato interrompeu o
andamento do projeto criador da Província de Curitiba.
Aprovado seu artigo 1.° (Sessão de 17 de Agosto de 1843),
por 35 votos contra 30, no dia seguinte o deputado mineiro
autor da emenda, requereu e foi atendido, adiamento da
discussão do artigo 2.° e informações ao govêrno sôbre a população da Província de S. Paulo, especialmente da Comarca de Curitiba e da de Sapucaí, da Província de Minas.
Aprovado o artigo 3.° (Sessão de 21 de Agosto de 1843)
o Presidente da Câmara, Barão de Bitapama, declarou que
o artigo 4.° revogando as disposições em contrário estava fora de discussão e que o artigo 2.° adiado a requerimento do
deputado Saião, ficava aguardando as informações pedidas
ao Govêrno.
Essas informações não apareceram e o projeto não teve
andamento.
12 — Nova Proposição no Senado
*** Na legislatura de 1850, foi presente ao Senado a resolução da Câmara elevando a Província a Comarca do Alto
Amazonas.
Por essa ocasião, na sessão de 24 de Julho, o Senador Batista de Oliveira, justificou, sendo apoiada, a seguinte proposição: — "FAÇA-SE EXTENSSIVO A COMARCA DE CURITIBA, O QUE SE VENCER PARA A DO ALTO AMAZONAS,
SENDO CAPITAL DA PROVÍNCIA A CIDADE DE CURITIBA".
Pronunciou-se favoràvelmente à proposição o Senador
Carneiro Leão (representante mineiro), contra o Senador
Vergueiro, (representante paulista) que opinára pela fusão
da Comarca de Curitiba com a Província de Santa Catarina,
hipotecando, nesse sentido, o seu voto, pois sabia que essa solução não entrava absolutamente nas cogitações de ninguém.
Entrou no debate o senador paulista, apenas para criar embaraços à idéia da criação da nova Província, que tudo fazia
crer vitoriosa naquele momento.
HISTÓRIA I>O PARANÁ
275
E não satisfeito com abrir uma variante na discussão da
emenda do Senador Batista de Oliveira, na sessão de 5 de
Agosto (1850) requereu o adiamento da discussão dessa
emenda "até que sôbre ela informasse o Govêrno Imperial,
ouvida a Assembléia Provincial de S. Paulo".
O Senador Paula e Souza fez requerimento semelhante.
Mas o grande patrono da Comarca de Curitiba, no Senado do Império, Senador Carneiro Leão, com a sua grande autoridade, habilmente desviou o golpe premeditado pelos seus
dois colegas contra a proposição do Senador Batista de Oliveira, apresentando o seguinte substitutivo ao art. 1.° do projeto que elevava a Província a Comarca do Alto Amazonas:
"ART. l.o _ AS COMARCAS DO ALTO AMAZONAS,
NA PROVÍNCIA DO GRÃO PARÁ, E DE CURITIBA, NA
PROVÍNCIA DE SÃO PAULO, FICARÃO ELEVADAS A CATEGORIA DE PROVÍNCIAS. A PRIMEIRA COM A DENOMINAÇÃO DE PROVÍNCIA DO AMAZONAS E A SEGUNDA
COM Á DENOMINAÇÃO DE PROVÍNCIA DO PARANÁ. A
EXTENSÃO E LIMITES DAS REFERIDAS PROVÍNCIAS
SERÃO OS MESMOS DAS COMARCAS DO RIO NEGRO E
CURITIBA".
O Senador Batista de Oliveira retirou a sua emenda e
o Senador Paula e Souza o seu requerimento obstrutor.
Uma nova e autorizada palavra surgiu, então, a favor
do substitutivo de Carneiro Leão, combatendo as razões do
Senador Vergueiro: a do representante baiano Senador Visconde de Abrantes, depois Marquez, que opinou pela criação da nova Província em vista da grande distância existente entre Curitiba e São Paulo.
E acrescentou:
. . . "e quando em alguma ocasião seja necessário fazer
sacrifícios, que o tesouro nacional alimente as novas províncias, pois é minha convicção que vale mais a pena alimentar,
como se tem feito, algumas do litoral, à respeito das quais
não milita uma só das razões políticas que aconselham o estabelecimento das novas presidências".
Tendo em vista a forte discussão do projeto e do substitutivo, o Visconde de Abrantes propoz, em 3.a discussão, que
do substitutivo ao art. 1.° do projeto que criava as duas províncias se constituíssem dois projetos: UM CRIANDO A PROVÍNCIA DO AMAZONAS E OUTRO A PROVÍNCIA DO PARANÁ.
Foi aprovado. O projeto criando o Amazonas, aprovado
em sessão de 28 de Agosto de 1850, subiu à sanção por ter
procedido da Câmara, e o criador da Província do Paraná,
276
ROMAHIO
MARTINS
aprovado na sessão seguinte, foi remetido à Câmara dos Deputados, onde somente entrou em discussão na legislatura
de 1853.
13 — O Projeto na Câmara
Nessa última fase do projeto surgiu a eminente personalidade do deputado mineiro Cruz Machado, mais tarde Visconde de Cerro Frio, que poz a sua palavra e o seu prestigio
ao serviço da criação da Província do Paraná.
Em sessão de 17 de Agosto de 1853 pronunciou esse ilustre deputado um discurso memorável, decisivo da vitória, no
qual se mostrou perfeito conhecedor das condições geográficas da 5.a Comarca Paulista.
Eis um trecho de sua oração:
"Sr. Presidente, a extensão do território que é também
exigida para a criação de uma província, é favorável à criação proposta, porque a Comarca de Curitiba tem um grau
geográfico de costa; divide, ao Sul, pelo rio Saí entre os municípios de Guaratuba e São Francisco, da Província de Santa Catarina; ao Norte pelo Varadouro e Ararapira, entre os
municípios de Cananéa e Paranaguá; em serra acima serve
de limite o rio Itararé, ao norte, que divide os municípios de
Castro e da Faxina, a 10 léguas de Curitiba. Pelo lado do sul
a Comarca se divide pelos rios Canoinhas entre os municípios da Vila do Príncipe (Lapa) e de Lages, da Província de
Santa Catarina, a 50 léguas de Curitiba; e a oeste se estende
por essas campinas que vão dar no Paraná, que nos separam
do Paraguai".
Nesta última fase do curso do projeto, (1853) debateramno os deputados Livramento, representante de Santa Catarina, Joaquim Antonio Nebias e Martim Francisco Ribeiro de
Andrade, representantes de S. Paulo.
O deputado Livramento apenas discutiu os limites da
Comarca com a sua Província. O deputado Nebias encarou
a questão das fronteiras internacionais entendendo que a
sua segurança não dependia da criação da nova província e
que quanto aos interesses internos do país nada resultaria
alterando o "statu-quo" das cousas, naquele momento, a não
ser o aumento de mais um senador.
São suas estas palavras:
"Sr. Presidente. Eu não vejo razão para que se peça uma
medida desta ordem que em nada pode concorrer com rela-
HISTÓRIA I>O PARANÁ
277
ção e a bem de nossa segurança por aquela parte do Império,
defendida e separada por uma grande extensão de território, por desertos incultos e despovoados, se por fatalidade
deixássemos os nossos vizinhos de cultivar conosco as belas
e pacíficas relações que hoje entretém. Não vejo, pois, que
nos devamos ocupar (nós os que impugnamos o projeto)
muito tempo e sèriamente com esse lado da questão. Quais
são, pois, os grandes motivos e o grande fim que se tem em
vista criando a Província do Paraná ?
"Eu, Sr. Presidente, parece-me que posso dizer com franqueza que depois de criada essa província não haverá nada
de novo para o império, não haverá nada de novo para Curitiba . Haverá somente um Senador a mais"...
Mas, já então, não havia argumentos que desviassem o
projeto do seu curso vitorioso, pois as bancadas comprometidas com o govêrno recebiam-nos com indiferença ou com risotas, notadamente a mineira.
Foi quando o deputado paulista Martim Francisco, compreendendo a situação, pronunciou um discurso de protesto
contra a mutilação da sua província, dizendo:
"Como o sacerdote acompanha o condenado ao patíbulo,
ou a vítima ao martírio para cumprir sua sagrada missão,
quero neste momento solene da mutilação da Província de
S. Paulo proferir algumas palavras sentidas, para lastimar
o retalhamento da Província que represento. Quero protestar contra a ingratidão dos homens, e contra o esquecimento
do passado; quero fazer este protesto não porque me persuada que êle possa ter o resultado satisfatório que desejo contra os decretos ministeriais que já determinaram o aniquilamento da Província de S. Paulo, contra a adesão prestada pela maioria a esta vontade, que lhe não permite atacar de
frente uma decisão já de há muito forjada; mas pretendo que
pelo menos me seja licito nesta hora tão solene trazer para
aqui algumas recordações do passado. Quero também, senhores, tornar aos operários da destruição, mais dura, mais
dificultosa, a tarefa inglória que tomaram de mutilar a primogênita da independência; quero, senhores, fazer arrepender os nossos Sansões políticos de haverem levado até tão
longe as portas de Gaza do seu ministerialismo. Se os filhos
de S. Paulo que provocaram o brado heróico — independência
— nos campos imortais do Ipiranga, e auxiliando o magnanimo fundador do Império na sua obra prima, arriscaram as
fortunas e as vidas, se não tivessem extinto na noite dos
tempos, asseguro que os nobres deputados não se atreveriam
a lançar mão sacrílega sôbre nossas tradições. Julgo que se
278
ROMAHIO M A R T I N S
ainda entre nós existissem os Andradas, os Paula e Souza e
os Feijós, essa medida não podia passar nesta casa. Infelizmente, esses homens que tanto trabalharam pela nossa
emancipação política já não existem, e não sei porque fatalidade os nobres deputados tão depressa se esqueceram os serviços por êles prestados". (Anais da Assembléia Geral, 1853, pág.
217).
o
t
CAPÍTULO
XIV
NOVOS FATORES ÉTNICOS
1 —
2 —
3 —
4 —
Os Curitibanos cie 1820
Novos Povoadores Europeus
Seus descendentes
Colonias Agrícolas por Municípios.
1 — Os Curitibanos de 1820
A população da Comarca de Curitiba quando pertencente
à Capitania e depois à Província de S. Paulo, até 1853 — era
constituída de reinóes portuguêses e castelhanos, índios guaranis administrados, negros africanos escravisados e de descendentes e mestiços dessas três raças elaboradoras da nossa
história.
A elite representativa era, porém, isenta de mestiçagem.
Diz Saint'Hilaire, que em 1820 visitou Curitiba, que essa maioria "pertencia à raça caucásica pura", isto é, à famílias européias da península ibérica.
E acrescenta: — "Em nenhuma parte do Brasil eu havia visto tantos homens verdadeiramente brancos, como no
distrito de Curitiba . Os habitantes daqui pronunciam o português sem alterações de que falei alhures e que são um sinal
de mistura da raça caucásica com a vermelha. São grandes
e bonitos. Têm os cabelos castanhos e a tez rosada. Suas
maneiras são agradáveis, sua fisionomia aberta e nada tem
desse sarcastico humor (bazófia) que frequentemente torna
insuportáveis os empregados e os comerciantes da capital do
Brasil.
"As mulheres têm traços* mais delicados que as das outras partes do império onde viajei; escondem-se menos e conversam com desenvoltura".
2 — Novos povoadores europeus
Apenas três pequenos núcleos de outras etnias se formaram no nosso território anteriormente à fundação da Província do Paraná: — No Rio Negro, em 1829, com povoadores alemães, da Bavaria e Bukovina em maior número; no Ivaí
(Terezina), em 1847, com francêses; e em Guaraquessaba
(Superaguí), em 1852, com suissos e alguns alemães e francêses.
282
ROMÁRIO MABTINS
Ao todo apenas 407 colonos agricultores, de origens diversas das que constituiram as nossas populações fundamentais.
Instalada a Província, porém, foram encaminhadas para o Paraná relativamente numerosas levas de colonos de várias etnias da Europa central e oriental. De 1853 a 1866, em
33 anos, foram localizadas 20.170 imigrantes, no litoral, no
planalto de Curitiba e no dos Campos Gerais, principalmente italianos e slavos.
Não há dados sôbre o número de imigrantes entrados e localizados no Paraná em 1887 e 1888. Mas de 1889 a 1906,
quando se fundaram novas colonias em Campo Largo, Curitiba, S. José dos Pinhais, Bocaiuva, Rio Negro, Palmeira,
margem direita do Iguassú e Porto de União, entraram
42.993.
De 1897 a 1906 esteve suspenso o serviço de imigração
subvencionada. Os imigrantes expontâneos, localizados por
conta própria, com ciência do serviço oficial de colonização,
somaram 4.239.
De 1907 a 1913, quando se fundaram colonias em Guarapuava, Ipiranga, Prudentópolis, Iratí, São Mateus, Porto
da União, Castro e S. José dos Pinhais, foram localizados
31.244.
De 1914 a 1918 a guerra européia fez cessar completamente a imigração. Mas em 1919 e 1920, entraram 685 imigrantes expontâneos.
De 1921 a 1925 entraram 5.881 e de 1926 a 1929 entraram 29.116.
Total, com possíveis falhas, de imigrantes europeus entrados no Paraná de 1829 a 1929, em um século, por conseguinte, 128.953.
3 — Seus descendentes
A quasi unanimidade destes imigrantes se dedicou inicialmente às indústrias rurais, constituindo colonias e núcleos agrícolas. Seus descendentes em regra seguiram a mesma profissão e outros exploraram os produtos nativos como
as madeiras e a herva-mate, e a pecuária, a apicultura, a vinicultura, o comércio rural e urbano, etc.
São numerosas as fábricas e oficinas paranaenses, algumas das mais importantes do país, quasi todas de propriedade e direção de nacionais de origens alemã e italiana. O
comércio importador, tradicionalmente de portuguêses e
HISTÓRIA J«J PARANÁ
283
seus descendentes, passou aos alemães e destes aos teutobrasileiros. O comércio de fazendas e armarinhos está vastamente dominado pelos sírios e o de comestíveis pelos polonêses.
Nas profissões liberais, nas artes e ciências especializadas, já se salientam paranaenses descendentes de alemães,
italianos, polonêses, sírios e judeus.
Nas sociedades e centros culturais, beneficientes, educativos, economicos, esportivos, etc., colaboram profusamente,
para o surto de nossa civilização, valiosos elementos dessas
mesmas origens.
Diversas são as antigas colonias que se transformaram
em vilas e cidades, de origem alemã, italiana, polonêsa e
ukraina.
Em todas as zonas povoadas do Estado, os elementos étnicos da segunda fase do nosso povoamento estão representados por imigrantes ou por seus descendentes de origem alemã, austriáca, italiana, polonêsa, russa, ukraina, holandêsa,
síria-libanêsa, — em grande número, e por várias outras etnias em menor vulto. Conjuntamente com os descendentes
dos povoadores fundamentais, essa população por toda a parte aí está construindo a Babel de todas as raças, irmanadas
na mesma obra civilizadora, integrada no espírito novo, de
cooperação e de fraternidade, com que marchamos para o
futuro.
4 — Colonias agrícolas por municípios
MUNICÍPIO DE RIO NEGRO: — A Mata do Sertão e
também Sertão da Mata era antigo pouso e Registro Fiscal
do caminho de tropas de S. Paulo ao Sertão da Vacaria, no
Rio Grande do Sul. A localideRie era constantemente ameaçada pelos índios Botucudos, povoadores desse sertão, e, para a defender, o governo paulista se interessou pelo seu povoamento com mamelucos até que em 1816 ali estabeleceu
50 casais de portuguêses açorianos que do Porto de Cima viajaram pelo trilho da Serra até ao local do seu destino. (Vieira dos Santos, Memória Histórica do Povoado de Porto de Cima). Em 1829, segundo a mesma Memória, transitou pelo
mesmo caminho "uma porção de famílias de colonos alemães que foram povoar a "Mata do Sertão", onde em 1828,
sob a invocação do Senhor Bom Jesus da Coluna, fôra erigida a "Capela da Mata do Caminho do Sul" na localidade que
então já contava 108 moradores e com 160 fogos em 1829, to-
284
ROMÁRIO
MABTINS
dos descendentes de portuguêses e de índios. A chegada em
1829, de imigrantes alemães, deu desde logo novo estimulo a
esses povoadores do invio sertão do sul. De 1853 a 1860 para
ali expontaneamente se mudaram colonos alemães do Rio
Grande, de Joinvile, de São Bento e de Blumenau (Santa
Catarina) e em 1886 a população da colonia aumentou com
15 famílias vindas diretamente de Bukovina, descendentes de
bávaros. As duas primeiras turmas de imigrantes alemães
para ali encaminhadas foram de 20 famílias com 100 pessoas
a primeira e de 27 famílias com 138 pessoas a segunda. Uma
outra veiu em 1833, composta de 10 alemães. Com a denominação de Rio Negro, foi a colonia elevada a Freguezia em
1838, a Vila em 1870 e a Cidade em 1896. Colonias atuais: —
Antonio Olinto, fundada em 1896, com 648 lotes e 1.160 imigrantes ukrainos e polacos e com 55 nacionais. João Alfredo,
núcleo de pequeno desenvolvimento. Poço Frio, grande produtora de trigo e outros cereais. A população do Município,
em 1920, era de 17.358 habitantes.
MUNICÍPIO DE RESERVA: — Candido de Abreu, situada entre os rios Ivaí, Ubazinho, Jacaré e do Baile, em terras fertilíssimas. Apucarana, à direita do rio Ivaí, a suéste
da colonia Candido de Abreu, constituída de 3.132 polacos,
ukrainos, alemães e nacionais. Tereza, fundada em 1847 pelo médico francês Dr. João Mauricio Faivre, sob os auspícios
da Imperatriz Tereza Cristina Maria, com 87 francêses, dos
quais a maioria não se fixou demoradamente na localidade,
espalhando-se por outras regiões da Província. Em 1859 ali
havia 236 brasileiros, 11 francêses e 1 português. Em 1864 a
população era de 342 habitantes e em 1866 de 444. Em 1871
foi a colonia elevada a Freguezia, com a denominação de Terezina. É um dos 4 distritos do Município.
MUNICÍPIO DE GUARAQUESSABA: — Serra Negra,
agricultores alemães e Afonso Camargo, contigua, dividida
daquela pelo rio Assunguí. Fracassaram em 1832. Superaguí, fundada em 1852, na península de Superaguí, por Carlos Perret Gentil e à sua própria custa, com 10 famílias suissas, 5 francêsas e 2 alemãs, num total de 85 pessoas.
MUNICÍPIO DE JATAÍ: — A colonização de Jataí teve
origem na abertura de uma picada mandada fazer pelo Barão de Antonina para facilitação de transportes para Mato
Grosso pelas vias fluviais Tibagí-Paranapanema-Ivinheima e
Brilhante. Essa picada se desenvolveu pelos fundos do Cam-
HISTÓRIA J«J PARANÁ
285
po da Lagoa, foi ter à margem direita do Tibagí no lugar denominado Jataí. Ainda por influência do Barão de Antonina
o govêrno imperial tendo em vista os fins estratégicos dessa
via de comunicação, por Decreto n.° 751, de 2 de Janeiro de
1851 determinou o estabelecimento de uma colonia militar no
Jataí, que foi inaugurada a 10 de Agosto de 1855. Os primeiros a se estabelecerem nessa localidade foram o notável
sertanista Joaquim Francisco Lopes, sob cuja direção fôra
aberta a referida picada, e seus camaradas auxiliares desse
empreendimento. Pela lei n.° 333, de 12 de Abril de 1872 foi
a colonia do Jataí elevada a Freguezia, sob a invocação de N.
S. da Conceição. Em 1875 a população da colonia era de
296 nacionais dos quais 10 descendentes de africanos, e em
1881 de 400 habitantes. Distrito de S. Jeronimo, sede do Município foi elevado a Cidade e sede do citado Município, em
1932 pelo Decreto n.° . . . . de Maio, à vista do incremento
largamente ali iniciado com a colonização das terras da Companhia de Terras Norte Paraná, e a chegada, a essa localidade, da estrada de ferro que de Ourinhos se destina ao Rio
Paraná, atualmente com 184 quilômetros em trafego. Hiemtal, colonia iniciada com 100 famílias alemãs, situada entre
os ribeirões Jacutinga e Três Bocas, em terras de excepcional
fertilidade; Nova Dantzig, com colonos alemães; Cambé, às
margens do ribeirão Cambé povoada com japoneses; Ribeirão
dos Caçadores, em início com colonos portuguêses, italianos e
nacionais; e Colonia Mixta, às margens dos ribeirões Cambé
e Cafezal, povoada por nacionais, italianos e russos.
MUNICÍPIO DO ASSUNGUÍ: — Teve origem na formação da colonia do Assunguí, iniciada em 1860 em terras fertéis mas sem estrada, a 106 quilômetros ao norte de Curitiba.
Os primeiros colonos inglêses legalizados nessa colonia, devido a dificuldade das comunicações com a capital retiraramse com excepção de 30 famílias, e se fixaram noutras localidades cla Província. Em 1875 tinha a Colonia Assunguí 1824
habitantes sendo: — 875 brasileiros, 338 francêses, 221 inglêses, 202 italianos, 171 alemães, 16 espanóis, 1 suéco.
Em fins de 1876 essa população era de 2.397 habitantes,
sendo: — 1.277 brasileiros, 259 alemães, 255 inglêses, 248
francêses, 118 italianos, 74 suissos, e 166 de outras origens
nacionais.
Foi elevada à categoria de Vila em 1890.
Em 1920 por ocasião do recenseamento de 1.° de Setembro, a população do Assunguí era de 9.339 habitantes.
286
RUMÀRIU
MAHTINS
A colonia tinha a área de 13.939.200.000 metros, divididos em 3 territórios e 5 perímetros com 134.240.000 metros
cada um.
MUNICÍPIO DE CURITIBA: — Argelina, fundada em
1869, a 4 quilômetros da Capital, com 115 lotes, 117 imigrantes, sendo 39 francêses da Argélia, 36 alemães, 24 suissos, 10
suécos e 8 ingleses. Posteriormente foram aí também estabelecidos imigrantes italianos. Abranches, fundada em 1873,
a 5 quilômetros de Curitiba, em 94 lotes cedidos pelo Município, onde se localizaram 323 polacos, islandêzes e alemães.
Pilarzinho, fundada em 1870 com 50 lotes ocupados por polacos. D. Augusto, fundada em 1876, em 36 lotes e 168 imigrantes polacos originários do território de domínio prussiano.
D. Pedro, fundada em 1876, à margem do Rio Poça-Una, com
104 suissos, francêses e polacos em 25 lotes. Riviéra, fundada
em 1877 à margem da estrada de Mato Grosso, com 435 imigrantes polacos, silesianos, francêses e alemães. Orleans, fundada em 1875, a 11 quilômetros da Capital, nas proximidades da estrada de Mato Grosso, com 290 imigrantes polacos
silesianos, suissos, fransêses, inglêses e italianos em 65 lotes. Santo Inácio, fundada em 1876, nos arredores de Curitiba, à margem do rio Barigüi, com 352 imigrantes polacos silesianos e galicianos em 70 lotes. Santa Candida, fundada em
1875, a 9 quilômetros de Curitiba, ao lado da estrada da Graciosa, entre os rios Bacacherí e Atúba, com 300 imigrantes
polacos e 40 suissos francêses, em 64 lotes. Santa Gabriela,
fundada em 1886, a 12 quilômetros ao norte da Capital, junto ao rio Barigüi. Dantas, fundada com 48 lotes e 250 italianos vicentinos, em terras aforadas à municipalidade, no lugar Agua Verde. Hoje as ruas da cidade atravessam o antigo
núcleo camponês. Santa Felicidade, situada entre os rios Uvú,
afluente do Barigüi, e o Poça-Una, a 6 quilômetros da capital, fundada com 40 lotes, com 190 italianos venetas retirantes da colonia Nova Italia, de Morretes. S. João Batista, com
30 lotes ocupados por 105 polacos silesianos e por alemães.
(Relat. Presidente Carlos de Carvalho, 1882). Alves de Araujo, com 33 lotes ocupados por 103 polacos silesianos e por inglêses. (Relat. cit.).
MUNICÍPIO DE TAMANDARÉ: — Lamenha, fundada
em 1876 e originariamente povoada por 718 imigrantes polacos silesianos e alguns alemães, em 139 lotes. Localizada em
boas terras, cortada pelos rios Barigüi, Tinguá e Poça-Una,
a. 9 quilômetros de Curitiba, prosperou fàcilmente e se desenvolveu pela zona adjacente onde formou dois núcleos, —
HISTÓRIA J«J PARANÁ
287
Lamenha Grande e Lamenha Pequena. Outras colonias: Antonio Prado, fundada em 1886 com 24 famílias italianas e 13
polacas. São Venâncio, fundada em 1871, a 12 quilômetros de
Curitiba, com 133 imigrantes alemães e 27 suécos. A população do Município, em 1920, era de 5.749 habitantes.
MUNICÍPIO DE PARANAGUÁ: — Alexandra, iniciada
em 1875, na presidência Abranches e dada por fundada em
22 de Abril de 1877, com 60 famílias de Abruzzo (Teramo) e
Basilicata e 7 pessoas isoladas, de Porto Recanate, todas introduzidas por via de contrato entre Sabino Tripoli e o Govêrno do Império para o encaminhamento de 2.500 imigrantes italianos para o sul do Brasil. Foram os primeiros imigrantes italianos localizados no Paraná. Aquela primeira leva, dias após à sua localização se sublevou, alegaondo não poder vencer as dificuldades opostas pela mata virgem afim
de se dedicar com sucesso à agricultura. Espalhou-se por
Morretes, Paranaguá e Curitiba. Nova tentativa foi feita no
ano seguinte (1878), com 20 famílias da província de Matova
e de Teramo e em 1877 quatro grandes levas de famílias venetas, num total de 2.300 imigrantes, foram igualmente localizadas em Alexandra e também se revoltaram sendo transferidos para Morretes onde o Governo Imperial os localizou na
colonia Nova Italia, que não progrediu. Maria Luiza, entre as
colonias Alexandra e Pereira, fundada em 1879 à margem do
rio Itiberê, com imigrantes alemães, italianos e russos. Estes
em número de 99 abandonaram a colonia, sendo substituídos
por italianos. Eufrasina, colonia fundada pela Emprêsa Pereira Alves, Bendazeski & Cia., subvencionada' pelo Ministério de Agricultura, com 64 lotes rústicos e 54 urbanos. Em
1877 só havia 4 famílias estrangeiras e algumas nacionais localizadas. Pereira, da mesma emprêsa e com os mesmos auxílios, situada à margem do Rio Branco, em terras férteis,
tendo se iniciado com 115 colonos, componentes de famílias
italianas e 1 espanhola. Outras colonias: Santa Cruz, Visconde de Nacar, Santa Rita e Taunay, todas de pouco sucesso.
MUNICÍPIO DE ARAUCÁRIA: — Tomaz Coelho, fundada em 1876, a 17 quilômetros da Capital, com 1.274 polacos
silesianos e galicianos. Hoje é um vasto celeiro de produção
agrícola. Originariamente constituída de 270 lotes numa área
de 1.665, 4 hectares, essa colonia se distendeu, ao longo da
E. F. Paraná até as proximidades da Serra de S. Luiz no Município de Campo Largo. São Miguel e Tacuaróva são for-
288
KOMAKIO
MABTINS
mações da expansão deste próspero centro de camponêses.
Embora no município de Araucária, a influência de Tomaz
Coelho se estende até Ferraria, no de Campo Largo. A população do Município em 1920, era de 11.280 habitantes.
MUNICÍPIO DE MORRETES: — Nova Italia, colonia
iniciada com imigrantes vênetas retirantes da colonia Alexandra, Paranaguá, e desenvolvida com fortes correntes de
italianos, declarada fundada a 22 de Abril de 1877, com 12
núcleos num total de 610 lotes demarcados mas com poucas
casas construídas. Em janeiro de 1878, época em que o govêrno da Província designou o engenheiro André Braz Chalréo Júnior para assumir a direção dessa Colonia, a situação
dos imigrantes recém-chegados era lastimável. Em barracões e em casas alugadas, mais de 800 famílias aguardavam
seu estabelecimento, completamente inativas, vivendo dos
alimentos que lhes fornecia o govêrno. Em Março de 1879 e
por mais três vezes depois, o Presidente da Província foi pessoalmente verificar a situação dos colonos e estimular a formação de lotes e respectivas casas que então eram apenas
150, restando assim, sem destino, cerca de 3.000 colonos, número que posteriormente aumentou. Sendo grande parte dos
imigrantes natural de províncias do norte da Italia, estranharam o clima de Morretes, sendo por isso transferidos para as
colonias Alfredo Chaves, Antonio Rebouças, Novo Tiról, Muricí e Inspetor Carvalho, no planalto de Curitiba.
Em Nova Italia foram localizadas 543 famílias com . . .
2.296 pessoas. Em Fevereiro de 1881 (Relatório do Presidente
João José Pedrosa) era a seguinte a situação dos seus diversos núcleos:
1 — Rio do Pinto, com 242 habitantes italianos e 14 nacionais;
2 — Sesmaria, com 620 habitantes;
3 — Sítio Grande e Cari, com 248 habitantes;
4 — América, reconstituída em 1877, sob a denominação
de N. S. do Porto, com 115 habitantes (36 suissos, 32 francêses, 23 alemães, 20 brasileiros e 4 italianos) instalados em
casas provisórias situadas em 66 lotes de 9 hectares cada um;
5 — Marques, com 245 habitantes, constituindo 59 famílias italianas e 2 brasileiras;
6 — Entre Rios e Prainha, com 189 habitantes italianos;
7 — Cabrestante (não chegou a ser colonizada devido a
serem suas terras demasiadamente acidentadas);
8 — Rio Sagrado, com 180 habitantes;
9 — Ipiranga, com 145 habitantes;
H I S T Ó R I A J«J P A R A N Á
289
10 — Graciosa, núcleo menos importante da colonia Nova Italia com apenas 9 famílias ou 28 pessoas;
11 — Zulmira, com 33 lotes dos quais somente 9 ocupados por igual número de famílias ou 45 pessoas. Os demais
lotes foram regeitados por serem muito acidentados e pedregosos;
12 — Turvo, último núcleo demarcado e colonizado em
Nova Italia, ficava à esquerda do rio Cachoeira, e, por conseguinte, no município de Antonina.
Centro deste vasto plano de colonização de Morretes e
Porto de Cima, a colonia Nova Italia, foi fundada em terras
doadas pela Municipalidade pelo Coronél Antonio Ricardo
dos Santos e possuía, em 1881, ano de sua maior prosperidade, 72 lotes ocupados por outras tantas famílias italianas
compostas de 319 pessoas.
MUNICÍPIO DE SÃO JOSÉ DOS PINHAIS: — Murici, a
6 quilômetros da sede do Município, foi criada em 1878 e já
no ano seguinte emancipada, com uma população de 357 polacos galicianos e silesianos e italianos do norte da Italia, localizados em 73 lotes. Prosperou rapidamente e hoje é um
dos fortes e populosos centros de agricultores do Estado.
Inspetor Carvalho, com 165 polacos galicianos e italianos em
72 lotes, junto à Colonia Murici e fundada e emancipada nos
mesmos anos. Ambas grandemente aumentaram e prosperaram depois de um período inicial de profunda crise derivante de sua emancipação. Zacarias, fundada com 132 imigrantes polacos e italianos, em 26 lotes. Outras colonias: Silveira
da Mota, Zaira e Acioli, Santo Antonio, Padre Paulo, Rio
Abaixo, Afonso Pena, Marcelino, Ifigênia, São Francisco Xavier.
MUNICÍPIO DE COLOMBO: — Alfredo Chaves, fundada em 1878 e emancipada no aho seguinte com 160 imigrantes italianos vicentinos e tirolezes em 40 lotes de terras do
primeiro planalto, a 1.010 metros acima do nível do mar e a
30 quilômetros de Curitiba. A 8 de Janeiro de 1890 foi esta
próspera colonia elevada à categoria de Vila e Município com
a denominação de Colombo, incluindo outras duas colonias
de italianos: Presidente Faria e Maria José à margem da estrada da Graciosa. A população do Município, em 1920, era
de 5.806 habitantes.
MUNICÍPIO DE CAMPO LARGO: — Antonio Rebouças,
fundada em 1878, no lugar Timbutuva à margem da estrada
de Mato Grosso e a 19 quilômetros da capital com 156 italianos vicentinos e alguns polacos, em 34 lotes. Santa Cristina,
História do Paraná — 19
290
ROMÁRIO
MABTINS
D. Mariana, Mariano Torres, Guajuvira de Cima, Alice, Balbino Cunha, Mem de Sá. Em todas estas colonias predominavam imigrantes polacos e seus descendentes.
MUNICÍPIO DE PONTA GROSSA: — A colonização de
Ponta Grossa com imigrantes europeus foi iniciada em 1878
com a colonia Otávio e seus 17 núcleos, para onde foram encaminhados 2.442 russos-alemães procedentes do Volga. (Vide Município^de Palmeira).
A situação dos núcleos era a seguinte, no citado ano:
Tavares Bastos, com
50 famílias com 192 pessoas
J?
»
Taquari
73
314
>>
Tibagí
32
100
D
D. Luiza
27
110
>>
Moema
35
160
Santa Matilde
33
96
))
Euridice
15
62
>í
Botuquara
26
108
99
99
Itaiacóca
23
192
>5
99
99
Guarauna
51
133
J
>
99
99
Guaratininha
26
133
J?
99
99
Uvaranas
76
281
)>
99
99
Rio Verde
30
96
>
J
99
99
Santa Rita
28
118
jy
99
99
D. Adelaide
36
173
>)
99
99
Trindade
30
107
»
99
99
Floresta
23
65
A maior parte destes colonos abandonou os seus lotes,
regressou para a Europa ou se dedicou a transporte de cargas do planalto para o litoral. Os retirantes foram em número de 382 famílias, restando, por conseguinte, 233. Outras
pequenas colonias: Neves, a 3 quilômetros da cidade, povoada por italianos e russos; Capivari e Pelado.
99
99
99
99
99
yy
99
99
99
99
99
99
99
MUNICÍPIO DA LAPA: — A colonização da Lapa com
imigrantes europeus teve origem em 1878, quando ali foram
fundadas as colonias Wirmond, Marienthal e Joanisdorf com
elmentos russos-alemães procedentes do Volga. (Vide Município da Palmeira).
Para essas colonias foram encaminhados 327 imigrantes
e localizados 291, nas seguintes proporções:
Wirmond,
com 26 famílias com 115 pessoas
Mariental
22
"
"
88
"
Joanisdorf
20
"
"
88
"
68
291
HISTÓRIA DO PARANÁ
291
Com outros colonos expontâneos e descendentes de polacos, de outras colonias, bem assim com agricultores nacionais, surgiram na Lapa outros núcleos agrícolas que prosperam, tais como Serrinha de Santa Ana, Catanduvas, Ribeirão
Vermelho, Passa-Passa, São Miguel, Campestre, Tagassába,
Lagoão, Mato Branco, Pouso e principalmente Contenda,
grande empçrío da lavoura do Município.
Esta, última colonia expontanea, formada a léste da cidade da Lapa, nas proximidades do Iguassú, aspira constituir-se em Município autonomo. Possue cerca de 15.000 habitantes, todos prósperos e ufanos da sua gleba dadivosa e
da comunidade social ordeira, adiantada e operosa, que constituíram. Há na Lapa, ainda, um esforço local digno de nota: — a colonia João Candido, levada avante com os recursos do Município.
MUNICÍPIO DA PALMEIRA: — Sinimbu, iniciada em
1878 com imigrantes russos-alemães, procedentes do Volga,
com os seguintes núcleos e suas respectivas populações nesse ano:
Marcondes,
com 30 famílias com 101 pessoas
N. S. do Lago
35
"
" 181
"
S. Quitéria
33
"
" 125
"
Alegrete
20
"
" 100
"
Hartmann
70
"
" 218
"
Papagaios Novos
25
"
"
73
" .
213
798
*** Eram em número de 20.000 os imigrantes russosalemães introduzidos no Paraná. A primeira leva, de 3.809,
que aqui chegou, foi assim distribuída:
Colonias de Ponta Grossa.
2.381
da Palmeira
1.101
da Lapa
327
A colonização russo-alemã, esperada com a melhor expectativa, resultou numa verdadeira decepção. Estes colonos,
diz o Presidente Rodrigo Otávio de Menezes em seu relatório
de 1878, — descendiam de alemães imigrados de sua pátria,
há mais de um século, para as regiões do Volga onde fundaram povoações de mísera aparência e viveram, devido aos rigores do clima, a maior parte do ano em completa ociosidade,
recolhidos às suas habitações. Habituaram-se a esse miserável existência mas guardaram intacta a língua materna e não
falavam outra.
292
ROMÁRIO
MARTINS
Embora recebidos com a maior simpatia no Paraná, concedendo-lhes o govêrno vantagens excepcionais e os particulares gado, dinheiro e objetos de uso doméstico, esses colonos se
mostraram cada vez mais exigentes de benefícios.
Acrescenta em seu relatório o Presidente Rodrigo Otáv i o : . . . "muito ignorantes, teimosos, indolentes, invejosos e
apezar de muito religiosos, faltos do sentimento de verdadeira
caridade".
Conheciam a cultura do trigo. Mas tendo de plantar milho e feijão, semeiavam os grãos e após passavam sôbre o terreno arados primitivos, trazidos da Rússia, que exigiam a tração de 3 juntas de bois. Diante do insucesso da produção desesperavam-se e culpavam as terras. Colhiam laranjas derrubando as laranjeiras. Queimavam as cercas dos lotes e aterravam as valas divisórias, acostumados com a comunidade das
terras, mas reclamavam contra a invasão dos animais dos vizinhos nas suas lavouras. Pediam e obtinham que êles mesmos fizessem as suas casas definitivas dando-lhes o govêrno o
material preciso e o dinheiro que pagaria aos construtores,
mas queimavam o taboado que lhes era fornecido e construiam
grandes caixões para suas moradas, alegando que na Rússia
eram assim suas habitações. Queixavam-se de que as terras
não produziam sem estrume e empregavam este para fazer
fogo, quando o mato em que podiam lenhar ficava a poucos
passos mas exigia mais trabalho.
Em regra, quando adoeciam, preferiam o padre ao médico da colonia, dizendo que "quem cura e mata é Deus". Quando em viagem morria um dêles (como aconteceu na povoação
de S. Luiz e na Graciosa) abandonavam o cadáver na estrada.
É farta a messe de fatos semelhantes aos acima citados,
contida no Relatório do Presidente Rodrigo Otávio. Citamos
mais, apenas, — a inopinada debandada da maioria desses colonos, que se repatriaram. Esse movimento foi, no dizer de um
dêles, homem inteligente, — "instantaneo como uma bomba
e só explicável pela estupidez".
Assim fracassou em grande parte a célebre colonização
russo-alemã nos três municípios em que foi localizada. Da
parte restante muitos se fizeram carroceiros e até hoje seus
descendentes se ocupam no transporte de cargas nos seus carroções característicos puxados por três e mais parelhas de
cavalos. Outras colonias. Posteriormente foram fundadas no
Município as colonias Santa Bárbara e Canta Galo com os
núcleos Puga, Quero-Quero e Capão d'Anta, mais ou menos
prósperos. Kittolandia, iniciativa da empresa formada na
Inglaterra, em 1873, por Charles William Kitto. Efetivamen-
HISTÓRIA IJO PARANÁ
293
te em 1876 chegaram às terras que lhe foram concedidas,
medidas e demarcadas em lotes, próximas ao Salto Caiacanga onde começa a navegação do Iguassú, 16 inglêses, sendo
sustadas novas remessas porque a emprêsa nada havia providenciado para recebê-las. Os primeiros vindos, entretanto,
se mantiveram nos seus lotes, dedicando-se a conservação de
carnes, que exportavam para a Inglaterra. Colonia Socialista. Em 1891 um grupo de imigrantes italianos, socialistas
avançados, guiados pelo Dr. João Rossi, obteve do govêrno a
mesma ajuda que era dada aos imigrantes e autorização para constituir uma colonia de acordo com suas idéias, para
fins políticos de demonstração. Foi-lhes concedida uma parte da colonia Santa Bárbara, a 3 léguas da Palmeira, onde
estabeleceram a colonia Cecilia, com completa liberdade de
organização. A experiência falhou completamente, a despeito do entusiasmo dos seus propulsores. Maciel, colonia particular.
MUNICÍPIO DE CERRO AZUL: — Teve origem nas vastas realizações do plano colonizador do Assunguí, de cuja colonia foi Cerro Azul o núcleo principal. A ausência de via de
comunicação carroçável para a Capital, impediu o sucesso
desse plano e fez com que, após enormes despesas, se retirasse dessa colonia a maior parte dos seus elementos povoadores, em sua maioria inglêses, francêses e alemães.
Em 1872 foi a colonia Assunguí elevada a Freguezia e em
1897 a Cidade, com a denominação Cervo Azul, seu mais importante centro povoado desde essa época.
O Município do Cerro Azul tinha 16.589 habitantes em
1920, por ocasião1 do último recenseamento.
MUNICÍPIO DE PALMAS: — As primeiras organizações
coloniais do Município foram ^as colonias militares do Chopim e do Chapecó, criadas pelo Decreto n.° 2502 de 16 de Novembro de 1859, com os objetivos de defesa da fronteira e de
proteção dos habitantes próximos contra as correrias dos índios e de os atrair à domesticidade. Chopim, /undada a 27 de
Dezembro de 1882 à margem esquerda do Iguassú e à direita do rio Chopim, a 5 léguas equidistante de ambas e distante 17 léguas da então Vila Bela Vista (hoje Clevelância), 22
da cidade de Palmas e 24 da de Guarapuava. Essa população
ao tempo da fundação era de 60 nacionais, caboclos e índios
mansos. Chapecó, também denominada Xanxerê, fundada a
14 de Março de 1882, à margem do Uruguai e à esquerda do
rio Chapecó. Chegou a ter 102 casas de madeira, ocupadas
por nacionais e índios mansos e mestiços, capela sob a invo-
294
ROMÁRIO
MARTINS
cação de S. B. Jesus do Xanxerê, hospital, famácia, teatro,
tipografia (onde se imprimia o semanário "O Chapecó" sob
a direção do Diretor da Colonia, então capitão, depois Marechal J. B. Bormann), estação telegráfica, depósito de material bélico, cadeia, etc. Devido ao esquecimento a que o govêrno imperial relegou esta Colonia, não lhe dando recursos
para a construção de vias de comunicação com povoações
mais prósperas, sua população foi se transferindo para essas
povoações e ficou reduzida a 60 famílias apenas. Graças, porém, a tenacidade do Marechal Bormann, que a dirigiu durante 17 anos e a excelência das terras e do clima, a colonia
do Xanxerê elevou sua população a 800 habitantes em 1898.
Santa Bárbara, vasta colonia de iniciativa da Emprêsa
Colonizadora Ltda., compõe-se de 5.500 lotes de 10 alqueires
de terra cada um, que estão sendo ràpidamente ocupados
por elementos descendentes de italianos procedentes do Rio
Grande do Sul. Nos últimos dois anos (1929-30) tem a colonia colhido 2.000 sacos de trigo cada ano, produção essa que
tende a aumentar e que ali mesmo é transformada em farinha em aperfeiçoado moinho "Schule" doado pelo govêrno
do Estado. General Carneiro (parte desta colonia fica em território catarinense) povoado por ukrainos. Covó, iniciada
com 12 lotes, de lavradores nacionais. Mato Branco, com 55
lotes, Barro Preto, com 110 lotes, ambas constituídas por lavradores nacionais. Santo Antonio do Iratí.
MUNICÍPIO DA FOZ DO IGUASSÚ: — O povoamento,
por nacionais, da região entre o Iguassú e o Paraná, a 5 quilômetros acima da foz, foi regular e definitivamente iniciado, com o estabelecimento de uma Colonia Militar, em 1388,
sob a direção do engenheiro militar José Joaquim Firmino.
A região era por essa ocasião habitada por 324 pessoas, sendo, 188 paraguaios, 93 brasileiros, 33 argentinos, 5 francêses,
2 uruguaios, 2 espanhóis e 1 inglês, desde o rio Ocuí, afluente do Paraná até à margem direita do Iguassú nas proximidades da sua foz, que se ocupavam na exploração da HervaMate e das madeiras de lei, ali abundantes. Em Sol de Maio
e Porto Santa Helena encontram-se 500 descendentes de italianos venezianos meridionais e em Colonia Inglesa, descendentes de inglêses, italianos e alemães. Todas à margem do
rio Paraná. A Colonia da Foz do Iguassú foi elevada a Município em 1914 e assim entregue à jurisdição civil.
. MUNICÍPIO DE BOCAIUVA: — Eufrásio Correia, fundada em 1889, com imigrantes italianos. Marquez de Abran-
HISTÓRIA IJO PARANÁ
295
tes, em formação, servida pela estrada de rodagem São Paulo-Curitiba, iniciada com polacos, alemães e nacionais.
MUNICÍPIO DE ANTONINA: — Conselheiro de Araujo, de iniciativa do engenheiro Fanor Cumplido, que em data
de 28 de Junho de 1889 contratou com o Govêrno Imperial a
introdução de imigrantes e sua localização no vale do Rio Cachoeira, em terras de admirável uberdade, e próximas de
mercados consumidores. O grandioso plano do saudoso
paranista não chegou a se transformar em realidade devido às ocorrências derivantes da proclamação da República, que se deu 5 mêses após a assinatura do seu contrato. O
vale do Rio Cachoeira continuou sendo essa reserva que é de
inestimável valor para iniciativas que o futuro há de ali levar a efeito, com sucesso para o progresso do Paraná. Turvo
núcleo da colonia Nova Italia, com 27 lotes, dos quais 13, apenas, ocupados por igual número de famílias italianas. Este
núcleo ficou pertencendo ao Município de Antonina, pois foi
localizada à margem esquerda do Rio Cachoeira. Sua denominação vem do ribeirão do Turvo, que atravessa o núcleo,
confluente do Cachoeira. Zulmira, situado no lugar denominado "Morro do Bicho", a 3 quilômetros da povoação de São
João da Graciosa. Liga-o ao quilômetro 16 da estrada da
Graciosa, uma estrada carroçável de 7.300 metros que atravessa o núcleo Zulmira pelas frentes dos seus lotes. Ipiranga, situado nas proximidades do povoado de São João da
Graciosa, corta-o o ribeirão Ipiranga. É servido por uma estrada de 5.800 metros, que parte do citado povoado e por outra, de 1.359 metros, que se prolonga do núcleo, ambas tendo
em suas margens os lotes coloniais. Saivá, pequena concentração colonial nas imediações da cidade de Antonina. Cacatú, pequena colonia de agricultores japonêses. Outras pequenas colonias: Quatinga e CacfWeira.
MUNICÍPIO DE SÃO MATEUS: — A povoação de São
Mateus surgiu como pouso e setor de apoio das bandeiras militares lançadas pelo Governador da Capitania de São Paulo,
Don Luiz Antonio de Souza Botelho Mourão, do ocidente meridional paulista. (Conquista de Guarapuava, preparatória
do tratado de limites entre Portugal e Espanha, que veiu a
realizar-se em 1777).
Em 1890 foi aí iniciada a fundação de uma colonia, conservando-se o nome tradicional da localidade. O primeiro
lastro humano dessa sociedade sertaneja foi constituído de
nacionais, espanhóis e alemães, e a seguir, de avultados ele-
296
ROMÁRIO
MARTINS
mentos slavos. Em 1908, pela lei n.° 763, de 2 de Abril foi a
colonia de São Mateus elevada à categoria de Município e
dividida entre este e o Município de Mallet. Pertence-lhe a
colonia Vera-Guaraní, iniciada com 3.903 ukrainos, polacos,
russos e nacionais. Possue outras colonias expontaneas, tais
como Canoas, Iguassu e Taqziaral, compreendendo Fluviopolis.
São Mateus tem uma área superficial de 1680 quilômetros quadrados e uma população de 14.235 habitantes pelo
recenseamento de 1920, sendo estrangeiros 2.752.
O recenseamento pecuário (1920) acusou a existência de
6.784 bovinos, 4.643 equinos, 296 asinos, 125 ovinos, 155 caprinos e 8.935 suinos.
A atividade rural de São Mateus, não é, porém, a pecuária, mas a extração e o benefício da Herva Mate e a produção
de cereais, entre os quais sobreleva o Trigo. A progressão dos
hectares cultivados com este cereal é prometedora. Durante
a Cruzada do Trigo cultivou em 1928, 150 hectares que em
1929 elevou a 550 e em 1930 a 680. A produção em quilos foi:
— em 1928 de 198.200, em 1929 de 660.000 e em 1930 de
931.000. O rendimento por hectare foi em 1928 de-1.320 quilos, em 1929 de 1.200 e em 1930 de 1.370. Em 1930 possuía 12
moinhos, com capacidade de 6.000 quilos. A produção do Trigo, por hectare, é em São Mateus (1.370 quilos), superior a
do Canadá (1.260), do Chile (1.230), do Uruguai (900) dos
Estados Unidos (860) e da Argentina (670).
MUNICÍPIO DE PRUDENTÕPOLIS: — A antiga localidade denominada Rio dos Patos e depois São João do Capanema, foi, em 1896, na presidência Prudente de Morais, aproveitada para sede de uma grande colonia de camponêses
ukrainos e polacos. Constituiu-se dos seguintes núcleos: Ivaí,
Rio dos Patos, Canindéu, Nova Galicia, Paraná, Pirai, Mauricio Faivre, Inspetor Carvalfio, Esperança, Santos Andrade,
Sete de Setembro, Tiradentes, Vicente Machado, Rio Preto,
Quinze de Novembro, Barra Vermelha, São João, Cônsul Pohl,
Vinte e Cinco dde Outubro, União, Olinto, Eduardo Chaves,
Capanema, Paula Gomes, Oliveira, Sertorio, Cláudio Guimarães, Vinte e Três de Abril, Iguassu, Ronda e Mirim, onde foram localizados cerca de 9.000 imigrantes ukrainos e polacos.
As terras onde foi fundada a colonia de Prudentópolis,
ficavam no vasto Município de Guarapuava. Pela lei n.° 615
de 5 de Março de 1906 foi essa colonia elevada à categoria de
Vila, sede do Município da mesma denominação da importante colonia, com uma laboriosa população de 25.000 habitantes em 1922. Jesuino Marcondes, fundada em 1907, a 18
HISTÓRIA IJO PARANÁ
297
quilômetros da sede do Município, povoada por austríacos e
russos.
MUNICÍPIO DE MALLET: — Vera Guarani (parte pertencente ao Município de São Mateus) fundada em A909 em
terras contíguas às da colonia Rio Claro. Povoada com 825
famílias polacas, ukrainas, russas e nacionais. Rio Claro,
grande colonia ukraina. Santa Ana, à margem do Iguassu.
Eufrosina, também à margem do Iguassú e servida pelo movimentado porto de Fluviopolis. A população do Município
era, em 1920, de 14.294 habitantes.
MUNICÍPIO DE GUARAPUAVA: — Senador Correia, no
didstrito de Marrecas, com 3.132 ukrainos e alguns alemães
nacionais. Algodoeiro, distrito de Candói povoado com
ukrainos e polacos. Amola Faca, colonizada com alemães,
ukrainos e polacos. Jordão, Colonia Municipal, com ukrainos,, polacos e nacionais. Werneck, à margem do Iguassú,
com alemães. Herval, no Distrito do mesmo nome, com ukrainos e alemães.
MUNICÍPIO DE PALMIRA: — (Anexado ao Município
de São João do Triunfo) Palmira, com dois núcleos: Rio dos
Patos e Brumado. Está situada à direita do Iguassú e povoada com agricultores polacos. A lei n.° 874 de 10 de Abril de
1909 elevou o antigo povoado de Palmira a Município, compreendida a Colonia. Sua população em 1920 era de 2.423
habitantes.
MUNICÍPIO DE CLEVELÂNDIA: — Bom Retiro, povoado com lavradores nacionais. Pato Branco, constituída de
lavradores nacionais. Ambas estas colonias somam 400 lotes.
São Francisco, colonia particular.
MUNICÍPIO
Trindade.
DE CONCHAS: — Adelaide, Floresta
e
MUNICÍPIO DE PIRAQUARA: — Novo Tirol, formada
com 350 imigrantes italianos tirolezes e vicentinos, em 66
lotes,
MUNICÍPIO DE IPIRANGA: — Taió, a 5 quilômetros
da vila, povoada com 519 imigrantes polacos, alemães e holandêses. Ivai, nas proximidades do povoado Bom Jardim,
prolongamendo-se até às margens do rio que lhe dá o nome.
298
ROMÁRIO
MARTINS
Povoada com 3.132 imigrantes polacos, ukrainos, alguns alemães e nacionais. Bom Jardim, antigo povoado de nacionais,
tem aumentado com a localização de famílias italianas e polonêsas. São Roque, núcleo originado da colonia Ivaí.
MUNICÍPIO DE IRATÍ: — Foi a colonia Iratí fundada
3 léguas distantes da vila do mesmo nome, com 286 lotes rurais 119 urbanos, com uma população de 1.449 pessoas, em
sua maioria alemães, holandêses, russos, polacos galicianos
e nacionais. Em seguimento à colonia existe o núcleo Potinga. Na estrada para Prudentópolis, fica a colonia Serra dos
Nogueiras a 2 quilômetros da sede do Município. Itapará,
com 1.343 ukrainos, polacos galicianos e polonêses do antigo
domínio russo.
MUNICÍPIO DE UNIÃO DA VITÓRIA: — Originou-se
em 1770, quando base das explorações do território ocidental,
sendo por essa ocasião fundado, pela bandeira militar dirigida pelo Capitão Antonio da Silveira Peixoto, — o Porto de
N. S. da Vitória. A 10 léguas da sede do Município está a excolonia Cruz Machado, hoje Distrito, fundada com 9.681 povoadores polacos, alemães, russos e nacionais. Outras colonias de menor vulto: Concordia, Amazonas, Vitória e Carazinho, esta constituindo o Distrito do mesmo nome.
Seu território pertencia ao Município de Palmas, passou
a constituir Município autonomo pela lei n.° 415 de 1.° de
Abril de 1901, com a denominação de Porto da União da Vitória. Elevou-se à categoria de cidade pela lei n.° 744 de 11
de Março de 1908. Com o acordo de limites entre os Estados
do Paraná e de Santa Catarina, a cidade ficou dividida, passando a parte que tocou ao Paraná a se denominar União da
Vitória e a de Santa Catarina Porto da União.
O Município tem a superfície de 2.080 quilômetros quadrados, com uma população c(ae pelo recenseamento de 1920
era de 10.522 almas, sendo estrangeiros 2.649, compreendidos
os distritos de União da Vitória, Cruz Machado e Carazinho.
Seu maior distrito, a ex-colonia Cruz Machado, foi iniciada com 9.681 povoadores polacos, alemães, russos e nacionais, que se dedicam a extração da Herva Mate e a produção
de cereais. Dentre este sobleva a do Trigo, cuja progressão
de hectares cultivados durante a Cruzada do Trigo, foi, em
1928 de 880, em 1929, de 1.090 e em 1930 de 1.210. O rendimento por hectare tem sido de 1.309 quilos em 1928, de . .
1.400 em 1929 e de 1.480 em 1930. A produção em quilos foi:
— çm 1928 de 1.152.000, em 1929 de 1.526.000 e em 1930 de
1.953.000.
HISTÓRIA IJO PARANÁ
299
MUNICÍPIO DE CASTRO: — Brasílio Machado, com
dois núcleos: Santa Candida, povoada por polacos eSanta
Leopoldina, por italianos ;Santa Clara, fundada com imigrantes russos; Carambeí, Iapó, Agostinhos e Russos.
A colonia de Carambeí possue hoje um ativo e inteligente
grupo de criadores alemães e holandêses que se dedicam às
indústrias laticinias com grande sucesso.
Em 1933 começou a localização de imigrantes alemães
em terras próximas à cidade de Castro, adquiridas para esse
fim por emprêsa colonizadora alemã, sob as vistas do consulado alemão em Curitiba. A nova colonia, que está sendo
constituida de elementos escolhidos e sistemàticamente organizada, denomina-se Terra Nova.
MUNICÍPIO DE ENTRE RIOS: — Guarauna, sede de
Distrito, colonizada por polacos; São Mateus e Caminho
Grande, também colonizadas por polacos.
MUNICÍPIO DE RIO AZUL: — O Município (primeiramente de Roxo-Ruiz, depois Marumbí e agora Rio Azul) é
constituído da colonia Rio Azul, situada na confluência do
rio deste nome com o Potinga. Seus habitantes são antigos
imigrantes polacos e ukrainos e seus descendentes nacionais.
MUNICÍPIO DE SERTANÓPOLIS: — Sertanópolis é um
dos milagres do sertão do norte do Estado. De frondosas matas virgens, no vale do Paranapanema, em três anos já era
Distrito do Município de São Jeronimo e logo depois, por sua
vez, alevada à Vila. Sua população procede dos Estados de
São Paulo e Minas Gerais e é em sua maioria de portugueses,
ein número de 6.000.
CAPÍTULO
XV
A CAMPANHA ABOLICIONISTA
1 — A Abolição Gradual
2 — Negros Escravizados no Paraná
3 — O Movimento Abolicionista
4 — O Negro na População da Província
5 — Brancos, Pretos e Cruzados.
«
2
1 —• A Abolição Gradual
O Brasil foi uma das últimas nações a emancipar seus
escravos. Em todos os povos a abolição de tão nefanda instituição constituiu problema de difícil solução, porque, se por
um aspecto êle se impunha como um dever da civilização, por
outro perturbava profundamente a economia pública, visto
como todas as indústrias diretamente derivadas da terra
eram mantidas em condições economicas pelo braço escravo.
Não admira, pois, que o Brasil, cuja maior fonte de riqueza ainda hoje é a agricultura, houvesse libertado os seus
escravos com um atrazo de meio século das possessões européias e dos Estados Unidos da América do Norte. Toda a economia do país recaia sôbre o trabalho servil, e brusca desorganização desse regime ocasionaria certamente pertubação
da mais intensa gravidade.
Entretanto a necessidade da emancipação do escravo
sempre esteve presente no espírito e nos sentimentos de nossa raça. Sob o govêrno do Marquez de Pombal foram libertos os negros e mestiços no território europeu de Portugal e
sob o reinado de D. João VI tiveram início as negociações
anglo-lusas para a repressão do» tráfico de africanos nos seus
respectivos domínios.
Um dos cuidados do povo brasileiro, na sua primeira Assembléia Constituinte, foi o de impedir o comércio de escravos da costa da África, e em 1831, embora seih resultado na
prática, foi proibido esse tráfico. Renovada essa lei em 1850
e então prestigiada no atântico sul pelo humanitário empenho da Inglaterra, foi a importação de escravos africanos
finalmente estancada.
O Brasil muito mais cedo teria, possivelmente, ido além
nos seus esforços pela libertação do elemento servil1, si a
guerra civil americana, em 1860, motivada pelo mesmo intento, não lhe aconselhasse a maior prudência nas suas resoluções.
304
ROMÁRIO MARTINS
A emancipação gradual foi porém, desde então, o incessante objetivo que preocupou todos os nossos estadistas, inclusive o Imperador. Nesse sentido apareceu o projeto do
conselheiro Pimenta Bueno, Visconde de São Vicente, em
1866, que estabelecia a emancipação total para 31 de Dezembro de 1899, mas a guerra com o Paraguai foi considerada
um impedimento para o trato de assunto tão delicado a todas as ordens de interesses.
Finda a guerra, a chamada de Pimenta Bueno para o
gabinete de 29 de Setembro de 1870 parecia significar que o
imperador desejava medidas atinentes à emancipação. Aconteceu o contrário. Pimenta Bueno não teve ânimo para enfrentar a perturbação economica motivada pela guerra e resignou o poder, cabendo ao Visconde do Rio Branco o suceder na glória de promover o grande passo para a abolição,
com a lei denominada do "ventre livre", a 28 de Setembro de
1871, sancionada pela Princeza Isabel, lei semelhante a que
em outros países, inclusive Portugal, no tempo de Pombal,
havia realizado a abolição gradual dos escravos.
A nação inteira aplaudiu essa lei e a opinião abolicionista tece o seu primeiro grande incentivo para prosseguir sua
cruzada humanitária e civilizadora.
Dessa data em diante ninguém mais nasceu escravo no
Brasil, e essa conquista já colocava o grande problema nacional em condições favoráveis a outras providências que o
solucionassem ainda mais depressa, como realmente sucedeu
com a emancipação dos sexagenários.
A propaganda abolicionista, cada vez mais intensa, ganhou todos os espíritos liberais e constituiu formidável corrente na opinião, que já então era tão difícil para a monarquia prolongar a escravidão, como perigoso radicalmente a
extinguir, contrariando a grande massa de interesses economicos que uma medida dessa extensão sem dúvida acarretaria às indústrias rurais do país.
Criaram-se caixas emancipadoras, que libertavam quantos escravos podiam. A munificência de muitos senhores os
libertava expontaneamente. Os abolicionistas promoviam a
fuga de escravizados. Em duas províncias, a do Amazonas e
do Ceará, com tais iniciativas, não havia mais escravos em
1884. O exército já não se prestava a capturar os escravos
fugidos, o que ocorria em grande número.
Nessa fase da questão o Partido Republicano já era uma
grande força da opinião nacional e o seu radicalismo libertador se constituía o foco central das exigências da emancipação sem retrições. Por seu turno os senhores de numerosos es-
HISTÓRIA IJO PARANÁ
305
cravos, que eram os fazendeiros, desgostosos com a marcha
que levavam os acontecimentos a que destacados estadistas
monárquicos emprestavam o mais franco concurso, ameaçavam reforçar, por vingança, as fileiras republicanas.
Foi nessa atmosfera de exaltação libertadora, proposto
o projeto de abolição imediata, o que ocorreu a 13 de Maio
de 1888. com a sanção pela Princeza Reinante e quasi gerais
aclamações do povo brasileiro, com cuja decisão desapareceu
a grande mácula de nossa civilização, dando-se liberdade a
723.419 escravos que era o total dos ainda existentes no Brasil. (Estatística oficial de 1887).
Realizamos, assim, uma transformação social das mais
graves, sem as perturbações ocorrentes nos Estados Unidos,
por exemplo, onde realização semelhante "custou o sacrifício da mais cruel e monstruosa das guerras civis".
2 — Negros Escravizados no í. BfBHH
A mais remota estatística da população do atual território paranaense data de 1780, quando acusou 17.685 habitantes, sendo 7.428 na Marinha e 10.257 em Serra Acima.
Da população total eram:
— Brancos
12.349
— Negros e Mulatos
5.336
Em 1858 (78 anos depois) a população da Província era
de 69.380 habitantes, dos quais eram:
Brancos
60.380
— Negros e Mulatos escravos
8.493
— Mulatos livres
507
Em 1872, quando se realizou o primeiro recenseamento
geral do Império, a população paranaense era de 126.722 habitantes, sendo:
*
— Brancos
116.162
— Negros e Mulatos
10.560
Em 1890, primeiro recenseamento feito sob o regime republicano e último em que se investigou a tonalidade pigmentária dos brasileiros, a população paranaense era de 249.491
habitantes, sendo 5,17% o coeficiente de negros, uma das
três menores porcentagens dentre as de todos os Estados,
sendo em S. Paulo de 12,97%, no Distrito Federal de 26,79%
e na Baía de 29,30%.
Os mulatos em seus diversos matizes atingiram 18,66%
(proporcianalidade do sul), quanto que, na Baía, por exemplo, se elevavam a 46,19%.
História do Paraná — 20
306
ROMÁRIO MARTINS
Até o anb de 1872 pode-se dizer que relativamente poucos eram os negros livres, tão rara seria até então a emancipação expontanea de escravos. Quanto aos mulatos, em boa
parte filhos dos próprios senhores e senhoritos, a benevolência senhorial sempre foi generosa, alforriando-os por ocasião
do batismo.
Por outro aspecto apreciado o início das libertações do
escravo, temos que de 1872 em diante é que foi se estacando
a progressão da escravidão no Brasil com a emancipação dos
nascituros e com a libertação compulsória dos sexagenários.
O valor dos escravos que essas leis não beneficiaram, subiu,
porém, diminuindo por isso, ainda mais, as libertações expontâneas.
Anteriormente houve outra fase que se supoz iria valorizar o escravo: — a que se iniciou com a lei de 7 de Novembro de 1831, que considerou livres todos os africanos que dessa data era diante aportassem no Brasil. Essa providência,
porém, não teve efeitos práticos e o tráfico negro continuou
clandestinamente, atingindo, até daí em diante, grande desenvolvimento.
Diante disso a Inglaterra, que havia convencionado com
o Brasil o direito reciproco de visita sôbre os seus navios com
o fim de impedir o tráfico negreiro, — fez votar pelo seu parlamento, em 1845, uma medida violenta mas eficaz, com o
mesmo objetivo.
Foi o bill de Aberdeen, que investiu os cruzadores inglêses de poderes para perseguirem dentro ou fora de águas
territoriais, todos os navios brasileiros suspeitos de se empregarem no tráfico negro: — "de aprisioná-los, vendê-los, incendiá-los, metê-los a pique e entregar a tripulação ao julgamento dos tribunais de Serra Leôa". E o cruzeiro inglês, sempre vigilante, usou desse poder até mesmo em portos brasileiros, como aconteceu em Paranaguá, em Julho de 1850, com
o aprisionamento e incêndio de brigues e bergantins negreiros pelo cruzador britânico "Cormorant". Essa violência, que
tanto agitou os melindres patrióticos regionais e nacionais,
teve, contudo, um resultado eficaz na abolição do contrabando de africanos, com a expedição da lei de 4 de Setembro do
mesmo ano, que determinou a apreensão de "embarcações
brasileiras encontradas em qualquer parte e as estrangeiras
encontradas nos portos, ancoradouros ou mares territoriais
do-Brasil" e que considerou "ato de pirataria a importação
de escravos".
307
HISTÓRIA IJO PARANÁ
3 — O Movimento Abolicionista
O movimento abolicionista se intensificou no Paraná, alguns anos antes de 13 de Maio de 1888, ano em que se extinguiu a escravidão no Brasil. A esse tempo a propaganda
era intensa e generalizada a todos os espíritos liberais e humanitários. O próprio interesse do govêrno, em certas presidências, chegou a se expressar com o maior entusiasmo, o
que provocou numerosas alforrias dadas a seus escravos pelos correligionários do poder. O govêrno imperial distribuía
graças e comendas a senhores de escravos que os libertavam.
Foi por lei criado o Fundo de Emancipação para a libertação
anual de escravos e a iniciativa particular se alistou, com vivo entusiasmo, nas fileiras combatentes da Confederação
Abolicionista.
A lei de 28 de Setembro de 1871, libertando os nascituros, veiu criar novos estímulos e mais palpitantes entusiasmos nos propugnadores da abolição. Todas as oportunidades
foram aproveitadas para a libertação de escravos. Ao se
inaugurar a "Escola Oliveira Belo" de Curitiba, a 28 de Setembro de 1884, o próprio presidente da Província, Dr. Brasílio Machado, fez um vibrante discurso condenando a escravidão e apelando para os senhores de escravos afim de que
os emancipassem. Nessa ocasião 67 escravos foram libertados, o que mostra que o ideal generoso já então tinha penetrado fundo no espírito e no coração dos paranaenses.
Nesse ano (1884) havia na província 6.721 escravos assim distribuídos nos 24 municípios seguintes:
Antonina
Lapa
Curitiba
Palmeira
Castro
Guarapuava
S. José dos Pinhais
Campo Largo
Palmas
Jaguariaíva
Paranaguá
S. José da Boa Vista
Ponta Grosa
Morretes
Tibagí
Arraial Queimado
<..
733
661
527
505
402
371
359
309
301
296
284
279
250
242
217
189
308
ROMÁRIO M A R T I N S
Votuverava
Conchas
Guaraquessaba
Guaratuba
Porto de Cima
Santo Antonio do Imbituva
Pirai
Rio Negro
148
142
117
94
84
80
77
54
Em 1887 o movimento abolicionista atingiu no Paraná
à sua máxima intensidade. A negra instituição estava sendo
atacada por todas as maneiras e todas as suas traves ameaçavam ruir. Os escravos fugidos eram vistos com simpatia
e encontravam homizio e proteção. Os jornais se recusavam
a publicar anúncios dos senhores que os procuravam. A campanha se intensificou principalmente na capital, em Paranaguá, Antonina e Porto de Cima. Em Paranaguá, reduto
escravagista, Barros Júnior, em 1870, dava os primeiros e
formidáveis golpes de alvião na organização negreira, pelo
seu jornal "Operário da Liberdade" e em 1883 Fernando Simas fundava o "Livre Paraná" seguindo-lhe os passos e indo
mais longe, atacando pugnazmente as próprias instituições
do país e pregando a república. O grande educador José
Cleto da Silva promovia gratuitamente ações judiciárias a
favor dos ilegalmente escravisados depois da lei de 7 de Novembro de 1831, que proibira o tráfico.
Um fato expressivo e concreto dos efeitos da campanha
abolicionista no Paraná em Paranaguá: — em 1833 foram
registrados 7.568 escravos na província e em Outubro do ano
seguinte 6.721 (diferença, para menos, de 847); e em Paranaguá 412 em 1883 e 284 em Outubro de 1884. (Diferença, para menos, de 128).
Houve gestos lindos nesse tempo em que o coração brasileiro bateu, no mesmo ritmo, em todos os peitos.
A "Sociedade Redenção Paranaguense" conseguiu realizar prodígios de êxitos. Só num dia, a 28 de Setembro de 1884,
entregou cartas de alforria a 40 cativos. O Dr. Lúiz Ramos
Figueira, senhor de muitos escravos, emancipou-os ficando
apenas com 15 para a manutenção de sua fazenda em Guaraquessaba, mas em Abril de 1886 até a esses mesmos libertou,
num gesto integral de liberalidade. O Dr. Leocadio José Correia, médico ilustre e humanitário, grande, delicado e luminoso espírito ainda agora evocado pelos paranaenses, precisou- ciar uma ama para o seu primogênito, que é hoje Dr. Leocadio Cisneiro Correia. Comprou uma negra sadia e jovem,
HISTÓRIA IJO PARANÁ
309
mas antes de lhe confiar o filho, libertou-a, para que o seu
primogênito não se alimentasse de leite escravo. (Alberico
Figueira, A Pro-paganda Abolicionista em Paranaguá).
Em Curitiba os abolicionistas, em 1887, incitados talvez,
pela presença na presidência da Província, de um político por
êles considerado escravocrata, agiam até fora da lei, arrebatando os escravos maltratados pelos seus senhores.
Foi assim que procedeu a sociedade secreta "Ultimatum",
criada a 12 de Junho de 1887 pelos denodados abolicionistas Major Frederico Solon de Sampaio Ribeiro, que dois anos
depois, no Rio de Janeiro, tão saliente papel representou na
proclamação da república, — Capitão Gomes Pimentel, Dr.
Francisco Itaciano Teixeira, José Celestino de Oliveira Júnior, Antonio Ricardo do Nascimento, João Ferreira da Luz,
Bernardino de Freitas Saldanha, Inácio Alves Correia Carneiro e Joaquim Belarmino de Bitencourt.
São conhecidas apenas três atas da sociedade "Ultimatum" salvas do extravio do respectivo arquivo. A sessão inaugural compareceram todos os fundadores acima nomeados
e elegeram os seguintes diretores: Presidente, Antonio Ricardo do Nascimento; Secretário, José Celestino de Oliveira Júnior; Orador, Francisco Itaciano Teixeira; Tesoureiro,
Joaquim Belarmino de Bitencort, em cujo escritório se reuniam os conjurados.
A ata dessa primeira reunião revela os decisivos propósitos da sociedade. Não haveria estatutos, mas uma idelogia
imperativa: — "Tratarem todos os sócios de concorrer para
livrar o Brasil da mancha negra da escravidão que tanto nos
amesquinha, e, de qualquer fórmá se oporem aos castigos
corporais indignamente aplicados aos míseros escravos, ainda que, se necessário fôr, lançando mão da força, não poupando o próprio sangue para conseguir fim tão nobre e justo".
O juramento obrigava, sob palavra de honra "pela memória dos antepassados e pela felicidade dos entes queridos",
a "tudo fazer em benefício dos irmãos cativos". A fórmula do
juramento foi transcrita em livro especial e por todos assinada, tendo o Sr. Joaquim Bitencourt sugerido, sendo aprovado,
que ao grupo só devessem pertencer "os resolvidos a tudo sacrificar pela nobre idéia".
Ao Presidente foi conferido o arbítrio de "ordenar a qualquer sócio o serviço que haja de fazer, embora dessa ordem
possa advir sacrifício a quem fôr dada".
310
ROMÁRIO MARTINS
A ata contém a seguinte indicação, que foi aprovada:
— "Tratando-se de uma sociedade secreta e como não
contamos com o atual Presidente da Província por ser francamente escravocrata, — e para melhor acautelar os interesses sociais indicamos que todos os associados sempre que tiverem de se dirigir ao Presidente desta sociedade ou a qualquer outro sócio, usem de nome de guerra para tal fim".
Cada conjurado escolheu o seu:
S. Paulo — Antonio Ricardo do Nascimento.
Trovão — José Celestino de Oliveira Jr.
Bilbau — Frederico Solon.
Washington — João Pimentel,
Patrocínio — João Luz.
Luiz Gama — Itaciano Teixeira.
Castelar — Bernardino Saldanha.
Saldanha Marinho — Joaquim Bitencourt.
Clapp — Inácio Carneiro
A segunda reunião foi a 30 de Julho. Pelos "bilhetes de
comunicação" dos associados, vê-se que a sociedade "Ultimatum" contava com os seguintes correspondentes:
Em Morretes, com os srs. Major Nogueira, Agostinho
Loiola e Romulo Pereira. Em Paranaguá, segundo bilhete
de Clapp — "foi dado embarque a escravos protegidos pela
sociedade". Inácio Carneiro levára esses escravos e carta de
recomendação de Ildefonso Correia para Bento Munhoz da
Rocha "que tudo facilitou, inclusive o pagamento das passagens, feitos por Ildefonso e Rochinha". Este, acrescenta o bilhete, está "entusiasmado, tudo fará por nós".
Ainda durante a estadia de Inácio Carneiro em Paranaguá foram vários escravos embarcados para Montevidéu, dando-lhes o emissário "duas libras a cada foragido". Dizia contar "com a ajuda de Presciliano Correia" e contava embarcar "um escravo de Nacar e um de Antonina".
Itaciano Teixeira declarou ter a sociedade amigos em
Campo Largo, Palmeira e Ponta Grossa, faltando em Castro;
mas Joaquim Bittencourt se encarregou de os conseguir "por
intermédio de Olegário Macedo".
Antonio Ricardo do Nascimento declarou que no dia seguinte iria a Cerro Azul, Votuverava e Assunguí "conseguir
adeptos". Recomendou que na sua ausência não esquecessem "a adesão dos Macedos de Campo Largo e de Manoel
Vicente de Ponta Grossa, que são elementos muito necessários".
HISTÓBIA DO PAHANÁ
311
Lembrou mais que deveriam trabalhar pela causa Eduardo Mendes Gonçalves, Ernesto de Campos Lima e Mauricio
Sinke que eram republicanos, e que Solon se entendesse com
êles. Itaciano e Carneiro seguiram para a Palmeira "e de
lá até a fazenda ( ? ) " para trazer os escravos que vieram reclamar contra maus tratos".
A coleta de recursos para a caixa social rendeu nessa
sessão 500$000. Foi proposto sócio Ildefonso Correia, que por
essa ocasião contribuiu com 100S000. Duas propostas de sócios foram recusadas. Compareceu o novo sócio Benedito
Candido.
Na terceira reunião, a 15 de Agosto, o Presidente declarou que da sua ida ao Assunguí, Votuverava e Cerro Azul resultaram as melhores adesões. A delegação da sociedade ali
ficára à cargo de von der Osten, "que se encarrega de nos
entregar os livros das coletorias" e em Votuverava "o coletor
só pediu que simulassem um arrombamento na coletoria para livrá-lo de processo".
Acrescentou o Presidente que "os escravos vindos de
Campo Largo, trazidos por Bilbau, devem seguir amanhã para Paranaguá para Rochinha enviá-los aos nossos amigos de
Santos".
Deram entrada na caixa social 800$000, produto de uma
subscrição promovida por moças, a pedido de Bitencourt.
Gomes Pimentel declarou que da investigação que lhe
foi cometida resultou "não ser verdade a denúncia de que o
Capitão F. maltratasse seus escravos, pois os trata com piedade". Quanto a F. "é êle um tirano que muito maltrata os
escravos". Providenciára para "que o escravo João os faça
sair à noite, sem serem percebidos, para serem homiziados
até se lhes dar escapula".
O Presidente designou Celestino Júnior, Bitencourt e
João Luz para sindicarem denúncias de maus tratos praticados por F . em seus escravos e para pô-los em lugar seguro,
até terem destino, caso fosse verdadeira a denúncia.
Solon, Bernarddino Saldanha e Inácio Carneiro foram
designados para uma investigação sôbre caso denunciado pela negra Maria, escrava de F. Nascimento. Itaciano e Celestino ficaram incumbidos de esclarecer "o que há na casa
de F. com relação a uma escrava que denúncia dá como
muito maltratada e gravemente contusa". Verificada a veracidade da denúncia, Itaciano deveria proceder imediatamente contra o referido senhor e promover o depósito e corpo de
delito da vítima.
312
ROMÁRIO MARTINS
— Compareceu e assinou o compromisso de sócio, Ildefonso Correia, que tomou por nome de guerra o de Cruz Machado.
Respondendo a saudação que lhe fez Solon, disse:
— "Espero que Deus me ajudará a cumprir o meu juramento e só peço ao Presidente que ordene". Ficou o novo sócio designado para proceder aos embarques de escravos em
Paranaguá e autorizado o Tesoureiro a pagar as despezas. Ildefonso Correia declarou que as despezas de passagens até
1:000$000 correriam por sua conta.
Foram propostos e aceitos sócios Presciliano Correia e
Bento Munhoz da Rocha. A proposta diz que "si eles ainda
não eram efetivos, já o eram pelos importantes serviços prestados à sociedade com o maior desinteresse e abnegação".
Solon e Pimentel fizeram entrega de 452$000, que angariaram entre seus companheiros militares.
4 — O Negro na População da Província
Nossa população geral era, em 1890, de cerca de 250.000
almas e de 5,17% o coeficiente negro. Em 1933 atingiu a
1.000.000 pelo crescimento vegetativo e entrada de novos elementos povoadores, nacionais e estrangeiros.
Do primeiro recenseamento, de 1872, ao último, de 1920,
o crescimento médio, anual, da população paranaense, foi:
— de 1872 a 1890
— de 1890 a 1900
— de 1900 a 1920
0 0384
0,0275
0,0384
Segue-se que os elementos negros e negroides que em
1872 (quando a população paranaense era de cerca de
12.700 habitantes) não chegavam a 11.000 almas e que desde
então não aumentaram senão vegetativamente, em 60 anos
(de 1872 a 1933) quando a população atingiu a 1.000.000, estariam fortemente reduzidos por várias causas: — pelo seu
pequeno número relativamente à população branca: — pela precoce mortalidade do mulato; — pelas cruzas com brancos; — pelas mudanças; — por outras causas.
O rápido desaparecimento do negro, da população paranaense, é visível nos recenseamentos de 1858 e de 1872,
quando o primeiro acusou a existência de 9.000 negros e mulatos (escravos e livres) e o segundo de 10.560.
HISTÓRIA IJO PARANÁ
313
Em 14 anos o aumento foi, apenas, de 1.560 negros e
seus mestiços, o que demonstra a pouca proliferacidade de
ambos e a sua curta vida nas altitudes elevadas como as nossas, circunstâncias esssas motivadas pela pouca resistência
dos órgãos respiratórios do mulato.
5 — Brancos, Pretos e Cruzados
Procurando demonstrar que no povoamento do Paraná a
raça negra não teve grande representação, não se segue que
sejamos apologista dos que a consideram inferior e insusceptível de desenvolvimento.
O dogma arianista fracassou quando observações mais
generalizadas testificaram incerto e frágil o assento de que os
tipos humanos, física, moral e intelectualmente superiores,
só poderiam ser os dos indivíduos dolicocefalos. Os estudos antropológicos feitos para a verificação desse enunciado que por muitos anos manteve foros de científico,
demonstraram que "as tribus mais atrasadas da África são dolicocefalas" como as raças que, por o serem, eram
julgadas superiores".
Mas os impenitentes pregoeiros da superioridade e inferioridade de raças, ainda assim não se julgaram vencidos e
passaram a julgar "superiores" os "dolicocefalos louros" —
como se "a fisiologia e a psicologia permitissem que partindo
unicamente da dimensão do crâneo e da côr dos cabelos, se
estabelecesse qualquer superioridade de um tipo sôbre outro".
(Arianismo, Darci Azambuja).
O que a observação morfológica mostra, no estado atual
da ciência, é a complexidade da estrutura dos povos, mesmo
dos mais presumidos de pureza e de qualidade superiores. Decomposta nos seus simplices étnicos, as grandes nações modernas, como as grandes nações antigas, — mostram uma
antropogenese variadíssima". (Oliveira Viana, Raças Nacionais e Raças Históricas).
Todos os grupos nacionais são constituídos por cruzamentos, no mínimo de três tipos étnicos distintos. Os povos
mais presumidos de "raça", não constituem raça nenhuma.
Na nossa população fundamental, igualmente foram várias as etnias que se fundiram. O europeu foi vastamente representado pelos descendentes de iberos-insulares (raça indígena peninsular luso-hispanica) mas em cujos tipos as leis
atávicas ainda lá operam esporádicos surtos célticos, germanoides, semitas e mouristicos, que vão de 10% (germanoides)
a 14% (celtas ou celtizados, H. alpinus).
314
ROMÁRIO
MARTINS
*** Quanto ao elemento ameríndio, as suas origens motivam hipóteses diversas, das quais as mais plausíveis (Mendes Correia, As Primeiras Migrações Humanas) são as das
migrações malaio-polinesias pela costa do Pacífico (Rivet);
das asiáticas pelo estreito de Behering (hipótese clássica); e
da dupla-corrente, do norte e do sul, (Wageger) tendo esta
por origem a bacia do Índico e por entrada a região patagônica, atingida pela rota: — Australia, Tasmania, Nova Zelândia, Antartica, Patagônia.
*** O terceiro elemento étnico entrado na formação fundamental do povoamento do Brasil foi o africano, em maior
ou menor proporção, nas várias regiões do país.
Procederam da faixa litoranea da África, entre a Guiné
na costa ocidental até Moçambique na oriental, onde dominava uma infinidade de tribus e entre elas os Berberes, Jalofos, Mandigas, Felupos, Congos, Angolas, Benguelas, etc.,
e outras da Costa da Mina.
Os localizados no Paraná procediam, pelo menos em
grande parte, da Mina, Monjolo, Congo, Mossende, Cabinda,
Movumbo, Umbambe, Mucuim. Todos esses tipos regionais
de africanos estiveram vastamente representados no aldeianiento de S. Pedro de Alcantara, donde provém esta relação.
É contra o negro a maior ogeriza dos velhos povos que
se presumem provir de raças superiores porque atingiram a
altos degraus da civilização, quando esses degraus são acessíveis a todas as raças. As desigualdades entre elas não são
de ordem biológica, mas de ordem social e mesológica. Umas
tiveram a facilitar sua evolução o contacto com as que mais
depressa progrediram devido às condições do ambiente e do
meio físico do seu habitáculo (clima, solo e sub-solo favoráveis) . Outras permaneceram em estágios culturais inferiores pela ausência daquelas còndições. Assim é que o negro
norte-americano tem mais cultura e é mais civilizado que o
nórdico inglês isolado na sua "ilha étnica" dos Brahamas.
Mesmo no Paraná tivemos um expressivo exemplo do
quanto a demorada segregação da civilização e dadas condições do meio podem fazer involuir grupos mesmo numerosos
de criaturas que já haviam atingido certa elevação cultural
e moral. Esse exemplo está nos alemães que se estabeleceram
na Rússia (região do Volga) e que durante mais de um século lá viveram miseravelmente, sitiados pelos Tartáros e
Kirgises que os capturavam e vendiam como escravos. Seus
descendentes transmigrados para o Paraná em 1878 vieram
eivados de qualidades aparentemente negativas: indolência,
HISTÓRIA IJO PARANÁ
315
teimosia, inveja, embrutecimento intelectual, e, apesar de
muito religiosos, de alarmante deshumanidade.
Entrados em contacto permanente com a civilização paranaense, numerosos desses imigrantes e seus descendentes
se tornaram eficientes lavradores, industriais e comerciantes,
retornando assim à posse das qualidades ativas do seu grupo
nacional originário. A -própria Europa que não tem mais povos selvagens, ainda assim possue ainda povos bárbaros: —
os lapões nômades ou pastores utilizadores da rena, os montenegrinos, os albanezes, diversos grupos balcânicos, em plena
barbaria sedentária. (Alfredo Ellis, Jr., Elementos de Geografia Superior). A raça amarela, até bem pouco tempo considerada inferior, surpreende agora o mundo com a ocidentalização cultural do nipônico, derivada de antigos cruzamentos
ainos (brancos), mongóis (amarelos) e indonésios (negroides).
O negro africano integrado na sociedade branca, não é
exclusivo do Brasil. Na história do tráfico de africanos "não
há quasi nação da Europa que não esteja largamente representada, — umas mais cedo, outras mais tarde". (Afonso E.
Taunay, História Geral das Bandeiras).
Esse fato não deprimiu a nenhum povo europeu e o negro foi absorvido pela população branca em séculos de contacto. O mesmo se dará no Brasil.
É verdade que por várias gerações o descedente de negro ainda apresenta vestigios de inferioridade sociológica e
psicológica, consequências de várias causas: — o ambiente,
o gênero da vida, a incultura, etc. Alguns dos nossos dissídios
e desorientações correm por conta de proximidades étnicas
com a estirpe de Can, mas também é inegável que a sua mestiçagem já apresentou no Brasil altos tipos humanos quanto
ao fulgor da inteligência e a transcendência da cultura.
<i
CAPÍTULO
A PROPAGANDA
XVI
REPUBLICANA
1 — Os Propagandistas Paranaenses (1871)
2 — Os Clubes Republicanos
3 — A Imprensa Republicana
4 — O Novo Regime no Paraná (1889).
<j
1 — Os Propagandistas Paranaenses (1871)
Na história da propaganda republicana que se desenvolveu no país após o manifesto de 1870 e que em menos de vinte anos fez luminosa trajetória até a gloriosa alvorada de 15
de Novembro de 1889 — o Paraná repetidamente inscreveu
vários nomes de combatentes ilustres e denodados.
Pela palavra nos comícios e nas conferências, pela imprensa em três jornais, pela participação nas deliberações
da política republicana — dentro e fora da Província, os paranaenses tiveram uma atuação saliente e constante, que em
1888, véspera da vitória, tinha chegado ao climax do seu entusiasmo idealista e cívico e abalado em suas convicções tradicionais os partidos monárquicos, principalmente o conservador.
A primeira palavra de paranaenses em prol da república
foi a de Ubaldino do Amaral Fontoura, na reunião de 8 de
Julho de 1871, do Partido Liberal de Sorocaba, onde o grande lapeano, em discurso memorável pela oportunidade, pelo
desassombro e pelo brilhantismo, fez a sua sensacional adesão ao Partido Republicano.
Em 1888, foi quando a propaganda republicana promoveu no Brasil a generalização" intensa de sua ação cívica e
política. Nesse ano, nos salões do Clube Tiradentes, do Rio
de Janeiro, reuniu-se pela primeira vez o Congresso Federal
Brasileiro, sob a presidência de Saldanha Marinho.
Entre os congressistas figuraram dois paranaenses: —
Ubaldino do Amaral e Eduardo Mendes Gonçalves, este como
representante do Partido Republicano Paranaense.
Em Novembro de 1888 reorganizou-se o Partido Republicano do Município Neutro. Da comissão reorganizadora fez
parte Ubaldino do Amaral com Candido Barata, Silva Jardim, Esteves Júnior e Sampaio Ferraz. A 10 do mesmo mês
reuniram-se no Clube Tiradentes os delegados republicanos
de 15 municípios da Província do Rio de Janeiro para a ela-
320
ROMÁRIO
MARTINS
boração da lei orgânica do partido. A comissão ficou composta de Silva Jardim, Ubaldino do Amaral, Ciro de Azevedo, Francisco Portela e Alberto Torres.
A 15 de Julho de 1888 os republicanos de Niterói se reuniram sob sua presidência, assentando-se então medidas de
relevância para a ação do partido.
As suas conferências atingiram as províncias de S. Paulo, Minas, Rio de Janeiro e tiveram sempre a maior repercussão na política nacional. Ele as realizou quasi todas em 1887
e 1888. Algumas das que temos notícia: a 13 de Março de
1887 no Clube Republicano de Campinas; a 3 de Agosto ..
(1888) na cidade de Leopoldina, Minas, onde sua palavra de
doutrinador conseguiu reunir uma assistência composta de
políticos dos partidos monárquicos e de representantes de
todas as classes sociais, sendo entusiásticamente ovacionado;
a 8 do mesmo mês e ano, em Cataguazes, Minas, onde recebeu formidáveis aclamações públicas, etc.
*** outro grande propagandista com que o Paraná concorreu, em 1888, para formar o ambiente em que no ano seguinte se proclamou a república, foi Manoel Corrêa de Freitas, destacado para agir na Província de Santa Catarina. A
3 de Junho realizou a primeira conferência em Lençóis, a 9
em Oxford, a 17 em Campo Alegre, todas empolgantes e numerosamente assistidas.
Em Dezembro (1888) Corrêa de Freitas realizou uma
conferência no Clube Republicano de Paranaguá, sob o tema: "Terceiro Reinado", conseguindo da numerosa assistência os mais vibrantes aplausos. Dessa data em diante até 15
de Novembro Corrêa de Freitas agiu no Rio de Janeiro, entrando em contacto com os mais notáveis próceres republicanos paulistas, mineiros e cariocas.
c
*** A 2 de Dezembro de 1888 ocorreu no Paraná um fato sensacional nos arraiais políticos, monárquicos e republicanos. Foi a adesão do deputado pelo 2.° Distrito Eleitoral da
Província, Vicente Machado da Silva Lima.
Em brilhante e vibrante discurso, em plena sessão memorável por essa ocorrência, o Deputado Vicente Machado
fez a sua profissão de fé republicana e passou a ser, desde
então, a figura central do Partido Republicano Paranaense.
Em seguida à sua adesão aos novos ideais políticos, realizou
no Teatro S. Teodoro de Curitiba uma conferência popular
que levou àquela casa uma enorme assistência que o aplaudiu
o ovacionou com entusiasmo.
H I S T Ó R I A IJO P A R A N Á
321
Estava assim politicamente consagrada pela opinião dos
seus concidadãos, aquele que viria a ser o chefe singular de
uma organização partidária sem contraste, nem antes nem
depois dêle e até hoje, em terras do Paraná.
*** A 8 de Dezembro de 1888 Otávio do Amaral realizou
em Curitiba uma conferência republicana, com gerais e calorosos aplausos de numerosa assistência; e a 26 Emiliano
Perneta realizou outra, na Lapa, com extraordinário sucesso.
*** O Clube Republicano de Curitiba não deixava apagar-se o fogo sagrado do seu ideal e promovia repetidas conferências e meetings que se realizavam no Salão Tivoli, à rua
de S. Francisco, onde doutrinaram e agitaram a opinião cívica da cidade, entre outros, Corrêa de Freitas, Nestor Vitor,
Otávio do Amaral, Emiliano Perneta, Sebastião Paraná, Albino Silva, Vasconcelos, etc.
2 — Os Clubes Republicanos
Os clubes republicanos fundados no Paraná foram dois,
um em Curitiba fundado em 1885 e outro em Paranaguá fundado em 1887.
A 22 de Novembro de 1885 (o "Almanak Republicano
Brasileiro" diz que foi em 1884) fundou-se o Clube Republicano de Curitiba, sendo aclamado Presidente Eduardo Mendes Gonçalves. Extraviaram-se as atas dessa organização política, restando, porém, como documento histórico, cópia fielmente extraída do original por José Corrêa de Freitas a 21
de Novembro de 1896.
Graças a esse fato aqui podemos reproduzir esse precioso documento, que é o seguinte:
"Clube Republicano, (Sociedade Político-Literária). Reunião geral para instalação com as pessoas abaixo assinadas:
"Curitiba, 22 de Novembro de 1885, Eduardo Mendes
Gonçalves, José Corrêa de Freitas, Lourenço Martins Viana,
José Misorele, Artur Borges de Macedo, José Leandro R. Costa, Urbano Carrão, Manoel Alves Magalhães, Demóstenes Simas, Lucio Pereira, Luiz de Carvalho, Afonso Guilhermino
Wanderley, Carlos Alberto Lopes, Paulino da Costa Guimarães, José G. Amorim Júnior, Manoel Marques de Andrade,
João J. L. Palmeira Capela, Antonio Duarte Cunha, Paulino
Pedrosa, Manoel A. Nunes Alves, Benedito da Mota Ribeiro,
História do Paraná — 21
322
ROMÁRIO
MARTINS
João Timoteo de Simas, Ernesto Lima, Francisco Timoteo de
Simas, José E. Moura Brito, Francisco Carvalho de Oliveira,
Eduardo Lobo de Moura, Manoel B. T. Ramirez, Brasilino
Moura, Pacifico Guimarães".
— "Ata da primeira reunião do Clube Republicano, servindo de presidente o Snr. Dr. Eduardo Mendes Gonçalves.
Aos 22 dias do mês de Novembro de 1885, em um dos salões do Grande Hotel, presentes os sócios constantes da folha
retro, sob a presidência aclamada do Dr. Eduardo M. Gonçalves, comigo Ernesto Lima, chamado para Secretário, o mesmo Presidente declarou aberta a sessão, pronunciando um
discurso análogo ao ato, expondo os fins do Clube que pretendia fundar, e convidando em seguida os sócios presentes
para assinarem o livro de presenças, que verificou-se com 30
assinaturas. Em seguida procedeu-se à eleição da comissão
de estatutos, obtendo votos os Snrs. seguintes: Lourenço Viana 7, Rocha 1, Corrêa 4, Capela 3, Lucio 5, Magalhães 1, Costa 1, Carrão 3, Ernesto Lima 13, Francisco Carvalho 10, Dr.
Eduardo Gonçalves 17, ficando os três últimos declamados
eleitos. Ato continuo encerrou-se a sessão, sendo convocada
nova reunião para o seguinte domingo, 29 do corrente; e para constar, eu Ernesto Lima, servindo de Secretário, que assino junto do Presidente. Curitiba, 22 de Novembro de 1885.
Eduardo Mendes Gonçalves, Ernesto Lima, Francisco Carvalho de Oliveira".
3 — A Imprensa Republicana
A imprensa livre, francamente abolicionista, democrática e exaltadamente liberal, nasceu no Paraná com o "Operário da Liberdade", de Barros Júnior, em Paranaguá, a 2 de
Julho de 1870. Não era ainda a república que esse semanário
doutrinava, mas já era, sem dúvida, a próxima eclosão de sua
alvorada, porque foi da propaganda pela libertação dos escravos que surgiu o ideal republicano consubstanciado no célebre manifesto paulista de 1870. O primeiro periódico paranaense franca e decididamente republicano, foi o "Livre Paraná" redigido por Fernando Simas e Guilherme Leite, surgido em Paranaguá a 7 de Julho de 1883.
A 15 de Março de 1886 iniciiou-se em Curitiba a publicação semanal da "A República", órgão do Partido Republicano Paranaense, passando a diário em Novembro de 1889 e
deixando de circular desde Outubro de 1930, por motivo da
revolução.
HISTÓRIA DO PARANA
323
Fundaram-na os esforços cívicos de Eduardo Mendes
Gonçalves e Joaquim Silva.
Redigiram esse jornal, no período da propaganda, Mendes Gonçalves e Chichorro Júnior. Como o seu título indica
foi a "A República" um franco e decidido combatente em
prol do regime vitorioso no Brasil em 1889, tendo a sua atuação merecido o maior conceito nos centros republicanos do
país.
4 — O Novo Regime no Paraná
A 17 de Novembro de 1889 realizou-se a transformação do
regime no Paraná, sendo o Coronél Francisco José Cardoso
Júnior investido no cargo de Governador do Estado pelo Presiddente da Câmara de Curitiba, Antonio Ricardo do Nascimento.
Desse ato lavrou-se a seguinte ata, documento altamente interessante desse momento histórico:
"A Câmara Municipal da Capital da Província do Paraná hoje Estado Federal do Paraná, o exército e o povo reunidos em sessão pública às onze horas da manhã do dia dezessete de Novembro de 1889 (mil oitocentos e oitenta e nove)
na sala da Câmara aderiram ao Govêrno Republicano instalado no dia 15 do corrente na cidade do Rio de Janeiro sob a
presidência do General Deodoro da Fonseca e os cidadãos Tenente Coronél Benjamin Constant e Quintino Bocaiuva,
constituídos em govêrno provisório da República Federal
Brasileira. E por assim terem resolvido e assentado foi pelo
Povo, Exército e Câmara Municipal convidado o Sr. Coronél
Francisco José Cardoso Júnior, Comandante da Brigada, a
tomar posse, provisoriamente, do cargo de Governador Geral
do Estado do Paraná.. Em ato jpontinuo o Snr. Presidente da
Câmara Municipal, Antonio Ricardo Nascimento, declarou
em uma das janelas da Câmara: — "Está empossada e aclamado pelo Povo, Exército e Câmara Municipal o Snr. Coronél
Comandante da Brigada Francisco José Cardoso Júnior, do
cargo de Governador Geral do Estado do Paraná".
E para constar lavrei a presente proclamação em que
assinam o Snr. Cél. Francisco José Cardoso Júnior, Governador Geral do Estado do Paraná, Câmara Municipal, Povo
e Exército. Eu Antonio Ricardo do Nascimento, Presidente
da Câmara Municipal da Capital do Estado do Paraná a escrevi.. — (a., a.) Francisco José Cardoso Júnior. — Antonio
Ricardo Nascimento, Presidente da Câmara.
(Seguem-se numerosas assinaturas).
CAPÍTULO
XVII
A ORGANIZAÇÃO DA PROVÍNCIA
1 — Situação Social e Econômica da Comarca
em 1853.
2 — Situação Econômica e Financeira
3 — A Ação do Primeiro Presidente
4 — Progresso da Província até 1889
1 — Situação Social e Econômica da Comarca em 1853
Ao se instalar a Província, a Comarca da qual ela se
constituiu contava em seu território com duas cidades: Curitiba e Paranaguá; sete vilas: — Guaratuba, Antonina, Morretes, S. José dos Pinhais, Príncipe (Lapa), Castro e Guarapuava; ;seis freguezias: — Campo Largo, Palmeira, Ponta
Grossa, Jaguariaíva, Tibagí e Rio Negro; e quatro capelas
curadas: — Guaraquessaba, Iguassú (Araucária, antiga Tindicuéra), Votuverava e Palmas.
Curitiba, escolhida para capital da nova Província, foi
vila durante quasi um século e meio — de 1693 a 1848, quando foi elevada a cidade pela lei paulista de 5 de Fevereiro.
Quando a escolheu a lei de 26 de Julho de 1854 para capital da Província do Paraná, somente possuía duas escolas
de primeiras letras para meninos e uma para meninas.
Tinha 27 quarteirões, com um total de 5.819 habitantes,
sendo 2.940 homens e 2.879 mulheres. Eram solteiros 4.389,
casados 1.289 e viúvos 151. Eram brancos 4.102, dos quais 43
estrangeiros; mulatos e pardo^ 955 e pretos 762, destes 473
escravos.
Contava 308 casas e 52 em contrução; 38 lojas de fazendas e armarinhos, 35 armazéns de comestíveis; 3 ourivesarias, 5 ferrarias, 2 marcenarias, 10 olarias, 1 selaria, 6 alfaiatarias, 9 sapatarias, 3 açougues, 1 padaria. Várias casas de
famílias faziam e vendiam pão, biscoitos, etc. Pelas atividades verificadas pela estatítica, 802 curitibanos eram lavradores e 99 comerciantes. Havia 15 engenhos de Herva-Mate e
13 fazendas de criar. A maior produção agrícola era "muito
milho, feijão, aipim, batatas, algum trigo.. Com relação à
produção pastoril, diz o documento que estamos consultando
para este resumo: — "ocupam-se os habitantes da criação de
toda a espécie de gado".
328
ROMÁRIO
MARTINS
*** A outra cidade existente em 1853 quando se instalou a Província, era Paranaguá, comercialmente mais importante, então, que Curitiba.
Sua população era de 6.533 habitantes, 3.134 homens e
3.399 mulheres, sendo solteiros 4.667, casados 1.506 e viúvos
357. Eram brancos 4.150, mulatos e pardos 1.109 e pretos ..
1.274. Os escravos eram também 1.274.
Tinha 133 casas comerciais, 2 hotéis, 6 alfaiatarias, 7
ferrarias, 2 marcenarias, 5 engenhos de serrar, 11 de socar
e 8 de moer. Da sua edificação 55 casas eram de sobrado e
498 eram térreas.
Sua produção agrícola era café, mandioca, arroz, milho,
feijão e cana de açúcar. Havia manufatura de cabos e bêtas
de imbê, artefatos de barro e de madeira. Fabricava-se aguardente e pilava-se arroz, em quantidades exportáveis.
*** Das vilas de então, a população e a produção eram
as seguintes:
Guaratuba, com 1.563 habitantes, sendo brancos 736,
mulatos e pardos 630 e 198 pretos, dos quais 175 eram escravos. Seus sítios com lavoura de arroz, cana e mandioca e beneficiamento e industrialização destes produtos, eram em
número de 315. A pescaria e a navegação ocupavam numerosos guaratubanos e eram famosos o peixe seco e a farinha de
mandioca de sua exportação.
Antonina, com 4.160 habitantes nos seus 12 quarteirões,
sendo homens 2.098 e mulheres 2.062. Eram brancos 2.664,
mulatos e pardos 604 e pretos 892, dos quais 838 escravos.
Possuía 454 sítios de plantação e 56 da criação; 33 engenhos
de aguardente. Farinha de (mandioca e arroz pilado eram
seus principais produtos.
Marretes, com 3.709 habitantes, sendo 3.001 solteiros,
484 casados e 224 viúvos. Brancos 1.563, mulatos e pardos
1.233 e pretos 912, destes 755 escravos. A Vila continha 368
lavradores, 126 negociantes, 35 alfaiates, 61 sapateiros, etc.
Boa produção de arroz, café, milho, feijão, fumo e cana que
industrializava em famosa aguardente. Seu comércio era
considerado dos melhores entre os municípios da nova Província.
S. José dos Pinhais, com 810 fogos em 20 quarteirões,
com 4.600 habitantes, dos quais 3.226 solteiros, 1.208 casados
HISTÓRIA IJO PARANÁ
329
e 166 viúvos, sendo, brancos 2.636, pardos e mulatos 992 e
pretos 972, dos quais 365 escravos. Possuia 89 casas urbanas
e 10 chácaras; 9 fazendas de criar, 10 casas de negócio e 2
engenhos de beneficiar Herva-Mate.
Lapa (então vila do Príncipe) com 5.406 habitantes, sendo homens 2. 562 e mulheres 2.844; solteiros 3.121, casados
1.829, viúvos 456. Havia 1.858 escravos.
Castro, com 16 quarteirões e 1.088 fogos, com população
de 5.899 habitantes, dos quais 3.893 homens e 2.006 mulheres,
sendo solteiros 3.952, casados 1.413 e viúvos 534. Brancos
3.618, mulatos e pardos 1.295, pretos 986, dos quais 796 escravos. Possuia 510 lavradores, 145 negociantes, 16 carpinteiros, 7 ourives, 7 sapateiros, 3 ferreiros, 2 alfaiates, 1 seleiro, etc. Numerosas fazendas de gado, abundante produção de
milho, feijão, arroz, algodão, cana, café, frutas e legumes.
Guarapiiava. População: solteiros 1.862, casados 674,
viúvos 74. Brancos 1.193, mulatos e pardos 909, negros 418,
inclusive 379 escravos. Havia 32 fazendas de criação, 17 casas de negócio, 1 serraria. A atividade especializada era exercida por 98 criadores, 56 lavradores, 7 oleiros, 6 ferreiros, 2
ourives, 2 pedreiros e 116 jornaleiros. Seus produtos de exportação eram gado vacum, cavalar e suino, couros, carne
seca, toucinho, chifres, crina, lã, cebo, graxa e cola; porém
sua produção de consumo interno era farta em cereais, legumes e Herva-Mate.
*** A população e as atividades das seis freguezias ao
tempo existentes, eram:
Campo Largo, com 3.690® habitantes, 1.783 homens e ..
1.907 mulheres, sendo, brancos 2.101, mulatos e pardos 979
e pretos 610 inclusive 359 escravos. Havia 1 fazenda de criar
e 14 casas comerciais. As demais ocupações assim se distribuíam: 377 lavradores, 150 jornaleiros, 5 carpinteiros, 5 alfaiates, 3 ourives, 3 ferreiros, 3 sapateiros, 1 seleiro. Da população 14 eram estrangeiros. A salubridade de Campo Largo pode ser apreciada através destes números: — no ano de
1853 nasceram 224 pessoas e faleceram apenas 20.
Palmeira, com 334 fogos e 1.818 pessoas, sendo 918 homens e 900 mulheres. Solteiros 1.323, casados 373, viúvos
119. Brancos 1.028, mulatos e pardos 427, pretos 363, dos
330
ROMÁRIO
MARTINS
quais 269 escravos. Havia 195 lavradores e 18 fazendeiros 7
sapateiros, 6 carpinteiros, 4 ourives, 4 ferreiros, 1 alfaiate' 1
seleiro, etc.
'
Ponta Grossa, com 650 fogos e 3.033 habitantes, 1652
homens e 1.381 mulheres. Solteiros 1.865, casados 1 021 e
viúvos 147. Brancos 1.889, mulatos e pardos 746, pretos 398
Os escravos eram em número de 1.069. Tinha 16 fazendas
de criar, 543 sítios de lavoura e 3 engenhos de Herva Mate
Sua exportação de animais muares, cavalares e gado vacum
era vultosa. "As mulheres fazem xergas e baixeiros que, vendidos na feira de Sorocaba, produzem quasi tanto como a
Herva-Mate" — diz o documento que estamos consultando.
Jaguariaíva, com 1.071 habitantes, 688 homens e 383
mulheres. Solteiros 683, casados 320 e viúvos 68. Brancos
590, mulatos e pardos 260 e pretos 221. Eram escravos 440
Suas fazendas de criar, qualificadas de "consideráveis" eram
16 e numerosas e vastas as invernadas. Mais de 100 sítios de
plantação, em terras tidas por excelentes para o café e a
cana.
Tibagí, com 1.040 habitantes, 550 homens e 490 mulheres. Solteiros 590, casados 410 e viúvos 40. Brancos 201 mulatos e pardos 492 e pretos 347. Escravos 354. Eram 640 os
lavradores e 12 os fazendeiros.
Rio Negro, com 1.884 habitantes, 1.247 solteiros, 590
casados e 47 viúvos. Brancos 868, mulatos, pardos, mamelucos e caboclos 952 e 64 pretos. Eram escravos 77. As fazendas principais de criação eram 5. Produção: gado e porcos
Herva-Mate, milho, feijão, em grandes quantidades.
*** Quanto às quatro capelas curadas são os seguintes
os dados de suas populações e produções:
Guaraquessaba, com 3.876 habitantes, dos quais 1.740
homens e 1.736 mulheres. Brancos 2.846, mulatos e pardos
382 e pretos 248, estes escravos. Havia 500 pequenos sítios de
lavradores, 6 engenhos de beneficiar arroz, 5 de moer cana e
4 serrarias. O produto principal de abundante exportação
era o arroz.
Iguassú ( hoje Araucária) com 1.652 habitantes, homens
831 e 821 mulheres. Solteiros 1.143, casados 460 e viúvos 49.
HISTÓRIA ijO PARANÁ
331
Brancos 952, mulatos e pardos 629 e pretos 71, todos escravos. Havia 309 sítios principais de lavoura e 10 pequenas fazendas de criar.
Votuverava, com 2.018 habitantes, 1.070 homens e 948
mulheres. Solteiros 1.390, casados 569, viúvos 59. Brancos
1.060, mulatos e pardos 815 e pretos 143. Escravos 126. Havia 425 sítios de lavradores, 1 fazenda de criar e 19 engenhos
de cana.
Palmas, com 734 habitantes sendo 447 homens e 287 mulheres. Solteiros 529, casados 186 e viúvos 19. Brancos 354,
mulatos e pardos 220 e pretos 160, dos quais 158 escravos.
Havia 38 fazendas de criação, com abundante exportação de
gado, principalmente bovino e 44 grandes sítios de lavoura
para o abastecimento local.
*** No ano em que passou a constituir Província (1853)
o território da Comarca de Curitiba, como se vê dos dados acima, contava com 62.258 habitantes, -— 31.219 homens e
31.039 mulheres.
2 — Situação Econômica e Financeira
Para que se tenha uma idéia exata do valor economico e
financeiro da Comarca quando elevada a Província, damos
abaixo as seguintes infomações indispensáveis:
Exportação
1849- 1850
1850-1851
1851-1852
1852-1853
Importação
*
809:351$000
915:188$780
968:068$780
629:442$750
1,020:989$724
1,318:197$638
1,459:882$498
1.348:2181515
Nos primeiras anos da Província esse movimento foi:
Exportação
1853-1854
1854-1855
1855- 1856
1856-1857
965:188$780
954:972$532
1.736:351$575
2.319:712$472
Importação
1.618:197$638
2,057:299$678
2,673:585$832
2.800:5828004
332
ROMÁRIO
( * ) De 19 a 31 de Dezembro.
MARTINS
HISTÓRIA DO PARANÁ
333
cultura, o comércio, a mineração e a indústria em geral,
"lembrando e propondo todas as medidas que parecessem
mais azadas e eficazes para conseguir-se o desenvolvimento de qualquer destes ramos".
Quanto às vias de comunicações recomendou o ministro
"particular cuidado na conservação das estradas existentes,
principalmente as que de Serra Acima se dirigem às vilas
do litoral". Foram recomendações especiais a este respeito:
o estudo da melhor diretriz na zona da Serra do Mar para
uma rodovia em condições técnicas; a melhoria da estrada
que liga Curitiba com a estrada de S. Francisco, em Santa
Catarina e "a animação do progresso que tem tido a estrada
que de Guarapuava se dirige às margens do Rio Paraná",
propondo também "os pontos em que devam ser estabelecidas colonias militares" ao longo dessa estrada e noutros lugares .
Recomendou exploração nos rios Tibagí e Paranapanema,
para adaptá-los à via de comunicação com Cuiabá e sugeriu
toda a assistência com a catequese dos índios de Guarapuava e de Palmas, a conservação dos aldeiamentos existentes e
a criação de outros.
*** O govêrno do Presidente Zacarias não descuidou de
nenhum item dessas sugestões e foi constante, em todo o
período de sua presidência, na organização da Província de
modo a promover o seu progresso.
*** Procurou cercar-se dos melhores elementos sociais
que encontrou na Província, sem preocupações partidárias e
com êles compoz a primeira Assembléia Legislativa Provincial.
o
Os primeiros deputados provinciais foram os senhores:
— Comendador Manoel Gonçalves de Morais Roseira, Dr. José Matias Gonçalves Guimarães, Manoel Antonio Ferreira,
Comendador Manoel Antonio Guimarães, Manoel Gonçalves
Marques, Comendador Manoel Francisco Corrêa Júnior, Antonio de Sá Camargo, Dr. José Lourenço de Sá Ribas, Dr.
Francisco José Corrêa, Dr. Jesuino Marcondes de Oliveira e
Sá, Francisco de Paula Ferreira Ribas, David dos Santos Pacheco, José Joaquim Pinto Bandeira, Manoel Inácio do Canto e Silva, Modesto Gonçalves Cordeiro, Antonio José de Faria, Fernando Antonio de Miranda, Manoel de Oliveira Franco, José Joaquim Marques de Souza, Manoel Leocadio de Oliveira.
334
ROMÁRIO
MARTINS
A primeira lei sancionada foi, a 28 de Julho 1854, a que
fixou a capital da Província na cidade de Curitiba.
Na legislatura desse ano foram votados e sancionados 19
projetos, sendo principais o que dividiu a Província em três
comarcas, — da Capital, de Paranaguá e de Castro; — o que
autorizou a organização de uma Companhia Policial, origem
da Fôrça Militar do Estado; — que autorizou o govêrno a
mandar fazer a estrada da Graciosa, entre Antonina e a Capital; — o que criou na Capital cadeiras para o ensino de latim, francês e inglês, que passariam a fazer parte do liceu
que fosse criado; — o que criou cadeiras de ensino primário
em S. José dos Pinhais, Guarapuava, Palmeira e mais uma
para o sexo feminino na capital; que tornou obrigatório o
ensino primário "em um circulo de uma légua das escolas
públicas" e que também criou o lugar de Inspetor Geral da
Instrução.
Mais importantes que a produção legislativa foram, porém, as deliberações tomadas pelo Presidente por meio de
portarias e regulamentos.
Por portarias criou as escolas primárias que a Assembléia apenas confirmou nas leis citadas acima; organizou a
Secretaria do Govêrno; fez a Tesouraria Geral depositária
das rendas da Província; criou agência postal em S. José dos
Pinhais; elevou a 20 o número de Distritos de Instrução Pública; etc. Regulamentou os trabalhos da Secretaria do Govêrno; a cobrança de direitos sôbre animais no Registro de
Rio Negro; a Décima Urbana, (Imposto Predial), a Companhia da Fôrça Policial; a exploração e industrialização da
Herva-Mate; as casas de leilão; o imposto sôbre rezes abatidas e sôbre aguardente; os depósitos judiciais de dinheiro,
metais, pedras preciosas, ações e letras mercantis; etc.
c
4 — Progresso da Província até 1889
O Paraná foi Província do Império durante 35 anos, —
de 1854 a 1889, quando, sob o regime republicano, passou a
constituir Estado Federado.
Ao tempo da Província o cargo de Presidente era ocupado por políticos em transito para o parlamento nacional e
para o ministério. Raro era um desses presidentes dèmorarse um ano na administração da Província, e, assim, durante
os 35 anos de sua existência no Império teve ela 27 presidentes e 25 vice-presidentes.
HISTÓRIA DO PARANÁ
34'J
Vários grandes nomes ponteiam a vasta relação de políticos que ocuparam a presidência da Província, a começar
pelo primeiro, o Conselheiro Zacarias de Góes e Vasconcelos,
estadista de grande relevo nacional.
Em sua sucessão interina teve o Paraná na vice-presidência a Henrique de Beaurepaire Rohan, engenheiro militar
cujo relatório é um magnífico estudo do meio geográfico e
das necessidades e possibilidades da nova Província.
Em meio das sucessões de meros burocratas, tivemos,
entre outros, presidentes na altura do seu mandato, tais como, para citar alguns, André de Padua Fleurí (1864-1866)
em cuja administração os engenheiros José e Francisco Keller foram incumbidos das explorações dos rios Ivaí, Tibagí
e Paranapanema, e de estudos para comunicação fluvial com
a Província de Mato Grosso; — Venâncio de Oliveira Lisboa
e Frederico José de Araujo Abranches (1870-1873) fundadores das primeiras colonias agrícolas nas proximidades da Capital; Adolfo Lamenha Lins (1875) autor e executor do grande plano de fundação, no município de Curitiba, de colonias
de lavradores europeus; Rodrigo Otávio de Oliveira Menezes
(1878) continuador do precedente na fundação de colonias
de agricultores europeus; Manoel Pinto de Souza Dantas Filho (1879) em cujo período administrativo o Paraná recebeu a visita de SS. MM. e se iniciaram as construções da
estrada de ferro de Paranaguá à Curitiba (l. a seção), do Hospital de Caridade, da Penitenciária e se reiniciaram as obras
da matriz da Capital, hoje catedral do arcebispado; João José Pedrosa, primeiro paranaense a quem foi confiada a presidência da Província. Mereceram-lhe atenção as indústrias
extrativas, agrícolas e fabris, das quais se ocupou desenvolvidamente em seu relatório. Possibilitou comunicação à vapor
entre Paranaguá, Antonina e Barreiros e por diligências da
Capital à Castro, passando por Campo Largo, Palmeira e
Ponta Grossa e entre a Capital e a Lapa passando pelo Iguassú (Araucária); interessou-se pela imigração de europeus,
porém foi um crente nas reservas de aptidão, de resistência e
de caráter do sertanejo brasileiro; interessou-se pelo desenvolvimento das culturas do trigo, do café, do algodão, do chá
e da amoreira. Seu govêrno construiu o Teatro S. Teodoro
(depois Guaíra); cogitou do abastecimento dágua á Capital
deixando concluídos os estudos, feitos pelo engenheiro Eduardo Mendes Gonçalves, e abriu concorrência para a iluminação pública a gaz carbônico e para o serviço "de carris de
ferro no quadro urbano". Suas idéias sôbre instrução pública revelaram larga observação e conhecimento especializado,
336
ROMÁRIO
MARTINS
raro, no seu tempo, no nosso país. Nasceu em 1845, em Curitiba, então Província de S. Paulo. Bacharelou-se em ciências jurídicas e sociais em 1865. Deputado à Assembléia Legislativa do Paraná (1867-1868). Presidente das províncias
de Mato Grosso, Paraná e Pará, onde faleceu em 1882. Espírito brilhante e culto, advogado notável, jornalista político. Convidado para ministro no gabinete Martinho Campos,
dias após a fatalidade lhe cortou a vida tão prometedora de
altíssima carreira política. Carlos Augusto de Carvalho
(1882). Preocupou-se sèriamente com as finanças provinciais, estudando e sugerindo ao poder legislativo novas diretrizes nesse sentido. Traçou um plano economico para a Província; foi o primeiro a pedir à assembléia coadjuvação para
o resgate da dívida consolidada, por meio de empréstimo a
longo prazo, lançado fora da Província, "embora sob as mesmas condições de juros e de preço da emissão" do existente
desde 1876, para promover a criação de um banco em Curitiba" aproveitando o capital a receber pelos possuidores de apólices provinciais e oferecendo-lhe pronta e fecunda colocação", e para criar Caixas Economicas nos municípios como
instituições de previdência constituídas como simples agências do tesouro provincial. O seu estudo sôbre os impostos
existentes na Província, é outro trabalho que realça a sua
administração. Suas observações sôbre as nossas atividades
agrícolas e pastoris, ainda hoje seriam verdades dignas de
seguimento. Foi o introdutor do ensino da ginástica nas nossas escolas e o iniciaddor de escolas noturnas municipais para adultos. Luiz Alves Leite de Oliveira Belo (1883) devotado à solução do problema do ensino na Província. Ao tempo
da sua presidência a população escolar era de 25.500 e a matrícula de alunos de 3.127 apenas. Oliveira Belo esforçou-se
por fazer compreender aos nossos legisladores provinciais o
que de doloroso havia nesses números, que colocavam mal
a Província mesmo entre as outras do Brasil. E fez mais, —
sua administração distinguiu-se pelas realizações que conseguiu para aparelhamento, a eficiência e o desenvolvimento do ensino no Paraná. Brasílio Machado de Oliveira (1884).
Foi um decidido continuador do rumo do seu antecessor no
dotar a Província de condições de progresso para a instrução
pública. Decretou a obrigatoriedade do ensino nos locais das
escolas. Forneceu livros e roupas à infância pobre, construiu
os primeiros prédios escolares, reformou em todas as escolas
o arcaico mobiliário. A libertação dos escravos lhe mereceu
franco e entusiástico patrocínio. Sob esse patrocínio numerosos escravos deveram a liberdade. Alfredo d'Escragnole Tau-
H I S T Ó R I A DO P A R A N Á
34'J
nay (1885). Foi, sem dúvida, dos nossos presidentes que mais
interesse demonstraram pela elevação cultural e econômica
da Província e pela urbanização da capital. Fez do charco
marginal do rio Belém, o esplendido parque do Passeio Público. Transformou o "imundo potreiro de animais" que era
a Praça D. Pedro II (atual Tiradentes) em um largo modesto mais limpo, vedado a pastagem de animais, de linhas
regulares com relação às ruas laterais; fez projetar e contratar a ponte de cobertura do rio Ivo em toda a extensão desse
rio no seu percurso pela Praça Zacarias; fez projetar e deu
começo à abertura da Avenida da Imperatriz (atual rua 15
de Novembro) prolongando-a ao alto dos dois outeiros a N.
E. e a S. O.; reencetou as obras da Catedral, fez revêr os projetos e confiou sua execução ao notável engenheiro arquiteto João Lazarini; reorganizou e regulamentou a Biblioteca
Pública, então reduzida a existência de 564 volumes, tornando-a a mais importante coleção de livros de toda a Província
com 2.671 volumes e com saído de cerca de um conto de reis
para novas aquisições. Seu interesse pela cidade excedeu ao de
qualquer outro Presidente no tempo do Império. Foram quasi diários os seus ofícios à Câmara Municipal, de animação,
de conselho, de elogio ou de censura. Restaurou a Sociedade
Paranaense de Aclimação, fundada em 1875 e desaparecida
em 1879, dando-lhe apoio e animando-lhe os esforços. Criou
em todas as cidades Sociedades de Imigração, que se tornaram eficientes auxiliares do poder público. Fundou os núcleos Santa Gabriela, Barão de Taunay e Alice, este em terras de sua propriedade, que doou à Província. Joaquim de
Almeida Faria Sobrinho (1886) segundo paranaense nomeado Presidente de sua Província. Foi na sua presidência que
terminaram as obras do Passeio Público para as quais concorreu, num belo gesto de continuidade administrativa. Adquiriu terras no Canguirí, onde fundou o núcleo que veiu a
ter seu nome, composto de italianos e polacos. Teve por norma de govêrno, exposta nos seus relatórios, que a produção
deve ser o quanto possível libertada de imposto. "Se somos
os primeiros a sobrecarregar de impostos a nossa própria
produção (referia-se à da Herva-Mate) como poderemos esperar o desenvolvimento dela"? — disse em seu relatório de
1887. E a seguir: "Entre nós já se deu o fato de decretar-se
imposto sôbre indústrias que ainda estavam por nascer". As
suas idéias em economia política eram avançadas, para o seu
tempo e para o seu meio. Seu govêrno não foi de grandes
realizações, pois a esse tempo a situação financeira da Província era considerada "aflitiva". Mas nas suas opiniões sôHistória do Paraná — 22
338
ROMÁRIO MARTINS
bre diversos setores da administração pública, vê-se um espírito claro e alto, que tocou nos problemas vitais da sua terra com capacidade para os resolver, se outros fossem os imperativos da hora que lhe coube na direção da Província. Jesuino Marcondes de Oliveira e Sá (1889). Com a organização
do gabinete de 7 de Junho, presidido pelo Visconde de Ouro
Preto, foi lançado ao país um programa de reformas quasi
revolucionárias, oriundas do célebre Congresso do Partido
Liberal que se propuzera a salvar o trono por meio de medidas que, em parte, constituíam ideologia do Partido Republicano. Por telegrama do novo ministro do Império de 16 do
citado mês, foi investido no cargo de Presidente da Província
o Sr. Conselheiro Jesuino Marcondes de Oliveira e Sá, que,
havia então quarenta anos, era o chefe sem contraste do Partido Liberal no Paraná. Seu primeiro ato no govêrno foi exigir do Tesouro explicação sôbre a dívida fundada da Província. A situação era esta: — "Para o pagamento de 71:000$
a providência dada era a remessa de 16:000$, feita ao Banco
do Brasil a 27 de maio. Em cofre não havia dinheiro disponível, nem bilhetes a emitir dentro da autorização legal". O
Presidente, cioso do crédito da Província, reuniu em Palácio
os principais comerciantes da capital e fez "um apêlo ao seu
patriotismo, nessa apertada conjectura, assegurando-lhes o
pagamento integral e juros da quantia que lhes pedia, dentro de 60 dias". O comércio correspondeu a esse apêlo, emprestando, sem juro, a quantia pedida pelo govêrno. Resultado: — "A dívida foi paga pontualmente no dia do vencimento" e o crédito da Província permaneceu intacto. O Presidente Marcondes diz com ufania em seu relatório de 15 de
Julho, 27 dias decorridos de sua administração: — "Os títulos de nossa dívida fundada, bem colocados e pontualmente
pagos, raras vezes aparecem no mercado do Rio e conservam
honrosa e alta cotação acima do par". O estado financeiro
da Província, a esse tempo, era este: — a dívida fundada e
o serviço de juros até Dezembro, montava a 732:996$; os bilhetes do Tesouro, em circulação, montavam a 306:620$ e
os demais encargos a 987:620$. Ao todo, um passivo de . . .
2.027:164$. Para fazer face a esse encargo havia 500:000$,
mais ou menos, de impostos votados.
*** Vimos na descrição das situações criadas na Provincia, de 1853 a 1889, que o Paraná, ao findar o regime monárquico, havia realizado, sem dúvida, alguma cousa no sentido
do seu progresso, mas se achava com as suas finanças combalidas e a sua economia comprometida por constantes en-
34'J
HISTÓRIA DO PARANÁ
cargos criados à produção, — o que levou o Presidente Jesuino Marcondes a dizer à Assembléia Legislativa: — "A
atualidade não pode continuar".
Contudo, com a ajuda do govêrno geral, o Paraná chegou às portas da República tendo realizado condições de vulto para o seu futuro desenvolvimento, tais como a ligação do
planalto com o mar por estrada de rodagem (1873) e de ferro (1886), a formação de núcleos agrícolas de imigrantes europeus, o desenvolvimento do ensino primário, posto de acordo com os seus melhores padrões nacionais; vias de rodagem
da Capital até Castro, ao norte, Guarapuava a oéste e Rio
Negro ao sul; navegação à vapor do Iguassú e dos portos da
costa marítima; a exploração geográfica do interland, etc.;
e noutra ordem de conquistas conseguira ver vários dos seus
filhos influindo nos mais altos postos do Império, na política
e na administração do país. Terminando o último relatório
presidencial da Província, escreveu o Presidente Jesuino
Marcondes: — "Comparem os homens do meu tempo o Paraná de 1853 com o de 1889, e, pelo imenso progresso realizado nesse período, prelibem comigo o grandioso futuro que
nossa bela Província reserva a nossos filhos. Trabalhemos
por êles, como por nós trabalharam nossos pais".
/
CAPÍTULO X V I I I
ORGANIZAÇÃO DO ESTADO
1 — 0 Novo Regime no Paraná
2 — Os Govêrnos Provisórios
3 — O Primeiro Govêrno Legal e sua Destituição
4 — A Reorganização do Estado
5 — Xavier da Silva e Vicente Machado
1 — 0 Novo Regime no Paraná
A fundação da República, a 15 de Novembro de 1889,
veiu encontrar o Paraná sob o governo do Partido Liberal.
Presidia a Província o Sr. Conselheiro Jesuino Marcondes de
Oliveira e Sá, chefe supremo desse partido, que contava com
enorme maioria de deputados à Assembléia Provincial, pois
a minoria era composta apenas de 3 conservadores, 2 dissidentes e 1 republicano. Ninguém lhe fazia, contudo, oposição. O orçamento e também autorização para realizar um
empréstimo "para pagar a dívida flutuante e converter a
fundada em outra, de tipo menos oneroso", foram-lhe concedidos da melhor vontade. Em Outubro estava o presidente
Jesuino Marcondes com todos os elementos que solicitara para bem governar.
A 15 de Novembro, porém, soube-se em Curitiba que um
movimento militar, de caráter político, irrompera na côrte;
e mais tarde, desse mesmo dia, que a oficialidade da Brigada
aqui comandada pelo Coronél Francisco José Cardoso Júnior,
havia telegrafado sua adesão àquele movimento.
No dia seguinte quatro oficiais foram comunicar ao presidente um telegrama do Marechal Deodoroda Fonseca, em
que se encarregava ao Coronél Cardozo Júnior a manutenção da ordem, o que valia porMuma destituição do Presidente
da Província. Assim o compreendendo, o Conselheiro Marcondes oficiou ao citado Coronél Comandante da Brigada
"declarando finda a sua missão presidencial e oferecendo todo o seu concurso para que a ordem pública não fosse alterada".
A esse ofício o Comandante Cardozo Júnior respondeu
em seguida:
"Quartel General do Comando da Terceira Brigada do Exército. N . °
1.4X3. Curitiba, 16 de Novembro de 1889.
"limo. Sr.
"Tenho a honra de acusar o ofício em que V . Ex. me comunica que tendo
tido ciência por um telegrama ter me encarregado o Exm. Sr. General Manoel
Deodoro da Fonseca de manter a ordem pública nesta Província até que pelo
344
ROMÁRIO
MARTINS
governo provisório nomeado o do Paraná, julga V. Ex. finda sua missão e está
resolvido a entregar-me o governo que lhe foi confiado. E m resposta, cabeme a honra de declarar a V. Ex. que devendo cumprir as ordens daquele general e em face dos acontecimentos que determinam essa medida, como de
salvação publica, como tive a honra de hoje o dizer á V. Ex., que estou pronto a assumir a responsabilidade do cargo que V. Ex. me passa, até que o governo provisório definitivamente designe o governador deste Estado. Por esta ocasião tenho a honra de declarar á V. Ex. que aceito como brasileiro a
manifestação de V. Ex. de auxiliar-me quanto em si caiba para que a ordem
publica não seja perturbada, como tanto convém ao progresso e honra do
Estado. Deus guarde á V. .Ex. limo. e Exm. Sr. Conselheiro Jesuino Marcondes de Oliveira e Sá. ( a . ) Coronel Francisco José Cardozo Júnior, Comandante da Brigada".
Deixando o poder, o Conselheiro Jesuino Marcondes
reuniu o Partido Liberal e aconselhou seus correligioários "a
atitude imposta pelo patriotismo, de calma, prudência e leal
cooperação na obra construtora do novo regime".
O Partido Conservador fez o mesmo, porém com mais
vivacidade, conseguindo substituir-se, no novo regime, ao
partido caido com a monarquia, desde logo engrossando as
raras fileiras republicanas da Província.
2 — Os Govêrnos Provisórios
Antes que o Estado se organizasse à feição do novo regime, teve vários governadores provisórios nomeados pelo govêrno federal.
Assim foi que, sucedendo ao Coronel Cardozo Júnior, teve por Governador o Contra-Almirante José Marques Guimarães e por Vice-Governador o Dr. Uladislau Herculano de
Freitas. Durante o ano de 1890 viu o Paraná se sucederem
no seu governo nada menos de 4 Governadores e 3 Vice-Governadores. A Vice-Presidência foi por duas vezes ocupada
pelo Sr. Joaquim Monteiro de 'Carvalho e Silva, paulista, residente no Paraná onde movimentou várias indústrias, cidadão probo, republicano de convicções, grandemente relacionado com os republicanos históricos de S. Paulo.
Os demais Governadores provisórios foram o Dr. Américo Lobo Leite Pereira, Tte. Cél Inocêncio Serzedelo Correia e
General José Cerqueira de Aguiar Lima. A este último coube
realizar as eleições para o primeiro govêrno legal do Paraná.
Imprevistamente posto à frente da administração pública de Estado trabalhando por competições partidárias, em
breve se encontrou envolvido nas tramas da política; e dessarte a situação que encontrou dominando foi sendo minada
pela oposição, graças à habilidade de um dos seus mais des-
HISTÓRIA DO PARANÁ
34'J
tacados parédros, o Desembargador Emilio Vestefalen, que
soube se fazer o guia do General-Governador.
De um lado se encontravam no Paraná os poucos elementos republicanos e os conservadores, e de outro os liberais recém-caidos do govêrno, chefiados, respectivamente, pelo Dr. Vicente Machado da Silva Lima, republicano histórico, e Dr. Generoso Marques dos Santos, herdeiro do comando
supremo dos liberais, desde quando o Conselheiro Jesuino
Marcondes abdicou da chefia partidária, na alvorada do novo
regime.
Nenhuma das duas arregimentações tinha, porém, forças capazes de vencer sem ajuda do govêrno. Os partidos políticos formados com a República, não foram nisso diferentes
dos partidos tradicionais do Império.
As eleições que se iam processar no Estado eram para
deputados ao Congresso Constituinte e Legislativo, que, por
sua vez, elegeria Presidente e Vices-Presidentes, e, sendo assim é bem de ver que, para os dois partidos, a questão era de
vida ou morte.
Estimulado nos seus propósitos por uma violenta campanha de imprensa, o General Aguiar Lima praticou todas
as inconsequências e realizou eleições que foram modelo de
todas as fôrmas de pressão da opinião pública.
E como era de prevêr,, venceu o govêrno. Foram eleitos
deputados todos os componentes da chapa liberal, que por
sua vez elegeram Presidente o Dr. Generoso Marques dos Santos e Vice-Presidente o Desembargador Joaquim Inácio Silveira da Mota.
Embora essa nova situação política tivesse surgido de
uma luta desigual, a eleição do Dr. Generoso Marques para
Presidente do Estado foi gesto hábil do Congresso, bem acolhido pelo público, pois o eleito já era, a essse tempo, um dos
mais altos e legítimos padrões do valor moral e intelectual
entre os paranaenses. Da mesma fôrma o Vice-Presidente,
nome de bom timbre na história política do Estado.
O Congresso Constituinte, porém, era fraco para levar
a efeito a construção que lhe era imposta, de organizar o Estado sob os princípios do novo regime, pois em grande maioria o constituíram elementos meramente eleitorais.
3 — O Primeiro Govêrno Legal e sua Destituição
Esta situação foi efêmera. Eleita a 10 de Abril de 1891,
a 29 de Novembro do mesmo ano, tendo apoiado o golpe de
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ROMÁRIO
MARTINS
Estado de Deodoro, foi deposta pela guarnição militar de
Curitiba, que se poz ao lado dos elementos partidários chefiados pelo Dr. Vicente Machado.
Constituiu -se, então, uma Junta Governativa, da qual
participaram o Coronél Roberto Ferreira, Comandante da
Guarnição Federal, Dr. Bento José Lamenha Lins e Coronél
Joaquim Monteiro de Carvalho e Silva. Esse govêrno realizou novas eleições e instalou, a 25 de Fevereiro de 1892, a
Assembléia Legislativa, com amplos poderes para rever ou
substituir a Constituição promulgada a 14 de Julho (1891).
Para esses fins baixára a Junta Governativa o Regulamento
Eleitoral de 16 de Dezembro (1891) e determinára o dia 25
de Janeiro para as eleições.
Desta vez prevaleceram, na composição do govêrno que
se ia construir, certos princípios republicanos. Ficaram garantidas as representações das minorias pelo terço, a composição mixta das mesas eleitorais e a sua fiscalização por
delegados dos eleitores e a eleição direta do Chefe do Poder
Executivo e dos seus substitutos.
A 25 de Fevereiro de 1892 teve lugar a solene instalação
do Congresso Constituinte, que funcionou sob a presidência
do Dr. Sérgio Francisco de Souza Castro até 7 de Abril, quando foi promulgada a Constituição.
4 — A Reorganização do Estado
A Constituição de 7 de Abril de 1892 e o Ato Adicional
de 14 de Outubro de 1893, vigoraram até 1927, quando foram
revistos.
No debate do projeto de nossa lei magna, várias vezes foram defendidas idéias sociais relevantes e algumas conseguiram aceitação e inclusão no texto promulgado. Esforçou-se
nesse sentido, revelando assim verdadeira orientação republicana o Deputado José Corrêa de Freitas, com a justificação de trinta proposições, umas aprovadas, outras modificadas e a maioria rejeitada pela mentalidade conservadora que
formou o ambiente daquela assembléia política.
A instrução pública mereceu desse deputado a devida
atenção tornando o ensino primário elementar obrigatório
para todas as crianças de 6 a 13 anos de idade; o ensino superior livre e fiscalizado; o ensino técnico e profissional mantido pelo Estado e se lhe destinando especialmente um imposto equivalente à terça parte do acêrvo sôbre heranças entre colaterais; e criação de um Fundo Escolar para as despe-
34'J
HISTÓRIA DO PARANÁ
sas da instrução pública com a terça parte do produto das
terras devolutas e com os impostos especialmente designados
no orçamento. Ainda no rumo da difusão da instrução propoz que nenhum imposto se lançasse sobre jornais e livros
impressos, assim como sôbre tipografias e litografias. As
obras de reconhecido valor sôbre educação e ensino seriam
publicadas por conta do Estado e premiados os seus autores.
As terras do Estado não seriam vendidas, mas aforadas.
A criação de montepio para o funcionalismo público, extensivo aos operários que se invalidassem no trabalho e às suas
famílias. A obrigatoriedade da publicação de todos os atos
das repartições do govêrno, inclusive das sentenças e dos despachos dos tribunais; etc.
Essas e outras emendas foram combatidas pelos líderes
da assembléia, mas, como todas as boas idéias, ficaram assinalando a existência do alto espírito que as lançou nesse
plenário .
5 — Xavier da Silva e Vicente Machado
Da situação criada em 1891 com a Junta Governativa, e,
a seguir, com a eleição do govêrno legal, decorreu a continuidade política que se prolongou até a revolução de 1930. O
primeiro govêrno eleito (1892) foi o do Presidente Francisco
Xavier da Silva, que teve por Vice-Presidente o Dr. Vicente
Machado da Silva Lima.
Esses foram os dois grandes nomes do período de nossa
formação republicana.
*** Xavier da Silva, Presidente eleito em 1892, 1900 e
1908, realizou, em todos esses quatriênios, as obras de mais
vulto, até essas datas, da administração do Estado. Excetuando-se as estradas da Graciosa e seu prolongamento até
Campo Largo, todas as demais boas estradas do Paraná até
o fim do seu terceiro govêrno (1912) foram devidas à sua
iniciativa e por êle próprio fiscalizadas. Foi o introdutor de
pontes metálicas na viação do Estado. São até hoje notáveis
as lançadas sôbre os rios Negro e Nhundiaquara.
As escolas públicas lhe mereceram cuidados especiais.
Fez construir edifícios apropriados, em várias localidades, notadamente na Capital, não só para escolas isoladas e para
grupos, como, também, para o Ginásio Paranaense. Fez construir o vasto edifício do Superior Tribunal e das Secretarias
do Estado e o Quartel da Força Militar.
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ROMÁRIO
MARTINS
As finanças estaduais que lhe eram confiadas sempre
em condições miseráveis, sob sua experiente gerência se restabeleceram sempre e deram saldos utilizados em numerosos serviços públicos. Nunca se utilizou do recurso de empréstimos, nem externos nem mesmo internos, e tudo realizou com orçamentos de menos de 2 mil contos.
A oposição, nas suas duas primeiras presidências, fêlo a vítima das suas críticas e lhe negou, até, as altas qualidades que eram distintivas do seu caráter, da sua inteligência
e da sua cultura. Dominavam, então, as paixões partidárias
exageradas pelos acontecimentos políticos da revolução federalista.
*** Vicente Machado nasceu em Castro, em 1860. Aos
16 anos matriculou-se na Academia de Direito de São Paulo
que o bacharelou em 1381, sendo neste mesmo ano nomeado
Promotor Público de Curitiba e no ano seguinte Secretário
do Govêrno da Província, na presidência Carlos de Carvalho
e depois lente de filosofia do Instituto Paranaense e Juiz Municipal de Ponta Grossa (1883), cargo que por pouco tempo
ocupou, regressando à Capital onde se estabeleceu como advogado e iniciou a carreira política que haveria de ser a mais
sensacional entre paranaenses. Filiado ao Partido Liberal,
não figurou, como esperava, na chapa para o biênio dê
1886-1887 e se apresentou amparado por um grupo de liberais dissidentes, sendo eleito. No biênio seguinte (1888-1889)
o Partido Liberal o indicou oficialmente ao eleitorado. Vicente Machado, na memorável sessão de 22 de Agosto de 88, fez
sua profissão de fé republicana, e pregou a descentralização
política e administrativa das províncias sob o regime federativo . Sua adesão à República repercutiu em todo o país e no
Paraná animou e fortaleceu a^ação do pequeno mas ardoroso grupo de republicanos concentrados em torno do semanário "A República" e do Clube Republicano. Em conferência
pública no Teatro São Teodoro esplanou larga e vibrantemente os ideais dos novos tempos, sendo então aclamadíssimo. Os partidos monárquicos haviam perdido o seu orador
parlamentar e popular de mais brilho e vibração e a oposição republicana havia ganho um condutor revolucionário
que desde então foi o seu ídolo. Proclamada a República ocupou Vicente Machado o cargo de Chefe de Polícia e de Superintendente do Ensino, dando novos regulamentos a esses
serviços públicos. Em 1893, ameaçado o Paraná de invasão
pelos federalistas e revoltada a esquadra, a 30 de Novembro,
HISTÓRIA DO PARANÁ
34'J
assumiu, como Vice-Governador o Govêrno do Estado. A 18
de Janeiro (1894) dada a invasão e em retirada, diante dela,
as forças militares, viu-se obrigado a fazer o mesmo, — "pois
seria inútil sacrifício permanecer no seu posto sem elementos para garantir a sua autoridade nem forças para fazê-la
respeitar". Regressou com as forças legais mandadas para retomar o Estado. Em Castro reassumiu o govêrno e lançou
um vibrante manifesto ao povo paranaense. Em 1895 foi
eleito Senador. Data daí sua influência na política geral do
país. Fez oposição a certos atos da presidência Prudente de
Morais e os seus argumentos, o seu desassombro e os seus
dotes de tribuno, fizeram a situação dominante reconhecer
que na tribuna do Senado da República surgira um valor
novo pela energia indomável, pelos processos costumeiros da política. Procuraram incompatibilizá-lo com o justo
sentimentalismo da nação, então ainda horrorizada com os
fuzilamentos de paranaenses por ocasião da reconquista do
Estado pelas forças legais. Sua defesa arrazou a calunia. Em
discurso de 30 de Maio de 1895, conta Vicente Machado que
no primeiro dia do seu comparecimento no Senado receberao o Barão de Ladario com a pergunta se podia cumprimentar
os representantes do Paraná sem receio de que lhe ficasse
pendente da mão uma gota de sangue. E no período seguinte diz: — "O espírito nacional investigou ponto por ponto
esse período negro da história paranaense e dias depois o
orador teve a ventura incomparável de ouvir desse benemérito servidor da pátria as seguintes palavras: — "Eu me orgulho de poder cumprimentar os dignos representantes do
Paraná. Eles não tiveram a mínima responsabilidade das cenas sanguinolentas que se deram na Serra". Combateu a
candidatura Campos Sales à presidência da República. Contra essa candidatura o Rio Grande do Norte e o Paraná pleitearam a de Lauro Sodré. Tal era então o valor do Senador
Vicente Machado, que o presidente cuja candidatura êle combatera, pela palavra e nas urnas, lhe confiou a liderança da
maioria do Senado, onde a atuação do parlamentar paranaense muito contribuiu para facilitar ao govêrno a execução
dos memoráveis serviços que prestou ao reerguimento financeiro do país. Em 1903 foi eleito Presidente do Estado, cargo
que assumiu a 24 de Fevereiro de 1904. Já então a insidiosa
moléstia que o haveria de vitimar três anos depois, lhe tornava a atividade política um sacrifício. Cumpriu apesar disso seu dever patriótico realizando uma administração civilizadora e progressista, das mais ativas e operosas que teve o
Paraná.
CAPÍTULO
XIX
DEFINIÇÃO TERRITORIAL DO ESTADO
1 — Divisão de S. Paulo e Minas (1720)
2 — Limite Meridional da Capitania de São
Paulo
3 — Limites da Comarca de Curitiba (1808)
4 — A Questão de Limites com Santa Catarina
5 — 0 Acordo de 20 de Outubro de 1916
6 — Limites Atuais do Estado
7 — Área Superficial
1 — Divisão de S. Paulo e Minas (1720)
A história administrativa do Sul do Brasil pode-se dizer
que começa com a separação de S. Paulo e Minas da administração dos governadores do Rio de Janeiro. (Carta Patente
da nomeação de governador próprio para S. Paulo e Minas,
de 23 de Novembro de 1709) .
Em 1720 a Capitania de S. Paulo e Minas foi dividida.
(Alvará Régio de 2 de Dezembro de 1720). Por ajuste entre
os dois govêrnos assim separados, a jurisdição paulista chegava até a colonia do Sacramento, mas o sertão meridional
brasileiro não compreendia então mais de seis a sete léguas,
em média, e na parte que mais avançava nessa direção era
nas regiões de S. Paulo e Curitiba. (Ajuste d.e 30 de Julho de
1720).
Necessidades supervenientes ligadas à defesa da marinha, fizeram com que ao govêrno do Rio de Janeiro se adjudicasse a jurisdição da costa do sul (Alvará de 5 de Agosto de
1738) e repetiu-se a mesma providência, em 1742, quanto à
vila da Laguna (Resolução de 4 de Janeiro de 1742), até que
foi extinto o govêrno da Capitania de S. Paulo. (Provisão Régia de 9 de Maio de 1748) depois de se lhe haver desanexado
as partes de Goiaz e Cuiabá jJara constituirem capitanias à
parte. (Aviso Régio de 1 de
de 1748).
O govêrno da metrópole não sabia o que fazer para manter sua conquista ao sul da colonia ante as possibilidades de
reivindicações castelhanas e isso perdurou até que entre as
duas coroas ibéricas se realizou o acordo sôbre as respectivas
fronteiras na América, que legalizou o afastamento da linha
meridiana do Tratado de Tordesilhas. (Tratados de 1750 e de
1777).
À Capitania de S. Paulo, destarte ora era dada autonomia integral, ora dela se desanexavam partes. Compreendia
Minas, Goiaz e Cuiabá, mais tarde separadas. Dava-se-lhe e
se lhe retirava a jurisdição sôbre o litoral e se a conferia deHistória do Paraná —
23
354
ROMÁRIO
MARTINS
pois ao govêrno cio Rio de Janeiro, "para que ficasse debaixo
de um so mando".
2 — Limite Meridional da Capitania de São Paulo
Em 1765 a Capitania de S. Paulo, então realmente dominadora da costa e sertão do sul à despeito das determinações regias que pretendiam enfeixar o domínio dessas regiões
nas maos dos governadores gerais do Rio de Janeiro, — foi
restabelecida ao seu antigo estado". (Carta Régia de 1 ° de
Janeiro de 1765).
Foi então nomeado Governador e Capitão General da
Capitania D. Luiz Antonio de Souza Botelho Mourão, já provado noutros serviços relevantes prestados à sua pátria As
instruções que trouxe, subscritas pelo Conde de Oiras, depois
Marquez de Pombal, tinham o deliberado intuito de fortalecer as conquistas territoriais feitas pelos paulistas e de recuperar aquelas que os castelhanos houvessem retomado até
à margem setentrional do Rio da Prata. (Instruções Régias
de 26 de Janeiro de 1765).
O seu govêrno foi o mais movimentado da Capitania e
suas realizações as que decidiram do bom êxito das negociações do Tratado de Limites de 1777, fracassadas desde 1761
(Anulaçao do Tratado de Madrid).
Entre essas realizações figuram a descoberta e posse dos
campos e sertões do Tibagí e de Guarapuava (ex-território
de Guaíra), a fortificação de Paranaguá, as fundações das vilas de Guaratuba, de Castro e de Lages, barreiras contra possíveis invasões castelhanas.
3 — Limites da Comarca de Curitiba
Dadas a largos traços as modificações pelas quais passou o governo da Capitania de S. Paulo, vejamos como ocorreu a definição do território paranaense.
Formadas as nossas duas principais vilas, de Paranaguá
e de Curitiba, de 1661 a 1711 (data da aquisição, pela Corôa
da Capitania de Santo Amaro) ficaram compreendidas na
Capitania de Paranaguá, constituídas das quarenta léguas
de costa do sul a começar de doze léguas ao sul de Cananéa
(Ilha do Mel), na barra de Paranaguá), acabando na terra
de Santa Ana (Santa Catarina) a vinte e oito graus e um
terço. Esta era a secção da marinha que constituía a parte
iüsxoHiA DO PARANÁ
355
sul da antiga Capitania de Santo Amaro, da qual Pero Lopes
de Souza foi o primeiro donatário.
Da altura da barra de Paranaguá (Ilha do Mel) para o
norte seguia-se o trecho da costa com seu correspondente sertão, que pertencia à donataria de Martim Afonso de Souza,
isto é, à Capitania de S. Vicente. (Vide o capítulo Capitania
de Paranaguá).
Com a desmembração do território de Minas Gerais da
Capitania de S. Paulo e reconstituída esta (Alvará de 2 de
Dezembro de 1720), ficaram pertencendo à de S. Paulo todas as vilas ao sul da de Parati, inclusive, até às indeterminadas fronteiras espanholas. "Pelo sertão, ao norte e a oeste,
as suas fronteiras seriam aquelas que a ousadia dos paulistas traçasse com suas aventuras e conquistas". (Washington
Luis, Capitania de S. Paulo).
Dentro deste quadro geográfico existiam então (1720)
a cidade de São Paulo e vinte e urna vilas, além de pequenas
povoações. Dentre as vilas paulistas ficavam em território
subordinado à Ouvidoria de Paranaguá (cie 1723 em diante)
as vilas litoreaneas de Iguapé, Cananéa, Paranaguá, São
Francisco, Ilha de Santa Catarina e Laguna e no interior a
de Curitiba, que eram as que existiam, na região, até à marguem setentrional do Rio da Prata. (Vide o capítulo Ouvidoria de Paranaguá).
4 — A Questão de Limites com Santa Catarina
O termo da Vila de Curitiba, em 1755, confinava com o
da Vila Sorocaba pelo rio Itararé; e para a parte do sul sua demarcação era o rio Pelotas. Para o éste, abrangia o sertão
do Tibagí até ao Rio Paranapanema, o curso do Ivaí e os
campos de Guarapuava (Livro de Vereanças da Câmara Municipal de Curitiba, fls. 7; Ro&ario Martins, Lages, fls. 17).
Em 1809, quando se tratou de povoar os campos de
Guarapuava, a Carta Régia de 1.° de Abril definiu como limites dessa região os rios Paraná e Uruguai, derrogando todas as disposições em contrário. (Livro de Registro Geral das
Leis e Ordens da Ouvidoria de Paranaguá, fls. 212).
Aliás a fronteira da Capitania de S. Paulo, ao sul, já havia sido objeto da Carta Régia de 5 de Novembro de 1808, assinalando que "os terrenos que desaguam no Paraná e formam do outro lado as cabeceiras do Uruguai", estavam todos compreendidos nessa Capitania.
Várias foram as desanexações de termos ou distritos de
vilas ocorridas no imenso território meridional da Capitania
356
ROMÁRIO
MARTINS
de S. Faulo e que ocasionaram modificações nas fronteiras
da Comarca de Paranaguá. Em 1749 ficou limitada, na costa, pelo rio S. Francisco e no interior pelo rio Negro, perdendo, pois, as vilas de N. S. do Desterro que passou a constituir
a Ouvidoria da ilha de Santa Catarina e as vilas de Laguna e
Rio Grande; com a criação em 1821, da Comarca da ilha de
Santa Catarina, foram as vilas de S. Francisco do Sul e de
Lages desmembradas da Comarca de Paranaguá e Curitiba
e compreendidas na Comarca criada.
As vilas de Cananéa e de Iguapé, pertenciam à Comarca
de Curitiba por lei de 1832 (então terceira Comarca paulista) . De conformidade com a lei n.° 11, de 17 de Abril de 1852
(então quinta Comarca) aquelas duas vilas foram desanexadas da Comarca, que desde então somente compreendia os
municípios de Curitiba, Paranaguá, Príncipe (Lapa), Antonina, Morretes, Guaratuba e Castro.
A lei n.° 704 de 29 de Agosto de 1853, que elevou a Comarca de Curitiba a Província, dispoz, no seu artigo primeiro
que a Comarca de Curitiba, na Província de São Paulo ficava elevada a categoria de Província, com a denominação de
Província do Paraná e que a sua extensão e limites seriam os
mesmos da referida Comarca".
Os limites da Comarca eram constituídos pelo conjunto das divisas legais e convencionais dos municípios confinantes com as províncias já então estabelecidas, como pondera Orville Derby. "A tentativa do Senado Imperial, em
1856 visando decimar em lei os limites da Província e para
esse fim dirigindo consultas às câmaras interessadas não
pode significar que faltasse ao Paraná o requisito necessário
de uma demarcação legal. Nem isso poderia ser o pensamento do legislador brasileiro, atendendo-se a que o expresso na
lei n o 704, mandando conservar a mesma extensão e limites
da antiga Comarca, revela, muito ao contrário — que exis
tiam e eram reconhecidas as divisas comarcais,, que passaram a categoria de limites provinciais". (Ermelino de Leão
Limites entre os Estados de S. Paulo e Paraná, I vol. 7-8). '
Ao ser criada a Província do Paraná os limites da Comarca de Curitiba, "legais, históricas ou convencionais", eramcom a Província de S. Paulo pelo rio Ararapira até ao istmo
do Varadouro, daí ao espigão divisor das águas das baías do
Mar Pequeno e de Paranaguá em direção às nascentes do Rio
Pardo, por este, pelos rios Ribeira e Itapirapuan até às nascentes deste na serra do mesmo nome, daí em direção às cabeceiras do rio Itararé, por este até desaguar no rio Paranananema e por este até sua foz no Rio Paraná; com a
HISTÓRIA DO PARANÁ
34'J
Província de Santa Catarina da barra do Saí-Guassú às
nascentes do Rio Negro, por este até sua confluência no
Iguassú, pelo Rio Preto até suas nascentes na serra do Espigão, por esta até o rio Marombas, por este até sua confluência no rio Uruguai; com a Província do Rio Grande do Sul o
rio Uruguai e por este até a foz do Pipirí-Guassú; com as republicas Argentina e do Paraguai, os limites do Império e
com Mato Grosso pelo talvegue do Rio Paraná, a partir do
salto grande das Sete Quedas, até a barra do Paranapanema,
Na linha de divisa com Santa Catarina houve diversas
invasões da parte dos nossos vizinhos, principalmente na região suéste. Assim a divisa da Capitania de S. Paulo que até
1820 foi pelo rio Pelotas, em 1855 já tinha recuado para o
rio Canoas e em 1865 o statu-quo da fronteira por esse lado
era o Marombas e posteriormente uma invasão sem defesa da
parte do govêrno paranaense, na grande extensão de S. João
dos Campos Novos, jogou a linha de limites para o rio do
Peixe, afluente do rio Uruguai.
5 — 0 Acordo de 20 de Outubro de 1916
Em 1901 o Estado de Santa Catarina propoz contra o do
Paraná uma ação originária de reivindicação sôbre limites
territoriais, tendente a demonstrar serem os do Estado autor, ao norte, os rios Saí-Guassú, Negro e Iguassú.
Tão absurda sempre pareceu essa pretensão à opinião
paranaense, que os administradores, os políticos e os publicistas do nosso estado somente lhe haviam dado, até então,
uma relativa importância. Discutiam-na toda a vez que Santa Catarina a agitava no parlamento ou na imprensa, como
o fizeram o Senador Zacarias de Góes e Vasconcelos, o Desembargador Bento Fernandes de Barros, o Deputado Manoel
Eufrásio Correia, os Senadoreá* Vicente Machado e Generoso
Marques, etc., porém até a proposição da ação ao Supremo
Tribunal Federal o Estado do Paraná não havia se precavido
de modo a poder produzir uma defesa dos seus direitos no
terreno judiciário, mesmo porque, por sua vez, o Estado vizinho não tendo o domínio do terreno reclamado e sim São
Paulo e depois de 1853, o Paraná, que nele e por três séculos
sempre exerceram jurisdição ou imperium — não estava habilitada a reivindicar o que jamais possuirá.
Além disso a apreciação política dos limites do Paraná
com Santa Catarina já havia sido feita pelo Decreto Imperial
n.° 3.378, de 16 de Janeiro de 1865 e somente poderiam ser
alterados mediante o processo do artigo 4 da Constituição
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ROMÁRIO
MARTINS
Federal que prescreve fórmula política e não jurídica para
alterações territoriais dos Estados da República fundados nos
territórios das Províncias do Império "com os limites que entço tinham". ( Constituição de 24 de Fevereiro de 1891).
O voto vencido do Ministro Hermínio do Espirito"Santo
excusa comentários a este respeito: . . . "sem golpear nossas instituições politicas, sem dilatar as fronteiras de sua jurisdição nao poderia este tribunal decidir a pretensão do Estado de Santa Catarina sôbre parte do território do Paraná
porquanto redunda necessariamente essa pretensão em subdivisão ou desdobramento do território de um Estado para
anexa-lo a outro; competência exllusiva e absoluta dos próprios Estados, mediante aquiescência das respectivas Assembleias Legislativas, nos termos do citado art. 4 o da Constituiçao E acrescentou, terminando: — "E, a não ser assim a
que ficarao reduzidas a autonomia dos Estados e a integridade de territórios, tendo o Poder Judiciário a faculdade de alterar-lhe os limites, desmembrá-los ou subdividi-los
Foram votos igualmente vencidos os dos Ministros Ribeiro de Almeida, Pindaíba de Matos e Macedo Soares A maioria a favor de Santa Catarina no acórdão de 6 de Julho de
1904, foi firmada pelos votos dos juizes de secção Godofredo
Cunha e Antonio Pires, chamados a proferi-lo* para completar o numero de dez juizes desimpedidos, necessários ao funcionamento do Tribunal.
Alcindo Guanabara, jornalista e parlamentar que pela
A Imprensa" discutiu a imprevista e arbitraria atitude do
Supremo Tribunal Federal, avocando a si a decisão de uma
questão politica, escreveu: . . . "Assim a questão suscitada
por Santa Catarina traz o vício congênito da ilegitimidade
E uma ação de reivindicação de cousa que ela nunca possuiu
e que, em todo o caso, não é susceptível de ser reivindicada
E uma ação que não cabe na esfera da competência constitucional do Poder Judiciário. É uma ação que depende exclusivamente do Poder Político e que por êle já estava definitivamente resolvida, pois os limites dos Estados não podem ser
alterados senão pelo votos de suas assembléias, homologado
pelo Congresso Nacional. Fora destes termos, só há de legal
a aparência dos atos: a essência é manifestamente tumultuaria".
O Estado do Paraná, defendido pelo notável jurisconsulto brasileiro Conselheiro Joaquim da Costa Barradas que
produziu uma argumentação formidável, que a lógica não
pôde abalar, viu, entretanto, a sua causa vencida por argumentos como este do acórdão, bradante de insolidez e de ile-
HISTÓRIA DO PARANÁ
34'J
galidade: . . . "E o direito favorece as pretensões do Estado
de Santa Catarina que as baseia em títulos históricos e jurídicos, tem ainda êle o direito de possuir limites naturais como sejam os rios Negro e Iguassú ao norte, o Uruguai ao sul,
ao oriente o oceano e ao poente as fronteiras argentinas".
Vejamos agora em que "títulos históricos e jurídicos" se
basearam a ação de reivindicação proposta por Santa Catarina e o acórdão que lhe deu ganho de causa.
São os principais, citados pelo acórdão:
a) — As Cartas Régias de 1738 e de 1742 separando a
ilha de Santa Catarina e a Laguna, de S. Paulo, e anexandoas à Capitania do Rio de Janeiro. Estes dois títulos, — (são
palavras do próprio acórdão) — "nada dizem quanto ao sertão entre o Iguassú e o Uruguai".
b) — A Carta Régia de 9 de Agosto de 1747, pela qual o
govêrno português nenhum limite estabeleceu, mas tão somente mandou localizar açorianos "na ilha de Santa Catarina como na terra firme adjacente, desde o rio S. Francisco
do Sul até ao cerro de S. Miguel e no sertão correspondente
a este distrito — "com atenção porém a que se não dê razão de queixa aos espanhóis confinantes". Concluiu o acórdão que o sertão correspondente à costa de S. Francisco até
S. Miguel era considerado pertencente a Santa Catarina, porquanto, se o fosse a S. Paulo, "ao govêrno desta Capitania é
que devia ser feita a recomendação, porque os espanhóis confinantes não podiam ser senão os das Missões". Esqueceram
os relatores do acórdão de que nesse ano (1747) a única limitação legal da fronteira entre Portugal e Espanha era a linha estabelecida pelo Tratadc^ de Tordesilhas, que no melhor dos casos para Portugal afundava justamente na altura de Laguna, não deixando para o sertão correspondente à
costa, a partir de S. Francisco, senão uma estreita faixa, nalguns pontos pouco mais que litoreana. O tratado que reconheceu o sertão português foi de 1750 (três anos de pois da
Carta Régia colonizadora de açorianos) e esse mesmo confirmador de conquistas paulistas, além de que, em 1761, foi
anulado. O espanhol confinante era representado pelo direito de Espanha e não pelos das Missões, mesmo porque no
sertão correspondente à costa de S. Francisco até ao confim
de Santa Catarina, nunca existiram Missões. Estas existiram à margem esquerda do rio Uruguai, em território riograndense.
360
ROMÁRIO
MARTINS
c) — A Carta Régia de 20 de Novembro de 1749. Dela
diz o acórdão que "bem claramente estabeleceu a divisa do
lado do norte (entre as ouvidorias de Paranaguá e a de Santa Catarina, criada por essa lei) — parte do sul da baía de
S. Francisco dirigindo-se para o Cubatão do mesmo rio, e subindo a serra para o ocidente a ganhar o alto rio Negro, descenão até o Iguassú". E acrescenta: — "Ficou o rio Negro
servindo de divisa legal e natural entre as ouvidorias de Paranaguá e de Santa Catarina". E entretanto extendeu a divisa
de acordo com o pedido de reivindicação territorial catarinense além do rio Negro: — pelo Iguassú abaixo, até a fronteira
Argentina!
Nenhum destes principais títulos do Estado autor prejudica direito paranaense. Poderiam, até, ser invocados pelo
Estado réu em sua legítima defesa.
Mas acontece que são todos nulos quando direta ou indiretamente se referem a limites com S. Paulo, — pois a Carta Régia de 18 de Setembro de 1807, que criou a Capitania
do Rio Grande do Sul, declarou que ela compreendia todo o
continente ao sul da Capitania de S. Paulo e a Carta Régia
de 5 de Novembro cle 1808, que declarou guerra aos bugres
que infestavam os Campos de Curitiba, até a Serra do Mar,
ordenou ao Governador de S. Paulo que convocasse as milícias de Curitiba e desse caça aos ditos índios, visto que "aqueles campos, assim como todos os terrenos que desaguam no
Paraná e formam de outro lado as cabeceiras do Uruguai (rio
Pelotas) estão (1808) compreendidos na Capitania de S. Paulo".
Acresce que os únicos títulos catarinenses, validos e com
peso no debate, são os alvarás de 9 de Setembro de 1820 e de
12 de Setembro de 1821, quec incorporaram administrativamente e judicialmente a Vila de Lages e seu termo a Santa
Catarina, mas esses mesmos atestam que em 1820 e 1821
ainda essa Vila era paulista, — "a mais meridional das da
Província de São Paulo".
*** Por ocasião do julgamento dos embargos opostos pelo Paraná à decisão de 6 de Julho de 1904, que ocorreu a 24
de Dezembro de 1909, declarou o Ministro Pedro Lessa que
o acórdão então proferido "é todo apoiado no Alvará de 1820
e 1821". acrescentando "que nem na Provisião de 1749 nem
no Alvará de 1821 se depara a mais vaga referência à divisa
da Ouvidoria de Santa Catarina da parte do poente".
HISTÓRIA DO PARANÁ
361
Resta pois, de todos os documentos catarinenses, o Alvará de 1820, onde o Ministro Pedro Lessa baseou seu voto
vencedor.
Disse assim o acórdão que "os limites do termo de Lages
eram, pelo lado do sul o Viamão, pelo lado do norte o ribeirão
do Campo da Estiva e pelo lado do oéste (ponto nevrálgico da
questão) o termo se estendia até o domínio da Espanha, isto
é, onde hoje está situada a Província de Corrientes na República Argentina".
Vejamos se esta descrição dos limites do termo ou distrito de Lages confere com os que foram ajustados entre o seu
Capitão-Mor, fundador e regente, Antonio Corrêa Pinto e as
vilas de sua vizinhança na fôrma deixada em correição pelo
Ouvidor Rafaél Pires Pardinho e confirmada na Vila de Santa Catarina pelo Desembargador Sindicante Manoel José de
Faria, — única determinação das divisas desse termo ou distrito :
. . . "confinam pela parte do sul com Viamão, pelo rio
das Pelotas correndo inteiramente para baixo em sertão a
oeste e para cima a leste até o ribeirão das Contas onde puz
marco, cujo rio faz barra em dito rio das Pelotas; com a Vila
da Laguna e Santa Catarina a parte da marinha da Serra
ficando esta inteiramente da parte da Vila das Lages confinantes a sua baixa, fim da dita Serra, donde correm os limites das ditas vilas, em cuja Serra fiz abrir caminhos para a
utilidade do Real Serviço e comércio dos povos; para a parte
do norte desta Capitania (de S. Paulo) com o Ribeirão do
Campo da Estiva, cujo limite confina em dito ribeirão com
a vila de Curitiba". (Certidão passada pelo Capitão Mor Antonio Corrêa Pinto, a pedido do Governador da Ilha de Santa Catarina, Francisco de Souza Menezes, a 5 de Maio de
1773). Limitando a Vila de Laßes, ao poente, a divisa "corria
inteiramente para baixo em sertão a oéste", separando-a de
Viamão (Rio Grande do Sul), pelo curso do rio Pelotas, a partir do rio das Contas, seu afluente.
Sob o domínio da fantasia leram os julgadores, no
documento citado, que "pelo lado de oéste o termo (de Lages) se estendia até o domínio da Espanha, isto é, até onde
está situada a Província de Corrientes, na República Argentina", o que somente seria possível si os limites de Lages se
estendessem pelo curso do rio Uruguai, até o Pipirí-Guassú,
ao Sul, e ao norte pelo Iguassú até o rio Santo Antonio. Nenhum desses quatro rios é referido, por nenhum documento,
como limite de Lages, pois que ao tempo de sua fundação o
domínio da Espanha era regulado pela linha meridiana tio
362
ROMÁRIO
MARTINS
Tratado de Tordesilhas. Não o era pelo limite da Província
de Corrientes, que não existia. O sertão até a fronteira atual
com a República Argentina não tinha limites com a Espanha
porque legalmente era a própria Espanha, isto é, os seus domínios na América. Foram posteriores conquistas paulistas
que ao poente de Lages alcançaram o triunfo resultante do
Tratado de 1777; onde os paranaenses fundaram três comarcas com mais de 100.000 habitantes: Rio Negro, Porto da
União e Palmas; onde a conquista e a posse paulistas possibilitaram a vitória do Brasil na questão das Missões.
*** Os embargos de declaração apresentados pelo Paraná, tiveram a mesma sorte do anterior, de 24 de Dezembro.
Por acórdão de 25 de Julho de 1910, a maioria do Tribunal
continuou a seguir a opinião do Ministro Pedro Lessa, para
declarar que "o acórdão manteve a linha divisória entre os
dois Estados desde o Atlântico até o Rio Negro e daí por diante reconheceu e declarou que a linha divisória é o rio Negro
e o Iguassú (este não indicado como linha divisória em nenhum documento) até a fronteira Argentina".
Essa decisão de puro arbítrio não foi executada, apesar
das várias fôrmas de que se revestiram, para isso, as tentativas.
0 — Limites Atuais do Estado
A essa fase sobreveio a das acomodações. Sem audiências
das populações do território posto em litígio os políticos dos
dois Estados interessados, solicitados pelo Governo Federal,
resolveram proceder a uma partilha do objeto do dissídio, e,
ainda assim, tocando ao Estacão vencedor no pleito judiciário a maior porção. Já então a alegação de que o Estado de
Santa Catarina tinha "por si o direito de possuir limites naturais" (acórdão de 6 de Julho de 1904) foi por ela esquecido
e desprezado para aceitar uma linha de divisa que em parte
corre pelo eixo dos trilhos de uma estrada de ferro, em parte
pelo eixo de uma estrada de rodagem, e na maior extensão
restante ao leu do divisor das águas dos rios Iguassú e Uruguai.
Em resumo:
A Capitania e a Província de S. Paulo até 1853 e de 1853
em diante a Província e o Estado do Paraná, até 1916 (data
do "acordo") sempre tiveram por limite legal, histórico, efe-
HISTÓRIA DO PARANÁ
363
tivo e ininterrompido, com o Rio Grande do Sul, todo o curso
do rio Uruguai. (Carta Régia, de 5 de Novembro de 1808 antes da desanexação de Lages a partir do rio Pelotas, inclusive,
e depois dessa desanexação a partir do rio Marombas; Termo
dde Ajuste de Demarcação do Distrito de Lages com as vilas
de sita vizinhança, certidão de 21 de Dezembro de 1773; Romário Martins, Limites a Sxiéste, págs. 10 a 12; o Litígio em
Face do Acordam de 6 de Julho de 1904, págs. 12 e 13; Leis e
Decretos do Império, Decreto de 22 de Março de 1856).
Descontadas as zonas usurpadas ao Paraná por Santa
Catarina até a data do "acordo" e considerando contestado
o território limitado pelos rios Uruguai, Pepirí-Guassú, Santo Antonio, Iguassú, Negro, Preto e Bituva, Serra do Espigão,
linha pelas altas vertentes do Canoinhas e Timbó pelo divisor das águas do Iguassú e Uruguai até o rio do Peixe e por
este abaixo, (excluidos os municípios de Campos Novos, Curitibanos e São Bento criados pelos catarinenses em território
do Paraná) — ainda assim a extensão do contestado partilhada em 1916 era de 50.000 quilômetros quadrados, núme
redondo. (A. Padtberg e G. Pauwels, A Superfície do Brasil,
41).
Era, pois, o Contestado, maior que o dobro do Estado de
Sergipe (21.552 km.2), que os de Alagoas (28.571), Rio de Janeiro (42.404) e Espírito Santo (44.684). Maior que a superfície da Dinamarca (43.017) da Holanda (34.201), da Bélgica (30.441).
Dele couberam ao Estado de Santa Catarina 28.000
quilôômetros quadrados e ao cio Paraná 20.000, segundo a medição de Padtberg.
Os limites atuais do Estado são:
a) — Com São Paulo, começam na barra do Ararapira,
acompanham a curva do rio, passando no povoado do mesmo nome até o meio do istmo do Varadouro e aí buscam o
divisor cias águas que correm, à direita para o mar e canal
de Ararapira e à esquerda para as baías do Pinheiro e das Laranjeiras; seguem por este divisor até ao alto da Serra Negra e por esta até a altura do morro existente entre ele e a
Serra da Virgem Maria; vão pelo cimo desse morro às nascentes do Rio Pardo, nesta ultima Serra, e pelo Rio Pardo
até a Ribeira; sobem este rio e depois o ribeirão Itapirapuan
até as suas cabeceiras; ganham, do outro lado da Serra, a
nascente do rio dos Bandeirantes (ex-Egua Morta) e conti-
364
ROMÁRIO
MARTINS
nuam pelos cursos deste, do Itararé e do Paranapanema, até
ao rio Paraná.
b) — Com Santa Catarina começam na barra do Rio SaíGuassú, indo daí em linha reta às cabeceiras do Rio Negro
(encontro dos rios Cachoeira e Piquirí); descem por este até
sua barra no Iguassú e vão por este abaixo até a estrada de
ferro São Paulo-Rio Grande entre as cidades de Porto da
União e União da Vitória, seguindo para o Sul pelos trilhos
desta estrada até a estrada de rodagem que se dirige a Palmas; seguem por esta até ao Rio Jangada, sobem até as cabeceiras e daí seguem pelo divisor das águas dos rios Iguassú
e Uruguai até a fronteira com a República Argentina, nas
nascentes do Rio PipiríGuassú.
c) — Com a República Argentina começam no ponto do
divisor geral entre os rios Uruguai e Iguassú por onde passa
a linha que, pelo mais alto do terreno, liga as cabeceiras dos
rios Pipirí-Guassú e Santo Antonio, alcançam pela dita linha,
a cabeceira principal deste último, descem por êle até a sua
junção no Iguassú, continuam pelo talvegue deste abaixo até
a sua foz no rio Paraná. Ao passarem na região das cascatas
seguem o talvegue do Salto União e na parte inferior deste
continuam, deixando do lado argentino as outras quedas
dágua, até transporem a Garganta do Diabo. (Termo de 2 de
Outubro de 1903 e Ata de 8 de Agosto de 1904).
d) — Com a República do Paraguai começam na foz do
Iguassú no rio Paraná, e sobem pelo talvegue daquele até ao
salto grande das Sete Quedas. (Tratado de 9 de Janeiro de
1873)
e) — Com Mato Grosso começam no Rio Paraná, seguem
seu talvegue, a partir do salto grande das Sete Quedas e sobem o dito rio até a foz do Rio Paranapanema.
7 — Área Superficial do Estado
Adota-se para a medição da superfície territorial do Paraná, a medição de Morize, que lhe dá 199.897 quilômetros
quadrados.
Padteberg dá para o Paraná 175.000 km.2 sem o contestado. Portanto 195.310 km.2 com os 20.310 que dêle lhe cou-
HISTÓRIA UO PARANA
365
beram pelo acordo. Morize dá 199.897, portanto dentro da
margem de cerca de 5.000 km.2 deixada por Padtberg.
A superfície do Paraná é: mais ou menos 1/9 do Amazonas, 1/3 de Minas; 2 x Pernambuco, maior que 2 x Santa Catarina, quasi 4 x Rio Grande do Norte ou 5 x Rio de Janeiro,
pouco menor que Ceará e Rio Grande do Norte juntos, ou
também que Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte
juntos; por pouco iguala à área da Grécia e Bulgaria reunidas; é maior que o duplo de Portugal, maior, também, que a
República do Uruguai. (A. Padtberg e G. Pauwels, A. Superfície do Brasil, 60).
CAPÍTULO X X
ADMINISTRADORES
PÚBLICOS
1 — Capitania de Itanhaên 1653-1660
2 — Capitania de Paranaguá 1660=1710
3 — Capitania de S. Paulo 1710-1748
4 —- Capitania do Rio de Janeiro 1748-1765
5 — Restauração da Capitania de S. Paulo
1765-1821
6 —- Governo Provisório de S. Paulo 1821-1823
7 _ Província de S. Paulo 1823-1853
8 — Província do Paraná 1853-1889
9 — Estado do Paraná 1889-1892.
1 — Capitania clc Itanhaèn 1653-1660
A Condessa de Vimieiro, sucessora dos direitos de Martim Afonso de Souza na Capitania de S. Vicente, manteve litígio judiciário com o Conde de Monsanto, também Marquez
de Cascais, que venceu o pleito por Provisão de 5 de Novembro de 1520, de D. Luiz de Souza, Governador Geral do Brasil . Não se conformando com esta decisão, visto como era ela
a legítima descendente de Martim Afonso, pela linha masculina, a Condessa de Vimieiro, expulsa de sua Capitania em
1524, transferiu-lhe a sede para a Vila de N. S. da Conceição
de Itanhaèn. A esse tempo não existia ainda em Paranaguá
nenhum núcleo de povoadores efetivos, além dos indígenas.
Mas desde que a povoação branca surgiu numerosa e foi criada a municipalidade em 1648, a adminisração de Itanhaèn
dela tomou posse designando-lhe Capitão-Mor e lhe traçando
os limites com Cananéa. Dessa época, porém, e até a constituição da Capitania de Paranaguá em 1660, a Capitania
de Itanhaèn (já então sob o domínio de D. Luiz Carneiro de
Souza, Conde da Ilha do Príncipe), exerceu plena e pacífica
jurisdição em Paranaguá, por intermédio dos seguintes Capitães-Mores, com sede em Itaijjiaên:
Diogo Vaz de Escobar
Simão Dias de Moura
(1)
(2)
Cap. Mor
Cap. Mor
1653-1656
1656-1660
( 1 ) E m 1653 (16 de Dezembro) ratificou a jurisdição da Capitania de
Itanhaèn sobre a Vila de Paranaguá e foi reconhecido pela Câmara no careo
de Capitão-Mor em nome e como representante do Conde da Ilha do Príncipe.
( 2 ) E m 1656 (.20 de Fevereiro) tomou posse do cargo de Capitão-Mor,
em sucessão a Escobar (falecido nesse ano) como delegado do mesmo donatário. Na ata de sua posse, conferida pela Câmara, foi declarado ser o Conde
da Ilha do Príncipe "senhor absoluto da vila ,sem contestação alguma". Essa
contestação, entretanto, existia, pois era nesse tempo acirrada a demanda com
o Marquez de Cascais.
História do Paraná — 24
370
ROMÁRIO
2
MARTINS
Capitania de Paranaguá
1660-1710
Com o intuito de se apossar da jurisdição que o seu antagonista da Capitania de Itanhaên exercia na Vila de N. S.
do Rosário de Paranaguá e do domínio sôbre o quinhão meridional da Capitania de Santo Amaro, o Marquez de Cascais,
então pleiteante com o Conde da Ilha do Príncipe na sucessão hereditária do primitivo donatário, criou a Capitania de
Paranaguá e nomeou a Gabriél de Lara, prestigioso povoador
da localidade, para o cargo de seu Lugar Tenente, CapitãoMor e Ouvidor. A Câmara local, que até então dera posse aos
capitães-mores nomeados pela administração da Capitania
de Itanhaên, destarte reconhecendo o direito do Conde da
Ilha do Príncipe, protelou o reconhecimento de Lara, talvez
por sugestão deste. Em Março de 1660 achava-se em Paranaguá Antonio Barbosa Soto Maior com o intento de tomar
posse da Capitania-Mor da Vila como representante da administração da Capitania de Itanhaên e em Novembro do mesmo ano ali também se encontrava Salvador Corrêa de Sá e
Benevides, Governador do Rio de Janeiro, em inspeção aos
serviços de mineração. Decidiu, então, o Governador"do Rio
de Janeiro, que Lara administrasse a terra em nome de ElRei. A Capitania de Paranaguá assim se constituiu e existiu
de 1660 a 1710, quando foi criada a Capitania de S. Paulo
constituída das antigas donatarias de S. Vicente e Santo
Amaro, esta adquirida para a corôa por Provisão de 19 de
Novembro de 1711 e aquela "por ato do Marquez de Pombal,
de 1753". (Antonio de Toledo Pizza, Processo Vimieiro Monsanto) .
A Capitania de Paranaguá pertencia à classe das "capitanias secundárias" ou "subalternas" ou "da Corôa", isto é, dependentes de outro governo. A primeira Capitania deste matiz
a criar-se no feudo de Pero Lopes de Souza foi a de Paranaguá. Depois vieram as de Santa Catarina e do Rio Grande do
Sul. Todas, porém, eram subordinadas ao govêrno do Rio de
Janeiro, sendo a de Paranaguá incorporada em 1710 à de S.
Paulo e a do Rio Grande do Sul,, tornada independente, elevada à Capitania Geral pelo Vice-Rei Conde de Rezende, em
1798. A de Santa Catarina sempre foi depedente do govêrno
do Rio de Janeiro. (B. Calixto, Capitanias Paulistas, introdução) .
H I S T Ó R I A DO P A R A N Á
371
Foram seus Capitães Mores:
Gabriel de Lara ( 3 )
Tomaz Fernandes de Oliveira
Gaspar Teixeira de Azevedo
Francisco da Silva Magalhães
João Rodrigues França ( 4 )
Cap.
Cap.
Cp.
Cap.
Cap.
t
Mor
Mor
Mor
Mor
Mor
1660-1682
1683-1688
1689-1692
1692-1701
1701-1710
3 — Capitania de S. Paulo 1710-1748
Durante a vigência da Capitania de S. Paulo, criada em
1710, foram seus Governadores e Capitães Generais:
Antonio de Albuquerque C. de Carvalho
D. Braz Baltazar da Silveira
Conde de Assumar
Rodrigo Cesar de Menezes
Antonio da Silva Caldeira Pimentel
Antonio L. de Távora (4.° C. de Sarzedas)
Gomes Freire de Andrade
D. Luiz de Mascarenhas
....
Governador
"
"
"
"
"
"
"
1710-1717
1713-1717
1717-1721
1721-1727
1727-1732
1732-1737
1737-1739
1739-1748
"A Carta Régia de 9 de Maio de 1748 suprimiu o cargo
de Governador na Capitania de S. Paulo e conferiu aos govenadores e capitães generais do Rio de Janeiro o govêrno
daquela, ficando um governador em Santos, sujeito ao do
Rio de Janeiro". (M. E. de Azevedo Marques, Apontamentos
Históricos da Província de S. Paião).
4 — Capitania do Rio de Janeiro 1748-1765
Durante a subordinação da Capitania de S. Paulo ao
govêrno do Rio de Janeiro, (1748 a 1765), foram os seguintes
os Governadores e Capitães Ggperais:
Gomes Freire de Andrade, M . Bobadela
D. Antonio Alves da Cunha, C. da Cunha
Governador
"
1733-1763
1763-1767
( 3 ) Lara se qualificava nos seus bandos ou editais, — "Povoador da Vila
de N. S. do Rosário de Paranaguá em nome de Sua Alteza e com os mesmos
poderes Lugar-Tenente
e Procurador do Marquez de Cascais nas vilas de 40
léguas da parte do Sul".
( 4 ) Foi o 5.° e ultimo Capitão-Mor da Capitania de Paranaguá no regime das donatarias. Sua patente foi passada em 1707 por D. Fernando de
Mascarenhas. Governador do R i o de Janeiro, somente confirmada em 1711
por E l Rei D. João V . Era natural de Santos, mas a partir de 1675 possuía
e dirigia lavras de ouro em Paranaguá e em Curitiba. Faleceu em 1715, deixando fortuna superior a 70.000 cruzados.
372
ROMÁRIO
MARTINS
5 — Restauração da Capitania de S. Paulo 1765-1821
Por Carta Régia de 17 de Janeiro de 1765 foi restaurada
a Capitania de S. Paulo, "na mesma fôrma e com a mesma
jurisdição que já anteriormente o houve nela" e nomeado
seu Governador e Capitão General D. Luiz Antonio de Souza
Botelho Mourão. Foi sob o govêrno deste notável administrador que se realizaram a defesa estável de Paranaguá com a
construção da fortaleza da sua barra; as explorações e a defesa dos sertões do Tibagí e do Iguassú e a "conquista de
Guarapuava"; a segurança da Capitania contra os incursões
espanholas; o ataque às Missões Orientais do Uruguai; as
fundações de Guaratuba e Lages, etc., todos esses e outros
atos habilmente preparadores do tratado de limites entre
Portugal e Espanha, que veiu a se realizar favorávelmente
para as nossas conquistas coloniais em 1777.
Foram os seguintes os Governadores e Capitães-Generais
da Capitania de S. Paulo, até a constituição do Govêrno Provisório de 1821:
D. Luiz Antonio de Souza Botelho Mourão
Martim Lopes Lobo de Saldanha
Francisco da Cunha Menezes .
José Raimundo Chichorro da Gama Lobo
Bernardo José de Lorena
Antonio de M é l o e Castro Mendonça
Antonio José de Franca e Horta
Luiz Teles da Silva, Marquez de Alegrete
D. Francisco de A. Mascarenhas, C. Palma
João Carlos Augusto de Oynhausen
....
....
Governador
"
"
"
"
"
"
"
"
"
1765-177Õ
1775-1782
1782-1786
1786-1788
1788-1797
1797-1S02
1802-1811
1811-1813
1814-1819
1819-1821
6 — Govêrno Provisório de S. Paulo 1821-1823
O Govêrno Provisório de S. Paulo foi constituido em consequência do movimento popular de 23 de Junho de 1821 e
aprovado pelo Príncipe Regente. Do Govêrno presidido pelo
Marechal Candido Xavier de Almeida e Sousa, de 1822 a 1823,
fizeram parte o Coronél Anastácio de Freitas Trancoso, paranaguense, e o Padre João Gonçalves Lima, curitibano.
Presidiram esse govêrno, nos citados anos:
João Carlos Augusto de Oynhausen .
Cândido Xavier de Almeida e Souza
Presidente
Presidente
1821-1822
1822-1823
373
H I S T Ó R I A DO P A R A N Á
7 _
Província de S. P a u l o 1823-1853
Criada pela lei de 20 de Outubro de 1823, a presidência
paulista, até 1853, quando foi criada a Província do Paraná,
foi exercida pelos abaixo nomeados:
Lucas Antonio Monteiro de Barros
Luiz Antonio Neves de Carvalho
Tomaz Xavier Garcia de Almeida
Manoel Joaquim de Andrade
Manoel Joaquim D'Ornellas
José Carlos Pereira de Oliveira Torres
D. Manoel Joaquim de Andrade
Aureliano de Souza Oliveira Coutinho
D. Manoel Joaquim de Andrade
Manoel de Araujo Azambuja
Rafael Tobias de Aguiar
Vicente Pires da Mota
Rafael Tobias de Aguiar
Francisco Antonio de Sousa Queiroz
José Cesário de Miranda Ribeiro
José Manoel de França
Bernardo J. P. Gavião Peixoto
Venâncio José Lisboa
Manoel Machado Nunes
Rafael Tobias de Aguiar
Miguel de Souza Mélo Alvim
Vicente Pires da Mota
Barão de Monte Alegre
José Carlos Pereira de Almeida Torres
Joaquim José Luiz de Sousa
Manoel Felizardo de Sousa Mélo
Joaquim J. de Morais Abreu
Manoel da Fonseca L. e Souza
Bernardo J. P. Gavião Peixoto
Joaquim Floriano de Toledo
Domiciliano Leite Ribeiro
Vicente Pires da Mota
José Tomaz Nabuco de Araujo
Hipolito José Soares de Souza
Barão de Tietê
Joaquim Otávio Nebias
Carlos Carneiro de Campos
Josino do Nascimento Silva
Presidente
Vice-Pres.
Presidente
Vice-Pres.
Vice-Pres.
Presidente
Vice-Pres.
Presidente
Vice-Pres.
Presidente
Presidente
Vice-Pres.
Presidente
Vice-Pres.
Presidente
Vice-Pres.
Presidente
Presidente
Presidente
Presidente
Presidente
Vice-Pres.
Presidente
Presidente
Presidente
Presidente
Vice-Pres.
Presidente
Vice-Pres.
Vice-Pres.
Presidenta
Presidente
Presidente
Vice-Pres.
Vice-Pres.
Presidente
Vice-Pres.
Presidente
1824
1826
1827
1827
1828
1829
1830
1831
1831
1831
1831
1834
1834
183S
1835
1836
1836
1838
1839
1840
1841
1842
1842
1842
1843
1843
1844
1844
1847
1848
1848
1848
1851
1852
1852
1852
1852
1853
8 — Província do Paraná 1853-1889
Criada pela lei n.° 704 de 29 de Agosto de 1853 e constituída do território da Comarca de Curitiba, da Província de S.
Paulo, foi a Província do Paraná instalada a 19 de Dezembro desse mesmo ano.
374
ROMÁRIO
MARTINS
Ocuparam sua presidência, de 1853 a 1889, quando se
proclamou a República e se transformaram em Estados as
antigas províncias, os seguintes cidadãos:
Dr. Zacarias de Góes e Vasconcelos
Dr. Teófilo Ribeiro de Rezende
Dr. Henrique de Bearepaire Rohan
Padre Vicente Pires da Mota
Dr. José Antonio Vaz de Carvalhaes
Dr. Francisco Liberato de Matos
Dr. Luiz Francisco Câmara Leal
Dr. José Francisco Cardoso
Dr. Antonio Barbosa Simas Nogueira
Cél. Manoel Antonio Ferreira
Dr. Sebastião Gonçalves da Silva
Dr. José Joaquim do Carmo
Dr. André de Padua Fleury
Dr. Manoel Alves de Araujo
Dr. André de Padua Fleury
Dr. Agostinho Ermelino de Leão
Dr. Polidoro Cesar Burlamarque
Dr. Carlos Augusto Ferraz de Abreu
Dr. José Feliciano Horta de Araujo
Dr. Carlos Augusto Ferraz de Abreu
Dr. Antonio Augusto da Fonseca
Dr. Agostinho Ermelino de Leão
Dr. Antonio Luiz Afonso de Carvalho
Dr. Agostinho Ermelino de Leão
Dr. Venâncio José de Oliveira Lisboa
Cél. Manoel Antonio Guimarães
Dr. Frederico José de Araujo Abranches
Dr. Agostinho Ermelino de Leão
Dr. Adolfo Lamenha Lins
Cél. Manoel Antonio Guimarães
Dr. Joaquim Bento de Oliveira Júnior
Dr. Jesuino Marcondes de Oliveira e Sá
Dr. Rodrigo Otávio de Oliveira Menezes
• Dr. Jesuino Marcondes de Oliveira e Sá
Dr. Manoel Pinto de Souza Da.uas Filho
Dr. João José Pedrosa
Dr. Sancho de Barros Pimentel
Dr. Jesuino Marcondes da Oliveira e Sá
Dr. Carlos Augusto de Carvalho
Cél. Antonio Alves de Araujo
Dr. Luiz Alves Leite de Oliveira Belo
Dr. Brazilio Machado de Oliveira
Cél. Antonio Alves de Araujo
Dr. Joaquim de Almeida Faria Sobrinho
Dr. Alfredo. d'Escragnolle Taunay
Dr. Joaquim de Almeida Faria Sobrinho
Cél. Antonio Ricardo dos Santos
Dr. José Cezario de Miranda Ribeiro
Comendador Ildefonso Pereira Correia
Presidente
Vice-Pres.
Vice-Pres.
Presidente
Vice-Pres.
Presidente
Vice-Pres.
Presidente
Presidente
Vice-Pres.
Vice-Pres.
Presidente
Presidente
Vice-Pres.
Presidente
Vice-Pres.
Presidente
Vice-Pres.
Presidente
Vice-Pres.
Presidente
Vice-Pres.
Presidente
Vice-Pres.
Presidente
Vice-Pres.
Presidente
Vice-Pres.
Presidente
Vice-Pres.
Presidente
Vice-Pres.
Presidente
Vice-Pres.
Presidente
Presidente
Presidente
Vice-Pres.
Presidente
Vice-Pres.
Presidente
Presidente
Vice-Pres.
Vice-Pres.
Presidente
Vice-Pres.
Vice-Pres.
Presidente
Vice-Pres.
1853
1855
1855
1856
1856
1857
1859
1859
1861
1863
1863
1864
1864
1865
1865
1865
1866
1866
1867
1867
1868
1868
1869
1869
1870
1870
1873
1873
1875
1875
1877
1878
1878
1879
1879
1880
1881
1882
1882
1883
1883
1884
1885
1885
1885
1886
1887
1888
1888
H I S T O R I A IȆ P A R A N A
Dr. Balbino Candido da Cunha
Dr. Jesuino Marcondes de Oliveira e Sá
Joaquim José Alves
Dr. Jesuino Marcondes de Oliveira e Sá
Presidente
Presidente
Vice-Pres.
Presidente
1888
1889
1889 «
1889
9 — Estado do Paraná 1889-1892
GOVÊRNO
PROVISÓRIO
General Francisco Cardoso Junior
Contra-Almidante José Marques Guimarães
Dr. Uladislau Herculano de Freitas
Dr. Américo Lobo Leite Pereira
Joaquim Monteiro de Carvalho e Silva
Tte. Cél. Dr. Inocêncio Serzedelo Correia
Joaquim Monteiro de Carvalho e Silva
General José Cerqueira de Aguiar Lima
GOVÊRNO
1889
1890
1890
1890
1890
1890
1890
1890
Governador
Vice-Govern.
1891
1891
ELEITO
Dr. Generoso Marques dos Santos
Dr. Joaquim Inácio Silveira da Mota
JUNTA
Governador
Governador
Vice-Govern.
Governador
Vice-Govern.
Governador
Vice-Govern.
Governador
GOVERNATIVA
Cél. Roberto Ferreira
Dr. Bento José Lamenha Lins
Joaquim Monteiro de Carvalho e Silva
GOVÊRNO
1891
1891
1891
ELEITO
Dr. Francisco Xavier da Silva
Dr. Vicente Machado da Silva Lima
PERÍODO
Governador
1892
Vice-Govern.
1893
Governador
"
"
"
"
1894
1894
1894
1894
1894
REVOLUCIONÁRIO
Cél. Teófilo Soares Gomes
Dr. João de Menezes Doria
General José Francisco Cardoso Í W *
Dr. Tertuliano Teixeira de Freitas
Dr. Antonio José Ferreira Braga
RESTAURAÇÃO DO GOVÊRNO
Dr. Vicente Machado da Silva Lima
Dr. Francisco Xavier da Silva
PROSSEGUIMENTO DO GOVÊRNO
Dr. José Pereira Santos Andrade
General José Bernardino Bormann
Dr. José Pereira Santos Andrade
Dr. Francisco Xavier da Silva
Dr. Vicente Machado da Silva Lima
LEGAL
Vice-Govern.
Governador
1894
1894
ELEITO
Governador
Vice-Govern.
Governador
Governador
Presidente
1896,
1899
1899
1900
1901
376
ROMÁRIO
MARTINS
Dr. João Cândido Ferreira
Cél. Joaquim Monteiro de Carvalho e Silva
Dr. Manoel de Alencar Guimarães '
Dr. Francisco Xavier da Silva
Dr. Carlos Cavalcanti de Albuquerque
Dr. Afonso Alves de Camargo
Dr. Caetano Munhoz da Rocha
Dr. Afonso Alves de Camargo
GOVERNO
Vice-Pres.
Vice-Pres.
Pres. do Congr.
Presidente
"
"
"
"
1906
1907
1908
1908
1912
1916
1920
1928
Interventor
"
1930
1932
REVOLUCIONÁRIO
General Mario Alves Tourinho
Manoel Ribas
Í N D I C E
I — O Meio Físico — Definição Geral — A Situação Geográfica — As Baías e os Portos — O Litoral e a Riba do Pa
raná — O Relêvo do Solo — Os Climas
11 —
Distribuição
Geográfica das Tribus Indígenas — Os Tupis
— Os Crêns — Os Gés
III — A Posse da Terra — Tratado de Tordesilhas — Limite
Português na Costa do Sul — Tratado de Madrid, de 1750
—- Tratado de Santo Ildefonso, de 1777 — Soluções Posteriores — O Povoamento Inicial — Povoamento Ocidental
pelos Castelhanos, 1554 — Gobernación de Guaíra, 1617
— Os Bandeirantes Paulistas cm Guaíra, 1629 — Fim do
Domínio Espanhol em Guaíra, 1632 — Povoamento Oriental pelos Portuguêses — O Litoral e o Planalto
I V — Província Indio-Cristã
de Guaíra — As Reduções da Companhia de Jesus, 1610 — A Origem das Missões Jesuíticas
do Paraguai — Os Êxitos do Sistema em Guaíra — Assalto dos Bandeirantes e Exôdo dos Catecumenos, 1628 . . . .
V — Caminhos Históricos — Peabirú ou Caminho de São Tomé
— Caminho Fluvial do Cubatão — Caminho Terrestre do
Cubatão — Caminhos do Itupava e do Arraial — Caminho
de Sorocaba e Viamão — Estrada da Graciosa — Estrada
para Mato Grosso . . . .
V I — Fatores Étnicos FundamenWÊke— Os índios Selvagens — O
Colonizador Ibérico — O Africano Escravizado
V I I — Bandeiras e Bandeirantes — Bandeiras Quinhentistas
—
Bandeiras Seiscentistas — Bandeiras Setecentistas — Bandeiras Povoadoras
VJII — Origens da Administração Pública — São Vicente e Santo
Amaro — Os Donatárias e suas Jurisdições — Os Prepostos dos Donatários e as Sesmarias — A Capitania de Paranaguá, 1660-1710 — Os Capitães-Mores — Ouvidoria de Paranaguá, 1723-1812 — Os ouvidores
I X — Ciclo da Mineração do Ouro — A Legislação e os Descobrimentos — As Primeiras Minas de Paranaguá, 1646 — As
Minas do Planalto — O Administrador das Minas dos Distritos do Sul, 1645-1652
X — Povoamento
do Litoral e do Planalto — Vicentistas no Superaguí, 1549 — A Primeira Sesmaria, 1610 — Início do
*
7
27
47
63
85
103
135
163
177
378
líOJVIAKIO
MARTINS
Povoamento do Litoral, 1646 — Origens do Povoamento de
Curitiba — Os Arraiais de Garimpeiros do Assunguí — Os
Primeiros "sítios" Efetivos, 1648 — A Elite Seiscentista do
Sertão Curitibano, 1661 — A Ereção da Vila em 1693 —
Curitiba Vista pelo Ouvidor Pardinho, 1720 — Curitiba Vista
por Saint'Hilaire 1 8 2 0
X I — Origens da Economia Rural — Minas, Fazendas e Invernadas — Os Arraiais do Planalto — A Herva-Mate em Guaíra — Os Currais e o Tropeirismo — Incremento e Decadên,
cia da Criação Pastoril — Os Três Ciclos do Povoamento —
Entradas de Novos Povoadores
X I I — Militaria — Fortaleza da Barra de Paranaguá, 1769 — De•->
fesa Militar de Paranaguá, 1777 — Campanha Contra Artigas, 1816 — Pronunciamento dos Milicianos, 1821 — Revolução Farroupilha, 1835-1842 — Combate do "Cormorant",
1850 — Guerra do Paraguai, 1864-1870 — Revolução Federalista, 1894 — Campanha do Contetado, 1912-1915 . .
XIII — Elevação da Comarca a Província — Os Pioneiros — Pedro
Joaquim de Castro Correia de Sá — Floriano Bento Viana
— Francisco de Paula e Silva Gomes — Manoel Francisco
Correia Junicr — João da Silva Machado — Histórico dos
Projetos — A Revolução Liberal de Sorocaba — O Barão de
Monte Alegre — O Primeiro Projeto, 1843 — Emendas e
Requerimentos — Nova Proposição no Senado, 1850 — O
Projeto na Câmara, 1853
X I V — Novos Fatores Étnicos — Os Curitibanos de 1820 — Novos
Povoadores Europeus — Seus Descendentes — Colônias
Agrícolas por Municípios
X V — A Campanha Abolicionista — A Abolição Gradual — Negros
Escravizados no Paraná — O Movimento Abolicionista — O
Negro na População da
Província — Brancos,
Pretos e
Cruzados
X V I — A Propaganda Republicana — Os Propagandistas Paranaenses, 1871 — Os Clubes Políticos — A Imprensa Republicana
— O Novo Regime no Paraná, 1889
KVII — Organização da Província
— Situação Social e Econômica
da Comarca em 1853 — Situação Econômica e Financeira
— A Ação do Primeiro Presidente — Progresso da Província até 1889
s—*
VIII — Organização do Estado - _ ^ N o v o Regime no Paraná — Os
Governos Provisórios — O Primeiro Governo Legal e sua
Destituição — A Reorganização do Estado
X I X — Definição
Territorial
do Estado — Divisão de São Paulo
e Minas, 1720 — Limite Meridional da Capitania de S.
Paulo •— Limites da Comarca de Curitiba, 1808 — A Questãode Limites com Santa Catarina — O Acordo de 20 de
Outubro de 1916 — Limites Atuais do Estado — Área Superficial
X X — Administradores
Públicos — Capitania de Itanhaên, 16531660 — Capitania de Paranaguá, 1660-1710 — Capitania de
S. Paulo, 1710-1748 — Capitania do Rio de Janeiro, 17481765 — Restauração da Capitania de S. Paulo, 1765-1821
— Governo Provisório de S. Paulo, 1821-1823 — Província
de S. Paulo, 1823-1853 — Província do Paraná, 1853-1889
Estado do Paraná, 1889-1892
•.
197
2IS
225
259
279
301
317
325
341
351
367
Recursos vinculados
Not viewed

