2012. MOTA. Historia_do_Parana_relacoes_sociocultura.pdf
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HISTÓRIA DO PARANÁ:
RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS
DA PRÉ-HISTÓRIA À ECONOMIA CAFEEIRA
EDITORA DA UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MARINGÁ
Reitor: Prof. Dr. Júlio Santiago Prates Filho
Vice-Reitora: Profa. Dra. Neusa Altoé
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Profa. Dra. Rozilda das Neves Alves
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Prof. Dr. Valdeni Soliani Franco
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EQUIPE TÉCNICA
Fluxo Editorial: Edilson Damasio
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Marketing:
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Comercialização:
Norberto Pereira da Silva
Paulo Bento da Silva
Solange Marly Oshima
FORMAÇÃO DE PROFESSORES - EAD
Lúcio Tadeu Mota
História do Paraná:
relações socioculturais
da pré-história à economia cafeeira
Maringá
2012
60
Coleção Formação de Professores - EAD
Apoio técnico: Rosane Gomes Carpanese
Luciana de Araújo Nascimento
Normalização e catalogação: Ivani Baptista CRB - 9/331
Revisão Gramatical: Annie Rose dos Santos
Edição, Produção Editorial e Capa: Carlos Alexandre Venancio
Eliane Arruda
Izabela Carolina Pereira Vargas
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
M917h
Mota, Lúcio Tadeu Mota
História do Paraná: relações sócio-culturais da pré-história a economia
cafeeira / Lúcio Tadeu Mota. -- Maringá: Eduem, 2012.
120p. (Coleção Formação de Professores - EAD; v. 60).
ISBN 978-85-7628-494-9
1. História do Paraná – Estudo e ensino. 2. Economia cafeeira – Paraná –
Estudo e ensino. 3. Paraná - História.
CDD 21. ed. 981.6
Copyright © 2012 para o autor
Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo
mecânico, eletrônico, reprográfico etc., sem a autorização, por escrito, do autor. Todos os direitos
reservados desta edição 2012 para Eduem.
Endereço para correspondência:
Eduem - Editora da Universidade Estadual de Maringá
Av. Colombo, 5790 - Bloco 40 - Campus Universitário
87020-900 - Maringá - Paraná
Fone: (0xx44) 3011-4103 / Fax: (0xx44) 3011-1392
http://www.eduem.uem.br / eduem@uem.br
S umário
Sobre o autor
> 7
Apresentação da coleção
> 9
Apresentação do livro
> 11
CAPÍTULO 1
A ocupação humana dos territórios do Paraná até a chegada
das populações europeias em 1500
> 15
CAPÍTULO 2
O Paraná colonial:
da chegada dos primeiros europeus em 1500 até a
emancipação da província em 1853
> 35
CAPÍTULO 3
O Paraná provincial 1853 – 1889
> 61
CAPÍTULO 4
O Paraná no século XX
> 87
Referências
> 112
5
S obre o autor
Lúcio Tadeu Mota
Graduado em Sociologia e Política pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (1980). Mestre em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1992). Doutor em História pela Universidade
Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (1998). Pós-doutor em Antropologia
Social pelo Museu Nacional do Rio de Janeiro. Atualmente, é professor Associado I da Universidade Estadual de Maringá. Tem experiência na área
de Antropologia, com ênfase em Etno-história Indígena, atuando principalmente nos seguintes temas: fronteiras e populações, Etnohistória indígena,
relações interculturais, índios Kaingang e história da bacia do Rio da Prata.
7
A presentação da Coleção
A coleção Formação de Professores - EAD teve sua primeira edição publicada em
2005, com 33 títulos inanciados pela Secretaria de Educação a Distância (SEED) do
Ministério da Educação (MEC) para que os livros pudessem ser utilizados como material
didático nos cursos de licenciatura ofertados no âmbito do Programa de Formação de
Professores (Pró-Licenciatura 1). A tiragem da primeira edição foi de 2500 exemplares.
A partir de 2008, demos início ao processo de organização e publicação da segunda
edição da coleção, com o acréscimo de 12 novos títulos. A conclusão dos trabalhos
deverá ocorrer somente no ano de 2012, tendo em vista que o inanciamento para
esta edição será liberado gradativamente, de acordo com o cronograma estabelecido
pela Diretoria de Educação a Distância (DED) da Coordenação de Aperfeiçoamento de
Pessoal do Ensino Superior (CAPES), que é responsável pelo programa denominado
Universidade Aberta do Brasil (UAB).
A princípio, serão impressos 695 exemplares de cada título, uma vez que os livros
da nova coleção serão utilizados como material didático para os alunos matriculados
no Curso de Pedagogia, Modalidade de Educação a Distância, ofertado pela Universidade Estadual de Maringá, no âmbito do Sistema UAB.
Cada livro da coleção traz, em seu bojo, um objeto de relexão que foi pensado
para uma disciplina especíica do curso, mas em nenhum deles seus organizadores
e autores tiveram a pretensão de dar conta da totalidade das discussões teóricas e
práticas construídas historicamente no que se referem aos conteúdos apresentados. O
que buscamos, com cada um dos livros publicados, é abrir a possibilidade da leitura,
da relexão e do aprofundamento das questões pensadas como fundamentais para a
formação do Pedagogo na atualidade.
Por isso mesmo, esta coleção somente poderia ser construída a partir do esforço coletivo de professores das mais diversas áreas e departamentos da Universidade Estadual
de Maringá (UEM) e das instituições que têm se colocado como parceiras nesse processo.
Neste sentido, agradecemos sinceramente aos colegas da UEM e das demais instituições que organizaram livros e ou escreveram capítulos para os diversos livros
desta coleção.
Agradecemos, ainda, à administração central da UEM, que por meio da atuação
direta da Reitoria e de diversas Pró-Reitorias não mediu esforços para que os trabalhos pudessem ser desenvolvidos da melhor maneira possível. De modo bastante
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HISTÓRIA DO PARANÁ:
RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS
DA PRÉ-HISTÓRIA À
ECONOMIA CAFEEIRA
especíico, destacamos o esforço da Reitoria para que os recursos para o inanciamento
desta coleção pudessem ser liberados em conformidade com os trâmites burocráticos
e com os prazos exíguos estabelecidos pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da
Educação (FNDE).
Internamente enfatizamos, ainda, o envolvimento direto dos professores do Departamento de Fundamentos da Educação (DFE), vinculado ao Centro de Ciências
Humanas, Letras e Artes (CCH), que no decorrer dos últimos anos empreenderam
esforços para que o curso de Pedagogia, na modalidade de educação a distância, pudesse ser criado oicialmente, o que exigiu um repensar do trabalho acadêmico e uma
modiicação signiicativa da sistemática das atividades docentes.
No tocante ao Ministério da Educação, ressaltamos o esforço empreendido pela
Diretoria da Educação a Distância (DED) da Coordenação de Aperfeiçoamento de
Pessoal do Ensino Superior (CAPES) e pela Secretaria de Educação de Educação a
Distância (SEED/MEC), que em parceria com as Instituições de Ensino Superior (IES)
conseguiram romper barreiras temporais e espaciais para que os convênios para a liberação dos recursos fossem assinados e encaminhados aos órgãos competentes para
aprovação, tendo em vista a ação direta e eiciente de um número muito pequeno de
pessoas que integram a Coordenação Geral de Supervisão e Fomento e a Coordenação
Geral de Articulação.
Esperamos que a segunda edição da Coleção Formação de Professores - EAD possa
contribuir para a formação dos alunos matriculados no curso de Pedagogia, bem como
de outros cursos superiores a distância de todas as instituições públicas de ensino
superior que integram e ou possam integrar em um futuro próximo o Sistema UAB.
Maria Luisa Furlan Costa
Organizadora da Coleção
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A presentação do livro
A princípio, tudo representava um panorama selvático. O seio da terra virginal,
recoberto de lorestas seculares, abrigava tesouros inestimáveis de fecundação
e fertilidade prontos para fornecer colheitas dadivosas (....). Havia, de primeiro,
a terra protegida pela loresta imensa. E lentamente a loresta, a loresta tão
exuberante e impenetrável cedia lugar àqueles homens intrépidos e valentes.
Frases como essas acima, de diferentes autores, são comuns nos escritos sobre a
história do Paraná. Construiu-se a ideologia de que esses territórios estavam vazios,
desabitados e prontos a serem ocupados. Essa construção ocorreu dentro dos marcos
da expansão capitalista que incorporou imensas áreas do norte, oeste e sudoeste do
Estado no século XX ao seu sistema de produção.
Os agentes dessa construção são muitos: desde a história oicial das companhias
colonizadoras; os discursos governamentais; os escritos que fazem a apologia da colonização; a geograia que trata da ocupação nas décadas de 30 a 50 do século XX; a historiograia paranaense produzida nas universidades e, por im, os livros didáticos que,
se utilizando dessas fontes, repetem para milhares de estudantes do Estado a ideia de
que os vastos territórios ocupados por sociedades indígenas do segundo e terceiro
planaltos do Paraná constituíam um imenso “vazio demográico” pronto a ser ocupado por migrantes vindos de várias partes do Brasil e mesmo do exterior. Com isso,
eliminam-se propositadamente da história regional as populações indígenas, caboclas
e quilombolas que ali viviam e resistiram à conquista de suas terras e à destruição de
seu modo de vida1.
Observando essas populações enquanto sujeitos ativos da história, percebemos
que os territórios localizados entre os rios Paranapanema, Paraná e Iguaçu foram ocupados por populações caçadoras e coletoras desde há pelo menos nove mil anos antes
do presente. E desde a chegada das populações europeias no novo continente iniciouse a guerra de conquista contra elas.
Essa guerra é entendida no sentido atribuído por Antônio Carlos de Souza Lima:
um processo que requer uma organização militar conquistadora que age em nome
1 Para maiores detalhes sobre esse assunto, ver MOTA, Lúcio Tadeu. As Guerras dos Índios Kaingang. Maringá, Eduem, 2009.
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HISTÓRIA DO PARANÁ:
RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS
DA PRÉ-HISTÓRIA À
ECONOMIA CAFEEIRA
de um Deus, um Rei, uma Nação ou um Império; um povo de onde se origina o
conquistador e que lhe dá uma identidade social e uma direção comum; e o butim,
composto pelo povo conquistado com seus territórios e riquezas que passam a ser
mercantilizadas. E conquista, quando parte do povo conquistador ixa nos territórios
conquistados; faz a exploração sistematizada do butim e passa a veicular os elementos
básicos da cultura invasora através de instituições concebidas para essa inalidade2.
A guerra de conquista iniciou-se nas primeiras décadas do século XVI com as expedições portuguesas e espanholas que cruzaram o atual território do Paraná em busca
de metais, escravos, e de uma rota rumo ao Império Inca no atual Peru. Acentuou-se
no seiscentos com a implantação das Reduções Jesuíticas no Guairá, e logo depois
com as bandeiras paulistas, que invadiram a região capturando índios e com as atividades mineradoras no litoral e primeiro planalto. Prosseguiu no século XVIII, com
a instalação das fazendas de gado nos Campos Gerais, com a descoberta de ouro e
diamantes no rio Tibagi e com as expedições militares que construíram fortiicações e
transitavam pelo território rumo ao Mato Grosso. Recrudesceu no novecentos, com a
ocupação dos campos de Guarapuava, de Palmas e do sudoeste da Província, das terras
da bacia norte do rio Tibagi pelos grandes fazendeiros dos Campos Gerais paranaense
na expansão de seus domínios. No século XX, a guerra de conquista continuou sob
o manto da “colonização pacíica e harmoniosa”, levada adiante pelas companhias de
terras que ocuparam, lotearam e venderam os antigos territórios indígenas com o aval
institucional do Estado do Paraná.
Dessa forma, a ocupação humana do Paraná apresenta, em uma primeira olhada, o
aspecto das fronteiras. Mas não no sentido de ela constituir-se apenas em uma divisa
entre os brancos e os indígenas, uma coluna móvel de colonização em território novo
não colonizado, ou como um processo de conquista envolvendo a subjugação de
não-europeus por europeus. Mas sim conforme os recentes estudos de fronteira têm
apontado: os espaços fronteiriços como locais de encontro de populações diferenciadas e o lócus privilegiado dos luxos e das trocas culturais. A fronteira vista como local
não do isolamento e separação de culturas (cultura x cultura), mas de combinações
inovadoras, de manejo e de somas culturais (cultura + cultura), como bem aponta
Ulf Hannerz3.
2 Cf. Antônio C. de Souza LIMA, Um grande cerco de paz: poder tutelar e indianidade no Brasil.
Petrópolis, 1995.
3 Cf. Ulf HANNERZ. Fronteiras. Revista de Antropologia Experimental, 1, 2001, p. 6. Para uma discussão mais completa sobre essa questão e outras relativas a fronteiras e luxos culturais, ver: Fluxos, fronteiras, híbridos: palavras chaves da antropologia transnacional. Mana, n. 3, v. 1, p. 7-39, e Conexiones
Transnacionais – Cultura, Gente Lugares. Ediciones Cátedra, 2001.
12
Assim, as numerosas “fronteiras” existentes no espaço denominado Paraná não se
adéquam a esse ideal simpliicador de ser apenas um divisor de culturas diferenciadas
entre o “civilizado” e o “selvagem”, ou uma coluna móvel de colonização em território
novo não colonizado. Mesmo porque estudos recentes em antropologia, história ou
etno-história têm mostrado que as populações locais ofereciam resistência, as doenças
impediam a penetração europeia, e a geograia limitava a intrusão estrangeira. Os colonizadores europeus simplesmente não impuseram suas culturas em todas as partes
do planeta, inúmeros foram os obstáculos, derrotas, e inúmeros foram os processos
de negociação, alianças e acordos que resultaram em luxos culturais, hibridismos e
mestiçagens que compõem a história de grande parte das populações do continente
americano e também do Paraná, estabelecendo aqui processos de relações interculturais ricos e complexos4, que pretendemos apresentar na sequência deste livro.
Apresentação do livro
4 Sobre a mestiçagem na América ver Bernand, Carmen y Serge Gruzinski. Historia del Nuevo Mundo. II - los mestizajes. 1550 – 1640. México: Fondo de Cultura Econômica, 1999.
13
ocupação humana
1 dos Aterritórios
do Paraná
até a chegada das
populações europeias
em 1500
INTRODUÇÃO
O debate sobre as questões relativas à humanização do continente americano tem
sido intenso e rico. As disciplinas que tratam dessa temática, como a arqueologia, a
história e outras apresentam pontos de concordância e muitos de discordância.
Hoje, é consenso aceitar a premissa de que o homem não é autóctone de nosso
continente. Isto é, o homo sapiens-sapiens que ocupou as Américas teve suas origens
no continente africano há mais ou menos uns cem mil anos antes do presente (AP), e
em algum momento migrou para o continente americano.
O segundo ponto, ou a segunda pergunta muito usual nesse debate é: se o homem
não surgiu na América, de onde ele veio? Grande parte dos pesquisadores é unânime
em airmar que a maioria das levas humanas que aqui chegou atravessou o estreito de
Bering, no extremo norte do continente.
Figura 1 - Possível rota de migração do
Homo Sapiens Sapiens até o continente americano.
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HISTÓRIA DO PARANÁ:
RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS
DA PRÉ-HISTÓRIA À
ECONOMIA CAFEEIRA
Figura 2 - Possíveis rotas de ocupação do continente americano.
Fonte: NEVES, W. A.; PILÒ, L. B. O povo de Luzia: em busca dos primeiros americanos.
São Paulo: Globo, 2008, p. 84. NEVES & L. B. PILÓ. O povo de Luzia. 2008, p. 84.
Mas existem muitos pesquisadores que airmam que o continente também foi
povoado por grupos humanos vindos das ilhas do Oceano Pacíico. Navegaram do
oeste para o leste e desembarcaram na costa oeste da América. E ainda existe quem
airme que também recebemos migrações pelo extremo sul do continente, na Terra
do Fogo, provenientes da Austrália e Nova Zelândia.
Figura 3 - Povoamento do Continente Americano.
Fonte: TIME LIFE LIVROS E ABRIL LIVROS. A Aurora da Humanidade. São Paulo, 1993.
A terceira pergunta, e talvez a mais polêmica, é a que questiona qual foi a época da
chegada dos primeiros humanos no continente americano. Nesse ponto, há um debate
16
intenso que está longe de terminar. Existem autores que airmam que os primeiros homens chegaram à América há mais de 300 mil anos antes do presente (AP). Mas as datações mais aceitas pela comunidade cientíica são aquelas que giram em torno de 12.000
AP. A grande maioria dos pesquisadores aceita a presença do primeiro homem americano
em torno de 11.000 a 12.000 AP, porque se situam nesse período as datações de partes de
esqueletos humanos mais antigos encontrados no continente, como é o caso do crânio
de uma mulher batizada de Luzia, encontrada em Minas Gerais, que data de 11.500 AP.
A ocupação humana
dos territórios do Paraná
até a chegada das
populações europeias
em 1500
As populações caçadoras coletoras pré-cerâmicas no Paraná: do final do
Pleistoceno (11.000 anos AP) aos dias de hoje
Os territórios hoje denominados Paraná vêm sendo continuamente habitados por
diferentes populações humanas há cerca de pelo menos nove mil (9.000) anos antes do
presente (AP). Entretanto, se considerarmos a cronologia dos territórios vizinhos que
foram ocupados em épocas anteriores, é provável que ainda possam ser obtidas datas
que poderão atestar a presença humana em períodos mais recuados.
As pesquisas arqueológicas têm mostrado que essa presença humana é muito antiga
no Paraná. Em 1958, um grupo de arqueólogos do Departamento de Antropologia da
Universidade Federal do Paraná foi comunicado acerca de achados arqueológicos nas
margens do rio Ivaí, no extremo oeste do Estado, na localidade de Guaporema1. Quando
izeram as escavações, no sítio denominado José Vieira, icou demonstrada a existência
de dois povoamentos no local. O material lítico, colhido nos níveis mais profundos das
escavações e submetido à datação, registrou uma idade entre o sétimo e o oitavo milênio
antes de nossa era. Isso signiica assentamentos humanos nas barrancas do rio Ivaí há
quase sete mil anos AP. Os materiais líticos coletados nas camadas superiores da jazida
datam de dois a três mil anos (AP), signiicando novos acampamentos em épocas posteriores à primeira. Temos, portanto, em um mesmo local, acampamentos em épocas
distantes, quatro a cinco milênios uma da outra, em que são veriicadas grandes transformações no clima e na vegetação. Outras escavações foram realizadas às margens do rio
Paraná e datadas em oito mil anos, assim como as escavações realizadas no centro-leste
do Estado, na região de Vila Velha, também com oito mil anos.
Por todo o Paraná vamos encontrar vestígios desses antigos assentamentos humanos.
O mais antigo deles, datado de 9.040 AP, foi encontrado por Claudia Parellada, arqueóloga do Museu Paranaense, no vale do rio Iguaçu. Essas evidências anteriores a 6.000
1 Cf. LAMING, Anete; EMPERAIRE, Jose. A jazida Jose Vieira: um sítio Guarani e pré-cerâmico no interior
do Paraná. Arqueologia, Curitiba, v. 1, 1969. Nesse trabalho, os autores também fazem observações
em possíveis sítios arqueológicos na região de Apucarana.
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HISTÓRIA DO PARANÁ:
RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS
DA PRÉ-HISTÓRIA À
ECONOMIA CAFEEIRA
AP também podem ser encontradas em outras partes do território paranaense, como
podemos ver no quadro abaixo.
Quadro 1 - Sítios arqueológicos com mais de 6.000 anos Antes do Presente no Paraná
Fonte: PARELLADA, C. I. Revisão dos sítios arqueológicos com mais de seis mil anos BP no Paraná: discussões
geoarqueológicas. Fumdhamentos, São Raimundo Nonato, n.7, p. 118-135, 2008.
Podemos airmar que os territórios hoje denominados Paraná vêm sendo continuamente habitados por diferentes populações humanas há cerca de 9.000 AP de acordo
com os vestígios materiais mais antigos encontrados pelos arqueólogos. Entretanto, se
considerarmos a cronologia dos territórios vizinhos que foram ocupados em épocas
anteriores, é provável que ainda possam ser obtidas datas que poderão atestar a presença humana em períodos mais recuados, podendo alcançar até 11 ou 12.000 mil AP.
As populações que viveram no Paraná entre 9.000 mil a 3.000 anos AP são chamadas pela arqueologia de caçadores e coletores pré-cerâmicos. Elas foram substituídas
pelas populações indígenas agricultoras e ceramistas – Kaingang, Xokleng, Guarani
e Xetá – que chegaram na região por volta de 2.500 anos AP, e continuam a viver
aqui até hoje2.
A arqueologia classiica essas populações caçadoras coletoras em três tradições,
conforme a Figura 4.
2 De aqui em diante, optamos por incorporar parte de um texto feito em parceria com Francisco Silva
Noelli e publicado em outras obras, conjuntas ou separadas.
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A ocupação humana
dos territórios do Paraná
até a chegada das
populações europeias
em 1500
Figura 4 - Populações caçadoras coletoras pré-cerâmicas no Paraná.
Os arqueólogos reuniram uma série de informações sobre essas populações. Aqui,
apontamos sucintamente os dados que julgamos mais importantes de cada uma delas.
Tradição Humaitá
As populações que os arqueólogos convencionaram chamar de Tradição Humaitá
aparentemente não deixaram descendentes historicamente conhecidos. Por enquanto, é sabido que ocuparam todos os estados do sul brasileiro e as regiões vizinhas do
Paraguai e da Argentina entre 9.000 e 2.000 anos atrás.
Os estudos de seus vestígios mostram que essas populações possuíam as características das culturas do tipo bando, compostas de pequenos grupos (40-60 pessoas) que
viviam dentro de amplos territórios. Sua subsistência era baseada em diversas fontes
animais, obtidos por meio da caca, da pesca e da coleta, bem como de fontes vegetais.
A exemplo de outros povos caçadores-coletores sul-americanos, também deveria ter
uma série de acampamentos sazonais espalhados dentro de um território deinido.
Tais acampamentos estariam relacionados a uma série de atividades de subsistência,
obtenção e preparação de matérias-primas, rituais e lazer. Suas habitações poderiam
ser desde uma simples meia-água até casas mais elaboradas de madeira, cobertas por
palha ou folhas de palmáceas. Eventualmente, poderiam ocupar abrigos sob-rocha
(reentrâncias em paredes rochosas).
Seus vestígios, mais estudados até o presente, restringem-se aos instrumentos líticos, feitos de rocha, pois a maior parte de seus objetos era provavelmente confeccionada com materiais perecíveis que se destruíram ao longo da formação dos sítios arqueológicos. Entre as ferramentas de pedra, podemos mencionar os grandes instrumentos
lascados bifacialmente, as lascas usadas para raspar, rasgar, cortar, tornear, bem como
as ferramentas para polir, furar, amolar, macerar, moer, pilar e ralar.
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HISTÓRIA DO PARANÁ:
RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS
DA PRÉ-HISTÓRIA À
ECONOMIA CAFEEIRA
Figura 5 - Ferramenta lítica da Tradição Humaitá.
Acervo - Coleção Arqueológica do Museu Histórico de Santo Inácio – Pr. Foto de Edmar Alencar Jr / Josilene
Aparecida de Oliveira.
Tradição Umbu
Também as populações que os arqueólogos chamam de Tradição Umbu não deixaram descendentes historicamente conhecidos. Os vestígios dessa tradição, marcadamente as pontas de projéteis e resíduos de lascamentos, são encontrados em toda a
região Sul do Brasil, no Uruguai e em partes do Estado de São Paulo. Esses vestígios
foram datados entre 12.000 e 1.000 anos AP, demonstrando a longa persistência dessa
tradição nos mais variados ambientes do Brasil Meridional.
Elas ocuparam preferencialmente as regiões de maior altitude nos planaltos do Paraná, principalmente os interlúvios dos principais rios, mas temos também a presença
de artefatos dessa tradição nas margens dos principais rios do Paraná, como o Iguaçu,
no sítio Ouro Verde, datado de 9.000 anos AP, e em vários locais ao longo do rio Ivaí.
Nesses locais, construíram suas habitações tanto a céu aberto como nos abrigos sob
as rochas. Já no Rio Grande do Sul e no Uruguai, nas áreas alagadiças, construíram os
cerritos – aterros artiiciais –, onde ixaram suas habitações.
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A ocupação humana
dos territórios do Paraná
até a chegada das
populações europeias
em 1500
Figura 6 - Ponta de lecha da Tradição Umbu. Acervo: Laboratório de Arqueologia,
Etnologia e Etno-história da UEM. Foto: Lucio Tadeu Mota.
Tradição Sambaqui
Os pescadores/coletores do litoral Sul do Brasil ocuparam uma vasta faixa entre o
mar e a Serra do Mar indo do Rio Grande do Sul até a Bahia, desde 6.000 AP até 1.000
depois de Cristo (d.C.). Seus principais vestígios são os inúmeros mounds – conhecidos por Sambaquis – que construíram intencionalmente. Neles, podem ser encontrados restos de alimentos, adornos, conchas, ferramentas, armas, carvões de antigas
fogueiras, vestígios de sepultamentos humanos e de antigas moradias.
Construídos tanto em planícies quanto em encostas, diretamente na areia ou sobre
o embasamento rochoso, os Sambaquis têm ocorrências desde o Rio Grande do Sul
até a Bahia, basicamente no interior dos ambientes lagunares que se apresentam em
todo esse trecho da faixa costeira. As baías, estuários e lagunas dessa porção do litoral
apresentam normalmente grandes concentrações desses sítios arqueológicos.
A implantação dos Sambaquis nesses ambientes estuarinos não foi fortuita, ela se
deu devido à existência de várias espécies de peixes, moluscos, crustáceos e outros
animais, componentes riquíssimos da dieta alimentar desses grupos humanos.
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HISTÓRIA DO PARANÁ:
RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS
DA PRÉ-HISTÓRIA À
ECONOMIA CAFEEIRA
Figura 7 - Sambaquis do litoral sul do Brasil. Fonte: Gaspar (2000, p. 49-53).
As populações ceramistas agricultoras – as populações indígenas
históricas
Por volta de 2.500 anos antes do presente (AP), agrupamentos maiores de populações passaram a ocupar a região onde hoje é o Paraná. Uma dessas frentes iniciou a
ocupação pela da bacia do rio Paraná e depois se espalhou pelos seus aluentes (Iguaçu, Piquiri, Ivaí, Paranapanema Pirapó, Santo Inácio, Bandeirantes, Tibagi, Itararé e
outros menores). Tratava-se de uma das frentes da ampla expansão dos povos falantes
da língua Guarani, que vinha ocupando sistematicamente o território do atual Mato
Grosso do Sul e as bacias dos rios Paraguai e Paraná e Rio da Prata. Podemos dizer que
esses agrupamentos tinham em comum a língua e a produção de artefatos cerâmicos.
A outra frente de ocupação alcançou os territórios do segundo planalto paranaense
cruzando os rios Paranapanema, Itararé e Ribeira, e preferiam os planaltos acima de
700 metros repletos de pinheirais (araucária angustifolia).
Os vestígios da cultura material dessas populações agricultoras ceramistas são denominados pela arqueologia Tradição Tupiguarani e Tradição Itararé/Taquara.
As mais antigas populações de ceramistas começaram a chegar à bacia do rio Paraná em torno de 2.500 anos AP, como podemos ver em uma série de sítios datados na
região pelas metodologias de C-14 (Carbono 14) e termoluminescência.
O rio Paranapanema, em sua junção com o médio Paraná, é considerado, como já
foi sugerido por José P. Brochado e Francisco S. Noelli (BROCHADO, 1984; NOELLI,
1998; 1999-2000), para o caso dos falantes do Guarani, como a “porta de entrada” para
22
o Paraná e o sul do Brasil. O conjunto das pesquisas indica que essas populações, em
contínuo processo de crescimento demográico e de expansão territorial, teriam sucessivamente ocupado a área do atual Mato Grosso do Sul, e através da bacia do Paraná
ingressado no sul do Brasil pelo noroeste paranaense.
No caso dos Jê do Sul (os Kaingang e os Xokleng), como apontam os indícios da
cerâmica de Tradição Itararé, a porta de entrada dessas populações para o sul do Brasil
teria sido os campos e cerrados do interlúvio dos rios Paranapanema/Itararé e Ribeira.
A ocupação humana
dos territórios do Paraná
até a chegada das
populações europeias
em 1500
Trabalhando com a hipótese de que os grupos Jê que se deslocaram do Brasil central para o sul, foram ocupando regiões semelhantes as que ocupavam
em seus locais de origem, podemos airmar que após ocuparem os planaltos
de cerrados entre os rios Tietê e Paranapanema eles iniciaram a ocupação dos
Campos Gerais no Paraná. Esses campos se estendem desde o sul de São Paulo
- região de Itapetininga até Itararé, entre as cabeceiras dos rios Paranapanema
e Itararé - até a margem direita do rio Iguaçu no segundo planalto paranaense.
No século XVII os padres jesuítas fundadores das reduções anotam a presença
de grupos não Guarani não região, que eles denominaram de Cabeludos e Gualachos3 (MOTA, 2000, p. 85).
Ancorados nas informações arqueológicas, podemos airmar que a bacia do rio
Paraná e seus aluentes da margem esquerda onde é hoje o Estado do Paraná foi
densamente povoada, até a chegada dos espanhóis e portugueses, por populações
caçadoras/coletoras pré-ceramistas e pelos agricultores ceramistas, principalmente os
falantes do Guarani.4
3 Cf. Lucio Tadeu MOTA. Os índios Kaingang e seus territórios nos campos do Brasil meridional na
metade do século passado. In: MOTA, Lucio Tadeu; NOELLI, Francisco Silva. Uri Wãxi: estudos interdisciplinares dos Kaingang. Londrina, Eduel, 2000.
4 Existem ainda informações arqueológicas sobre a presença de vestígios cerâmicos diferentes das tradições discutidas acima, e também existem informações históricas sobre a presença de populações não
Guarani e Kaingang particularmente na margem direita do médio Paranapanema, informações importantes para o entendimento da ocupação da região que discutiremos em outra oportunidade.
23
HISTÓRIA DO PARANÁ:
RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS
DA PRÉ-HISTÓRIA À
ECONOMIA CAFEEIRA
Quadro 2 - Sítios arqueológicos com datações de populações ceramistas nas bacias dos
rios Paraná, Paranapanema e Ivaí, da jusante para montante
Rio Paraná
24
Data
A.P**
Sítio
Lab. nº
Margem
Município Estado
Fonte
2010 ± 75
PR/FI/140
SI 5028
Esquerda
Foz do Iguaçu - PR
Chmyz, 1983
1625 ± 60
PR/FI/118
SI 5021
Esquerda
Foz do Iguaçu - PR
Chmyz, 1983
1565 ± 70
PR/FI/99
SI 5019
Esquerda
Foz do Iguaçu - PR
Chmyz, 1983
1395 ± 60
PR/FI/142
SI 5033
Esquerda
Foz do Iguaçu - PR
Chmyz, 1983
1235 ± 60
PR/FI/97
SI 5016
Esquerda
Foz do Iguaçu - PR
Chmyz, 1983
745 ± 75
PR/FI/140
SI 5027
Esquerda
Foz do Iguaçu - PR
Chmyz, 1983
700 ± 55
PR/FI/112
SI 5036
Esquerda
Foz do Iguaçu - PR
Chmyz, 1983
625 ± 55
PR/FI/100
SI 5020
Esquerda
Foz do Iguaçu - PR
Chmyz, 1983
600 ± 60
PR/FI/103
SI 5029
Esquerda
Foz do Iguaçu - PR
Chmyz, 1983
590 ± 55
PR/FI/127
SI 5024
Esquerda
Foz do Iguaçu - PR
Chmyz, 1983
415 ± 75
PR/FI/104
SI 5032
Esquerda
Foz do Iguaçu - PR
Chmyz, 1983
395 ± 60
PR/FI/142
SI 5034
Esquerda
Foz do Iguaçu - PR
Chmyz, 1983
340 ± 60
PR/FI/118
SI 5023
Esquerda
Foz do Iguaçu - PR
Chmyz, 1983
255 ± 80
PR/FI/97
SI 5017
Esquerda
Foz do Iguaçu - PR
Chmyz, 1983
230 ± 80
PR/FI/22
SI 5015
Esquerda
Foz do Iguaçu - PR
Chmyz, 1983
205 ± 80
PR/FI/118
SI 5022
Esquerda
Foz do Iguaçu - PR
Chmyz, 1983
190 ± 75
PR/FI/98
SI 5018
Esquerda
Foz do Iguaçu - PR
Chmyz, 1983
? ± 195
PR/FI/141
SI 5031
Esquerda
Foz do Iguaçu - PR
Chmyz, 1983
490 ± 60
PR/FO/3
SI 5040
Esquerda
Guaíra - PR
Chmyz, 1983
760 ± 40
PR/FO/4
SI 5039
Esquerda
Guaíra - PR
Chmyz, 1983
475 ± 45
MT/IV/1
SI 1017
Direita
Bataiporã - MS
Chmyz 1974
180 ± 60
MT/IV/1
SI 1018
Direita
Bataiporã - MS
Chmyz, 1974
110 ± 60
MT/IV/2
SI 1019
Direita
Bataiporã - MS
Chmyz, 1974
260 ± 70
MT/IV/1
SI 1016
Direita
Bataiporã - MS
Chmyz, 1974
239 ± 10
MS/PR/13
FATEC
Direita
Anaurilândia - MS
Kashimoto, 1997
240 ± 30
MS/PD/06
Gsy
Direita
Anaurilândia - MS
Kashimoto, 1997
275 ± 20
MS/PD/07
FATEC
Direita
Anaurilândia - MS
Kashimoto, 1997
425 ± 25
MS/IV/08
FATEC
Direita
Anaurilândia - MS
Kashimoto, 1997
432 ± 32
MS/PD/04
FATEC
Direita
Anaurilândia - MS
Kashimoto, 1997
245 ± 15
MS/PR/41
FATEC
Direita
Bataguaçu - MS
Kashimoto, 1997
280 ± 15
MS/PR/46
FATEC
Direita
Bataguaçu - MS
Kashimoto, 1997
370 ± 20
MS/PR/22
FATEC
Direita
Bataguaçu - MS
Kashimoto, 1997
480 ± 30
MS/PR/26
FATEC
Direita
Bataguaçu - MS
Kashimoto, 1997
565 ± 32
MS/PR/55
FATEC
Direita
Bataguaçu - MS
Kashimoto, 1997
580 ± 40
MS/PR/39
FATEC
Direita
Bataguaçu - MS
Kashimoto, 1997
625 ± 40
MS/PR/35
FATEC
Direita
Bataguaçu - MS
Kashimoto, 1997
1493 ± 100
MS/PR/85
FATEC
Direita
Brasilândia - MS
Kashimoto, 1997
1248 ± 100
MS/PR/64
FATEC
Direita
Brasilândia - MS
Kashimoto, 1997
1015 ± 75
MS/PR/64
Gsy
Direita
Brasilândia - MS
Kashimoto, 1997
480 ± 30
MS/PR/98
FATEC
Direita
Três Lagoas - MS
Kashimoto, 1997
909± 80
MS/PR/90
FATEC
Direita
Três Lagoas - MS
A ocupação humana
dos territórios do Paraná
até a chegada das
populações europeias
em 1500
Kashimoto, 1997
Rio Ivaí
Data A.P.
Sítio
Lab. nº
Margem
Município - PR
Fonte
1380 ± 150
José Vieira
Gsy 81
Esquerda
Guaporema
Emperaire, 1968
540 ± 60
PR/QN/2
SI 697
Direita
Mirador
Brochado, 1973
1065 ± 95
PR/ST/1
SI 695
Esquerda
Indianópolis
Brochado, 1973
610 ± 120
PR/ST/1
SI 696
Esquerda
Indianópolis
Brochado, 1973
300 ± 115
PR/FL/5
SI 693
Direita
Paraíso do Norte
Brochado, 1973
470 ± 100
PR/FL/5
SI 694
Direita
Paraíso do Norte
Brochado, 1973
135 ± 120
PR/FL/13
SI 698
Direita
Doutor Camargo
Brochado, 1973
1490 ± 45
PR/FL/21
SI 1011
Direita
Doutor Camargo
Brochado, 1973
560 ± 60
PR/FL/23
SI 700
Direita
Doutor Camargo
Brochado, 1973
590 ± 70
PR/FL/15
SI 699
Direita
Doutor Camargo
Brochado, 1973
Rio Paranapanema
Data A.P.
Sítio
Lab. nº
Margem
Município/Estado
Fonte
530 ± 55
PR/NL/7
SI 6400
Esquerda
Diamante do Norte
- PR
Chmyz, 1986
± 930*
Alvim
Direita
Pirapozinho - SP
Kashimoto, 1997
±1668*
Ragil
FATEC
Direita
Iepê - SP
Faccio, 1998
1130 ± 150
SP/AS/14
SI 422
Direita
Iepê - SP
Chmyz, 1969
± 1093*
Ragil 2
FATEC
Direita
Iepê - SP
Faccio, 1998
980 ± 100
SP/AS/14
SI 709
Direita
Iepê - SP
Smithsonian
± 755*
Neves
FATEC
Direita
Iepê - SP
Faccio, 1998
* = Datado por termoluminescência; ** = AP - Antes do Presente.
25
HISTÓRIA DO PARANÁ:
RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS
DA PRÉ-HISTÓRIA À
ECONOMIA CAFEEIRA
Figura 8 - Populações indígenas agricultoras ceramistas no Paraná.
Os Guarani
Dentre os povos pré-históricos e indígenas de que estamos tratando, os Guarani
são os mais conhecidos em termos arqueológicos, históricos, antropológicos e linguísticos. A denominação Guarani deine, ao mesmo tempo, a população e o nome
da língua por eles falada.
Uma série de estudos comparados – arqueológicos e linguísticos – realizados no leste
da América do Sul indica que os Guarani vieram das bacias dos rios Madeira e Guaporé.
A partir daí, ocuparam continuamente diversos territórios ao longo das bacias dos rios
Paraguai e Paraná até alcançar Buenos Aires, distante aproximadamente 3.000 km de seu
centro de origem. Expandiram-se ainda para a margem esquerda do Pantanal, nos atuais
Estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Também ocuparam o
Uruguai e o Paraguai. Conforme as datações já obtidas, excetuando-se o Uruguai, a foz do
rio da Prata e o litoral sul - brasileiro, as demais regiões citadas foram ocupadas desde há
pelo menos 2.500 anos AP. Eles mantiveram esses territórios até a chegada dos primeiros
europeus, que a partir de 1504 registraram em centenas de documentos os limites do
vasto domínio Guarani.
Os Guarani ocuparam os vales e as terras adjacentes de quase todos os grande
rios e seus aluentes. Eles raramente estabeleciam suas aldeias e roças em áreas campestres; a maioria dos sítios arqueológicos da Tradição Tupiguarani está inserida em
áreas cobertas por lorestas, seguindo o padrão de estabelecer as aldeias e as plantações em clareiras dentro da mata.
26
Podemos constatar, na bibliograia especializada sobre os Guarani, que eles possuíam um padrão para ocupar novas áreas sem, no entanto, abandonar as antigas. Os
grupos locais se dividiam com o crescimento demográico, ou por divisões políticas,
indo habitar áreas próximas, previamente preparadas por meio de manejo agrolorestal, isto é, abriam várias clareiras para instalar a aldeia e as plantações, inserindo seus
objetos e plantas nos novos territórios. Assim como levaram suas casas, vasilhas cerâmicas e outros objetos, os Guarani também transportaram de seus locais de origem diversas espécies de vegetais úteis para vários ins (alimentação, remédios, matérias-primas etc.), contribuindo para o aumento da biodiversidade lorística do sul do Brasil.
Nesse sentido, ocupavam as várzeas dos grandes rios, e com o passar do tempo, as
áreas banhadas por rios cada vez menores. Por exemplo, após dominar as terras próximas dos rios Ivaí, Pirapó e Tibagi, ocuparam trechos ao longo de alguns dos ribeirões
que banham o divisor de águas desses rios.
As aldeias tinham tamanhos variados, podendo comportar mais de mil pessoas organizadas socialmente por meio de relações de parentesco e de aliança política. Essas
famílias extensas viviam em casas longas, e cada aldeia poderia ter até sete ou oito
casas, as quais eram construídas de madeira e folhas de palmáceas, podendo abrigar
trezentas ou quatrocentas pessoas e alcançar cerca de trinta ou quarenta metros de
comprimento por sete ou oito metros de altura. Algumas aldeias, dependendo de sua
localização, poderiam ser fortiicadas, cercadas por uma paliçada.
A cultura material era composta por centenas – talvez milhares – de objetos confeccionados para servir a diversos ins, e a maioria era feita com materiais perecíveis
(ossos, madeiras, penas, palhas, ibras vegetais, conchas etc.), e em minoria de não
perecíveis (vasilhas cerâmicas, ferramentas de pedra, corantes minerais). Desse conjunto, normalmente restaram apenas as vasilhas e as ferramentas de pedra e, eventualmente, esqueletos humanos e de animais diversos, conchas e ossos usados como
ferramentas ou enfeites. O reconhecimento da existência desses objetos perecíveis,
salvo condições raras de conservação, só é possível por meio de informações obtidas
indiretamente por pesquisas históricas, linguísticas e antropológicas.
A ocupação humana
dos territórios do Paraná
até a chegada das
populações europeias
em 1500
27
HISTÓRIA DO PARANÁ:
RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS
DA PRÉ-HISTÓRIA À
ECONOMIA CAFEEIRA
Figura 9 - Fragmento cerâmico Guarani.
Fonte: Acervo Laboratório de Arqueologia, Etnologia e Etno-história da UEM.
Foto: Lucio Tadeu Mota.
Figura 10 - Fragmento cerâmico Guarani.
Fonte: Acervo Laboratório de Arqueologia, Etnologia e Etno-história da UEM.
Foto - Lucio Tadeu Mota.
28
Os Xetá
O povo Xetá é conhecido e nominado na literatura, nos relatos de viajantes e fontes
documentais, como Botocudo, Héta, Chetá, Setá, Ssetá, Aré e Yvaparé. Foi o último
grupo indígena contatado no Paraná, no inal da década de 1940 e início de 1950,
quando a frente de ocupação cafeeira chegou ao seu território tradicional que se estendia pelas margens do baixo rio Ivaí até a sua foz no rio Paraná.
A presença dos grupos Xetá no rio Ivaí e seus aluentes foi registrada por viajantes
e exploradores desses territórios desde a década de 1840, quando Joaquim Francisco
Lopes e John H. Elliot – empregados do Barão de Antonina – izeram contato com
alguns deles nas imediações da foz do rio Corumbataí, no Ivaí. Posteriormente, em
1872, o engenheiro inglês Thomas Bigg-Whiter capturou um pequeno grupo nas proximidades do Salto Ariranha, também no rio Ivaí. No início do século XX, em 1910,
Albert V. Fric ouviu dos Kaingang a informação da presença de pequenos grupos Xetá
no interlúvio dos rios Ivaí e Corumbataí, muito acima do local onde os Xetá foram
contatados nos anos de 1950.
Junto ao grupo Kaingang do cacique Paulino Arak-xó que vivia no salto Ubá, no rio Ivaí,
Fric encontrou cativos Xetá, com os quais efetuou um primeiro registro de vocabulário.
Esses locais de caça e coleta, os encontros e confrontos com os exploradores do
rio Ivaí, e os conlitos com os Kaingang, que resultavam em capturas e dispersão dos
Xetá, fazem parte da memória de sobreviventes Xetá mais velhos. Um deles teve seu pai
capturado no início do século XX, tendo o mesmo conseguido fugir e retornado para
seu grupo familiar na região da Serra dos Dourados (SILVA, 1998; 2003).
Nessas primeiras décadas do século XX, muitos outros contatos foram noticiados,
mas foi na região conhecida como Serra dos Dourados, onde hoje estão implantados
os municípios de Umuarama, Ivaté, Douradina, Icaraíma, Maria Helena, Nova Olímpia,
entre outros, que a partir de 1954, 1955 e mais especiicamente em fevereiro de 1956
que se deu o mais documentado encontro com um grupo Xetá com professores da
UFPR e membros do Serviço de Proteção ao Índio-SPI da 7ª Regional de Curitiba5.
Apesar dos esforços dos professores da Universidade Federal do Paraná (UFPR), do
Conselho Nacional de Política Indigenista (CNPI) e de funcionários do SPI, o Governo
do Estado do Paraná vendeu os territórios Xetá para as Companhias de Colonização,
que os loteou para revenda aos interessados no cultivo de café na região.
Até a década de 1990, os Xetá eram tidos pelo órgão indigenista brasileiro – Fundação Nacional do Índio (FUNAI) - como grupo extinto ou quase extinto, pois constam
A ocupação humana
dos territórios do Paraná
até a chegada das
populações europeias
em 1500
5 Um deles viveu até o ano de 2008 e foi um dos colaboradores ativo do estudo de Silva (1998; 2003).
29
HISTÓRIA DO PARANÁ:
RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS
DA PRÉ-HISTÓRIA À
ECONOMIA CAFEEIRA
nos seus dados populacionais apenas cinco pessoas. No entanto, a pesquisa antropológica de Carmen Lúcia da Silva apontou que, ao contrário do que se airmava nos
levantamentos oiciais, os Xetá não estavam extintos.
Em 1997, por solicitação dos Xetá, foi realizado o primeiro encontro dos sobreviventes dos Xetá em Curitiba, intitulado “Encontro Xetá: Sobreviventes do Extermínio”, com o apoio do Instituto Socioambiental (ISA) e do Museu de Arqueologia e
Etnologia da UFPR (MAE), do qual participaram todos os sobreviventes do grupo,
crianças, jovens, mais velhos e cônjuges, além do Prof. Dr. Aryon Dall’Igna Rodrigues, que efetuou os primeiros estudos da língua Xetá junto a um grupo familiar na
década de 1960 (1960; 1961) e posteriormente em 1967.
Como resultado desse encontro, esse grupo solicitou seu reconhecimento enquanto pertencentes à etnia Xetá e a retiicação de seus nomes nos registros civis
levando em conta os registros que já vinham trabalhando na pesquisa antropológica,
na qual apresentavam como se dava o sistema de nominação do grupo. Também colocaram em pauta a indenização inanceira de suas perdas e a recuperação de seus
territórios tradicionais na Serra dos Dourados, bem como reivindicaram o retorno a
seu território de origem, nominando-o como Terra Indígena Herarekã Xetá.
Atualmente, os Xetá somam aproximadamente 100 (cem) pessoas, totalizando
25 (vinte e cinco) famílias. Estão em processo de luta para o reconhecimento de seu
território tradicional junto à Finai, para o reconhecimento de seus direitos e para
reconstituírem-se enquanto povo e revitalizarem a sua cultura. Além da demanda
para reaverem parte de seus territórios, os Xetá solicitaram ao Estado do Paraná
um atendimento especíico e diferenciado de educação escolar indígena bilíngue
Português/Xetá; ensino da história de sua cultura na escola; produção de literatura e
materiais didáticos que retratem a realidade do povo, trazendo inclusive a memória
coletiva da antiga sociedade narrada por seus pais, hoje considerados “guardiões da
memória Xetá” (SILVA, 2003). E os Xetá não querem mais aparecer na história, nos
livros e na imprensa como um povo extinto.
Os Kaingang
A denominação Kaingang deine genericamente, e ao mesmo tempo, a população
e o nome da língua por ela falada.
Embora exista uma volumosa bibliograia e inumeráveis conjuntos de documentos não publicados sobre eles, ainda se conhece pouco sobre os seus ascendentes
pré-históricos.
Os resultados de estudos comparados – Arqueologia e Linguística – apontam o
Brasil central como a região de origem dos Kaingang, que ocuparam imensas áreas
30
dos Estados da Região Sul, parte meridional de São Paulo e o leste da Província de
Missiones na Argentina. Embora não existam ainda datas mais antigas do que as dos
Guarani, é provável que os Kaingang e os Xokleng tenham chegado primeiro ao
Paraná, pois em quase todo o Estado os sítios Guarani estão próximos ou sobre os
sítios arqueológicos dos Kaingang e Xokleng.
Com a chegada dos Guarani, à medida que estes conquistavam os vales dos rios,
os Kaingang foram empurrados para o centro-sul do Estado e/ou coninados nos
territórios interluviais e os Xokleng foram impelidos para os contrafortes da Serra
Geral, próximos do litoral. A partir do inal do século XVII, quando as populações
Guarani tiveram uma drástica redução, os Kaingang voltaram a se expandir por todo
o centro do Paraná.
Em meados do século XVIII, com as primeiras expedições coloniais nos territórios hoje denominados Paraná, foi possível conhecer parcialmente a toponímia
empregada pelos Kaingang para nominar seus territórios: Koran-bang-rê (campos
de Guarapuava); Kreie-bang-rê (campos de Palmas); Kampo-rê (Campo Ere - sudoeste); Payquerê (campos entre os rios Ivaí e Piquiri, hoje nos municípios de Campo
Mourão, Mamborê, Ubiratã e outros adjacentes); Minkriniarê (campos de Chagu,
oeste de Guarapuava, no município de Laranjeiras do Sul); campos do Inhoó (em
São Jerônimo da Serra).
A ocupação humana
dos territórios do Paraná
até a chegada das
populações europeias
em 1500
Figura 9 - Os Kaingang e a produção de cerâmica.
31
HISTÓRIA DO PARANÁ:
RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS
DA PRÉ-HISTÓRIA À
ECONOMIA CAFEEIRA
Os Xokleng
A denominação “Xokleng” deine genericamente e ao mesmo tempo a população
e o nome da língua por eles falada. Na bibliograia arqueológica, eles são conhecidos
como “Tradição Itararé”. Apesar da volumosa bibliograia e inumeráveis conjuntos de
documentos não publicados a seu respeito, também ainda se conhece pouco sobre os
seus ascendentes pré-históricos. Sua chegada e presença no Paraná já foram resumidas
no item sobre os Kaingang, necessitando ainda de mais pesquisas para corroborar
ou desabonar as conclusões e hipóteses vigentes. Suas aldeias eram geralmente pequenas, no interior das lorestas, abrigando habitantes pouco numerosos. Também
ocupavam abrigos sob rocha e casas semissubterrâneas. Fabricavam vasilhas cerâmicas
semelhantes às dos Kaingang a tal ponto, que devido às pesquisas pouco sistemáticas
realizadas até o presente, ainda é problemático deinir claramente as diferenças.
Mapa 1 - Atuais Terras Indígenas no Paraná
32
Quadro 3 - Terras Indígenas no Paraná por Bacias Hidrográicas
Bacia do Rio Paraná
o
N
Etnias
Município(s)
Área (Ha) (Funai)
01
Tekohá Ocoí
Terras Indígenas
Guarani Nhandéwa
São Miguel do Iguaçu
231
Popul. IBGE/Funasa
630
02
Tekohá Añetete
Guarani Nhandéwa
Diamante D’Oeste
1.744
422
03
Tekohá Itamarã
Guarani Nhandéwa
Diamante d’Oeste
242
68
04
Tekohá Porá
Guarani Nhandéwa
Guaíra
56
28
05
Tekohá Marangatú
Guarani Nhandéwa
Guaíra
80
105
06
Tekohá Araguajú
Guarani Nhandéwa
Terra Roxa
20
79
A ocupação humana
dos territórios do Paraná
até a chegada das
populações europeias
em 1500
Bacia dos Rios das Cinzas e Laranjinha
Terras Indígenas
Etnias
Área (Ha) (Funai)
Popul. IBGE/Funasa
Tomazina
593
104
Guarani Nhandéwa
Santa Amélia
284
181
Guarani Nhandéwa
Abatia, Cornélio Procópio e
Ribeirão do Pinhal
1.238
64
Área (Ha)
Popul. IBGE/Funasa
07
Pinhalzinho
Guarani Nhandéwa
08
Laranjinha
09
Yvyporã Laranjinha
Município(s)
Bacia do Rio Tibagí
Terras Indígenas
Etnias
Município(s)
10
Apucarana
Kaingang
Tamarana
5.575
1.396
11
Barão de Antonina
Kaingang
São Jerônimo da Serra
3.750
395
São Jerônimo
Kaingang Guarani
Xetá
São Jerônimo da Serra
1.339
484
12
13
Mococa
Kaingang
Ortigueira
859
160
14
Queimadas
Kaingang
Ortigueira
3.077
426
Área (Ha)
Popul. IBGE/Funasa
Bacia do Rio Ivaí
Terras Indígenas
Etnias
Município(s)
15
Faxinal
Kaingang
Cândido de Abreu
2.043
600
16
Ivaí
Kaingang
Manoel Ribas e Pitanga
7.306
1687
17
Marrecas
Kaingang e Guarani
Turvo e Guarapuava
16.838
551
Área (Ha)
Popul. IBGE/Funasa
7.344
116
Bacia do Rio Piquiri
Terras Indígenas
18
Koho Mu Boa Vista
Etnias
Kaingang
Município(s)
Laranjeiras do Sul
Bacia do Rio Iguaçu
Terras Indígenas
Etnias
Município(s)
Área (Ha)
Popul. IBGE/Funasa
16.375
1195
19
Mangueirinha
Kaingang e Guarani
Mangueirinha, Chopinzinho e
Coronel Vivida
20
Rio das Cobras
Kaingang Guarani
M’byá
Nova Laranjeiras, Espigão
Alto do Iguaçu
18.681
2109
21
Palmas
Kaingang
Palmas (PR) e Abelardo Luz
(SC)
3.800
761
22
Rio Areia
Guarani Nhandéwa
Inácio Martins
1.352
112
23
Kakané Porá
Guarani Kaingang
e Xeta
Curitiba
44
35 Famílias
24
Araçaí
Guarani M’byá
Piraquara
70
70
Área (Ha)
População IBGE e
Funasa
Litoral
Terras Indígenas
Etnias
Município(s)
25
Ilha da Cotinga
Guarani M’byá
Paranaguá
1.701
69
26
Guaraguaçu
Guarani M’byá
Pontal do Paraná
670
15
27
Cerco Grande
Guarani M’byá
Guaraqueçaba
54
26
28
Morro das Pacas
Guarani M’byá
Guaraqueçaba
?
28
Total: 28 Terras Indígenas: 20 demarcadas, e 08 Terras Indígenas a serem identiicadas
16 Guarani
08 Kaingang
04 Guarani, Xetá e Kaingang
Obs.: Dados de 2009.
33
HISTÓRIA DO PARANÁ:
RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS
DA PRÉ-HISTÓRIA À
ECONOMIA CAFEEIRA
Proposta de Atividades
1) Você já viu alguma família indígena circulando por sua cidade?
2) Por ocasião da chegada dos europeus no Paraná, quais eram povos indígenas que aqui se
encontravam?
3) Recolha junto a sua comunidade (cidade, bairro ou vizinhos) o que eles sabem sobre os
índios no Paraná.
Anotações
34
2
O Paraná colonial:
da chegada dos
primeiros europeus em
1500 até a emancipação
da província em 1853
A CHEGADA DOS PRIMEIROS EUROPEUS NOS TERRITÓRIOS INDÍGENAS NO PARANÁ
Os contatos dos europeus com os antigos habitantes da região ocorreram já no início do século XVI, com os primeiros navegantes que aportaram ou passaram pelo litoral
paranaense, e pelas primeiras expedições portuguesas e espanholas que percorreram o
interior do Paraná rumo ao império inca.
Os primeiros navegantes europeus que aportaram ou passaram pelo litoral do Paraná
nos trinta primeiros anos do século XVI izeram os primeiro contatos com as populações
de índios Guaranis – na época, chamados de Carijós – e com eles possivelmente estabeleceram relações comerciais e culturais. E foi através desses Guarani do litoral que as populações indígenas sediadas nos territórios interioranos souberam da presença de homens
brancos vindos de terras distantes de além mar.
Foram inúmeras as caravelas que passaram ou aportaram no litoral nesses primeiros
trinta anos, como veremos a seguir.
Quando os primeiros europeus começaram a desembarcar no litoral sul do Brasil para
abastecerem seus navios com água, lenha e alimentos, ou aí foram deixados como desterrados ou náufragos, eles tomaram conhecimento, por meio dos Guarani, das enormes
riquezas existentes a oeste dos seus territórios. Em conjunto com esses índios, prepararam
expedições para irem até as terras onde existiriam ouro e prata em abundância. Começou
então o processo de desvendamento e conquista dos territórios indígenas do interior do
que seria mais tarde o Estado do Paraná.
Quadro 1 - Primeiros desembarque de europeus no Sul do Brasil
Data
Viajante
Armada
Locais de Chegada
Desembarque
1501/08/17
Gonzalo
Coelho Américo
Vespúcio
3 Caravelas
Cananéia, SP
Oceano Atlântico 53º
L. Sul altura de Punta
Arenas na Patagonia
Em Cananéia 15/02/1502,
G. Coelho deixa um
degredado (Bacharel de
Cananéia)
35
HISTÓRIA DO PARANÁ:
RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS
DA PRÉ-HISTÓRIA À
ECONOMIA CAFEEIRA
36
Data
Viajante
Armada
Locais de Chegada
Desembarque
1504/01/05
Binot Paumier
de Gonneville
L’Espoir 120
toneladas
São Francisco do Sul
SC,
Permanece nesse local por
seis meses, janeiro a julho
de 1504
Data
Viajante
Armada
Locais de Chegada
Desembarque
1514/07/00
Estevão Frois e
João de Lisboa
2 Caravelas
Cabo de Santa Maria
Punta del Leste Uruguai
Encontro com os índios
Charruas depois de subirem
300 km pelo Rio da Prata
O Paraná colonial:
da chegada dos
primeiros europeus em
1500 até a emancipação
da província em 1853
Data
Viajante
Armada
Locais de Chegada
Desembarque
1516/01/00
Juan Dias de
Solis
2 Caravelas
Cananéia, Santa
Catarina, Rio da Prata
Solis e seus homens foram
mortos na embocadura do
rio Uruguai no Rio da Prata,
icando vivo Francisco Del
Puerto um grumete de 14
anos.
1516/08/00
Cristóvão
Jaques
3 Naus
Cabo Frio, Rio de
Janeiro, Santa Catarina
Jaques fora nomeado guarda
costa do Brasil, e perseguiu
os espanhóis e franceses
que aqui aportaram.
1519/12/13
Fernando de
Magalhães
4 Naus e 1
Caravela
Rio de Janeiro, Rio da
Prata (1520/01/11)
1521/00/00
Cristóvão
Jaques
1526/08/00
Jofre de
Loyasa
D.Rodrigo de
Acuña
2 Caravelas
Santa Catarina
Em SC, recolheu Melchior
Ramires um dos náufragos
da expedição de Solis, e
subiram 200 km acima no rio
Prata na Ilha de São Gabriel,
onde encontraram Francisco
Del Puerto, e mais 140 km
até onde hoje é a cidade
Argentina de Rosário.
Porto dos Patos, SC
Estavam percorrendo na
rota de Magalhães e por
mau tempo tiveram que
voltar à costa do Brasil.
1526/10/31
Sebastião
Caboto
(Veneziano)
3 Naus
Santa Catarina
Caboto encontrou Henrique
Montes, naufrago de Solis,
que lhe deu notícias da
expedição de Aleixo Garcia
ao Peru. Caboto entrou no
rio da Prata, navegou os rios
Paraguai e Paraná.
1528/05/07
Diego Garcia
1 Nau e 1
Galeão
São Vicente, Cananéia
(1528/01/15),
Encontrou
com
Caboto
descendo o rio Paraná, seu
destino era as Ilhas Molucas,
na Ásia.
1531/01/00
Martin Afonso
de Souza
1 Galão,
2 Naus, 2
Caravelas
Percorreu o litoral sul
do Brasil até Punta Del
Leste, no Uruguai
Pero Lopes subiu o rio
Paraná e também estiveram
na Baia de Paranaguá .
1535/00/00
Pedro de
Mendonça
Percorreu o litoral do
Brasil e foi fundar a
cidade de Buenos Aires
37
HISTÓRIA DO PARANÁ:
RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS
DA PRÉ-HISTÓRIA À
ECONOMIA CAFEEIRA
Em 1522, Aleixo Garcia empreendeu a primeira viagem terrestre de europeus pelo
interior do sul do Brasil. Tinha por objetivo descobrir de onde provinham as peças de
ouro encontradas na costa de Santa Catarina. A expedição, que durou aproximadamente três anos, partiu do litoral de Santa Catarina, passando pelo interior do Paraná,
Paraguai e Bolívia, até alcançar a fronteira do império Inca1. No retorno, Garcia foi
morto pelos Guarani nas proximidades de Foz do Iguaçu, por volta de 1525. Todas as
informações sobre essa expedição são indiretas, baseadas em relatos de outros cronistas dos séculos XVI e XVII.
Poucos anos depois, em 1531, visando a retomar os reconhecimentos empreendidos por Aleixo Garcia, partiu de Cananéia uma expedição liderada por Pero Lobo, com
oitenta portugueses e diversos índios Tupi da costa. É provável que a expedição tenha
seguido o caminho previamente percorrido por Garcia e teve o mesmo destino deste:
também foi aniquilada nas proximidades de Foz do Iguaçu pelos Guarani2.
Dez anos depois, quando já havia sido criada a cidade de Nossa Senhora de Assunção
a capital do Paraguai, Dom Alvar Nuñez Cabeza de Vaca, após várias aventuras na América do Norte, veio tomar posse e comandar a província do Paraguai em nome do rei da
Espanha. Desembarcou na ilha de Santa Catarina, e no inal de 1541, partindo da foz
do rio Itapucu, rumou para Assunção no Paraguai, onde chegou quatro meses depois
acompanhado por 250 arcabuzeiros e balesteiros. Durante a expedição, foi acompanhado por centenas de índios Guarani. A cada novo território que ingressava a expedição
dispensava os acompanhantes do território anterior, e mediante pagamentos em espécie (machados, contas, etc.) integrava novos guias para o percurso seguinte. Subiram a
Serra do Mar, alcançaram o rio Negro (na altura de Rio Negrinho - SC) e desceram até a
sua desembocadura, no rio Iguaçu. Para contornar o território dos Kaingang3, tiveram
de subir o Iguaçu, e a certa altura se dirigiram ao rio Tibagi e seguiram seu curso. Nas
proximidades da foz do rio Iapó, atual cidade de Tibagi, a expedição dirigiu-se para oeste até chegar ao rio Ivaí, e, a seguir, rumando para o sudoeste, passou pelo rio Piquiri
até alcançar o rio Iguaçu, a poucos quilômetros de sua foz. Dali, seguiu até Assunção.
1 Métraux, Alfred. Migrations historiques des Tupi-guarani. Journal de la société des Americanistes,
n.s., 19:1-45. 1927.
2 Holanda, Sérgio Buarque de. Visão do Paraíso. 1985, p. 82.
3 O Barão de Capanema sustenta que Cabeça de Vaca deu uma volta de mais de oitenta léguas, evitando seguir diretamente pelas margens do rio Iguaçu ou pelos campos de Guarapuava ao norte e
os campos de Palmas ao sul desse rio porque eram territórios ocupados por índios ferozes, mais
valentes que os guaranis. (Cf. CAPANEMA. Questões a estudar em relação aos princípios da nossa
história. RIHGB, 52(1):499-509). Cabeza de Vaca evitou transitar pelos territórios dos Kaingang, e por
isso desviou-se dos Koran-bang-rê (campos de Guarapuava) e dos Kreie-bang-rê (campos de Palmas) e
seguiu o caminho indicado pelos Guarani.
38
O relato de Alvar Nunez Cabeza de Vaca é importante na medida em que descreve,
ao longo de sua expedição, o contato e a entrada em territórios pertencentes a diferentes grupos Guarani, e desvia no seu trajeto dos territórios Kaingang em Guarapuava e
Palmas. Esse foi o primeiro documento a informar que quase todo o interior do Paraná
estava habitado e, ao mesmo tempo, mostrar que havia uma divisão política entre esses
diversos grupos de mesma matriz cultural, organizados politicamente em cacicados.4
E ainda que indiretamente, devido à imensa volta que a expedição fez, não seguindo
o vale do rio Iguaçu, nos dá uma noção da extensão do território dominado pelos
Kaingang nos Koran-bang-rê (Campos de Guarapuava).
O Paraná colonial:
da chegada dos
primeiros europeus em
1500 até a emancipação
da província em 1853
Figura 1 - Rota aproximada da expedição de
Dom Alvar Nuñez Cabeza de Vaca em 1541 pelo interior do Paraná.
Em 1544, Domingos Martínez de Irala, então governador do Paraguai, saiu de Assunção e dirigiu-se ao Guairá apresar índios para as encomiendas. Fundou a cidade
de Ontiveros junto ao rio Paraná, pouco acima da foz do Iguaçu. No início da década
seguinte, em 1551, Diego de Sanabria viajou pelo mesmo itinerário de Cabeza de Vaca.
Ainda nesse ano, Cristoval de Saavedra atravessou a região vindo do Paraguai até o
porto de São Vicente, em São Paulo. No ano seguinte, Hernando de Salazar também
fez o mesmo roteiro de Assunção no Paraguai até o porto de São Vicente, em São
Paulo. Esse roteiro também foi o percorrido por Ulrich Schmidl nesse mesmo ano,
que partiu de Assunção, em 1552, acompanhado de 20 índios Guarani, na época
denominados Carijós, com destino ao porto de Santos, onde chegou em 1553.
4 Conjunto de aldeias sob a liderança de um prestigioso cacique, que dominava certas porções de
territórios bem deinidos.
39
HISTÓRIA DO PARANÁ:
RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS
DA PRÉ-HISTÓRIA À
ECONOMIA CAFEEIRA
Ruy Dias Melgarejo, em 1553/1554, percorreu duas vezes o interior do Paraná,
desde Ontiveros até São Vicente e regressou em 1555 partindo do litoral, em Santa
Catarina, seguindo o mesmo roteiro de Cabeza de Vaca, pois ele participara, em
1541, da expedição de Don Alvar Nunez. Melgarejo teve um destacado papel entre
os conquistadores espanhóis no interior do Paraná, pois conduziu a fundação de
Ciudad Real del Guairá (foz do rio Piquiri, município de Terra Roxa) e da 2a fundação
de Villa Rica del Spiritu Sancto (junto à foz do rio Corumbataí, município de Fênix,
hoje Parque Estadual de Vila Rica do Espírito Santo)5.
O ano de 1555 foi marcado por várias ocorrências nesses territórios. Francisco de
Gambarrota veio do Paraguai até o porto de São Vicente em São Paulo. Nulo Chaves
saiu de Assunção para combater e apresar índios no Guairá e Juan de Salazar e Cipriano de Góes izeram o caminho inverso, partindo de São Vicente para o Paraguai.
Em 1588, os padres Manuel Ortega, Juan Saloni e Thomas Fields percorreram
a região do Guairá com a inalidade de conhecer o potencial humano para futuros trabalhos missionários, a exemplo do que já ocorria na costa do Brasil desde
1549. Informaram aos seus superiores a existência de milhares de índios Guarani
na região, bem como reconheceram uma série de peculiaridades culturais, sociais e
políticas que seriam úteis alguns anos depois. Era o início das atividades religiosas
no Guairá, onde os conquistadores passaram a veicular os elementos básicos da sua
cultura através dos padres jesuítas.
Enquanto isso, a conquista continuou por seus meios tradicionais. Muitas vezes
os conquistadores foram derrotados, como em 1601, quando Hernán Arias de Saavedra combateu os índios de uma parte do Guairá e foi derrotado pelos guerreiros de
Guairacá. A exploração das populações indígenas pelos conquistadores não ocorreu
sem obstáculos, como airmam muitos autores, e a conquista dos seus territórios
também não aconteceu de forma pacíica. Em todos os momentos, e por várias etnias, a resistência foi renhida e sangrenta. O território do Guairá, que compreendia
quase todo o Estado do Paraná, foi local de trânsito de portugueses e espanhóis que
iam e vinham de Assunção em direção às vilas do litoral brasileiro, sendo palco de
guerras variadas e constantes. A conquista desses territórios foi feita palmo a palmo com o uso da espada, do arcabuz, da besta, da cruz, de doenças e de acordos.
Alianças foram estabelecidas e rompidas, e de ambas as partes idelidades foram
sacramentadas e traições meticulosamente planejadas.
5 Francisco de Assis Carvalho Franco. Dicionário de Bandeirantes e Sertanistas do Brasil. 1954,
p. 241.
40
ESPANHÓIS, ÍNDIOS, JESUÍTAS E BANDEIRANTES NO GUAIRÁ
No limiar do seiscentos, os portugueses chegaram na região em busca do seu
butim: escravos indígenas para o trabalho nas fazendas paulistas, metais preciosos e
outras riquezas6. Porém, desde a fundação de São Vicente eles já preavam os Guarani
do litoral e da encosta das serras paranaenses.
Em 1602, Nicolau Barreto desceu o rio Paraná, passando pelo Guairá, rumo às
minas de Potosi, no Peru. Em 1607, foi a vez de Pedro Franco de Torres atravessar
a região rumo ao Paraguai, fazendo o roteiro já conhecido desde meados do século XVI. Nesse mesmo ano, Manuel Preto, um dos maiores preadores de índios da
época, dirigiu uma bandeira para o aprisionamento dos índios Guarani nas proximidades da cidade espanhola de Vila Rica do Espírito Santo. Procurando medidas estratégicas para conter as investidas dos bandeirantes paulistas contra o “seu butim”,
o Rei da Espanha criou a Província del Guairá em 1608, que era praticamente quase
todo o Paraná. Ignorando as medidas protecionistas da coroa espanhola, Manuel
Preto, acompanhado pelo temido Raposo Tavares, voltou ao Guairá em busca de
mais índios nos anos de 1611, 1618, 1623 e 1628. Seu im foi a morte por ferimentos
de lechas em plena campanha de aprisionamento de índios no sul do Brasil7.
As primeiras décadas do século XVII foram marcadas por uma intensiicação das
ações dos europeus no Guairá. De um lado, tivemos os choques entre os índios Guarani e os encomendeiros espanhóis, que os exploravam no trabalho semiescravo da
coleta da erva-mate. Os padres jesuítas, em sua pregação religiosa, tentavam inculcar
os valores da sociedade invasora junto às populações indígenas existentes na região.
Contrariando os interesses dos encomendeiros espanhóis e dos padres da Companhia de Jesus, vieram os paulistas com a intenção de buscar seu butim. De uma
perspectiva oposta, os índios faziam uma leitura própria da conjuntura, resultando
eventualmente em alianças, acordos e guerras, complexiicando o entendimento
sobre os fatos ocorridos em suas relações com os invasores de seus territórios. Disso resulta que a análise histórica da ocupação da região não pode ser dicotômica:
índios contra brancos ou vice-versa. Devemos considerar os grupos conquistadores
europeus e seus interesses localizados, bem como os Guarani e os Kaingang, que
eram inimigos e que estrategicamente estabeleceram alianças entre si. Alianças explícitas ou não, o fato de que em determinados momentos um grupo indígena podia procurar as reduções, mesmo sendo refratário à pregação missionária, podendo
O Paraná colonial:
da chegada dos
primeiros europeus em
1500 até a emancipação
da província em 1853
6 Sobre a preação de índios na região para o trabalho escravo em São Paulo, ver o livro de John M.
MONTEIRO. Negros da Terra, São Paulo, 1994.
7 Cf. Victor de AZEVEDO. Manuel Preto “O Herói de Guairá”, São Paulo, 1983.
41
HISTÓRIA DO PARANÁ:
RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS
DA PRÉ-HISTÓRIA À
ECONOMIA CAFEEIRA
signiicar apenas uma tática política momentânea para se livrar dos invasores paulistas ou do trabalho escravo nas encomiendas espanholas.
Os padres da Companhia de Jesus fundaram, junto com os índios, quatorze Reduções nos vales dos rios Paraná, Iguaçu, Piquiri, Ivaí, Paranapanema e Tibagi. Instaladas no vale do Paranapanema estavam as Reduções de Nossa Senhora do Loreto
e Santo Ignácio. No vale do Tibagi se localizavam São José, São Francisco Xavier,
Encarnación e São Miguel. Nas margens do Ivaí icavam Jesus Maria, Santo Antônio
e São Paulo; no rio Corumbataí foram instaladas São Tomas e a dos Sete Arcanjos.
Nas cabeceiras do rio Piquiri implantaram São Pedro e Concepção; no médio Piquiri,
Nossa Senhora de Copacabana. Todas foram destruídas pelas invasões dos bandeirantes paulistas no inal da terceira década do século XVII8.
Assim como os espanhóis e os jesuítas, os bandeirantes paulistas também transitaram intensamente na região, e com toda certeza pelos caminhos e trilhas construídos pelos índios, até que por volta de 1630 tinham destruído todas as Reduções
Jesuíticas do Guairá.
Diferente dos espanhóis, que fundaram duas cidades – Ciudad Real del Guairá
e Vila Rica del Spiricto Sancto – os paulistas não tiveram essa preocupação, foram
responsáveis pela primeira construção militar no vale do rio Tibagi. Em 1628, Antônio Raposo Tavares e Manoel Preto, ao atacarem o Guairá, construíram um forte
ou campo entrincheirado na margem esquerda do rio Tibagi, provavelmente no município de Ortigueira, nas imediações de Natingui. O padre Simão Maceta se refere
a esse campo como ponto de apoio ou quartel de inverno dos bandeirantes, “una
palisada fuerte de palos, cerca de nuestras aldeas”9.
8 Sobre a construção e a destruição das Reduções Jesuíticas, ver: Jaime CORTESÃO. Bandeirantes e
Jesuítas no Guairá. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, 1951.
9 Davi CARNEIRO. O Paraná na História Militar do Brasil. Curitiba, Tipograia João Haupt & Cia,
1942, p. 10.
42
O Paraná colonial:
da chegada dos
primeiros europeus em
1500 até a emancipação
da província em 1853
Destruídas as Reduções Jesuíticas, as populações indígenas se dispersaram, parte
foi para o sul junto com os padres fundar os sete povos das missões no Rio Grande
do Sul, outra parte voltou a reocupar seus antigos territórios. Mas a região não
deixou de ser um atrativo para os paulistas tentarem aumentar seu butim. A partir
de 1651, Fernão Dias Paes Leme icou por três anos na região da Serra da Apucarana e submeteu os caciques da nação Guaianá, ancestrais dos Kaingang, levando-os
prisioneiros para São Paulo com todo o seu povo. Pedro Taques na Nobiliarquia
Paulistana relata essa expedição:
43
HISTÓRIA DO PARANÁ:
RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS
DA PRÉ-HISTÓRIA À
ECONOMIA CAFEEIRA
Penetrou Fernão Dias Paes o sertão do sul até o centro da serra de Apucarana,
no reino dos índios da nação Guyanãa, pelos annos de 1651; nelle existiu alguns annos, tendo estabelecido arraial com o troço das suas armas, para vencer
a reducção daquelle reino, que se dividia em três differentes reis. (...) Poz-se em
marcha o grande corpo daquelles reinos e todos seguiam gostosos esta transmigração debaixo do commando inteiramente do seu conquistador e amigo
Fernão Dias (TAUNAY, 1995, p. 167)10.
Esse fato ainda requer estudos mais aprofundados, pois certamente os índios não
seguiram o “amigo” Fernão Dias. O paulista invasor teve de permanecer vários anos
na região, estabelecendo um arraial; provavelmente um local fortiicado aos moldes
do construído em 1628 por Raposo Tavares para conter o ataque dos índios. Taques
fala em cerco imposto por Fernão Dias às plantações desses índios. Também fala de
três caciques, Tombu, Sondá e Gravitay. Este último morreu antes da partida para São
Paulo; Sondá morreu na marcha (podemos sugerir a hipótese de que teria havido uma
resistência desses caciques em seguir o bandeirante). Apenas o primeiro, Tombu, chegou a Santana do Paraíba em São Paulo, onde morreu alguns anos depois.
O POVOAMENTO DO LITORAL E AS ORIGENS DE CURITIBA
Desde os primeiros anos de 1500, os europeus aportaram na região e a baía de
Paranaguá já era conhecida dos navegantes. Ocupada primeiramente pelas populações
construtoras dos Sambaquis, em 1500 ela era habitat dos Guarani, então chamados de
Carijós. Eles denominaram esse grande estuário Paranaguá, que em Guarani signiica
Paraná-guá, algo como seio do mar ou grande mar redondo.
Uma das primeiras informações que temos da região foi o esboço de um mapa feito
por Hans Staden quando aqui esteve junto com Martim Afonso de Sousa e seu irmão
Pero Lopes de Souza, em 1534, por ocasião da posse de suas Capitanias Hereditárias
no sul do Brasil.
10 Cf. Affonso de E. TAUNAY. A grande vida de Fernão Dias Pais. São Paulo, 1955, p. 167.
44
O Paraná colonial:
da chegada dos
primeiros europeus em
1500 até a emancipação
da província em 1853
Figura 2 - Litoral do Paraná.
Fonte: Hans Staden, 2000.
Na sequência, a região passou a ser frequentada por faiscadores de ouro e preadores de índios vindos de São Vicente, no litoral paulista, desde 1554. Foram várias
as bandeiras que percorreram o litoral do Paraná nesse período. Em 1585, Jerônimo
Leitão; em 1594, Jorge Coréia; em 1595, Manoel Soeiro; em 1617, foi a vez da bandeira
de Antonio Pedroso, até que se descobre ouro nos ribeirões da região e tem-se o início
do povoamento deinitivo e da fundação das primeiras vilas do litoral.
Paranaguá
A primeira Sesmaria foi requerida por Diego de Unhate em 1614 e abrangia vastos territórios no rio Superagui. Anos mais tarde, Gabriel de Lara fundou uma povoação na ilha da Cotinga, depois transferida para o continente. Mas em seis de
janeiro de 1646 foi levantado o Pelourinho, e em junho de 1648 ocorreu a primeira
eleição para a Câmara Municipal de Paranaguá. As possibilidades de gerar riquezas
no garimpo de ouro nos riachos da serra e do planalto aumentaram a importância da
região diante da coroa. Tanto que em 1660 Gabriel de Lara foi nomeado Capitão-Mor
da Capitania de Nossa Senhora do Rosário de Paranaguá, a qual existiu até 1709, mas
45
HISTÓRIA DO PARANÁ:
RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS
DA PRÉ-HISTÓRIA À
ECONOMIA CAFEEIRA
a partir de 1711, com a diminuição das atividades do faiscamento do ouro, perdeu o
status de capitania e foi integrada à Capitania de São Paulo como a Quinta Comarca
de Paranaguá e Curitiba11.
Figura 3 - Vista de Paranaguá no século XIX.
Fonte: Debret.
Antonina
Como as outras vilas do litoral, Antonina também surgiu em função da presença
de faiscadores de ouro na região. No entanto, a fundação da povoação só ocorreu no
século XVIII, em 1714, com a construção da capela de Nossa Senhora do Pilar da Graciosa. Somente muito mais tarde, em 1797, ela foi elevada à vila com a denominação
Antonina em homenagem ao Príncipe D. Antonio, primeiro ilho do Rei Dom João VI
e Dona Carlota Joaquina.
Figura 4 - Vista geral de Antonina.
Fonte: Aquarela sobre papel de William Lloyd, 1872.
11 Para maiores detalhes sobre o assunto, ver Ruy WACHOWICZ. História do Paraná, Curitiba, G.
Vicentina, 1988, Cap. III. p. 39-51.
46
Morretes
Situada às margens do rio Nhundiaquara, local de passagens dos faiscadores de
ouro que subiam a serra, Morretes foi fundada por determinação do Ouvidor Rafael
Pires Pardinho, em 1721. Anos depois, em 1769, a população teve permissão para erguer a capela de Nossa Senhora do porto e Menino Deus dos três Morretes, e somente
no século seguinte, em 1841, ela foi desmembrada de Antonina e elevada a município.
O Paraná colonial:
da chegada dos
primeiros europeus em
1500 até a emancipação
da província em 1853
Guaratuba
Os historiadores dão como data provável da fundação da povoação de Guaratuba por
Gabriel de Lara o ano de 1656. Um século depois, ela foi inserida na política de defesa do
litoral sul do Brasil pelo então governador da Capitania de São Paulo, D. Luiz A. de Souza,
o Morgado de Mateus. Este enviou para a região o Tenente Coronel Afonso Botelho com
a missão de incrementar a ocupação de região e construir fortes para defesa do litoral.
Figura 5 - Vista de Guaratuba no século XIX.
Fonte: Debret.
Curitiba
Na primeira metade do século XVII, os faiscadores de ouro já tinham chegado
no primeiro planalto paranaense e exploravam seus riachos e ribeirões em busca
do metal precioso. O local era habitado pelos índios Guarani, que exploravam os
imensos pinheirais da região e com certeza mantinham relações sociais e comerciais
com os habitantes não índios do litoral e com os mineradores de ouro já há algum
tempo antes da elevação do Pelourinho em 1668 por Gabriel de Lara. Com o crescimento da povoação, no inal de século XVII foram eleitas as autoridades locais com
a constituição da Câmara Municipal em 1693, data da fundação da cidade.
47
HISTÓRIA DO PARANÁ:
RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS
DA PRÉ-HISTÓRIA À
ECONOMIA CAFEEIRA
Figura 6 - Vista de Curitiba.
Fonte: Debret.
Figura 7 - Vista de Curitiba.
Fonte: Franz Keller, 1872.
A OCUPAÇÃO DOS CAMPOS GERAIS: AS FAZENDAS DE CRIAR E O CAMINHO DO VIAMÃO
Os campos Gerais, situados no segundo planalto paranaense, começaram a ser povoados por fazendeiros de São Paulo, Santos, Paranaguá e dos estabelecidos nos campos de
Curitiba no início do século XVIII, quando foi descoberto ouro em Minas Gerais e se criou
uma forte demanda por animais cavalares e muares criados em abundância nos campos
do sul do Brasil e Uruguai. Essa demanda e essa possibilidade de negócios izeram com
que as famílias abastadas de São Paulo requeressem enormes sesmarias na região e para
ali enviassem parentes ou capatazes para estabelecimentos de fazenda de criar gado. Com
o início das atividades do tropeirismo, que consistia em comprar animais nos campos de
Vacaria no Rio Grande do Sul e vendê-los em Sorocaba em São Paulo, começaram a surgir
as povoações ao longo dessa rota.
48
O Paraná colonial:
da chegada dos
primeiros europeus em
1500 até a emancipação
da província em 1853
Figura 8 - Caminho das tropas de Viamão RS até Sorocaba SP
com o ramal por Guarapuava até Missiones na Argentina.
Fonte: Lúcio Tadeu Mota.
Essas povoações, que no início eram locais de pouso e descanso dos tropeiros,
passaram a aglutinar pequenos artesões e pequenos comerciantes e logo se transformaram em vilas e cidades como Ponta Grossa, Castro, Lapa e muitas outras. Assim,
ocorreu a ocupação dos vastos campos naturais do segundo planalto do Paraná: enormes sesmarias em torno da rota Sorocaba – Vacaria.
A sociedade estabelecida nos Campos Gerais se caracterizou por ser uma sociedade constituída de famílias patriarcais que ia além da família nuclear, abrigava em seu
seio agregados e homens pobres livres protegidos dos grandes proprietários; por ser
uma sociedade sustentada no trabalho escravo, mesmo que o trabalho dos escravos
– a lida com gado em campos abertos – requeresse que eles andassem armados para
protegerem a si e o gado do seu senhor, dos índios e dos animais predadores; e uma
sociedade assentada na grande propriedade, nas grandes sesmarias de criação de gado
bovino, muar e cavalar.
49
HISTÓRIA DO PARANÁ:
RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS
DA PRÉ-HISTÓRIA À
ECONOMIA CAFEEIRA
Figura 9 - Vista da Vila de Castro no século XIX.
Fonte: Debret.
Figura 10 - Vista da Vila de Ponta Grossa no século XIX.
Fonte: Debret.
50
A DESCOBERTA DE OURO E DIAMANTES, AS EXPEDIÇÕES MILITARES E
A IMPLANTAÇÃO DAS FAZENDAS NO VALE DO RIO TIBAGI NO SÉCULO
XVIII
A serra da Apucarana e o vale do Tibagi continuaram sendo um atrativo para os
aventureiros e uma esperança de riquezas para os aventureiros que deram continuidade
aos bandeirantes do século XVII. Em meados do século XVIII, Francisco Tosi Colombina
apresentou aos governantes um plano de ocupação dos territórios do rio Tibagi, que
para ele eram ricos em ouro e diamantes. E qual era o seu plano?
O Paraná colonial:
da chegada dos
primeiros europeus em
1500 até a emancipação
da província em 1853
E para senhorearse com facilidade dessas terras do Tabagy que agora estão ocupadas do numeroso Gentio Guayanã, (...) um dos melhores meyos hé transportar huns Casaes dos indios mansos, que se achaão nas aldeas de São Paulo, e lá
Aldealos12.
O plano de Colombina não foi levado adiante, mas foram descobertos ouro e diamantes em Pedras Brancas, a sudoeste da atual cidade de Tibagi, por Ângelo Pedroso e
Frei Bento de Santo Ângelo13. Essas descobertas causaram a disputa das terras das minas
do Tibagi por poderosos donos de lavras de Minas Gerais e autoridades de Paranaguá.
Em 1757, o Ouvidor de Paranaguá enviou uma bandeira de 200 soldados para Pedras
Brancas com a inalidade de submeter os posseiros. Enviada pela Câmara de Curitiba
para vigiar os garimpos de Pedras Brancas, essa guarda icou acantonada, no registro
de Nossa Senhora do Carmo, na foz do rio Capivari junto ao rio Tibagi, até 1765. Nessa
área, foi instalado o forte militar de Nossa Senhora do Carmo.
Ainda no século XVIII, os vales do Tibagi e do Ivaí foram marcados pela passagem
das expedições militares de Morgado de Mateus, Governador de São Paulo, com destino ao Forte Militar de Iguatemi no Mato Grosso. Entre os anos de 1769 e 1774, várias
expedições partiram do Porto de São Bento, no Tibagi, com destino ao rio Ivaí e daí
para o Mato Grosso14. Conforme Edmundo Mercer, o Porto de São Bento foi uma antiga
fazenda situada à margem esquerda do Tibagi, quatro léguas acima da cidade do mesmo
nome. Esse porto foi estratégico para as expedições que iam para o forte de Iguatemi,
no Mato Grosso.
12 Cf. Francisco Tosi COLOMBINA. Descobrimento das terras do Tibagi. Maringá, [1753] 1974. p. 33.
13 Cf. Edmundo MERCER & Luiz L. MERCER. História do Tibagi, Curitiba, [1934] 1977, p. 23.
14 Para maiores detalhes sobre a campanha do Morgado de Mateus no Paraná e Mato Grosso, ver Afonso
BOTELHO. Notícia da Conquista e Descobrimento dos Sertões do Tibagi; Heloísa L. BELLOTTO. Autoridade e Conflito no Brasil Colonial: o governo de Morgado de Mateus em São Paulo;
Davi CARNEIRO. Afonso Botelho de São Payo e Souza.
51
HISTÓRIA DO PARANÁ:
RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS
DA PRÉ-HISTÓRIA À
ECONOMIA CAFEEIRA
Em março de 1771, a terceira expedição da campanha de Afonso Botelho, comandada pelo capitão Francisco Lopes da Silva, desceu o rio Ivaí até as ruínas de Vila Rica
do Espírito Santo, abandonada pelos espanhóis devido aos ataques bandeirantes em
1632: alí mandou o capitão botar roças e principiou o seu estabelecimento, dandolhe o nome de Vila Real do Rio Mourão15. Essa tentativa de estabelecer um posto de
suprimentos para as expedições que desciam o rio Ivaí em direção ao Mato Grosso,
desde a barra do rio Corumbataí com o Ivaí, não prosperou e em pouco tempo a localidade foi novamente abandonada e a loresta voltou a cobrir os vestígios da ocupação
humana no local.
A OCUPAÇÃO DOS CAMPOS DE GUARAPUAVA E PALMAS
No século XVIII, a corte reagia indignada ao desassossego que imperava nos territórios do sul do Brasil, no dizer das autoridades: infestados de selvagens. A Carta
Régia de novembro de 1808 relata ataques generalizados por todo o sul do Império,
principalmente nos Campos Gerais de Curitiba, de Guarapuava e nos campos das cabeceiras do rio Uruguai. O Príncipe Regente propunha então guerra contra os índios,
que matavam cruelmente todos os fazendeiros e proprietários estabelecidos nesses
campos. Indignava-se ele com o abandono dos Campos Gerais de Curitiba e os de
Guarapuava, assim como das terras com as vertentes voltadas para o rio Paraná.
Tentativas de conquista e de ocupação tinham sido feitas, como as das expedições
de Afonso Botelho, nos anos de 1769 a 1774, as quais foram rechaçadas pelos índios
Kaingang, então senhores desses territórios.
15 Cf. Afonso BOTELHO. Notícia da Conquista e Descobrimento dos Sertões do Tibagi. Anais da Biblioteca Nacional. Rio de Janeiro, v. 76, 1956, p. 10.
52
O Paraná colonial:
da chegada dos
primeiros europeus em
1500 até a emancipação
da província em 1853
Figura 11 - Ataque dos Kaingang aos soldados de Afonso Botelho.
Fonte: Amoroso, 2000.
Passados quarenta anos, os campos Gerais, os de Guarapuava e Palmas continuaram:
infestados pelos índios denominados Bugres que matão cruelmente todos os
fazendeiros e proprietários que nos mesmos Paizes tem procurado tomar sesmarias e cultivalas, em beneicio dos Estado. (...) a maior parte das Fazendas
que estão na dita Estrada (São Paulo-Rio Grande do Sul) serão despovoadas
humas por terem os índios Bugres morto os seus moradores e outras com o
temor que sejão igualmente victimas (CARTA...16).
Desde a expulsão de Afonso Botelho e suas tropas dos Koran-bang-rê (Campos de Guarapuava), em 1772, os Kaingang, encorajados, faziam incursões cada vez mais ao ocidente.
No início do século XIX, eram senhores dos territórios a oeste da estrada do Viamão, e
atacavam constantemente fazendas, vilas e viajantes nas suas imediações.
Com a chegada de Dom João VI ao Brasil, o Império tomou uma resolução: os índios
deveriam ser combatidos, catequizados, “civilizados”, e seus territórios deveriam ceder
lugar a prósperas fazendas de gado. O governador da província de São Paulo convocou o
experiente militar Diogo Pinto de Azevedo para organizar a ocupação dos territórios dos
Kaingang e mantê-los afastados das fazendas de gado. Diogo Pinto era um militar disciplinado, duro, experiente e conhecedor dos campos de Guarapuava, pois ali estivera com o
capitão Paulo Chaves em 1774. Era o peril ideal para o empreendimento, e em 1809 já
se encontrava nos Campos Gerais, refazendo o antigo caminho das expedições de Afonso
Botelho.
16 Cf. Carta Régia de novembro de 1808. In: Romário MARTINS. Documentos Comprobatórios dos
direitos do Paraná na questão de limites com Santa Catharina. vol. II, p. 86.
53
HISTÓRIA DO PARANÁ:
RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS
DA PRÉ-HISTÓRIA À
ECONOMIA CAFEEIRA
Dessa forma, o ano de 1810 foi marcado pela chegada aos campos de Guarapuava
de uma enorme expedição com mais de trezentas pessoas, das quais cerca de duzentas eram soldados. O objetivo da expedição era ocupar esses campos, abrindo espaço
para as fazendas de criação. No dia dois de julho, seus integrantes acamparam no lugar denominado Atalaia, último ponto alcançado pelo capitão Paulo Chaves em 1774.
No dia 29 de agosto, os Kaingang izeram um ataque em massa ao acampamento.
Diogo Pinto e o padre Francisco das Chagas Lima atestaram a irme defesa do tenente
Antonio da Rocha Loures.
Sustentou corajosamente a defeza deste Aquartelamento da Atalaia por espaço
de seis horas no primeiro e proiado combate que atentarão os índios deste
continente quando virão nossa gente abarracado nos seus campos17.
Na batalha, foram mortos e feridos muitos índios, ocorrendo na força militar de
Rocha Loures apenas ferimentos leves. Os kaingang sofreram uma forte derrota e dispersaram-se pelos campos ao sul e a oeste da fortiicação de Atalaia. Mas continuaram
a atacar as forças de Diogo Pinto. Foram três meses de guerra contra uma tropa de
mais de duzentos soldados armados, inclusive com peças de artilharia, e foram acantonados na fortaleza de Atalaia, o primeiro nome da futura vila de Nossa Senhora do
Belém de Guarapuava.
17 Cf. Atestado do comandante Diogo Pinto de Azevedo Portugal e do padre Francisco das Chagas Lima,
elogiando a ação do tenente Rocha Loures na defesa do quartel de Atalaia, atacado pelos índios em 29
de agosto de 1810. In: FRANCO Arthur Martins. Diogo Pinto e a Conquista de Guarapuava. p. 95.
54
O Paraná colonial:
da chegada dos
primeiros europeus em
1500 até a emancipação
da província em 1853
Figura 12 - Forte de Atalaia em Guarapuava.
Fonte: Kruger, 1999, p.15.
Figura 13 - Fortaleza de Atalaia reconstruída como monumento comemorativo por ocasião dos 200 anos de
fundação de Guarapuava.
Fonte: Foto de Felipe Brugg, in: Google Earth, agosto de 2012.
55
HISTÓRIA DO PARANÁ:
RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS
DA PRÉ-HISTÓRIA À
ECONOMIA CAFEEIRA
Figura 14 - Mapa dos campos de Guarapuava, organizado pelo padre Francisco das Chagas Lima
com destaque para sesmaria dos índios de Guarapuava, concedida pelos Capitães
Generais da Capitania de São Paulo de 1721 a 1821.
Fonte: Moreira, 1975, p. 206.
Os Kaingang foram derrotados nessa batalha de 1810, porém sua resistência continuou. Passados cinco anos da ocupação dos campos guarapuavanos entre os rios
Coutinho e Jordão, os brancos começaram a se movimentar em direção aos campos
de Palmas, ao sul de Guarapuava, onde chegaram vinte anos depois. Em 1839, os
fazendeiros de Guarapuava tinham conquistado os Krei-bang-rê (Campos de Palmas)
e ali tinham instalado trinta e sete fazendas com mais de trinta mil cabeças de gado e
fundaram a vila de Palmas.
O ESTABELECIMENTO DAS FAZENDAS DE GADO NOS TERRITÓRIOS
DOS KAINGANG NO TIBAGI NA PRIMEIRA METADE DO SÉCULO XIX
No século XIX, também foi iniciada a ocupação da bacia ocidental do Tibagi e dos
campos ao seu norte pelos grandes fazendeiros dos Campos Gerais paranaenses, que
procuravam expandir seus domínios. Em 1794, Antônio Machado Ribeiro – capitão
de mato do sargento mor José Felix da Silva – atravessou o rio Tibagi, acima do rio
Iapó, e ocupou o lugar onde seria a cidade de Tibagi, no coração dos territórios Kaingang. Em 1812, o próprio José Felix da Silva comandou uma expedição militar ao Tibagi. Por esse feito, lhe foi dada a patente de tenente-coronel de milícias para que ele
56
comandasse, as suas próprias custas, uma expedição para descobrir o que houvesse
no Tibagi. José Felix entrou com uma companhia de aventureiros pelo Tibagi e descobriu
diamantes na região. Essas descobertas explicam o rápido enriquecimento de José Felix
da Silva, dono da Fazenda Fortaleza e de muitas outras na região de Castro e Tibagi18.
Em 1820, Auguste de Saint-Hilaire excursionou pelos territórios do Paraná, vindo
de Sorocaba, SP, pelo caminho dos tropeiros até Curitiba, onde presenciou a partida de
expedições militares organizadas pelos fazendeiros da região contra os Kaingang a oeste
das grandes fazendas de criação; dessa maneira, foram implantadas fazendas de gado nas
terras conquistadas dos Kaingang.
A conquista desses territórios prosseguiu para o norte, no curso do rio Tibagi. Em
1838, iniciou-se a ocupação dos Campos do Inhoó por Manoel Inácio do Canto e Silva.
John Elliot informou que oito anos antes de sua entrada nesses campos, em 21/10/1846,
o neto de José Felix da Silva, o coronel Manoel Inácio, mandara abrir uma picada de cargueiros até esses campos, e para deles tomar posse, mandou queimá-los.
A partir da década de 1840, as iniciativas de ocupação das terras da bacia do Tibagi
foram levadas adiante pelo Barão de Antonina ( João da Silva Machado). Este encarregou Joaquim Francisco Lopes e John Henrique Elliot de realizar várias expedições
de reconhecimento na região. Conforme Elliot, a 2ª expedição enviada pelo Barão foi
comandada por Joaquim Francisco Lopes e por ele, como piloto mapista, em um total
de nove pessoas. Saíram da fazenda Monte Alegre, pertencente a Manoel Inácio do
Canto e Silva, atravessaram o Tibagi e seguiram rumo ao norte-noroeste em direção
à Serra da Apucarana. No dia 15/9/1846, chegaram ao rio Apucarana, nas fraldas da
serra. Subiram a serra e, por vários dias, esperaram até que as condições atmosféricas
lhes permitissem vislumbrar toda a região. Elliot airmou que desse local avistou os
campos do Inhoó, distantes de oito a nove léguas a nordeste da margem ocidental do
Tibagi, bem como as grandes áreas de lorestas que se estendiam em direção aos rios
Ivaí e Paranapanema. Desse mirante, concluíram que o Tibagi deveria ser navegável
logo abaixo desses campos e que seria necessário explorá-los, para ver se comportariam a instalação de um depósito de gado, bem como veriicar as condições para o
fornecimento de pastagens para as tropas que seguissem com mercadorias para embarcar no Tibagi, rumo ao Mato Grosso. Após estudar os relatos, o Barão determinou
que eles deveriam prosseguir as explorações para abrir um caminho de Curitiba ao
Mato Grosso.
O Paraná colonial:
da chegada dos
primeiros europeus em
1500 até a emancipação
da província em 1853
18 Cf. CHICHORRO, Manuel da cunha Azeredo Coutinho. Memória em que se mostra o estado econômico militar e político da Capitânia de São Paulo, quando do seu governo tomou posse a 8/12/1814. In:
RIHGB, Rio de Janeiro, v. 36, p. 219 1873.
57
HISTÓRIA DO PARANÁ:
RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS
DA PRÉ-HISTÓRIA À
ECONOMIA CAFEEIRA
Uma semana depois de terem chegado da Serra da Apucarana, Lopes e Elliot, mais
o genro do Barão de Antonina, partiram para os campos do Inhoó. Era uma expedição de 30 pessoas, com dois índios como guias. Iniciaram a picada em 21/10/1846, e
em 20/11/1846 chegaram a esses campos. Lá, queimaram-nos e os índios responderam com fogos em três lugares diferentes; a norte distante seis a oito léguas, e mais
um a nordeste a quatro léguas. Demoraram na exploração dessas campinas 10 dias,
porque eram várias campinas entremeadas de matos. No dia 4/12/1846, eles se encontravam nos campos de Inhoó, que denominaram São Jerônimo. Concluíram que esses
campos eram o suiciente para a instalação de um depósito, isto é, um entreposto
entre o futuro porto do Jataí e Castro.
Em 16/12/1846, Lopes e Elliot e mais 12 pessoas, por determinação do Barão,
rumaram dos Campos do Inhoó rumo ao norte por uma ou duas léguas, acompanhando o Tibagi. Seguiram para o ribeirão Santa Bárbara, e depois acompanharam o
rio Congonhas. Tudo indica que o itinerário seguido foi o divisor de águas entre o rio
Congonhas e o rio Tibagi. No dia 13/1/1847, estavam de volta aos campos do Inhoó,
depois de 25 dias.
Em 15/3/1847, a 5ª entrada de Lopes e Elliot, também por determinação do Barão
de Antonina, partiu dos Campos do Inhoó em direção aos fogos dos índios que eles
tinham visto na exploração de novembro de 1846. Depois de atravessarem o rio Congonhas19, a seis léguas dos campos de Inhoó, chegaram às terras queimadas.
Ainda em 1847, o Barão de Antonina ordenou a José Francisco Lopes e João H.
Elliot que partissem para descobrir o caminho para o Mato Grosso. Em 14/6/1847,
Elliot, Lopes e três camaradas embarcaram no Tibagi, uma légua abaixo dos Campos
do Inhoó. Dia 20/9/1847, iniciaram a viagem de retorno de Albuquerque, no Mato
Grosso, para Perituva, em São Paulo, onde chegam em 27/12/1847, com seis meses e
treze dias de viagem.
A partir dessa data, os territórios do cacique Inhoó, nos planaltos a leste do rio
Tibagi, seriam transformados em entreposto comercial, caminho para o Mato Grosso e fazenda de criação do Barão de Antonina. O comerciante Antônio Prestes, em
viagem para o Mato Grosso, em 1851, passou por São Jerônimo e lá encontrou José
Raymundo Curim como administrador da fazenda do Barão de Antonina20. Podemos
constatar que após seis anos da chegada de Lopes e Elliot aos campos do Inhoó, o
19 Elliot relatou que assim nominaram esse rio devido à abundância de erva-mate do local.
20 Cf. PRESTES, Antonio Dias Baptista. Viagem do Capitão D. Prestes e seu irmão Manoel D. B. Prestes
desta província de São Paulo a Cuiyabá em 21/04/1851. RIHGSP, São Paulo, n. 28, p. 775, 1851.
58
Barão de Antonina já tinha consolidado uma fazenda no território Kaingang, que
após alguns anos seria repassada ao Império para a criação do Aldeamento Indígena
de São Jerônimo.
Mas a ocupação branca avançou para o norte e ultrapassou o rio Tibagi para as terras de suas margens ocidentais. Na década de 1850, foi instalada a Colônia Militar do
Jataí, hoje a cidade de Jataizinho, e em frente, na outra margem do rio, foi instalado o
aldeamento indígena de São Pedro de Alcântara com a inalidade de aldear os índios
Guarani-Kaiová que viviam no Mato Grosso, nas margens do rio Paraná, e os Kaingang
que viviam nas terras ao sul do aldeamento.
A partir desse momento, tanto o aldeamento indígena como a colônia militar tornaram-se entreposto para os viajantes que seguiam para o Mato Grosso.
O Paraná colonial:
da chegada dos
primeiros europeus em
1500 até a emancipação
da província em 1853
Proposta de Atividades
1) Conforme o texto estudado neste capítulo, O povoamento do litoral e as origens de
Curitiba, aponte as cidades surgidas no litoral naquela época.
2) O oeste e o noroeste do Paraná foram ocupados pelos europeus antes da fundação das
cidades do litoral. Aponte quais foram as principais atividades desenvolvidas pelos espanhóis, pelos jesuítas e bandeirantes na região nos século XVI e XVII.
3) Qual foi a atividade econômica responsável pela ocupação e surgimento das fazendas e
cidades no Campos Gerais no século XVIII?
Anotações
59
HISTÓRIA DO PARANÁ:
RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS
DA PRÉ-HISTÓRIA À
ECONOMIA CAFEEIRA
60
Anotações
3
O Paraná provincial
1853 – 1889
A EMANCIPAÇÃO DA PROVÍNCIA DO PARANÁ
Entre 1660 a 1770, a região foi elevada a status de capitania, denominada Capitania de Paranaguá. Em 1770, com a restauração da Capitania de São Paulo, ela foi
extinta e incorporada por esta como comarca. Em 1812, a sede da comarca, que era
em Paranaguá, foi transferida para Curitiba e passou a se chamar Quinta Comarca de
Paranaguá e Curitiba.
A luta pela emancipação política do Paraná teve seus antecedentes em 1811, quando Pedro Joaquim Correia de Sá, com pretensões de ser Capitão-Mor, tentou junto à
corte do Rio de janeiro a emancipação da Comarca, mas fracassou.
A segunda tentativa ocorreu em 1821, quando os defensores da emancipação retomaram o movimento, organizando a denominada “Conjura Separatista”. Essa tentativa também fracassou, pois o Juiz de Fora Antonio Azevedo Melo e Carvalho – que
visitava o Paraná – não atendeu ao apelo de Bento Viana – capitão da Guarda de
Regimento de Milícia de Paranaguá – para que nomeasse um governo provisório
independente de São Paulo.
Mesmo com um desfecho desfavorável, o desejo de autonomia permanecia. Frequentemente, as Câmaras de vereadores de Paranaguá, Morretes, Antonina, Lapa, Curitiba e Castro solicitavam a autonomia ao Governo Imperial Brasileiro.
Destarte, em 1835 ocorreu um fator favorável e decisivo para a autonomia do Paraná. Os liberais do Rio Grande do Sul entraram em luta contra o Império, organizados
na “Revolução Farroupilha”, e os liberais do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais,
revoltados com a política “conservadora” do governo central, se uniram com os farrapos e organizaram uma única frente revolucionária. Todavia, os liberais da Quinta Comarca em Curitiba, cooptados pelo Barão de Antonina, não aderiram ao movimento.
O Governo Imperial negociou com os liberais curitibanos, através de João da Silva Machado e dos Chefes das forças legalistas, Duque de Caxias, a emancipação da Comarca.
O Governo do Império conseguiu assim o apoio dos liberais da Quinta Comarca para
vencer os revolucionários.
61
HISTÓRIA DO PARANÁ:
RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS
DA PRÉ-HISTÓRIA À
ECONOMIA CAFEEIRA
Dessa forma, retomou-se em 1843 ao projeto de emancipação da Quinta Comarca
na Assembleia Geral Legislativa no Rio de Janeiro. Entre idas e vindas, conseguiu-se
aprovação em 2 de agosto de 1853, elevando a Quinta Comarca de São Paulo à categoria de Província do Paraná. A instalação oicial foi realizada em 19 de dezembro de
1853, onde tomou posse o primeiro presidente Zacarias de Góes e Vasconcelos, tendo
Curitiba como capital.
Lei nº 704 de 29 de agosto de 1853
Eleva a Comarca de Curitiba, na Província de São Paulo, à categoria de Província, com a denominação de Província do Paraná.
Dom Pedro Segundo, por graça de Deus, e unânime aclamação dos povos, Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil: Fazemos saber a todos nossos
súditos que a Assembléia Geral Legislativa decretou e nós queremos a Lei seguinte:
Art. 1º - A comarca de Curitiba, na Província de São Paulo fica elevada à categoria de Província, com a denominação de Província do Paraná. A sua extensão
e limites serão os mesmos da referida Comarca.
Art. 2º - A nova Província terá por Capital a cidade de Curitiba, enquanto a
Assembléia respectiva não decretar o contrário.
Art.3º - A Província do Paraná dará um Senador, e um Deputado à Assembléia Geral; sua Assembléia Provincial constará de 20 membros.
Art.4º - O Governo fica autorizado para criar na mesma Província, as estações
fiscais indispensáveis para arrecadação e administração das rendas gerais, submetendo depois o que houver determinado ao conhecimento da Assembléia Geral para
definitiva aprovação.
Art.5º - Ficam revogadas as disposições em contrário.
Mando, portanto, a todas as autoridades, a quem o conhecimento desta lei
pertencer, que a cumpram, e a façam cumprir e guardar tão inteiramente quanto
nela se contém.
O Secretário de Estado dos Negócios do Império
A faça imprimir, publicar e correr.
Dado no Palácio do Rio de Janeiro, aos 29 de agosto de 1853, trigésimo segundo da Independência e do Império.
Assinam: Imperador Pedro II
e Francisco Gonçalves Martins
Fonte: Coleção de Leis do Império do Brasil - 1853 , Página 50 Vol. 1 pt I (Publicação Original).
62
A vida política da província paranaense de 1853 a 1889
A Província do Paraná teve, ao longo de 1853 a 1889, cinquenta e três períodos de
governos; vinte e sete presidências; quarenta e um presidentes em exercício e vinte e
seis períodos de vice-presidência e retorno presidencial.
Os presidentes eram escolhidos entre aqueles que pertenciam ao partido político
dominante e nomeados diretamente pelo imperador D. Pedro II. De 1853 a 1870, os
governantes vieram de outras províncias. No período subsequente (1870 a 1889), o
imperador fez algumas nomeações de pessoas procedentes da província para ocupar o
cargo de presidente e vice-presidente da Província.
As justiicativas para a nomeação dos presidentes e dos vice-presidentes oriundos
de outras províncias era que o Paraná tinha uma pequena projeção política e econômica no Império e não possuiria elementos com “boa formação político-administrativa”
para o cargo majoritário na Província. No entanto, sabemos que a nomeação para a
presidência das províncias no Brasil era utilizada pelo imperador Pedro II para acomodar as forças políticas que o apoiavam.
O imperador geralmente escolhia governantes iéis e aliados ao governo imperial. A
intenção era criar e estabelecer governos provinciais comprometidos com os interesses
do governo central e promover alianças com as elites dominantes locais. Eram dois partidos políticos dos quais esses representantes faziam parte: o Conservador e o Liberal.
Os partidos na província eram dominados pelas oligarquias locais que escolhiam os
seus representantes aos cargos políticos1. A disputa entre os conservadores e os liberais
não representava uma diiculdade à nomeação dos cargos; na realidade, seus programas
políticos não diferiam um do outro e não havia uma oposição efetiva entre eles.
No Paraná, os principais líderes liberais foram Jesuíno Marcondes de Oliveira e
Manuel Alves de Araújo, que formavam as famílias dos Barões do Tibagi e dos Campos
Gerais. Os líderes conservadores foram Manuel Antonio Guimarães ( Visconde de Nacar) e Manoel Francisco Correia, que formavam as famílias do litoral que controlavam
o comércio importador e exportador da erva-mate.
O cargo majoritário da província foi ocupado pela primeira vez em 19 de dezembro
de 1853, quando foi instalada oicialmente a província paranaense, e o primeiro Presidente da Província paranaense foi o baiano Zacarias de Góes e Vasconcellos.
O Paraná provincial
1853 – 1889
1 Geralmente, esses representantes aos cargos políticos eram eleitos pelo “voto de cabresto”, e através
da troca de “favores” os coronéis (elites dominantes locais) exigiam que as pessoas votassem nos candidatos indicados por eles. Aquele que se negasse a votar podia sofrer violência de capangas ou jagunços
que trabalhavam para os coronéis.
63
Quadro 1 - Galeria de presidente e
vice-presidentes da província do Paraná (1853-1889)
HISTÓRIA DO PARANÁ:
RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS
DA PRÉ-HISTÓRIA À
ECONOMIA CAFEEIRA
64
Nº
PRESIDENTES E
VICE-PRESIDENTES
NOMEAÇÃO
PERÍODO DE
GOVERNO
OBSERVAÇÃO
1
Zacarias de Goes e
Vasconcelos (Pres.)
17.09.1853
19.12.1853 a
03.05.1855
1º Presidente e Instalador da Província.
Origem: Bahia. Era do partido Conservador e
em 1862 passou a ser Liberal
2
Theóilo Ribeiro de
Rezende (Vice)
17.09.1853
03.05.1855 a
27.07.1855
Nomeação para 2º vice-presidente. Origem:
São Paulo. Era do Partido Conservador
3
Henrique de
Beaurepaire Rohan
(Vice) – Liberal
-27.07.1855
27.07.1855 a
01.03.1856
Origem: Rio de Janeiro
4
Padre Vicente Pires da
Mota (Pres.)
15.09.1855
01.03.1856 a
26.09.1856
Origem: São Paulo. Era do Partido
Conservador
5
José Antônio Vaz de
Carvalhaes (Vice)
06.09.1856
26.09.1856 a
11.11.1857
2º vice-presidente. Origem: São Paulo
Era do Partido Conservador
6
Francisco Liberato de
Matos (Pres.)
18.08.1857
11.11.1857 a
26.02.1859
Origem: Bahia - Partido Liberal
7
Luis Francisco Câmara
Leal (Vice)
24.03.1857
26.02.1859 a
02.05.1859
3º vice-presidente e passou a 1º vice no início
de 1859. Origem: Rio de Janeiro. Era do
Partido Conservador
8
José Francisco Cardoso
(Pres.)
28.02.1859
02.05.1859 a
16.03.1861
Deposto pelas “Cardosadas”. Origem: Rio de
Janeiro - Partido Liberal
9
Antônio Barbosa Gomes
Nogueira (Pres.)
31.01.1861
16.03.1861 a
31.03.1863
Origem: Minas Gerais. Era do Partido
Conservador
10
Manoel Antônio Ferreira
(Vice)
26.11.1862
31.03.1863 a
05.06.1863
1º paranaense a compor o governo Provincial
- 2º vice-presidente. Origem: Paraná.
Era do Partido Conservador
11
Sebastião Gonçalves da
Silva (Vice)
26.11.1862
05.06.1863 a
07.03.1864
1º vice-presidente. Origem: Pernambuco.
Sem menção de Partido.
12
José Joaquim do Carmo
(Pres.)
23.01.1864
07.03.1864 a
18.06.1864
Origem: Rio de Janeiro - Partido Liberal
13
André de Pádua Fleury
(Pres.)
s/d
18.06.1864 a
19.08.1864
Origem: Paraná - Partido Liberal
14
Agostinho Ermelino de
Leão (Vice)
s/d
19.08.1864 a
18.11.1864
1º período de governo.
Origem: Paraná – s/menção de partido
15
André de Pádua Fleury
(Pres.)
12.10.1864
18.11.1864 a
04.06.1865
2º período de governo.
Origem: Paraná - Partido Liberal
16
Manoel Alves de Araújo
(Vice)
10.12.1864
05.06.1865 a
18.08.1865
1º vice-presidente
Origem: Paraná - Partido Liberal
17
André de Pádua Fleury
(Pres.)
s/d
18.08.1865 a
23.03.1866
3º período de governo
Origem: Paraná - Partido Liberal
18
Agostinho Ermelino de
Leão (Vice)
31.01.1866
23.03.1866 a
15.11.1866
2º vice-presidente - 2º período de governo
Origem: Paraná – s/menção de partido
19
Polidoro César
Burlamaque (Pres.)
06.09.2866
15.09.1866 a
11 /17.08.1867
Abandona o governo em 17.08.1867
Origem: Piauí – s/menção de partido
20
Carlos Augusto Ferraz
de Abreu (Vice)
23.03.1867
16.08.1867 a
23/31.10.1867
1º vice-presidente. Origem: Rio de Janeiro.
Era do Partido Conservador
21
José Feliciano Horta de
Araújo (Pres.)
29.09.1867
31.10.1867 a
05.05.1868
Origem: Minas Gerais - Partido Liberal
22
Carlos Augusto Ferraz
de Abreu (Vice)
s/d
05/29.05.1868
a 14.09.1868
2º período de governo. Origem: Rio de
Janeiro. Era do Partido Conservador
23
Antônio Augusto da
Fonseca (Pres.)
22.07.1868
14.09.1868 a
01.09.1869
Pediu demissão em 27.03.1869
Origem: São Paulo – Partido Conservador
24
Agostinho Ermelino de
Leão (Vice)
s/d
28.08.1869 a
26.09.1869
3º período de governo.
Origem: Paraná – s/menção de partido
25
Antônio Luís Afonso de
Carvalho (Pres.)
20.10.1869
27.11.1869 a
28.08.1870
Origem: Bahia - s/menção de partido
26
Agostinho Ermelino de
Leão (Vice)
s/d
20.04/05.1870
a 24.12.1870
4º período de governo.
Origem: Paraná - s/menção de partido
27
Venâncio José de
Oliveira Lisboa (Pres.)
s/d
24.12.1870 a
15.01.1873
Origem: Rio de Janeiro – Partido
Conservador
28
Manoel Antônio
Guimarães (Vice)
03.01.1873
15.01.1873 a
13.06.1873
3º vice-presidente – Visconde de Nácar Origem: Paraná – Partido Conservador
29
Frederico José de
Araújo Abranches
(Pres.)
29.03.1873
13.06.1873 a
02.05.1875
Origem: São Paulo – Partido Conservador
-
Agostinho Ermelino de
Leão (Vice)
s/d
02.05.1875 a
08.05.1875
5º e último período de governo.
Origem: Paraná - s/menção de partido
30
Adolfo Lamenha Lins
(Pres.)
10.04.1875
03.05.1875 a
16.07.1877
Origem: Pernambuco - Partido Liberal
31
Manoel Antônio
Guimarães (Vice)
s/d
16.07.1877 a
17.08.1877
2º período de governo.
Origem: Paraná – Partido Conservador
32
Joaquim Bento de
Oliveira Junior (Pres.)
04.07.1877
17.08.1877 a
07.02.1878
Origem: Minas Gerais – Partido Conservador
33
Jesuíno Marcondes de
Oliveira e Sá (Vice)
01.02.1878
07.02.1878 a
23.03.1878
1º período de governo – 1º vice-presidente.
Origem: Paraná - Partido Liberal
34
Rodrigo Otávio de
Oliveira Menezes
(Pres.)
30.01.1878
23.03.1878 a
31.03.1879
Origem: Bahia - Partido Liberal
35
Jesuíno Marcondes de
oliveira e Sá (Vice)
s/d
31.03.1879 a
23.04.1879
2º período de governo.
Origem: Paraná - Partido Liberal
36
Manoel Pinto de Souza
Dantas Filho (Pres.)
15.03.1879
23.04.1879 a
04.08.1880
Origem: Bahia - Partido Liberal
37
João José Pedrosa
(Pres.)
25.07.1880
04.08.1880 a
03.05.1881
1º paranaense nomeado pelo Imperador Origem: Paraná - Partido Liberal
38
Sancho de Barros
Pimentel (Pres.)
24.03.1881
03.05.1881 a
26.01.1882
Origem: São Paulo - Partido Liberal
39
Jesuíno Marcondes de
Oliveira e Sá (Vice)
s/d
s/d
3º período de governo
Origem: Paraná - Partido Liberal
40
Carlos Augusto de
Carvalho (Pres.)
01.02.1882
06.03.1882 a
26.05.1883
Origem: Rio de Janeiro - Partido Liberal
41
Antônio Alves de Araújo
(Vice)
14.05.1883
26.05.1883 a
03.09.1883
1º vice-presidente - 1º período de governo
Origem: Paraná - Partido Liberal
42
Luís Alves Leite de
Oliveira Belo (Pres.)
30.06.1883
03.09.1883 a
05.06.1884
Origem: Rio de Janeiro - Partido Liberal
43
Brasílio Machado de
Oliveira (Pres.)
29.07.1884
05.06.1884 a
21.08.1885
Origem: São Paulo - Partido Liberal
44
Antônio Alves de Araújo
(Vice)-
s/d
24/26.08.1885
a 18.09.1885
2º período de governo.
Origem: Paraná - Partido Liberal
45
Joaquim de Almeida
Faria Sobrinho (Vice)
30.08.1885
20.09.1885 a
29.09.1885
1º vice-presidente – 1º período de governo
Origem: Paraná – Partido Conservador
46
Alfredo D’Escragnolle
Taunay (Pres.)
30.08.1885
29.09.1885 a
03.05.1886
Origem: Rio de Janeiro - Partido Liberal
47
Joaquim de Almeida
Faria Sobrinho (Pres.)
18.10.1886
03.05.1886 a
26.12.1887
2º paranaense p/ nomeação direta do
Imperador. 3º período
Origem: Paraná – Partido Conservador
48
Antônio Ricardo dos
Santos (Vice)
15.12.1887
29.12.1887 a
09.12.1888
2º vice-presidente em 03.12.1887 e 1º em
15.12.1887
Origem: Paraná – Partido Conservador
49
José Cesário de
Miranda Ribeiro (Pres.)
23.12.1887
09.02.1888 a
30.06.1888
Origem: Minas Gerais – Partido Conservador
50
Ildefonso Pereira
Correia (Vice)
26.11.1887
30.06.1888 a
04.07.1888
Barão de Serro Azul
Origem: Paraná – s/menção do partido
51
Balbino Candido da
Cunha (Pres.)
15.06.1887
04.07.1888 a
29.05.1889
Origem: Minas Gerais – Partido Conservador
52
Jesuíno Marcondes de
Oliveira e Sá (Pres.)
15.06.1889
16.06.1889 a
23.08.1889
3º e último paranaense presidente – 4º p. de
governo. Origem: Paraná – Partido Liberal
53
Joaquim José Alves
(Vice)
15.06.1889
03.09.1889 a
11.09.1889
1º vice-presidente.
Origem: Paraná - Partido Liberal
-
Jesuíno Marcondes de
Oliveira e Sá (Pres.)
s/d
12.09.1889 a
16.11.1889
5º e último período de governo provincial
Origem: Paraná - Partido Liberal
Fonte: CARNEIRO, D. História do período provincial do Paraná: galeria de presidentes 1853-1889. Curitiba:
Tipograia Max Roesner, 1960.
O Paraná provincial
1853 – 1889
65
HISTÓRIA DO PARANÁ:
RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS
DA PRÉ-HISTÓRIA À
ECONOMIA CAFEEIRA
As ações de reconhecimento dos territórios do Paraná na segunda
metade do século XIX
Em abril de 1851, quando o Paraná ainda era uma Comarca de São Paulo, partiu
da Colônia Militar do Jataí uma expedição com quinze canoas carregadas com cem
cargas de sal destinadas ao Mato Grosso. Essa monção era do Barão de Antonina, que
experimentava esse comércio em associação com os irmãos Antônio e Miguel Prestes.
Ela tinha como guia Joaquim Francisco Lopes; iam também John H. Elliot e 47 índios
contratados como canoeiros. Depois de dezesseis meses estavam de volta ao Jatai2.
A rota inaugurada pelo Barão de Antonina com cargas de sal para o Mato Grosso
tornou-se em seguida uma rota militar rumo aos postos de fronteira com o Paraguai.
Em 1855, com o Paraná já emancipado de São Paulo, o Governo Imperial enviou por
ela o capitão do exército Manoel Joaquim Pinto Pacca com communicações, ao que
parece, importantissimas para nossos postos militares na fronteira do Paraguai3.
Em 1857, o Ministério da Guerra enviou uma comissão comandada pelo primeiro
tenente de engenheiros Epiphanio Cândido de Souza Pitanga para veriicar as condições de navegabilidade dos rios Tibagi e Paranapanema. Os trabalhos realizados
pelo tenente Epiphanio Cândido de Souza Pitanga na rota para o Mato Grosso pelo
Tibagi, em 1857, já estavam concluídos com os preparativos para a guerra com o
Paraguai em 1864. Antonio Rebouças informou que em 1858 mandou ao Matto
Grosso por este caminho um batalhão de artilharia com as competentes peças e
muitas munições ao commando do actual visconde de Itaparica4.
Além da rota para o Mato Grosso, o Governo se preocupou em explorar as redondezas da Colônia Militar e das Colônias Indígenas do Paranapanema/Tibagi. Em
meados de 1862, Joscelim Morocines Borba, prestando serviço no aldeamento de
São Pedro de Alcântara, empreendeu uma exploração, com nove pessoas, a im de
veriicar os campos e os possíveis aldeamentos dos Kaingang existentes entre os
rios Tibagi e Pirapó5. Ainda em setembro de 1862, outra comissão exploradora, a
do engenheiro Hegreville, chegou a São Pedro de Alcântara com a missão de remover a Colônia Indígena do Pirapó para um lugar sem doença. Hegreville iniciou
2 Cf. PRESTES ,Antonio Dias Baptista. Viagem do Capitão D. Prestes e seu irmão Manoel D. B. Prestes
desta província de São Paulo a Cuiyabá em 21/04/1851. RIHGSP, São Paulo, n. 28, p. 777, 1851.
3 Cf. REBOUÇAS FILHO, Antonio . In: RELATÓRIO do presidente Carvalho, 15/02/1870, Anexo.
4 Cf. REBOUÇAS FILHO, Antonio . In: RELATÓRIO do presidente Carvalho, 15/02/1870, Anexo.
5 Cf. CAVASO, Frei Emílio da. Sobre a atividade dos capuchinhos no Paraná. In: BIHGEP, Curitiba, n.
37, p. 262, 1980.
66
uma estrada de São Pedro de Alcântara em direção ao rio Pirapó6. Nesse momento,
as atenções estavam voltadas para os vastos territórios que icavam a oeste do rio
Tibagi, e o primeiro alvo era chegar até o rio Pirapó e em seguida prosseguir até as
barrancas do Ivaí e do Paraná.
Na década de 1860, também foram realizadas várias expedições no rio Ivaí. Gustavo Rumbelsperger apresentara uma planta e um roteiro da viagem que tinha realizado de setembro a dezembro de 1864 ao Presidente da Província André de Padua
Fleury, o qual já tinha recebido um relatório do engenheiro Frederico Hegreville,
encarregado de explorar os rios Tibagi e Paranapanema.
Em de janeiro de 1865, os irmãos e engenheiros Francisco e José Keller chegaram à colônia Teresa Cristina, no alto rio Ivaí, com a missão de explorar esse rio.
Em maio, a expedição estava a 8,6 léguas (60,2 km) abaixo da antiga Vila Rica, e ali
avistou os índios nas margens do Ivaí, um grupo numeroso, conforme relata Keller,
O Paraná provincial
1853 – 1889
que pareciam mirar-nos postados uns no elevado barranco da margem, direita, outros nos rochedos do meio do rio. Ao mesmo tempo ouvimos o som
da bozina, que tocava de espaço a espaço para reunir gente. Pelo modo porque se tinham disseminado ao lado do canal do meio do rio e tomado forte
posição de cima do barranco, suppozemos que intentassem impedir-nos a
passagem, e, reunindo as canoas preparamos nossas armas (KELLER, 1866)7.
O encontro da expedição Keller com os Kaingang se deu em um dos paris (armadilhas) de pesca que estes últimos possuíam no rio Ivaí. Em um determinado
momento, quando a situação parecia tensa, um cacique Kaingang chegou trazendo
informações do Frei Timóteo e a situação se esclareceu. Frei Timóteo enviara uma
mensagem para a expedição por meio dos Kaingang que saíam do Jataí para pescar
em seus paris do rio Ivaí. O local onde os Kaingang pescavam era no Salto das Bananeiras (município de Ivailândia). E se os índios pescavam nessas corredeiras é evidente que eles tinham outros pontos de pesca ao longo do rio Ivaí e seus aluentes e
transitavam e acampavam por toda essa região. Os engenheiros Keller continuaram
sua viagem pelos rios Ivaí, Paraná, Paranapanema e Tibagi, onde encontraram novas
armadilhas de pesca dos Kaingang. Chegaram a Curitiba no dia 14 de outubro de
1865, após nove meses e meio de viagem com um conhecimento bastante completo
dos rios Ivaí, Paraná, Paranapanema e Tibagi.
Ainda na década de 1860, uma nova expedição foi planejada para estudar uma
6 Cf. CAVASO, Frei Emílio da. Sobre a atividade dos capuchinhos no Paraná. In: BIHGEP, Curitiba, n.
37, p. 262-263, 1980.
7 KELLER, In: Relatório do presidente FLEURY, 15/02/1866, Anexo A: 5.
67
HISTÓRIA DO PARANÁ:
RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS
DA PRÉ-HISTÓRIA À
ECONOMIA CAFEEIRA
nova rota para o Mato Grosso. Dessa vez, a missão foi coniada ao engenheiro paranaense Antonio Pereira Rebouças:
Por aviso do ministério da agricultura de 4 de junho foi-me communucado que o governo geral tinha resolvido mandar proceder aos trabalhos de
reconhecimento de uma estrada de rodagem para o Matto Grosso atravez
desta provincia, e que, para taes trabalhos, tinha nomeado uma commissão
composta dos engenheiros Antonio Pereira Rebouças Filho, como chefe, Pedro Aloys Scherer e Mauricio Schwarz, como ajudantes, a qual expedira as
instrucções que me foram remettidas por copia8.
Para o início dos trabalhos, foram repassados 23:000$000 (vinte e três contos de
réis) ao engenheiro Rebouças, e em 3 de maio ele iniciou as explorações do trecho
Guarapuava ao baixo Ivaí, que esperava ser concluída em novembro de 1869. Em 26
de novembro de 1869, Rebouças informou que a expedição tinha saído de Guarapuava em 2 de maio, composta de 32 pessoas entre trabalhadores, engenheiros etc.,
e possuía 25 animais para o transporte do material, bem como reses para o abate durante os trabalhos. Em 3 de outubro, chegaram às margens do Ivaí, tendo a medição
atingido 183, 3 km a contar de Guarapuava. Rebouças acreditou que o ponto que
chegaram ao Ivaí foi no ribeirão, anotado por Keller a 28 km acima da Corredeira do
Ferro, hoje denominado rio Ligeiro, no município de Jussara. Rebouças tratou das
riquezas da região e da possibilidade de se traçar a estrada de Guarapuava ao baixo
Ivaí9. Os planos de Rebouças relativos à estrada para o Mato Grosso partindo de
Guarapuava tinham sido discutidos por engenheiros na corte, e ele previa um tronco central de Antonina até Guarapuava e daí dois ramais: um para o Mato Grosso,
acompanhando o Ivaí, e outro para Paraguai, margeando o rio Iguaçu, e um terceiro
de alguma localidade do Iguaçu para Corrientes, na Argentina.
Anos mais tarde, a picada aberta pela expedição de Rebouças em 1865 serviu
para que fazendeiros de Guarapuava chegassem até aos acampamentos Kaingang
nos campos das cabeceiras dos rios Mourão e Goio-Erê, hoje município de Campo
Mourão e municípios vizinhos. Nessa mesma época, o cacique Bandeira, dos Kaingang, visitou Guarapuava e convidou os brancos para visitá-los em suas moradias
nos campos do Mourão10.
As explorações dos territórios ao longo do rio Ivaí continuaram na década seguinte. De junho de 1872 a abril de 1874, os ingleses comandados pelo engenheiro
8 ABREU, 14/09/1868: 21.
9 Antonio REBOUÇAS FILHO, In: LEÃO, 05/12/1869, Anexo.
10 Cf. CLEVE,Daniel. In: RELATÓRIO do presidente Pedrosa, 16/02/1881, p. 78.
68
Thomas Bigg-Wither pesquisaram o traçado de estrada de ferro pelo vale do rio
Ivaí. Essa expedição fazia parte dos trabalhos de demarcação da futura Estrada de
Ferro Paraná-Mato Grosso pelo vale do Ivaí, cujo projeto foi pensado em Londres e
contou com o apoio do Barão de Mauá. Após encontro desastroso com os Kaingang
na Corredeira do Ferro, onde foram mortos dois índios Kaingang, os trabalhos no
rio Ivaí foram suspensos e Bigg-Wither foi explorar o rio Tibagi com Telêmaco Borba
em 187411.
Ainda nessa década, os agentes da conquista estenderam suas explorações até o
rio Piquiri. Em 1876, uma expedição de reconhecimento percorreu os rios Tibagi,
Paranapanema, Paraná até Sete Quedas e entrou pelo rio Piquiri, comandada pelos
irmãos Nestor e Telêmaco Borba e inanciada pelo governo da província para o reconhecimento do salto das Sete Quedas no rio Paraná bem como para reconhecimento
do rio Piquiri. Levaram nessa expedição índios Kaingang de São Pedro de Alcântara
para servir de intérpretes, em uma clara intenção de contatar os Kaingang que viviam no vale do rio Piquiri e nos campos divisores das águas desse rio com o Ivaí12.
Em março de 1882, o presidente Carlos A. de Carvalho recebeu um aviso do
Ministério da Agricultura referente aos territórios dos Kaingang do vale do Piquiri.
De acordo com as informações do fazendeiro guarapuavense Norberto Mendes Cordeiro, a região tinha uma população de 5.000 Kaingang dispostos a se relacionarem
com os brancos. Objetivando incorporar esses territórios, o Ministro da Agricultura
escreveu que tinha resolvido:
O Paraná provincial
1853 – 1889
(...) mandar que se abra uma estrada que dos campos de Guarapuava demande o primeiro desses rios na parte navegavel do seu curso, e bem assim que
se estabeleça na sua proximidade um aldeamento (CARVALHO, 1882, p. 58)13.
Pôs à disposição do presidente Carvalho a quantia de 10:000$000 (dez contos
de réis) na conta Catequese e Civilização dos Índios, e nomeou o engenheiro Emílio Gengembre para executar a obra. Em abril, o presidente Carvalho nomeou o
engenheiro Pedro Leitão da Cunha como auxiliar de Gengembre e lhe deu como
instrução organizar uma comissão de trabalho em Guarapuava com o apoio de Luiz
Daniel Cleve e Norberto M. Cordeiro.
11 Cf. BIGG-WITHER,Thomas. Novo Caminho no Brasil Meridional: a província do Paraná 1872/1875. Rio de janeiro, [1878] 1974.
12 Cf. BORBA, Nestor. Excursão ao salto de Sete Quedas pêlos capitão Nestor Borba. RIHGB, Rio de
Janeiro, n. 97, p. 65-87, 1896.
13 Cf. RELATÓRIO do presidente Carvalho, 01/10/1882, p. 58.
69
HISTÓRIA DO PARANÁ:
RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS
DA PRÉ-HISTÓRIA À
ECONOMIA CAFEEIRA
De Guarapuava, deveria seguir para os campos do Mourão e escolher um local
para a fundação de uma Colônia Indígena. E, depois, deveria seguir com a picada
pela margem direita do rio Piquiri até onde o rio propiciasse a navegação, indicando um local adequado para a fundação de outra Colônia Indígena e ainda outro
local, na foz do Piquiri, para a fundação de uma Colônia Militar. Também deveria
pesquisar o local das ruínas de Ciudad Real, explorar o rio Paraná entre o Salto
das Sete Quedas e a foz do rio Iguatemi; explorar o rio Paraná até a foz do rio São
Francisco e ver a possibilidade uma Colônia Militar às suas margens. Deveria ainda
veriicar a possibilidade de construir uma estrada de ferro acima e abaixo do Salto
das Sete Quedas. Também deveria, desde o ponto onde não é mais possível navegar
no rio Piquiri, estudar a possibilidade de uma estrada de rodagem ou de ferro ligando os Aldeamentos do Piquiri, Campo Mourão e a cidade de Guarapuava. Nessa
cidade, deveria explorar o vale do rio Jordão ou do rio Cavernoso até o rio Iguaçu,
em Porto União.
Os trabalhos da comissão consistirão no reconhecimento da região indicada
com o im de determinar approximadamente os pontos obrigados de uma
estrada de ferro em direcção ao rio Paraná, de modo a habiliatar o governo
a julgar dos traçados até hoje propostos. Será determinada a latitude e longintude dos pontos mais notaveis da exploração, de modo a servir o trabalho
de subsidio a carta geral do Império, devendo todos os pontos determinados astronomica ou geodesicamente ser referidos ao Observatório do Rio
de Janeiro. Nos pontos mais notaveis da exploração serão plantados marcos
(CARVALHO, 1882, p. 59)14.
As determinações foram as seguintes em relação aos índios: deveriam buscar
informações sobre as tribos, famílias, costumes, extensão dos territórios de cada
grupo ou tribo e se a língua era comum a todos da região, para que o Governo
pudesse organizar um corpo de intérpretes. Distribuiriam brindes para os índios,
evitando qualquer incidente que pudesse atrapalhar os planos do Governo Imperial
para ocupar a região. As praças do 2º Corpo de Cavalaria, aquartelados na região,
só poderiam agir em caso de extrema urgência. Estava planejada, portanto, a última
etapa para a conquista dos territórios indígenas do oeste, e com essas determinações desvendavam-se os territórios do Paiquerê, as terras do rio Piquiri e se chegava
à última fronteira no rio Paraná.
Em seguida, o presidente Carvalho começou a receber os relatórios da comissão
Gengembre. O primeiro foi em 11 de junho, quando o engenheiro lhe comunicou
14 RELATÓRIO do presidente Carvalho, 01/10/1882, p. 59.
70
que izera o reconhecimento da região desde o rio Butiazinho, Bahu e Jarão para
poder entrar no vale do rio Piquiri. No dia 20 de julho, outro ofício comunicou que
os trabalhos seguiam bem, apesar do frio (os termômetros registraram oito graus negativos). Um mês depois, em 20 de agosto, o engenheiro escreveu que entrara pelo
rio Jarão e acompanhara o Piquiri pela sua margem esquerda, mas o rio dava uma
volta muito grande para oeste-sudoeste, tirando a picada do rumo das Sete Quedas,
aumentando a distância sobre um terreno de difícil passagem. O engenheiro evitou
essa volta do rio, atravessando-o duas vezes para escapar da volta, retomando a picada na margem esquerda do Piquiri.
Em maio de 1883, queixando-se da morosidade do engenheiro Gengembre, o
presidente Carvalho solicitou sua exoneração e ele foi dispensado em 13 de dezembro de 1883. A demissão do engenheiro e do seu ajudante, mais a falta de recursos
inanceiros, deixaram as atividades dessa estrada suspensas durante o ano de 1883.
Mas Gengembre tinha feito um relatório em ins de 1882, no qual relatou os trabalhos realizados:
O Paraná provincial
1853 – 1889
Levei o caminho de cargueiros até o baixo Pequery ou Paquerê, no lugar do
Paryhê ponto onde o caminho deve atravessar o rio n’um vão excellente que
no dizer dos índios tem pouco fundo, mostrando elles que a agua dá até
pouco acima do tornozello.
Chegando, porem, o acampamento ao Par dos índios Jany-gio e major, e
achando-me com poucos mantimentos por ter inesperadamente de sustentar
cinco caciques que tinham vindo ao meu encontro com sua gente, com os
animaes enfraquecidos por uma longa estada no matto, que me faziam receiar
não poder voltar se a demora se prolongasse, tendo se ausentado o meu linguara por doente, assentei então de regressar para Guarapuava para munir de
mais mantimentos e de gente, pois alguns estavam estragados, e para arranjar
uma tropa de animaes novos e um outro linguar de que não podia prescindir; sendo que o mais motivou o meu regresso foi ter de dar cumprimento á
ordem de V. Ex. a respeito da prestação de contas.
Estão abertas 34 legoas e 250 metros de picada, prestando-se ao serviço de
cargueiros; desta extensão 28 legoas e 250 metros são medidos até o pary dos
índios aonde existem 4 toldos: do major Ca-nian, Janggio, Joaquim Cueu e
Carité; o rio nesta altura tem 308 metros de largura, ali esta a corredeira que
forma o pary dos índios. Nesta parte a navegação é possível por canôa, diicultosa na estação da secca e facil na estação chuvosa. O rio Cantú desagua no
Pequery poucas legoas acima desse ponto, dahi para baixo acaba-se a região
montanhosa que vem ate ahi dos campos de Guarapuava. O rio de ribanceiras
elevadas, é bello de se ver deslisandos-se com velocidade entre as coxilhas de
declives suaves que lhe orlão as margens a perder de vista.
Pelo cimo desta coxilha, por minha ordem e dando ferramentas e mimos, os
índios do cacique Deperge ou Deferché, que tem o seu toldo no ultimo pary
do rio Paquere, chamado Pari-hé, guiados pelo cacique Joaquim Cueu (que
me acompanha desde o principio) e sob as ordens de Iambré, abriram uma
picada de cargueiro, ligando os toldos do pary dos índios ao toldo do Pari
-hé, passando pelo toldo do cacique Nem-Cur; esta picada, que eu mandei
explorar até certa altura, esta bem feita e se presta perfeitamente a passagem
de cargueiros; esta picada tem mais ou menos 6 legoas de comprimento e
71
HISTÓRIA DO PARANÁ:
RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS
DA PRÉ-HISTÓRIA À
ECONOMIA CAFEEIRA
mostra a intelligencia do indio que comprehendeu perfeitamente a necessidade de um caminho de cargueiro so por ter presenciado os meus trabalhos;
porem é bom observar que o terreno é excellente e que só se tratava de
acompanhar o cimo de uma coxilha.
No lugar do Pari-hé o caminho transpora o rio (que os índios de lá chamão
Bang-eu ou Pang-eré) que no dizer dos índios dá vão, chegando a agua até um
pouco acima do tornozello.
Do Pari-hé em diante a navegação é facil até a foz no Paraná, encontram-se,
porem, duas corredeiras fracas, a ultima tão perto da foz no Paraná que desta
se a encherga, é provavelmente a corredeira que o Sr. Nestor Borba denominou Nha Barbara. Na estação chuvosa estas corredeiras desaparecem e a
navegação é franca do Par-hé ao Paraná.
O pari dos índios esta distante de Guarapuava 38 legoas e 25º, o Pari-hé
44 leguas desde o ponto até a cachoeira das Sete Quedas haverá (distancia
calculada) 10 leguas. Total geral da cidade de Guarapuava á Cachoeira 54
leguas. Esta longa distancia tem por ponto de refresco para gente e animaes
a campina de Victorino que dista 13 leguas e 5 kilometros do campo (rio do
cobre) e 23 leguas e 5 kilometros da cidade de Guarapuava; desta campina
ao Pari-hé o terreno é o melhor possível tanto para estrada de rodagem como
para estrada de ferro. No relatorio inal e na planta annexa que terei a honra
de apresentar a V. Ex. minuciosamente serão expostos todos os acidentes do
terreno, assim, como a topograia o systema orographico da extensão percorrida (CARVALHO, 1883, p. 6)15.
Nas décadas seguintes, outras explorações oiciais ou particulares foram realizadas nos vales do Ivaí e Piquiri.
Em 1896, o General José Cândido da Silva Muricy desceu o Ivaí até as ruínas de
Vila Rica do Espírito Santo em busca de antigos tesouros supostamente deixados
pelos jesuítas16.
Em 1911, Edmundo Mercer, morador da cidade de Tibagi, foi contratado pela
irma Cole & Weiss, de Curitiba, para abrir uma picada do rio Ivaí, entre salto das
Ariranhas e Ubá, até Campo Mourão. Ali chegando, encontrou cerca de dez famílias
que tinham vindo de Guarapuava provavelmente pela trilha aberta por Rebouças. A
informação de Luiz Leopoldo Mercer, ilho de Edmundo, é de que seu pai, no ano
de 1910, a serviço da irma Colle & Weiss, abriu um picadão desde o Salto Ubá, no
Ivaí, até as barrancas do Paraná, em uma distância de 220 km. Esse era o traçado da
estrada boiadeira destinada a trazer gado magro do Mato Grosso para engordar nos
Campos Gerais. Luiz L. Mercer também informou que seu pai izera outras entradas
na região entre os rios Piquiri e Ivaí, e chamava a região de El Dorado paranaense17.
Ainda em 1917, Edmundo Mercer conduziu ao Paraguai, através dos territórios aci-
15 RELATÓRIO do presidente Carvalho, 23/05/1883, p. 6.
16 Cf. MURICY, José Cândido da Silva. Viagem ao país dos Jesuítas. Curitiba, 1975.
17 Cf. MERCER, Edmundo; MECER, Luiz Leopoldo. História de Tibagi. Curitiba, 1977, p. 33; 141.
72
ma mencionados, uma comissão inglesa interessada na instalação de frigoríicos18.
Em 1918, Edmundo Mercer viajou novamente pelos territórios indígenas do vale
do Piquiri e foi até o rio Ivinheima, no Mato Grosso19. No início da década de 1920,
Edmundo Mercer e Coelho Jr. voltaram a explorar e a abrir picadas nas matas do noroeste do Estado. Mercer abriu a picada de Campo Mourão para o norte em direção
à Corredeira do Ferro no rio Ivaí, onde ele encontraria com a picada de Coelho Jr.
que vinha descendo do norte para sul desde a foz do rio Paranapanema, no Paraná.
O Paraná provincial
1853 – 1889
De longa data palmilhavamos aqueles sertões, (...) Com o auxilio do levantamento do rio Ivaí, pela expedição inglesa do engenheiro Lloyd (...) o nosso,
do rio Piquiri em 1920, e o picadão por nós cortado, de Leste a Oeste, do Salto
Ubá, no Ivaí, às barrancas do rio Paraná e sul do Mato Grosso, (...) possuíamos
um conhecimento topográico geral da imensa zona das grandes caudais e
imensas lorestas, suas bacias hidrográicas, seus altiplanos, divisores d’águas,
serras, cachoeiras, cataratas, climas, e a incipiente geograia humana, esboçada
por mineiros e paulistas em Campo do Mourão20 (COELHO, 1946, p. 21-22).
A migração europeia para o Paraná no século XIX
Ao discutir a questão da imigração moderna no Paraná, alguns historiadores
utilizam a expressão “imigração para povoar vazios demográicos” para explicar o
surgimento dos primeiros núcleos coloniais no Paraná distantes dos centros mais
povoados, como a região de Paranaguá, Curitiba e adjacências, e Campos Gerais.
Esse seria o caso da instalação dos alemães em Rio Negro, em 1828, que estava
dentro de uma política mais ampla desenvolvida pelo Governo Imperial; o caso dos
franceses instalados na Colônia Teresa Cristina isolada no vale do Ivaí, em 1847; e
dos alemães franceses e suíços, no litoral em Guaraquessaba, em 1852.
Nesse período da Quinta Comarca, 1829 – 1853, entraram no Paraná 460 migrantes europeus, os quais foram instalados em lugares distantes dos campos e dos centros urbanos, em uma estratégia de ocupar territórios de matas que não eram “vazio
demográicos”, mas cujos antigos moradores eram ameaçados de ataques indígenas.
18 Cf. Edmundo A. MERCER, & Luiz Leopoldo MERCER. História de Tibagi. Curitiba, 1977, p. 34.
19 Cf, MERCER, Edmundo; MECER, Luiz Leopoldo. História de Tibagi. Curitiba, 1977, p. 155.
20 Cf. COELHO Jr. Pelas selvas e rios do Paraná. Curitiba, 1946, p. 21-22. Nesse mesmo livro, o autor
relata que ainda em 1921 realizaram levantamentos na barra do rio Cantú, no Piquiri, e em 1922 izeram
novos trabalhos topográicos em direção ao oeste. Em outra passagem, diz que em 1920 abriam a picada
do Salto Ubá aos campos denominados Mourão e lá encontraram moradores que aí residiam há mais de
30 anos. Eram das famílias dos Custódios, dos Pereiras, Ana Couto, e do Cel. Guilherme de Paula Xavier.
Esses moradores eram famílias de mineiros que tinham passado pelo norte e seguido para Guarapuava,
e de lá tomaram rumo norte, se instalando na Serra da Pitanga, e mais tarde chegaram nos campos do
Mourão. O relato de Coelho Jr. é interessante, mas insuiciente; temos que desenvolver mais pesquisa
sobre a região nesse período do inal do século passado e início deste século.
73
HISTÓRIA DO PARANÁ:
RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS
DA PRÉ-HISTÓRIA À
ECONOMIA CAFEEIRA
74
Por isso, os alemães foram colocados na estrada da mata no Rio Negro e os franceses
no caminho de Ponta Grossa para Guarapuava.
A partir do período provincial, o eixo das migrações deixa de ser a ocupação
dos “vazios” e passa a ser o de se criar uma mão de obra de operários assalariados,
pequenos artesãos especializados em diversos ofícios e pequenos agricultores que
desenvolvessem uma agricultura para abastecimento dos centros urbanos.
Esse eixo teve sua fase áurea, que foi de 1868 a 1878. Nesse período, o governo
provincial traçou um plano de estabelecimento de colônias agrícolas estrangeiras
nas proximidades dos centros urbanos. Na administração de Adolfo Lamenha Lins,
de 1875 a 1877, ocorreu o estabelecimento de inúmeras colônias em volta de Curitiba formadas de alemães, italianos e poloneses em maior número, e de franceses,
suíços e ingleses em menor número. Nesse período provincial, de 1853 a 1889,
entraram no Paraná 19.215 migrantes.
A partir da década de 1880, o eixo das migrações se volta para trazer migrantes que seriam ocupados nas obras públicas, e a migração serviria para fornecer
trabalhadores para as grandes obras públicas como as estradas de ferro, as linhas
telegráicas, etc. Nesse período do inal da província até 1954 entraram no Estado
81.656 migrantes.
Entre 1829, quando da entrada dos primeiros migrantes alemães em Rio Negro,
até 1911, quando chegaram os holandeses em Carambeí, foram criados mais de 100
núcleos coloniais e entraram mais de 100 mil migrantes no Paraná.
No entanto, a política de migração desenvolvida por vários governos do Estado
sofreu reveses e teve problemas. Todos os presidentes da província se referiam aos
problemas da migração, porém quase todos eles estavam convencidos das vantagens
de se trazer migrantes europeus, de preferência alemães, ingleses, italianos e apenas
alguns davam preferência aos colonos nacionais.
As diiculdades dos planos de colonização com migrantes europeus eram as mais
variadas, desde a falta de planejamento até as diferenças culturais existentes entre
populações nacionais e estrangeiras, diicultando as relações entre os migrantes e
os nacionais.
Entretanto, a migração deixou uma marca muito forte na constituição do paranaense observada até os dias de hoje nas várias regiões do Estado e instigou os
intelectuais e pensadores locais a desenvolver teorias sobre que seria o homem paranaense. Uma dessas teorias preconiza que o homem paranaense seria o resultado
dessa política de migração de mais de um século, o que deu ao Paraná uma isionomia diferente do Brasil. Nessa acepção, enquanto o homem brasileiro seria o fruto
da mistura das três raças – o branco europeu, o índio americano e o negro africano
–, o paranaense seria uma mistura muito mais soisticada, com vários elementos europeus se impondo no sangue do homem do Paraná, por isso o Paraná, em termos
de população, seria um Brasil diferente.
O Paraná provincial
1853 – 1889
Quadro 2 - Esquema geral de explicação da formação do povo brasileiro e do povo
paranaense de acordo com Wilson Martins.
75
Quadro 3 - Colônias de migrantes europeus na província do Paraná
HISTÓRIA DO PARANÁ:
RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS
DA PRÉ-HISTÓRIA À
ECONOMIA CAFEEIRA
Ano
Localidade
Etnia21
Colônia
1829 Rio Negro
Colônia do Rio Negro
Alemães
1847 Ivaí
Colônia Tereza no rio Ivaí
1852 Guaraqueçaba
Colônia do Superagui
1860 Serro Azul
Colônia do Assungui
1868 Curitiba,
Colônia Argelina
Franceses
Suíços, alemães, franceses e
outros
Ingleses, franceses, italianos,
alemães e outros
Franceses da Argélia, alemães,
suíços, ingleses e italianos
Poloneses, alemães e italianos
1870 Curitiba
Colônia do Pilarzinho
1871 Curitiba
Colônia São Venâncio
Alemães, poloneses e suecos
1871 Paranaguá
Colônia Alexandra
Italianos
1873 Curitiba
Colônia Abranches
Alemães e Poloneses
1875 Curitiba
Colônia Santa Cândida
1875 Curitiba
Colônia Orleans
1875 Paranaguá
Colônia Eufrasina e Pereira
1876 Curitiba
Colônia Bento Inácio
Poloneses, suíços e franceses
Poloneses, italianos, franceses
e outros
Italianos e espanhóis
Poloneses, siberianos e
galicianos
Poloneses, silesianos e alemães
1876 Curitiba
Colônia Lamenha
1876 Curitiba
Colônia Dom Augusto
1876 Curitiba
Colônia Dom Pedro
1876 Araucária
Colônia Tomaz Coelho
Poloneses
Poloneses, galicianos e
silesianos
Poloneses, galicianos e
silesianos
Franceses, poloneses e alemães
1877 Curitiba
Colônia Riviére
1877 Antonina e Morretes
Colônia Nova Itália
Italianos
1878 Curitiba
Italianos
1878 São José dos Pinhais
Colônia Dantas
Colônia Alfredo Chaves (hoje
Colombo)
Colônia Santa Maria do Novo Tirol
Italianos
1878 São José dos Pinhais
Colônia Zacarias
Poloneses e silesianos
1878 Curitiba
Italianos
1878 São José dos Pinhais
Colônia Inspetor Carvalho
Poloneses e italianos
1878 São José dos Pinhais
Colônia Muricy
Poloneses e italianos
1878 Campo Largo
Colônia Antonio Rebouças
Poloneses e italianos
1878 Ponta Grossa
Colônia Otávio
Alemães do Volga
1878 Palmeira
Colônia Sinimbu
Alemães do Volga
1878 Lapa
Colônia Wirmond
Alemães do Volga
1879 Paranaguá
Colônia Maria Luiza
Italianos, alemães e espanhóis
1883 Campo Largo
Colônia Mendes Sá
Italianos e poloneses
1886 Campo Largo
Colônia Alice
Poloneses
1886 Araucária
Colônia Barão de Taunay
Poloneses
1886 Curitiba
Colônia Santa Gabriela
Poloneses e italianos
1886 Curitiba
Colônia Antonio Prado
Poloneses e italianos
1886 Curitiba
Colônia Pres. Faria
Poloneses e italianos
1887 Curitiba
Colônia Maria José
Italianos
1887 Rio Negro
Colônia João Alfredo
Alemães e poloneses
1887 Rio negro
Colônia São Lourenço
Alemães
1888 Curitiba
Colônia Santa Felicidade
Italianos
1888 Paranaguá
Colônia Visconde de Nacár
Italianos
1888 Paranaguá
Colônia de Santa Cruz
Italianos
1888 Paranaguá
Colônia Santa Rita
Italianos
1889 Campo Largo
Colônia Balbino Cunha
Italianos
1889 Campo Largo
Colônia Dona Mariana
Italianos
Fonte: MARTINS, Wilson. Um Brasil diferente: ensaio sobre o fenômeno de aculturação no Paraná. 2. ed. São
Paulo: T. A. Queiroz, 1989, p. 66-67.21
21 Fonte: PARANÁ. Dicionário histórico-biográico do Paraná. Curitiba: Chain, 1991, p. 90-91.
76
OUTRAS FORMAS DE POVOAMENTO: AS COLÔNIAS MILITARES E
INDÍGENAS NO PARANÁ PROVINCIAL
As Colônias Militares
As ediicações militares nos territórios indígenas no Paraná datam desde a invasão
dos bandeirantes, no século XVII. Em 1628, os bandeirantes Antônio Raposo Tavares
e Manoel Preto, ao atacarem o Guairá, construíram um forte ou campo entrincheirado
na margem esquerda rio do Tibagi. O padre Simão Maceta se refere a ele como ponto
de apoio ou quartel de inverno dos bandeirantes: una paliçada fuerte de palos, cerca
de nuestras aldeas (CARNEIRO, 1942, p. 10).
De 1757 a 1765, o governo colonial manteve um destacamento militar na foz do
rio Iapó, no Tibagi, para proteger as minas de diamantes ali descobertas, e o Forte de
Nossa Senhora do Carmo foi fundado pelo tenente Xavier da Silva, em 1769, na entrada dos campos de Guarapuava.
O Forte de Atalaia foi implantado no coração dos territórios Kaingang nos campos
de Guarapuava em 25/6/1810,
O Paraná provincial
1853 – 1889
da parte d’alem do rio Coutinho, a povoação da Atalaia, nome que proveio de
se ter erigido a primeira obra d’esta qualidade, com a elevação de 40 palmos,
sobre quatro esteios, de onde a sentinella podia descobrir grande extensão de
campo. Depois passaram a levantar quatro casas para alojamentos (LIMA,1842,
p. 45).
A fazenda Fortaleza, construída no inal do século XVIII por José Felix da Silva, na
margem direita dos rios Tibagi e Iapó, foi um verdadeiro forte militar, conforme nos
relata Saint-Hilaire, que nela icou hospedado em 1820 e conheceu o seu dono (SAINT
-HILAIRE, 1820, p. 58). No relato de Saint-Hilaire, outras fazendas dos Campos Gerais,
na época, também tinham as características de fortes militares. A fazenda Jaguariaiva,
do coronel Luciano Carneiro, foi depósito da “pólvora e do chumbo que o governo
enviava para os Campos Gerais a im de que os moradores pudessem se defender dos
assaltos dos bugres ou dos índios selvagens”, bem como era ponto de abastecimento
dos soldados que perseguiam os índios nas suas aldeias (SAINT-HILAIRE, 1820, p. 48).
A fazenda Caxambu do Sr. Xavier da Silva assim foi descrita por Saint-Hilaire: “subitamente, em meio do deserto, não longe das terras ocupadas pelos índios, (...) campos
cercados por largos fossos, estacadas bem feitas, muros bem conservados, caiados e
cobertos de telhas” (SAINT-HILAIRE, 1820, p. 50).
As Colônias Militares foram criadas diretamente pelo Império, obedecendo a uma
política mais ampla de ocupação de territórios até então não conquistados. Em 16 de
agosto de 1854, o Ministério do Império comunicou ao presidente Zacarias de Góes e
Vasconcelos que a Colônia Militar do Jatai fora coniada ao Barão de Antonina. Nesse
77
HISTÓRIA DO PARANÁ:
RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS
DA PRÉ-HISTÓRIA À
ECONOMIA CAFEEIRA
mesmo ano, outro aviso do Ministro do Império informou a Zacarias que se pretendia
criar novas Colônias Militares nos territórios dos Kayoá no Mato Grosso, e que elas
icariam sob a sua administração. O Império pretendia gastar a quantia de 27:470$000
(contos de réis) no estabelecimento dessas colônias ( VASCONCELLOS,1855, p.7). Essa
intenção e as práticas anteriores do Barão Antonina na região demonstram a clara intenção de ocupação desses territórios.
Colônia Militar do Jataí
Criada pelo Decreto Imperial Nº 751, de 21 de janeiro de 1855, e mantida pelo
Ministério da Guerra até sua extinção, em 1890, foi instalada nas margens do rio Tibagi
onde é hoje a cidade de Jataizinho.
Figura 1 - Planta da Colônia Militar do Jataí em 1865.
Fonte: Arquivo Público do Paraná.
Colônia Militar do Xagu
O presidente da província do Paraná, André de Paula Fleury, em seu relatório de
março de 1864 anunciou que enviara ofício ao Ministério da Guerra em 3 de dezembro
de 1864,
78
acerca da fundação de duas colônias militares, uma no Campo-Erê, ao O. dos
rios Xapecó e xopim; e outra nos campos do Chagu, a O. dos de Guarapuava.
Procurando pôr em execução o Decreto n. 2502 de 16 de Novembro de 1859,
era meu im não só conseguir a protecção de vida aos fazendeiros daquellas regiões, assegurando-lhes as vidas e propriedades contra os continuados assaltos
do selvagem; como preparar a defeza da fronteira, para as bandas do Paraguay
e da Confederação Argentina (FLEURY, 1865, p. 35).
O Paraná provincial
1853 – 1889
Figura 2 - Mapa da localização da Colônia Militar do Chagu e o traçado do caminho da Vila de Nossa Senhora do
Belém de Guarapuava até os campos do Chagu.
Fonte: Arquivo Público do Paraná.
Colônia Militar do Xopim
Criada pelo Decreto Imperial 2502, de 16 de novembro de 1859, onde hoje se
encontra cidade Chopinzinho, foi instalada em 27 de dezembro de 1882. O objetivo
dessa colônia era: a) defesa da fronteira; b) proteção dos habitantes dos Campos de
palma, Erê, Xagu e Guarapuava contra a incursão dos índios, com auxílio da catequese
e civilização.
Colônia Militar do Xapecó
Criada pelo Decreto nº 2502, de 16 de novembro de 1859, pelo Governo Imperial e
instalada somente em 14 de março de 1882, nas margens do rio Chapecó, nos campos
da cascavel (Xaxa-re em Kaingang), região rica em pinheiros que logo começaram a
ser derrubados para a exploração de madeira, e sua inalidade era a mesma da colônia
militar do Xopim.
79
HISTÓRIA DO PARANÁ:
RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS
DA PRÉ-HISTÓRIA À
ECONOMIA CAFEEIRA
Figura 3 - Planta da Colônia Militar do Chapecó.
Fonte: Arquivo Público do Paraná.
Colônia Militar de Foz do Iguaçu
Fundada em 1889 com parte da população da Colônia Militar do Chopim, completava a rota de ocupação dos territórios a oeste de Guarapuava até as barrancas
do rio Paraná.
Figura 4 - Colônias Militares no Paraná Provincial.
Fonte: O autor.
As Colônias Indígenas
Na segunda metade do século XIX, o Governo Imperial, atuando em conjunto com
o governo da província, passou a implantar as Colônias Indígenas em vários pontos da
província. Era a política de “catequização e civilização”, ou conquista, das populações
indígenas implementada pelos governos e capitaneadas pelos padres capuchinhos italianos. Se pelo lado do Governo essa política objetivava aldear os índios em alguns
80
poucos locais da província e liberar seus territórios para ocupação, pelo lado dos índios os aldeamentos poderiam servir como locais onde poderiam acessar facilidades,
benefícios, bens e produtos da sociedade envolvente. Em outras palavras, os índios
que se deixaram aldear traçaram uma política própria para utilização dos aldeamentos.
Eles reelaboraram, a seu modo, a política de “catequese e civilização” dos conquistadores e procuraram imprimir seu ritmo no funcionamento desses aldeamentos, nem que
para isso tivessem que ingir que tinham aceitado as leis dos brancos e a religião que
os padres procuravam impingir-lhes.
Na sequência deste capítulo, faremos uma breve descrição desses aldeamentos indígenas planejados e implantados, ou simplesmente planejados e não implantados.
O Paraná provincial
1853 – 1889
A Colônia Indígena de Santa Thereza
A colônia de Santa Thereza estava prevista para ser a última – na província paranaense – da rota luvial Paraná-Mato Grosso, na conluência do rio Paranapanema com
o Paraná, mas não chegou a ser instalada.
A Colônia Indígena de Nossa Senhora do Loreto do Pirapó
A Colônia indígena de Nossa Senhora de Loreto do Pirapó foi instalada na foz do rio
Pirapó no Paranapanema, no mesmo local que em 1630 tinha sido a Redução Jesuítica
de Nossa Senhora do Loreto, hoje município de Itaguagé, PR22. Ela foi criada em 1855
e extinta em 1862 e abrigou os índios Guarani-Kayoá.
Colônia Indígena de Santo Inácio do Paranapanema
Ela surgiu em 1862 com a transferência da Colônia Indígena de Nossa Senhora do
Loreto do Pirapó e localizava-se na embocadura do rio Santo Inácio, no Paranapanema,
no mesmo local da antiga Redução Jesuítica do mesmo nome, hoje no município de
Santo Inácio. O aldeamento de Santo Inácio do Paranapanema foi extinto em 1878 e
também abrigou os índios Guarani das parcialidades Kayoá e Nhandéva.
Colônia Indígena de Santa Isabel
As instruções imperiais de 25/04//1857 sobre a Organização das Colônias Indígenas
no Paraná e Mato Grosso ordenavam a criação dessa colônia na conluência do rio
Tibagi no Paranapanema. Apesar de estar prevista pelo Regulamento Imperial de 1857,
ela não foi efetivamente criada.
22 Sobre as Reduções Jesuíticas no Paraná, ver os relatos do Padre Montoya, in: Bandeirantes e Jesuítas no Guairá, organizado por Jaime Cortesão.
81
HISTÓRIA DO PARANÁ:
RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS
DA PRÉ-HISTÓRIA À
ECONOMIA CAFEEIRA
Colônia Indígena de São Pedro de Alcântara
Instalada nas margens do rio Tibagi em frente à cidade de Jataizinho, ela foi a maior
colônia indígena da província e a que teve maior duração, de 1855 a 1895. Planejada
para abrigar os índios Kayoá que estavam sendo trazidos de seus territórios no Mato
Grosso pelo Barão de Antonina, também abrigou vários grupos Kaingang que viviam
no vale do rio Tibagi e em outras localidades nos vales dos rios Ivaí e Piquiri.
A Colônia Indígena de São Jerônimo
A criação do Aldeamento Indígena de São Jerônimo se deu em 1859, na fazenda
São Jerônimo do Barão de Antonina. Seu primeiro Diretor foi Joaquim Francisco Lopes
e ela teve como primeiro religioso o Frei Mathias de Genova, e em seguida assumiu
Frei Luiz de Cimitile. A colônia abrigou diversos grupos Kaingang do vale do Tibagi
e mais tarde, com a chegada de populações brancas na região, ela se transformou na
cidade de São Jerônimo da Serra.
Colônia Indígena do Xongu (Chagu) nos Mincriniarê23
Ela foi instalada em 1859, nos campos do Chagu, a oeste de Guarapuava para abrigar os Kaingang. Ficou sob a autoridade do Diretor Geral dos Índios no Paraná, o Brigadeiro Francisco Ferreira da Rocha Loures. Mas nem bem começou a ser implantado
o Aldeamento Indígena do Xongú sofreu críticas, e três anos depois foi extinto. Mas os
Kaingang se mantiveram na região onde bem mais tarde foi criada a Terra Indígena de
Rio das Cobras, no município de Laranjeiras do Sul, com 19.100, onde vivem mais de
1.500 índios Kaingang e Guaranis.
Colônia Indígena de Catanduvas
No apagar das luzes do Império foi fundada a Colônia Militar de Foz do Iguaçu. Em
1891, após sua fundação, o sargento José Maria de Brito foi encarregado pelo chefe da
comissão para catequizar os Guarani encontrados na região da Fazenda do Xongú – nos
Mincriniarê – à Foz do Iguaçu no extremo oeste do estado. Em março de 1891 ele assumiu
23 Conforme Telêmaco Borba em Actualidade Indígena, Curitiba, 1908, p. 118, Xongú é o nome, no
idioma dos kaingangues, de um pequeno arbusto espinhoso que dá neste campo, mas os Kaingangues
chamam ao campo, mais commummente: Mincriniarê. Mim, Tigre, Crin, cabeça; Iá, abreviação de
iapri, caminho, Rê, campo. Campo da cabeça do tigre no caminho. Contam que, os que iam adiante, na
sahida deste campo, mataram um tigre, cortaram-lhe a cabeça, espetaram-n’a em um pao, e o incaram
no caminho, os que vinham atraz viam a cabeça e diziam - Mincriniá - Tigre, cabeça, caminho: Dahi proveio ao campo seo nome que foi substituido pelo outro de Xongú que alteraram em Xagú. E em seguida
icou com a graia portuguesa de Chagu. Manteremos a denominação Xongú para os Mincriniarê.
82
o cargo e implantou a Colônia Indígena de Catanduvas, meio caminho entre Guarapuava
e a Colônia Militar de Foz do Iguaçu. Nas matas adjacentes a ela existiam pequenas aldeias
dos Guarani que foram atraídos para Catanduvas e Formigas. Essa foi a última tentativa de
instalar uma Colônia Indígena no oeste da província. Assim como o Aldeamento do Xongú
não prosperou, a tentativa de Catanduvas também teve vida curta, pois logo em seguida
foi desativado e Catanduvas se tornou uma vila na estrada de Guarapuava para Foz do
Iguaçu. Os índios Guarani que ali se aldearam provavelmente foram transferidos para a
área de Rio das Cobras, em Laranjeiras do Sul, junto com os Kaingang.
O Paraná provincial
1853 – 1889
A Colônia Indígena de São Tomás de Papanduva
Os índios Xokleng, na época denominados Botocudos, ocupavam a região do rio
Negro, onde foi criada por um breve período a Colônia de Papanduva. Os ataques dos
Xokleng em Guaratuba, no início de 1875, levou o presidente da província a decidir
pela implantação do aldeamento de Papanduva, ordenando o sertanista Joaquim F. Lopes a fundar a Colônia Indígena de São Thomaz de Papanduva. Após anos de trabalho
tentando implantar esse aldeamento sempre boicotado pela burocracia da capital da
província, o velho Joaquim F. Lopes mudou de volta ao Jatai, onde morreu. O aldeamento de Papanduva não foi implantado por uma política deliberada das autoridades
locais de não estabelecer contatos com os índios Xokleng, apesar dos esforços de Lopes. Os Xokleng continuaram seus ataques na região e foram ferozmente perseguidos
por bugreiros armados. Mas também eles permaneceram em uma pequena parcela de
seus antigos territórios, e hoje vivem na área indígena de Ibirama, no município do
mesmo nome, em Santa Catarina.
Figura 5 - Colônias Indígenas no Paraná Provincial.
Fonte: O autor.
83
HISTÓRIA DO PARANÁ:
RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS
DA PRÉ-HISTÓRIA À
ECONOMIA CAFEEIRA
84
A OCUPAÇÃO DO NORTE VELHO
Com a aproximação da votação da lei de terras em 1850, acelerou-se o processo de
posses das terras chamadas devolutas para em seguida regularizá-las. Os tropeiros mineiros que negociavam animais com os tropeiros paranaenses em Sorocaba tomaram
conhecimento das extensas fatias de terras boas para agricultura existentes entre os
vales dos rios Itararé e Cinzas, no norte da província do Paraná, conhecidas na época
como Valuto, e passaram a ocupá-las a partir da década de 1840.
Em 1842-1843, um mineiro de Brazópolis, sul de Minas Gerais, chamado Dominciano Correa Machado instalou-se na margem esquerda do rio Itararé, fundando a
povoação de São José do Cristianismo, dando início, assim, à ocupação do Valuto. Em
seguida, foram chegando novas famílias de fazendeiros mineiros que vendiam suas
terras no sul de Minas e adquiriam extensas áreas na região, fundando vilas e cidades
como Siqueira Campo, Tomazina e outras.
Nessa época, o comércio dessa população se dava muito mais com as cidades paulistas de Faxina, Itapetininga e Sorocaba do que com as cidades paranaenses de Castro,
Ponta Grossa ou mesmo Curitiba. Essas relações comerciais com São Paulo atraíram
para região novas levas de populações paulistas que fundaram as cidades mais ao norte
na conluência do Itararé no Paranapanema, como foi o caso de Ribeirão Claro e Carlópolis. Os mineiros continuaram a vir para região e fundaram novas cidades no extremo
norte da região, como foi o caso de Jacarezinho, fundada por Antonio Alcântara da
Fonseca, um mineiro de Aiuruoca.
As populações que se instalaram na região, diferentemente da dos Campo Gerais
que se dedicavam à pecuária, tiveram outra ocupação, se dedicaram à agricultura e à
criação de porcos. No começo, foram muitas diiculdades de sobrevivência; os produtos da agricultura, como milho, feijão mandioca e outros não tinham valor, o escoamento da produção era inviabilizado pela falta de estradas.
A partir do inal do século XIX e início do XX, a economia regional começou a
mudar com a chegada da estrada de ferro em Sorocaba e com a exportação de porcos
para os frigoríicos de São Paulo. Deu-se início ao ciclo econômico regional da suinocultura, ou, como era conhecido na época, da exportação do “milho em pé”. Com uma
mercadoria valorizada, no caso do porco/toucinho, os safristas, como eram conhecidos
os engordadores de porcos, se espalharam por toda a região e a atividade de criação
de porcos para venda aos safristas também se espalhou para outras regiões do Paraná,
e a suinocultura se tornou a atividade econômica dominante.
O sistema denominado safra consistia na plantação de grandes roças de milho, em
terras próprias ou alugadas, e quando do amadurecimento dessas roças, soltavam-se
nelas as varas de porcos magros que as consumiam, estando prontos para o abate
alguns meses depois. As tarefas do safrista consistiam em:
● Derrubada do mato;
● Queimada da roçada;
● Plantio do milho, abóbora, bata doce;
● Compra de porcos magros que icavam recolhidos em mangueiros;
● Soltura da porcada magra nas roças maduras;
● Cuidados com a porcada enquanto engordavam, durante três a quatro meses;
● Retirada da porcada gorda da roça que era tropeada (levada tocada) para os centros de comercialização e depois embarcada na estrada de ferro para os abatedouros
em São Paulo.
O Paraná provincial
1853 – 1889
As varas de porcos recolhidas em Ribeirão Claro eram tocadas até Chavantes, em
São Paulo, e ali embarcadas no trem para a capital paulista. As recolhidas na região
de Jacarezinho eram comercializadas em Cerqueira César e daí para São Paulo. O
mesmo ocorria com as varas da região de São José da Boa Vista, Siqueira Campos e
outras povoações menores, que eram tropeadas até Jaguariava, Itararé ou Itapeva,
onde eram vendidas e embarcadas para São Paulo quando a estrada de ferro já tinha
atingido essas localidades.
Essa atividade foi sofrendo modiicações com a implantação dos frigoríicos nas
cidades paranaenses, como o Frigoríico Matarazo, que se instalou em Jaguariaiva, em
1924. Quando isso ocorreu, o abate dos animais se dava nesses frigoríicos e já não era
mais necessário levá-los até os frigoríicos da Matarazo no Parque Antártica; agora se
exportava a banha em latas. A abertura da estrada do Cerne pelo governo de Manoel
Ribas possibilitou que os caminhões dos frigoríicos fossem buscar os porcos nas roças
de engorda no interior do norte paranaense. E o sistema de safra também se difundiu
para regiões distantes do norte do Paraná, chegando à região central do vale do Ivaí
em cidades como Candido de Abreu, que tropeavam suas varas de porcos para o abate
em Ponta Grossa. E a procura por porcos magros também chegou às distantes povoações do sudoeste do Paraná, como Palmas, Manguerinha e Chopim, que abasteciam os
safristas do norte do Estado.
A decadência dessa atividade teve início com o cultivo do café em larga escala no
norte do Paraná a partir dos anos de 1920, mas foi agravada com a seca de 1944, a
peste suína que abateu os rebanhos em 1945 e o fechamento do frigoríico Matarazo
em Jaguariaiva, também nessa época.
85
HISTÓRIA DO PARANÁ:
RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS
DA PRÉ-HISTÓRIA À
ECONOMIA CAFEEIRA
Proposta de Atividades
1) A Quinta Comarca do Paraná pertencia a que província brasileira e quando ocorreu a sua
emancipação?
2) Apresente duas expedições que percorreram os rio Ivaí e Tibagi no século XIX.
3) Descreva no que consistiam as tarefas do safrista no Norte Velho do Paraná.
Anotações
86
4
O Paraná no
século XX
A OCUPAÇÃO DOS CAMPOS DO MOURÃO
A região central do Paraná entre os rios Ivaí e Piquiri já era conhecida desde a primeira metade do século XVI, quando por ali passou o adelantado Dom Alvar Nunes
Cabeza de Vaca. Mais conhecida ainda icou no século XVII, quando os espanhóis ali
fundaram, na foz do rio Corumbataí, no Ivaí, a cidade de Vila Rica do Espírito Santo
e os jesuítas estabeleceram várias Reduções no vale desses rios. No século XVIII,
por ali passaram diversas tropas militares que desceram o rio Ivaí rumo ao forte de
Iguatemi, no Mato Grosso. Inclusive o nome de Campo Mourão advém de Campos
do Mourão em homenagem ao governador de São Paulo, Dom Luiz Antonio Botelho
de Souza Mourão, o Morgado de Mateus, que ordenou essas expedições militares por
volta de 1760 e 1770. Ainda no século XIX, tivemos outras expedições exploradoras
na região, que vasculharam o rio Ivaí, suas margens e seus aluentes e expedições
que buscaram traçar um caminho de Guarapuava ao Mato Grosso, passando pelos
Campos do Mourão.
Como em todas as regiões do Paraná, a colonização de novas terras pelas populações brancas europeias ou brasileiras ocorreu com a ocupação dos territórios indígenas, e a região entre os rios Ivaí e Piquiri, onde estão os Campos do Mourão, chamados
pelos Guarani de Guairá e pelos Kaingang de Paykerê, não é diferente.
Veremos um pouco dessa história, parte já contada no capítulo anterior quando
nos referimos às expedições no vale do rio Ivaí, que envolvem complexas relações
sociais entre as diferentes populações que se encontravam nessa região.
Em julho de 1870, os Kaingang do grupo do cacique Luís Cleve, que tinham suas
moradias (emã) na localidade denominada Campos do Moron (Campo Mourão), estiveram em Curitiba fazendo reivindicações de terras. Antes, eles tinham passado por
Guarapuava, e conforme o relato do vigário da cidade, eles eram:
trezentos índios, mais ou menos, inclusive crianças, vindos todos do campo
denominado = Moron = e mto poucos do Paequerê. Os seus chefes (caciques)
são 4, e estes apenas chegarão, estavão a perguntar = pelo Snr Brigadeiro, seu
87
Diretor, e lhes respondi q. o Snr. Brigadeiro não residia aqui e sim na villa da
Palmeira, parecendo-nos q. icarão elles com isto bem descontentes e contrariados (ARQUIVO, ...1879)1.
HISTÓRIA DO PARANÁ:
RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS
DA PRÉ-HISTÓRIA À
ECONOMIA CAFEEIRA
Os Kaingang vindos dos campos a oeste e a noroeste de Guarapuava chegaram à
cidade com a intenção de negociar com as autoridades competentes. Diziam que já
tinham feito uma estrada para o Campo Mourão, que podia ser transitada a cavalo,
estrada essa já conhecida em parte pelas populações de Guarapuava. Essa estrada, que
os índios alegavam ter construído, podia ser a picada da expedição Rebouças, de 1868,
que saiu de Guarapuava e foi até abaixo da corredeira do Ferro, no rio Ivaí, passando
a leste e a norte dos ditos campos.
O relatório de prestação de contas do presidente da província, o Sr. Dantas Filho, datado de janeiro de 1880, traz como grande questão a ser resolvida o aldeamento de 2.500
índios Kaingang que estavam espalhados nos territórios a oeste e a noroeste de Guarapuava, nos famosos campos de Pahy-ke-rê, tanto nos vales dos rios Ivaí e Piquiri como
nos campos dos divisores das águas desses rios. Dantas Filho utilizou como referencial o
relatório enviado por Daniel Cleve em ins de 1879 sobre a situação desses índios. Nessa
época, Cleve lhe fez um quadro da situação dos índios na comarca de Guarapuava:
CHEFES
FRANCISCO
TIGRE
GACON
BANDEIRA
PAuLINO
DESCONHECIDO
Residências
Atalaia
Marrecas
Campo
Moiron
Therezina
Pai Querê
Caciques
Subalternos
Paulino Tigre
Felizardo, e
José Cafang
Mayor,
Gregorio,
Henrique
Número de
índios
40
62
200
20
2000
TOTAL
2502
A estratégia do governo para resolver a questão foi a mesma de outros tempos
e lugares: reunir em aldeamentos os vários grupos que estavam dispersos, catequizá-los com a ajuda da Igreja, civilizá-los através do trabalho e apropriar-se de seus
territórios. Dessa forma, começaram a transferir os Kaingang dos territórios do oeste
de Guarapuava para os aldeamentos do rio Marrecas, no alto Ivaí. Essa era a estratégia do governo provincial, porém os índios tinham outra. Eles iniciaram as demandas pelas demarcações de territórios já ocupados por seus grupos. Nesse âmbito,
os índios forçavam o poder provincial a demarcar novas áreas que iam muito além
1 ARQUIVO PÚBLICO DO PARANÁ, Curitiba. Ofício. 30 jun. 1879, p. 99-91 (doc. manuscrito).
88
das deinidas nos aldeamentos religiosos, e passaram a exigir ferramentas e outras
mercadorias da sociedade envolvente.
Para a instalação do novo aldeamento de Marrecas, em Guarapuava, e atração dos
índios que viviam nos vastos territórios do oeste e noroeste da província, não havia
verbas, e para qualquer gasto nesse sentido deveria ser solicitada a autorização do
Ministério da Agricultura. Esse aviso reiterava as ordens expedidas pelo Ministério de
não se fazer despesa alguma da verba da catequese além daquelas já estabelecidas no
orçamento. No entanto, por ordens do presidente anterior, Daniel Cleve izera despesas com a distribuição de brindes aos Kaingang. Conforme documento enviado à presidência da província, ele tinha distribuído, em 30 de maio, ao cacique José Kafang, do
novo aldeamento de Marrecas, a quantia de 24$100 mil réis em panos para confecção
de roupas. No dia 31, distribuiu 42$520, também em tecidos, aos índios dos campos
de Moiram (Campos do Mourão). No dia 6 de junho, distribuiu mais 8$810 aos índios
de Marrecas. E em 14 desse mesmo mês, distribuiu tecidos ao cacique Paulino de Teresina no valor de 49$440. Essas despesas totalizaram 124$870.
A distribuição dessas mercadorias era uma das formas que Cleve tinha para estabelecer contato amistoso com os índios, principalmente com os que ainda estavam arredios,
morando nos campos divisores de águas dos rios Ivaí e Piquiri. Os brindes ao cacique
Bandeira tinham-lhe aberto as portas de seus territórios, tanto que Cleve informou:
O Paraná no
século XX
Seguem dentro em poucos dias algumas pessoas, acompamhadas pelo cacique
Bandeira, o interprete (...) Cavalheiro, para o campo Moiram, aim de reconhecer as localidades e observar os toldos e tribus ali existentes, visto que os caciques ali instam pela fundação de um aldeamento (ARQUIVO..., 1880, p. 40-42)2.
Assim, escreveu novamente Cleve ao presidente, em 29 de novembro de 1880:
Ilmo e Exmo Sr. - Tendo diversas hordas de indios selvagens, capitaneadas pelos
caciques Bandeira, Gregorio, Jangjó e outros, residentes nas margens do rio Piquiry e afluentes do Corumbatay, vindo em repetidas vezes implorar o auxilio
do governo para abandonar a vida de selvagem e entrar no gozo das vantagens
da civilização, tem-se procurado affagal-os por todos os modos, já dando-lhes
ferramentas e roupa, já prometendo aldeal-os, proteger os aldeamentos e o andamento da catechese, o que muito contente se mostraram e pediram se fosse
visital-os nos seus toldos (PARANÁ, 1881, p. 78)3.
O fazendeiro Noberto Mendes Cordeiro tinha visitado os emá do cacique Bandeira
em outubro de 1880; lá foi bem recebido como representante do governo. Os índios
2 ARQUIVO PÚBLICO DO PARANÁ, Curitiba. Ofício. 26 out. 1880, p. 40-42, (doc. manuscrito).
3 PARANÁ. Governador (1880 - 1881 Pedrosa), 16 fev. 1881, p. 78.
89
HISTÓRIA DO PARANÁ:
RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS
DA PRÉ-HISTÓRIA À
ECONOMIA CAFEEIRA
solicitaram-lhe auxílio para estabelecimento de um aldeamento e também um padre,
um professor, ferramentas, e prometeram abrir a estrada das suas aldeias até Guarapuava, em uma distância de vinte e três léguas. Norberto M. Cordeiro esteve em Curitiba em audiência com o presidente Pedrosa e lhe relatou suas conversas com os índios,
deixando o presidente otimista quanto às relações com esses índios.
Tão anciosos estão os selvagens do Piquiry de fazer causa commum comnosco,
que se propoem eles a abrir uma picada que dê aos seus toldos e ao Salto das
Sete Quedas communicação facil com Guarapuava. Pedem apenas ferramenta e
uma pessoa pratica no serviço para dirigil-os (PARANÁ, 1881, p. 78)4.
Em seguida, o presidente Pedrosa encarregou o fazendeiro Norberto M. Cordeiro
de dirigir os índios na abertura dessa estrada, prometendo-lhe todo o auxílio possível.
Sem verbas na rubrica da catequese e civilização dos índios, provida pelo Governo
Imperial, ele se utilizou da verba decretada no orçamento, pela Assembleia Província,
para o aldeamento dos índios em Guarapuava.
E assim autorisei o director desses indios a despender a quantia de 300$000
para coadjuvar a expedição do cacique Bandeira, aim de abrir-se a mencionada
picada, despendendo essa importancia com ferramenta e brindes aos selvagens
que fossem empregados ao serviço. Tambem autorisei-o a contratar o interprete
Felizardo com vencimentos mensaes não excedentes a 30$000, para acompanhar a expedição (PARANÁ, 1881, p. 80)5.
A retirada dos Kaingang de Campo Mourão liberou essas terras para assentamento
das primeiras fazendas de gado nos campos naturais ali existentes. Pela picada aberta
pelo fazendeiro guarapuavano Norberto M. Cordeiro começaram a chegar os primeiros colonos que se estabeleceriam de forma deinitiva na região, conforme registro de
posse de terras feito em Guarapuava, no qual declararam que:
Nós abaixo assinados, que possuímos por posse mansa e paciica desde o
ano de 1880, uma área de campos de criar no lugar denominado “Campo
Mourão”neste Município, onde existem casas e moradia e mais benfeitorias,
assim como certo numero de gado vacum e cavalar, cuja área tem aproximadamente a extensão de 60.000 hectares, sendo 30 quinhões com a área de 2.000
hectares cada um (SIMIONATO, 1996, p. 11)6.
E assim segue o termo de registro das terras pelos fazendeiros de Guarapuava, em
que cada um tomou posse de uma área de 2.000 hectares, o equivalente a uma fazenda
4 PARANÁ. Governador (1880 - 1881 Pedrosa), 16 fev. 1881, p. 78.
5 PARANÁ. Governador (1880 – 1881, Pedrosa), 16 fev. 1881, p. 80.
6 Cf. E. C. SIMIONATO. Campo Mourão: sua gente e sua história. Campo Mourão, Kromoset, 1996,
p. 11.
90
de 833 alqueires. Dentre eles, estava o fazendeiro Noberto Mendes Cordeiro, que negociara a saída dos Kaingang desses campos, icando como lembrança da sua presença
ali a avenida Capitão Índio Bandeira, em homenagem ao cacique Bandeira, pohy-bang
(cacique), superior de todos os caciques que ali viviam.
O Paraná no
século XX
Figura 1 - Croquis do oeste paranaense feito em 1934 com a vila de Campo Mourão e as estradas que a ligava em
Guarapuava e rio Paraná. Fonte: FIGUEIREDO, 1937, p. 175.
Passados mais de quarenta anos da chegada desses primeiros fazendeiros, Lima
Figueiredo percorreu a região em 1936 e fez um breve relato de como era a vila de
Campo Mourão nessa época.
Pelo que vi e pelo que me informaram, as terras são fertilíssimas, produzindo
já em larga escala o café, o milho, o arroz o feijão e todas as espécies de frutas.
(...) As frutas são lindíssimas, adquirindo, principalmente o abacaxi,tamanho,
perfume e sabor surpreendentes. (...) Os habitantes plantam e colhem, mas não
progridem, porque as comunicações são assas difíceis. Com Guarapuava há o
trajeto penoso de 256 Kms, chegando o produto lá, mais caro do que o vendido
no local. (...) O mal daquele recanto é a fabricação da aguardente. É raro se
ver um homem que não esteja anormalizado pelo álcool. A região preciza do
auxilio do Governo para prosperar. Urge uma providencia em favor deste povo
trabalhador e desamparado (FIGUEIREDO, 1937, p. 175)7.
7 Cf. Lima FIGUEIREDO. Oeste paranaense. Rio de Janeiro, Cia Editora Nacional, 1937, p. 175.
91
HISTÓRIA DO PARANÁ:
RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS
DA PRÉ-HISTÓRIA À
ECONOMIA CAFEEIRA
Assim, Campo Mourão é a primeira povoação instalada nessa região do Ivaí/Piquiri,
muito antes, portanto, do processo de colonização efetuado pelas companhias colonizadoras no norte e oeste do Paraná.
AS COMPANHIAS COLONIZADORAS E A OCUPAÇÃO DO NORTE NOVO,
NOROESTE DO PARANÁ E OESTE DO PARANÁ
A partir de 1925, tem início a ocupação deinitiva do grande território do norte
e noroeste paranaenses, então denominados norte novo e norte novíssimo, que vai
desde a margem esquerda do rio Tibagi até as barrancas do rio Paraná.
Com o advento da República, o Estado do Paraná passou a ter o domínio sobre
o que considerava terras devolutas. Todo o norte, oeste e sudoeste do Estado foram considerados terras devolutas, pertencentes ao Estado, que as cedeu, através
de concessões, para as grandes companhias colonizadoras. Essas companhias, por
seu turno, promoveram a ocupação da região em um ritmo acelerado jamais visto na
história. Em menos de trinta anos quase tudo estava desmatado e ocupado com vilas,
cidades e grandes plantações de café.
Observando as concessões de terras, percebemos que o Governo do Império cedeu
para a Estrada de Ferro São Paulo Rio Grande, braço brasileiro da Brazilian Ralways
Company, grandes áreas de terras no sudoeste, norte e oeste do Estado do Paraná.
Proclamada a República‚ foi vez do Estado de o Paraná fazer a concessão das terras das
margens do Tibagi para as empresas Corain Companhia e Leopoldo Paula Vieira. Foram
50 mil hectares de lorestas transformadas nos loteamentos de Primeiro de Maio e Sertanópolis, na conluência do rio Tibagi com o rio Paranapanema. Mas a maior concessão
seria feita em 1927 para Companhia Paraná Plantation Limited, sediada em Londres. Foram 515 mil hectares de terras entre os rios Tibagi e Paraná, onde hoje se localizam Londrina, Maringá, Cianorte, Umuarama e numerosas cidades de menor porte. No extremo
oeste do Estado, ocorreram a concessão e a ocupação das terras localizadas entre os rios
Piquiri e Iguaçu, com os núcleos colonizadores ocupando os vales do rio Piquiri, Cantu
e Goio-Erê. Também foram implantados núcleos de colonizadores poloneses às margens direita do Ivaí, na região de seu alto e médio curso, onde surgiram as cidades de
Ivaí, Calmon, Prudentópolis, Pitanga, Candido de Abreu, Manoel Ribas e muitas outras.
O processo acelerado de ocupação dessas regiões perfazem dois movimentos: o
primeiro é o material, isto é, a transformação da natureza; retirada da loresta milenar
e implantação dos cafezais. O segundo é o ideológico, ou seja, a construção da ideia
de que esses territórios eram imensos “vazios” sem habitantes, colonizados para a produção de alimentos para o mundo. Os movimentos aconteceram simultaneamente, e
tratamos aqui rapidamente desses assuntos.
92
A natureza transformada em mercadorias
O Paraná no
século XX
A princípio tudo representava um panorama selvático. O seio da terra virginal,
recoberto de lorestas seculares, abrigava tesouros inestimável de fecundação e
fertilidade prontos para fornecerem colheitas dadivosas (....) Havia, de primeiro, a terra protegida pela loresta imensa. E lentamente a loresta, a loresta tão
exuberante e impenetrável cedia lugar àqueles homens intrépidos e valentes
(REVISTA MARINGÁ ILUSTRADA, 1972, p. 194).
Frases como essas de diferentes autores são comuns nos escritos, oiciais ou não,
sobre o norte e o oeste paranaense colonizados nos séculos XX. A ideologia corrente alimenta um conceito de natureza externa à sociedade, à espera de ser possuída.
Assim, o norte e oeste paranaense, da metade do século XIX em diante, com suas
lorestas, campos, rios, rochas, terras roxas e climas amenos aguardariam a sua internalização no processo de produção da sociedade industrial moderna.
Essa visão dualista aparece de forma fragmentária na tradição intelectual judaicocristã, toma forma em Kant, e se cristaliza nos dois séculos seguintes enquanto espinha
dorsal do pensamento burguês sobre a natureza8.
Neil Smith, focalizando o desdobramento da ideologia dualista da natureza no espaço geográico norte-americano, chama-a de natureza poética9. Acerca da literatura
da conquista do território norte-americano, Smith registra que:
Embora a linguagem fosse reinada, a imaginação menos ativa, e focalizasse
mais ênfase sobre a conquista que sobre aquilo que era conquistado, a literatura de conquista do século dezenove relete a mesma antipatia com relação
à natureza selvagem. O sertão é a antítese da civilização; ele é estéril, terrível,
até mesmo sinistro, não tanto por ser a morada do selvagem, mas por ser seu
habitat “natural”. O natural e o selvagem eram uma coisa só; eles eram obstáculos a serem vencidos na marcha do progresso e da civilização (CIVILIZAÇÃO,
1988, p. 37)10.
Como na literatura da conquista americana, a literatura que faz a apologia da colonização paranaense trata a natureza de forma hostil, como um perigo a ser vencido
numa longa jornada de lutas e sacrifícios, pois na missão de domar matas virgens
8 Sobre a história dos conceitos da natureza da antiguidade até o século dezoito, ver os trabalho de
Clarence GLACKEN: Traces on the rhodiam shore, Berkeley, 1967; Frederick TURNER: O espírito
ocidental contra a natureza, Rio de Janeiro: Campus, 1990.Com relação a Kant, ver: R. G. COLLINGWOOD, The idea of nature, Londres, 1945. Mais especiicamente sobre o pensamento kantiano
ver, entre outros, o trabalho de Ernst CASSIRER, El problema del conocimiento, vol II, Fondo de
Cultura Econômica, México, 1986, e ainda Raymond VANCOURT, Kant, edições 70, Lisboa, 1986.
9 Cf. Neil SMITH, Desenvolvimento desigual, p. 35-47.
10 Cf. Neil SMITH, Desenvolvimento desigual, p. 37.
93
HISTÓRIA DO PARANÁ:
RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS
DA PRÉ-HISTÓRIA À
ECONOMIA CAFEEIRA
era necessário, sobretudo, estoicismo. A natureza hostil, construída pelo pioneirismo colonizador, tinha uma função que, conforme Smith, era a de legitimar o ataque à natureza11. Mas tão logo é conquistada, posta ao chão a golpes de machado,
reduzida a cinzas, a natureza sofre uma transformação tanto física como no discurso.
A loresta cheia de perigos se transforma nas terras roxas, prontas para fornecerem colheitas dadivosas de frutos destinados à alimentação e preservação da
espécie humana 12. Misto de hostilidade e idolatria13, a natureza é vista como algo
exterior ao social, ao homem que a subjuga.
Concluindo, Smith airma:
O conceito de natureza é um produto social e nós vimos que, em conexão
com o tratamento da natureza na frente pioneira americana, esse conceito
tinha uma clara função social e política14.
Isto é, justiica a ocupação dos espaços que faziam parte de outra forma de relação
homem/natureza. Isso ocorre em especial a partir do século XVII, no bojo do processo
de acumulação capitalista, quando lorestas, rios, terras, rochas e minerais são transformados em matérias-primas e meios de produção.
Apesar de correr o mundo em busca de lucro, o capital não vai com suas próprias
pernas, são os homens seus agentes e emissários. Homens imaginativos, como o inglês
Lord Lovat, que percebem a existência de qualquer coisa de irresistível na contemplação de mapas onde aparecem grandes áreas de terras desabitadas, mas com grandes
potencialidades15. Homens que viram grandes potencialidades em extensas porções
de terras nos continentes americano, africano e asiático e partiram para colonizá-las e
desenvolvê-las como se fossem terras desabitadas. Os territórios do norte e noroeste
do Paraná, hábitat imemorial de comunidades indígenas, foram no início deste século
uma dessas áreas.
O geógrafo Reinhard Maack, em uma palestra realizada em junho de 1959 no Instituto Federal de Pesquisa para Economia de Florestas e Madeiras em Hamburgo, discutiu a questão da colonização do norte do Estado do Paraná e as suas consequências na
11 Cf. Neil SMITH, Desenvolvimento desigual, p. 39.
12 Cf. MARINGÁ ILUSTRADA, Maringá, p. 194.
13 Cf. Neil SMITH, Desenvolvimento desigual, p. 39.
14 Cf. Neil SMITH, Desenvolvimento desigual, p. 45.
15 Cf. depoimento de Arthur Thomas, gerente da Companhia de Terras Norte do Paraná, até 1949. In:
CIA. MELHORAMENTOS NORTE DO PARANÁ. Colonização e Desenvolvimento do
Norte do Paraná, p. 7.
94
paisagem natural da região:
O Paraná no
século XX
Desde aqueles dias, quando a mata ainda dominava as áreas de Londrina e
Rolândia e preparavam-se as primeiras terras de cultura, muita coisa transformou-se no Norte do Paraná. Quem diria naqueles tempos que as matas pluviais
virgens desapareceriam tão rapidamente e em tal extensão? Já ao se organizar as
primeiras fazendas, sítios e chácaras chamei a atenção sobre as consequências
de uma desmatação irrefreada, exigindo correspondentes reservas lorestais em
cada propriedade. Sobrevoando-se atualmente o Norte do Paraná pode-se ver
que esta exigência foi melhor atendida pelos habitantes de Rolândia. Em outras
áreas a mata foi destruída completamente. A reserva lorestal mínima exigida de
15% a 20% somente foi mantida em poucas propriedades. As consequências já
se manifestam numa assustadora extensão, a qual pode-se veriicar pelas cifras
baseadas em observações objetivas, que apresentarei posteriormente (MAACK,
1961, p. 29)16.
Maack apresentou dados importantes sobre a modiicação da natureza na região:
Resumindo, constatamos as seguintes consequências como resultado da modiicação da paisagem natural causada por exagerada desmatação:
1) - Perturbação do limite normal entre as zonas climáticas Cfa e Cwa. Consequentemente, uma tendência cada vez maior dos extremos, uma vez um
inverno muito seco com aridez catastróica e temperaturas elevadas, e outra
vez períodos muito extensos de chuvas hibernais com excessiva umidade e as
conseqüentes entradas da frente polar e alteração do coeiciente de variação
das precipitações de 1,6 para 2 a 2,9.
2) - Perturbação do ciclo normal da água em consequência da alteração dos
fatores climáticos: diminuição do nível freático, esgotamento das fontes e condução irregular da água pelos rios, carregados de sedimentos e com enchentes
extremas.
3) - continuada erosão do solo, regionalmente em grandes extensões (MAACK,
1961, p. 44)17.
Ainda em relação às modiicações ocorridas no solo considerado de grande fertilidade, o autor aponta:
O esgotamento da terra roxa legitima em substâncias nutritivas vegetais torna-se evidente pelas seguintes cifras:
1 alqueire de solo da mata virgem primitiva exibe na zona do Norte do Paraná
de uma maneira geral, as seguintes substâncias nutritivas:
Matéria orgânica (húmus) ..............................412.000 Kg
Nitrogênio (N) ....................................................11.000 Kg
Cálcio absorvível (CaO) ....................................20.000 Kg
Potássio absorvível (K2O) ..................................1.400 Kg
Fósforo solúvel (P2O5) .......................................1.600 Kg
16 Reinhard MAACK. A Modiicação da Paisagem Natural pela Colonização e suas Conseqüências no
Norte do Paraná. In: Boletim Paranaense de Geografia, n. 2/3, p. 29, 1961.
17 Reinhard MAACK. A Modiicação da Paisagem Natural pela Colonização e suas Conseqüências no
Norte do Paraná. In: Boletim Paranaense de Geografia, n. 2/3, p. 44, 1961.
95
HISTÓRIA DO PARANÁ:
RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS
DA PRÉ-HISTÓRIA À
ECONOMIA CAFEEIRA
Após o cultivo de café durante 20 anos o mesmo solo revelou apenas ainda a seguinte substância nutritiva com perda de 35 cm da melhor camada da superfície:
Matéria orgânica (húmus)................................26.000 Kg
Nitrogênio (N)......................................................1.400 Kg
Cálcio absorvível (CaO) .........................................900 Kg
Potássio absorvível (K2O) .....................................115 Kg
Fósforo solúvel (P2O5)........................................600 Kg
(MAACK, 1961, p. 40-41)18.
Conforme essas indicações, as transformações ocorridas na natureza foram enormes. As modiicações de clima e solo incidiram sobre os sistemas hídricos, atuando nos
sistemas de lora e fauna e impactando o ecossistema da região. A ocupação acelerada
da região para a produção de café19 fez com que se produzisse outra natureza, diferente daquela conhecida pelas comunidades tradicionais (indígenas e caboclas) com a
qual se relacionavam e construíam a sua sociedade.
O desenvolvimento do capitalismo, entretanto, envolve não um desenvolvimento quantitativo, mas qualitativo da relação com a natureza. (...) Com a produção
da natureza em escala mundial, a natureza é progressivamente produzida de
dentro e como parte da chamada segunda natureza. A primeira natureza é destituida do fato de sua primitividade, sua originalidade (SMITH, 1988, p. 93).20
Seguindo a linha de raciocínio de Smith de que a produção do espaço é um resultado lógico da produção da natureza21, podemos airmar que, ao produzir uma
segunda natureza no norte do Paraná, o capitalismo estava produzindo um novo espaço geográico22 próprio à sua atuação e diferente do espaço das comunidades tradicionais. O norte do Paraná, a partir do inal do século passado, passa a ser o espaço da
produção de mercadorias, da acumulação de riquezas. Nesse movimento de expansão,
a sociedade nacional destrói o espaço das comunidades tradicionais e constrói o seu
próprio, de modo acelerado.
18 Reinhard MAACK. A Modiicação da Paisagem Natural pela Colonização e suas Conseqüências no
Norte do Paraná. In: Boletim Paranaense de Geografia, n. 2/3, p. 40-41, 1961.
19 Sobre essa questão do café no Norte do Paraná, ver Nadir CANCIAN, Cafeicultura Paranaense 1900/1970. Pedro Calil Padis, Formação de uma Economia Periférica: o caso do Paraná, principalmente os capítulos de 7 a 10 que tratam da economia do norte do Estado.
20 Cf. Neil SMITH, Desenvolvimento desigual, p. 93.
21 Cf. Neil SMITH, Desenvolvimento desigual, p. 109.
22 Existe uma longa discussão sobre essa questão de "espaço" na geograia. Ver principalmente as obras
de Milton SANTOS: Metamorfoses do Espaço Habitado; Espaço e Sociedade; Pensando o espaço
do homem; Espaço e dominação. Ver ainda de Henri LEVEBVRE, La Production de l'espace. Tonino
BETTANINI, Espaço e Ciências Humanas.
96
Se a natureza existente na região é muito diferente da que existia anteriormente
à colonização, conforme nos mostrou Maack, o espaço que toma forma com a colonização é também muito diferente daquele ocupado pelas comunidades tradicionais. De acordo com Robert Sack, o espaço para as sociedades tradicionais tinha um
signiicado muito maior e abrangente, carregado de conteúdo social, histórico e até
mesmo religioso.
O Paraná no
século XX
Na visão primitiva, a terra não é algo que pode ser dividido em partes e vendida
como lotes. A terra não é uma parte do espaço existindo dentro de um sistema
maior. Pelo contrário, ela é vista em termos de relações sociais. As pessoas,
como uma parte da natureza, estão intimamente ligadas à terra. Pertencer a um
território ou a um lugar é um conceito social que exige, primeiramente e antes
de tudo, pertencer a uma unidade social. A terra, por si mesma, está em poder
do grupo como um todo. Não é privativamente dividida nem possuída. Além
disto, ela é viva como os espíritos e a história das pessoas, e os lugares sobre ela
são sagrados (SACK apud SMITH, 1988, p. 112)23.
O espaço da sociedade industrial caminha em outra direção: é o espaço onde se
retalha a terra, etiquetando-a com valores, transformando-a em mercadoria pelo potencial produtivo que carrega. É o espaço onde árvores e animais também têm o seu
preço, também são mercadorias. Por isso mesmo ele é diferente do espaço das comunidades indígenas (Kaingang, Guarani, Xetá) e caboclas que aí viviam, e cujas terras
foram divididas, cercadas e vendidas.
A construção do “vazio demográfico”
Se o capital constrói outra natureza nos espaço que ocupa, esses espaços submetidos
à conquista também passam a existir a partir da ação exterior dos conquistadores, isto é,
a sua história passa a ser recontada a partir da visão que os conquistadores têm de si. Por
isso se ignoram acontecimentos como as invasões, a exploração, os conlitos e ressaltam
outros segundo os interesses dos conquistadores.
A partir dessa perspectiva, mostramos foi no bojo da transformação capitalista da
região que se criou a ideia de que ela era um “vazio demográico” a ser ocupado
pela colonização pioneira. Essa construção foi arquitetada e divulgada por muitos que
pensaram a história da regional: geógrafos, historiadores, sociólogos, representantes
da burocracia estatal e dos órgãos colonizadores e reletiu-se nos livros didáticos, poderosos instrumentos de divulgação e normatização de ideias.
A partir da segunda metade da década de 1930 até o início dos anos de 1960, o
Paraná, principalmente o norte, foi alvo de visitas, excursões, passeios cientíicos, etc.
23 SACK, Robert. Conceptions of Space in Social Thought. In: SMITH, Neil, op. cit., p. 112.
97
HISTÓRIA DO PARANÁ:
RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS
DA PRÉ-HISTÓRIA À
ECONOMIA CAFEEIRA
Os relatórios das visitas, artigos, comunicações, ensaios e outros escritos dos geógrafos
foram publicados, em sua maior parte, pela Revista Brasileira de Geograia. Esses trabalhos foram e são bastante utilizados como fonte de referência para inúmeros textos
acadêmicos sobre a região, principalmente no que tange à questão demográica e ao
pioneirismo. Nesse sentido, buscamos depreender como esses trabalhos tratam o norte
do Paraná no momento de sua ocupação, com especial ênfase sobre como visualizam a
região antes da ocupação e até que ponto contribuem para criar a ideia de que a região
era um enorme vazio demográico, quase despovoada.
Cinco anos após a fundação de Londrina, Pierre Monbeig, então professor de Geograia da Universidade de São Paulo, discutia a questão da zona pioneira no norte do
Paraná. Focalizando a atuação da Companhia de Terras Norte do Paraná em Londrina,
chama a atenção para o que havia a oeste do rio Tibagi:
Se de um lado, a colônia Jatai igura no mapa do Clube de Engenharia do Rio
de Janeiro, daí em diante para oeste não há indicação alguma de povoamento, salvo alguns ranchos de caboclos perto das aguadas, com uma derrubada
insigniicante e uma cultura que se limita ao milho (MONBEIG, 1945, p. 12)24.
O relato sugere que a oeste de Jataí nada havia não ser alguns caboclos.
Leo Waibel, estudioso da colonização europeia no Brasil, excursionou pelo sul do
país em ins dos anos 1940, em trabalho de campo sobre a colonização. Em 1949, sintetizou suas observações relativas à colonização mais signiicativa que ocorria nos três
Estados do sul. Com relação ao norte do Paraná, na área colonizada pela Companhia de
Terras Norte do Paraná (CTNP), assinalou que cerca de 200.000 pessoas vivem na área
da companhia que há 20 anos atrás era desabitada25.
Em um texto de 1950, a pesquisadora do Conselho Nacional de Geograia, Lysia Maria
C. Bernardes, analisou a distribuição da população no Estado do Paraná de acordo com
o censo demográico de 1940. Logo na introdução, escreveu:
24 MONBEIG, Pierre. A zona pioneira do Norte do Paraná. In: Boletim Geográfico, ano III, n. 25, p.
12, abr. 1945.
25 WAIBEL, Leo. Princípios da Colonização Europeia no Sul do Brasil. In: Revista Brasileira de Geografia. ano XI, n. 2, p. 177, abr/jun. 1949. Apesar de considerar o norte "desabitado" ao tratar do início
da colonização no século passado, no sul do país, ele airma que as enormes lorestas do sul "eram o
domínio indiscutível desses índios", os Botocudos. Índios esses que foram afastados das lorestas pela
colonização implementada pelo governo, principalmente nas lorestas que icavam nas imediações dos
campos criadores de gado, ou por onde passavam as estradas das tropas.
98
A maior parte da população do Paraná situa-se no planalto, concentrando-se
a sudeste e reduzindo-se consideravelmente para oeste onde ainda se encontram, atualmente, reservas de terras virgens, muitas das quais devolutas (BERNARDES, 1950, p. 57)26.
O Paraná no
século XX
Continuando em direção ao oeste do Estado, a autora concluiu que, apesar da
qualidade do solo e de suas lorestas, pode-se considerá-lo um vazio demográico.27.
Em 1951, os geógrafos ligados à Associação Brasileira de Geograia produziram
os primeiros trabalhos de geograia urbana de cidades do norte paranaense. Neyde
Prandini, ao discorrer sobre o crescimento da população londrinense, postulou que:
Essa população cresceu a princípio muito lentamente, o que é natural: Londrina era uma cidade “Bôca de Sertão”, a primeira que se construía numa zona
praticamente desconhecida (PRANDINI, 1951/1952, p. 74)28.
Nilo Bernardes elaborou um artigo em 1950 com o objetivo de apresentar um quadro claro das condições de povoamento do Estado do Paraná. Nesse trabalho, foram
apresentados mapas que mostram como foram preenchidas as zonas desabitadas do
Estado no decorrer dos anos.
Embora no começo do século os povoadores espontâneos já dessem início ao
alastramento sobre o oeste paranaense, no segundo planalto a encosta longe
das rotas de Guarapuava e de Palmas ainda estava desabitada. Todo o oeste dos
atuais municípios de Tibaji e Reserva era ainda parte do vasto sertão que se
continuava até o Rio Paraná (BERNARDES, 1952, p. 68)29.
O autor airma que todo o norte e oeste do Estado era um vasto sertão. Mas o que
signiicava para o autor o conceito de sertão? Ele mesmo o deine em uma nota de rodapé: o termo sertão é aqui empregado sempre no sentido de vazio demográfico30.
A deinição é clara. Bernardes concebia a região no início do século como desprovida
de população; em termos geográicos, um vazio demográico.
26 BERNARDES, Lysia M. C..Distribuição da População no Estado do Paraná em 1940. In: Revista Brasileira de Geografia, Rio de Janeiro, n. 4, p. 57, out/dez. 1950.
27 BERNARDES, Lysia M. C.Distribuição da População no Estado do Paraná em 1940. In: Revista Brasileira de Geografia.Rio de Janeiro, n. 4, p. 73, out/dez. 1950.
28 PRANDINI, Neyde. Aspectos da Geograia Urbana de Londrina. In: Anais da Associação Brasileira
de Geografia, Rio de Janeiro, v. 6, n. 1, p. 74, 1951/1952.
29 BERNARDES, Nilo. Expansão do povoamento no Estado do Paraná. In: Revista Brasileira de
Geografia,Rio de Janeiro, v. 14, n. 4, p. 68, out./dez. 1952.
30 BERNARDES, Nilo. Expansão do povoamento no Estado do Paraná. In: Revista Brasileira de Geografia, Rio de Janeiro, v. 14, n. 4, p. 58, out./dez. 1952, o grifo é do autor.
99
HISTÓRIA DO PARANÁ:
RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS
DA PRÉ-HISTÓRIA À
ECONOMIA CAFEEIRA
Os termos utilizados pelos geógrafos variavam: sertão, terras devolutas, boca de
sertão, e em outras passagens mata virgem, mas o sentido geral era o de uma região
desabitada. A produção desses geógrafos subsidiou trabalhos acadêmicos nas décadas
seguintes, que repetiram a mesma ideia do vazio demográico.
Se os geógrafos cunharam essas expressões e as repetiram em seus trabalhos, os sociólogos e historiadores e também as repetiram e deram continuidade nessa tradição
de airmar que os territórios colonizados no século XX estavam desabitados.
Discutindo quem seria o homem paranaense, Wilson Martins, em seu livro Um
Brasil Diferente, volta ao momento da emancipação política do Paraná, em 1853. Para
o autor, a questão do povoamento era a principal preocupação do presidente Zacarias
de Góes e Vasconcelos, já que todos os seus problemas administrativos se resumiam na
2
falta de gente em um território de duzentos mil km . Assim escreveu Martins:
(...) a província era nesse momento, do ponto de vista humano, um ilimitado
deserto, interrompido irregularmente por dezenove pequenos oásis, situados
a distâncias imensas um dos outros - e distâncias literalmente intransponíveis,
pois, além dos “caminhos históricos”, que iam revelar dentro de pouco não
serem “caminhos econômicos”, nada existia que pudesse prenunciar uma rede
qualquer de comunicações. (....) Em compensação, na maior parte do território
o vazio era absoluto: eram os “campos gerais”, era a loresta, era a Serra do Mar
(MARTINS, 1955, p. 71)31.
Martins enfatizou a ideia do território despovoado com as imagens de ilimitado
deserto ou vazio absoluto.
Em 1968, os professores Brasil Pinheiro Machado, Maria C. Westphalen e Altiva P.
Balhana publicaram um artigo que tratou da ocupação das terras paranaenses, ressaltando as concessões dos governos estaduais para as grandes empresas colonizadoras
estrangeiras e problematizando os movimentos agrários resultantes dessas concessões. Fizeram ainda um levantamento dos principais conlitos de terras no Paraná nas
décadas de 1940, 1950 e 1960, constituindo-se em um dos primeiros trabalhos sobre a
ocupação das terras do Estado, no século XX, em uma perspectiva crítica. No entanto,
mantiveram a ideia da existência de terras desabitadas:
A marcha da ocupação do território, porém, cessara com a estabilização e decadência da sociedade campeira dos Campos Gerais. Restavam, pois, ao inal
do século, desocupadas as regiões do Norte, Oeste e Sudoeste paranaense,
afora a presença de rarefeitos posseiros caboclos, nos seus conins, que não
31 Wilson MARTINS. Um Brasil Diferente. São Paulo: Anhembi, 1955. p. 71.
100
organizaram em comunidades ( WESTPHALEN; MACHADO; BALHANA, 1968,
p. 11)32.
O Paraná no
século XX
A partir do início dos anos 1970, intensiicam-se os trabalhos acadêmicos sobre
o Paraná, trabalhos de História, Geograia, Economia, Política e Sociologia que têm
como substrato comum uma bibliograia básica ancorada nos textos dos geógrafos/
sociólogos que pensaram o Paraná nos anos 1950 e no núcleo de historiadores da Universidade Federal do Paraná com sua produção nos anos 1960; a maioria deles repete
as ideias de terras desabitadas ao tratarem do norte e oeste do Paraná.
E a ideia do vazio demográico, ou da existência das terras desabitadas também
é repetida nos livros didáticos que abordam a questão da ocupação do norte e do
oeste do Paraná.
Se nos livros didáticos a construção do vazio demográico surge ancorada nas teorias das migrações populacionais, nas obras que fazem a apologia da colonização do
norte do Paraná essa construção é amparada no ato heroico de homens fortes, desbravadores, modernos bandeirantes. A ocupação da mata virgem cheia de perigos é
uma epopeia que precisa ser contada e recontada até se tornar verdade. O vazio não
é apenas um espaço em algum lugar no mapa que está pronto para ser povoado. Nas
obras já referidas, o vazio demográico é um espaço cheio de perigos que precisa ser
vencido para que se possa erguer das cinzas das matas as cidades, a civilização.
Essa ideia aparece com toda sua potencialidade na revista Maringá Ilustrada. Entre
os vários artigos sobre o nascimento e desenvolvimento da cidade, o de Ary de Lima,
espécie de editor chefe da publicação, sintetiza a história de Maringá sob a égide do
heroísmo e da epopeia.
Filha de um pioneirismo heróico e síntese de um perfeito trabalho de colonização. (...) O Setentrião Paranaense, então quasi deshabitado, sem qualquer
relexo na vida do pais e do grande Estado sulino, já era credor da coniança de
um punhado de homens (REVISTA MARINGÁ ILUSTRADA, 1957)33.
Essa construção também está presente no livro da Companhia Melhoramentos
Norte do Paraná, editado em 1975, Colonização e Desenvolvimento do Norte do
Paraná. Essa obra tem a pretensão de ser a última palavra sobre a história da região.
Traz os dados oiciais da companhia colonizadora e depoimentos dos seus diretores e
32 WESTPHALEN, Cecilia M.; MACHADO, Brasil P.; BALHANA, Altiva P. Nota prévia ao estudo da ocupação da terra do Paraná moderno. Boletim da Universidade Federal do Paraná, Curitiba, n. 7,
p. 11, 1968.
33 Cf. REVISTA MARINGÁ ILUSTRADA, Maringá, p. 4-5, ago. 1957.
101
HISTÓRIA DO PARANÁ:
RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS
DA PRÉ-HISTÓRIA À
ECONOMIA CAFEEIRA
principais colaboradores. Na apresentação, o organizador do livro, um jornalista, cita
um depoimento de Arthur Thomas, gerente da Cia. no tempo dos ingleses, de 1930 até
1949, publicado no Times of Brazil:
Para o homem imaginativo, há qualquer coisa de irresistível na contemplação
de mapas onde aparecem grandes áreas de terras desabitadas, mas com grandes potencialidades. Seu pensamento voa ao encontro de meios e maneiras de
acesso, colonização e desenvolvimento, e seus sonhos logo descortinam um
futuro no qual o deserto se cobre de lores e da terra brotam imensas riquezas.
Tais foram homens como Raleigh e Penn, Cook e Rhodes. E, em tempos mais
recentes, o falecido Simon, Lord Lovat (COMPANHIA MELHORAMENTOS NORTE DO PARANÁ, 1975, p. 7)34.
Ao longo de Colonização e Desenvolvimento do Norte do Paraná, há várias passagens reairmando a ideia do mapa vazio, desabitado. A adjetivação vai de terras virgens,
matas exuberantes ao se falar do Norte Velho35 ou de uma imensa região, afamada
pela assombrosa fertilidade de suas terras roxas, conforme matéria paga publicada
no jornal O Estado de São Paulo (15/01/1924) pela Cia. Ferroviária São Paulo - Paraná
a im de atrair a atenção do presidente da Sudam Cottom, Lord Lovat, para as terras
do norte paranaense. A ideia de região desabitada continua sendo construída em Colonização e Desenvolvimento do Norte do Paraná com um ensaio de Cassio Vidigal,
presidente da Cia. Melhoramentos Norte do Paraná, por muitos anos.
Vejamos o que diz o engenheiro Vidigal sobre o mapa do norte do Paraná, no início
da década de 1920, quando os ingleses se interessaram pela região.
Em 1924, o governo do Brasil convidou a Inglaterra para conhecer sua situação agrícola e participar de investimentos dessa natureza, evento que, irrelevante em sua aparência, foi o fator principal da expansão do Paraná. Entre
outros benefícios, ele motivou a compra das ações da companhia ferroviária
pelos ingleses liderados por Lord Lovat, técnico de agricultura e relorestamento da Missão Montagu, que aqui chegou no início daquele ano, atendendo o convite brasileiro. Entre as regiões visitadas, a margem esquerda do Paraná impressionou particularmente, embora a penetração não ultrapassasse
Cambará. Para a frente só havia densa mata, que conirmava as informações
dos mapas de Lovat: trezentos e cinqüenta quilómetros de loresta virgem se
estendiam até o rio Paraná e os povoados, ao lado de rios caudalosos, eram
pouquíssimos (COMPANHIA MELHORAMENTOS DO NORTE DO PARANÁ,
1975, p. 241)36.
34 COMPANHIA MELHORAMENTOS NORTE DO PARANÁ. Colonização e Desenvolvimento do Norte
do Paraná, 1975, p. 7.
35 O Norte Velho do Paraná é a região entre os rios Itararé/Paranapanema e o Tibagi.
36 COMPANHIA MELHORAMENTOS NORTE DO PARANÁ. Colonização e Desenvolvimento do Norte
do Paraná, 1975, p. 241.
102
As brochuras enaltecedoras do pioneirismo e construtoras do mapa do norte do
Paraná em branco são reproduções do discurso oicial da Companhia de Terras. Em
1974, um médico/político de Rolândia – cidade entre Londrina e Maringá – escreveu
o livro Rolândia, Terra de Pioneiros. Vejamos o que ele diz:
O Paraná no
século XX
Nesta vasta região, até então, quase sem futuro, devido ao fato de não existirem
cidades ou vilas, muito menos estradas, a não ser uma trilha antiga denominada
boiadeira, que se dirigia de leste para oeste ( VILLANUEVA, 1974, p. 19)37.
Mais adiante:
Fora a fazenda Coati, da CTNP (hoje Shangri-la) e algumas pequenas derrubadas em Heimtal o resto era uma imensa loresta virgem do rio Tibagi ao rio
Paraná ( VILLANUEVA, 1974, p.66)38.
O vazio no mapa se apresenta frente aos pioneiros, que estão no ponto mais
avançado da colonização, como um enorme desaio a ser vencido. Passadas quatro
décadas, o mapa, antes vazio, apresenta-se pontilhado de cidades, vilas, povoados,
estradas. O sertão foi “amansado”, foi ocupado. Agora chegou a hora de escrever a
história dessa grande epopeia. Em 1982, a Prefeitura de Mandaguari publicou Mandaguari: sua História, sua gente, e como os mandaguarienses de 1982, viram o trabalho de seus conterrâneos ocorrido há quarenta anos aparecer escrito em uma das
passagens do livro.
É preciso, sobretudo, estoicismo na tarefa da colonização. Na missão de domar
matas virgens, enfrentando o desconhecido sem nenhum trabalho de infra-estrutura capaz de debelar, prontamente, os perigos que rondavam os colonizadores (SILVA, 1982, p. 5)39.
E quais eram os perigos que o mapa vazio apresentava aos pioneiros?
(....) eram os animais selvagens, as aves e os insetos, que super-povoando as
matas invadiam as plantações, destruindo, muitas vezes, todo o produto de
um plantio feito com diiculdades. (...) a terrível epidemia denominada febre
amarela. Alcunhada pelos caboclos de febre dos macacos, grassou a famigerada
febre, que deixava os macacos mortos espalhados pelas matas transmitindo o vírus aos colonos, propagando-se a moléstia como uma incontrolável epidemia a
ceifar centenas de vidas no Norte do Paraná. (...) as freqüentes chuvas, que tornavam as estradas intransitáveis. (...) Nenhum perigo ou diiculdade abalou o
ânimo do colonizador. Porém, o espectro negro da geada de 1942, mostrou-se
37 VILLANUEVA, Orion . Rolândia, Terra de Pioneiros, 1974, p. 19.
38 VILLANUEVA, Orion. Rolândia, Terra de Pioneiros, 1974, p. 66.
39 SILVA, José A. F. Mandaguari: sua História, sua gente,1982, p. 5.
103
HISTÓRIA DO PARANÁ:
RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS
DA PRÉ-HISTÓRIA À
ECONOMIA CAFEEIRA
um inimigo insuperável. Esse liquidou com a economia cafeeira local, principal
responsável pelo progresso regional (SILVA, 1982, p. 5)40.
As matas foram derrubadas; os animais selvagens, abatidos pelos caçadores; os insetos, queimados juntos com as matas ou vencidos pelos agrotóxicos; as epidemias,
debeladas ou mudaram de nome; as estradas, consertadas, asfaltadas. Novas geadas
ocorreram em outros anos, queimando milhões de pés de café, abalando a economia da região, que foi diversiicando suas atividades com o plantio de culturas mais
resistentes às geadas. Enim, os colonizadores venceram todas as condições adversas,
domaram o sertão e povoaram o mapa vazio.
Mais uma vez, foi repetida a operação: apresenta-se uma região coberta de matas
selvagens e cheia de perigos. Constrói-se o mapa de uma região apenas com os acidentes geográicos, despovoado, e em seguida acontece o processo de ocupação. Cada
mapa surgido incorpora os feitos da frente de expansão que avança sertão adentro.
Essa ideia continuou a se repetir em muitas outras obras que trataram da história das
cidades do norte do Paraná.41 Todas partiram do pressuposto do vazio demográico ocupado pela colonização da região a partir dos anos 1930 com a chegada das companhias
colonizadoras. Essa história contrasta com outro passado que mostra a presença de populações tradicionais em todas as regiões do Paraná, como vimos nos capítulos anteriores.
A MODERNIZAÇÃO DA AGRICULTURA E OS MOVIMENTOS DA POPULAÇÃO
NO PARANÁ NO ULTIMO QUARTO DO SÉCULO XX
O esgotamento das áreas tradicionais de produção do café, a saber, vale do Paraíba
no RJ, São Paulo, Minas Gerais e Bahia, desde o inal do século XIX e início do século
XX, levou a expansão da cafeicultura pelas terras norte-paranaense, e com ela um
grande contingente humano se estabeleceu no norte do Paraná acompanhando essa
expansão 42.
Relembramos que o processo de colonização das terras do norte do Paraná se
inseria em um contexto de política nacional integrada aos interesses da economia internacional. Primeiro, no sentido de atender aos interesses de expansão e exportação
40 SILVA, José A. F. Mandaguari: sua História, sua gente. 1982, p. 5.
41 Cf. SILVA, Paulo M. S. . História de Paranavaí. p. 32: "Porém a história de Paranavaí, mais propriamente, tem início no começo deste século. Naquela época toda a região do vale do Rio Ivaí era completamente despovoada, coberta de matas virgens, constituída de terras devolutas de propriedade do
Estado. A partir daí foi que se iniciou o povoamento e a colonização da região."
42 Sobre o processo de colonização do norte do Paraná ver: LUZ, France. O fenômeno urbano numa
zona pioneira: Maringá. São Paulo, 1980.
104
da cafeicultura e seu produto; e em segundo lugar, angariar lucros com a venda de
terras pelas empresas privadas e pelo próprio Estado. Nesse sentido, foram criadas
propagandas para incentivar a vinda de migrantes para a região. Essa política pública
e privada de incentivo à migração contou com a propaganda feita pessoa a pessoa
para o sucesso da colonização.
O Paraná no
século XX
Embora a produção cafeeira tenha sido freada em seu crescimento em todo o
Brasil no período que vai de 1929, ano da depressão, e 1945, ano que marca o inal
da 2a. Grande Guerra mundial, no Paraná essa produção continuou a ser incentivada
até a década 1960. Vale lembrar que entre os anos 1945-1960 houve dinamização da
cafeicultura estimulada não somente pelo Estado como também pelas geadas acontecidas no Paraná nos anos 1953 e 1955, que contribuíram para elevar o preço do café
no mercado internacional43.
Visando à maximização dos lucros, a Companhia de Terras (CTNP) elaborou um
plano de ocupação e colonização dos 515.000 alqueires adquiridos no norte paranaense. O procedimento utilizado para organizar essa ocupação foi dividir as terras
adquiridas em zonas que, após os serviços de medição e demarcação, abertura de picadas e estradas, eram sucessivamente colocadas à venda44. Após a divisão em zonas
partia-se para as divisões em glebas nas quais reservavam-se áreas para a localização de
patrimônios e cidades. As áreas destinadas às aglomerações urbanas possuíam cerca
de 15 alqueires. Os lotes rurais, por sua vez, formavam longas faixas planejadas “com
frente para a estrada que passava no alto dos espigões e com aguadas nos fundos”45.
Os patrimônios eram construídos com o objetivo de se tornar ponto de apoio às propriedades rurais que icavam a quinze quilômetros de outro patrimônio ou de uma
cidade46.
43 Para maiores informações sobre a cafeicultura no Paraná ver: CANCIAN, Nadir. A cafeicultura paranaense, 1900-1970, Curitiba, 1981.
44 WESTPHALEN, Cecília Maria e outros. Nota prévia ao estudo da ocupação da terra no Paraná Moderno. BOLETIM DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ. n. 7 Curitiba: 1968.
45 WESTPHALEN, Cecília Maria e outros. Nota prévia ao estudo da ocupação da terra no Paraná Moderno. BOLETIM DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ. n. 7 Curitiba: 1968.
46 WESTPHALEN, MACHADO; BALHANA, Nota prévia ao estudo da ocupação da terra no Paraná Moderno. BOLETIM DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ. n. 7 Curitiba: 1968.
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HISTÓRIA DO PARANÁ:
RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS
DA PRÉ-HISTÓRIA À
ECONOMIA CAFEEIRA
Figura 2 - Área mais escura, terras adquiridas pela CTNP.
Fonte: CMNP, 1975.
Figura 3 - Terras da CTNP (CMNP) no Norte Novo e Novíssimo do Paraná.
Fonte: CMNP, 1975.
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O Paraná no
século XX
Figura 4 - Visão gráica em perspectiva panorâmica do sistema de repartição de terras da CTNP e depois da
CMNP. As casas dos moradores em torno de um riacho, ribeirão ou rio eram denominadas Águas.
Fonte: CMNP, 1975.
Dividiam-se os espaços destinados à construção de um novo município em lotes na
zona rural e lotes (datas) urbanas, os quais podiam variar entre 5 e 20 alqueires, conforme a localidade, enquanto que as datas, lotes urbanos, possuíam em média 600m².
Alguns proprietários, por sua vez, adquiriam mais de um lote formando fazendas de
até 150 alqueires. Ressaltamos, no entanto, que na zona rural predominou a pequena
propriedade, sobretudo aquelas com área entre 5 e 10 alqueires.
A primeira atividade que o colono fazia quando da chegada em seu lote de terra era
a construção de um rancho para seu abrigo e de sua família e em seguida começava a
derrubada das matas.
Existem inúmeros relatos de colonos que descrevem como a mata foi derrubada
para dar lugar aos cafezais. Essa é uma lembrança comum aos entrevistados que evocam, juntamente com essa recordação, as diiculdades da falta de infraestrutura como
estradas, energia elétrica, etc.
A madeira era retirada não somente para dar lugar às plantações de café e aos
núcleos urbanos. A construção de estradas também necessitou que extensas áreas de
matas naturais fossem derrubadas para dar lugar às vias de comunicação entre os núcleos populacionais. Ela era retirada do interior das matas por caminhões menores,
depois era levada até os caminhões de maior capacidade, alguns inclusive podendo
transportar até 15.000 kg.
Outro dado importante sobre a técnica e os maquinários utilizados para extrair
as madeiras das matas era o uso de caminhões com carrocerias munidas de catracas, as quais puxavam a tora para os caminhões com cabo de aço. Levando-se em
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HISTÓRIA DO PARANÁ:
RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS
DA PRÉ-HISTÓRIA À
ECONOMIA CAFEEIRA
consideração que as toras podiam alcançar até quatro metros de comprimento e 80
cm de largura, é compreensível que os recursos utilizados para o transporte fosse feito
por empresas proissionais e que a extração de madeira tenha entrado na descrição das
atividades que se destacaram na região até o esgotamento das lorestas.
Sobre o procedimento para a derrubada das matas utilizava-se primeiro a roçada,
e em um segundo momento derrubavam-se as árvores maiores com o machado. Esse
madeiramento era recolhido e vendido para as serrarias. O desmatamento era feito
não respeitando o limite destinado às matas ciliares na barranca dos rios.
Conforme informações de um morador da cidade de Lobato, essa atividade ocorria
da seguinte forma:
- E tinha muitos caminhões aqui nessa época?
- Tinha.
- Tinha muito caminhoneiro aqui para puxar madeira?
- Tinha muito caminhoneiro.
- E como era a derrubada do mato?
- Tirava as madeiras, as madeiras boas, as madeira de lei, e o
resto derrubavam e metiam fogo.
- Queimava?
- Queimava tudo.
- Como é que o sr. entrava lá no meio do mato para pegar a madeira que estava cortada lá dentro?
- Primeiro, eles tiravam a madeira.
- Como é que eles tiravam essa madeira?
- Tinha carreador, fazia carreador.
- Ah! Fazia o carreador lá dentro?
- Carreador, chegava lá, tirava.
- E tinha bois também para puxar madeira ou não?
- Não, tirava tudo com caminhão.
- Tudo com o caminhão?
- Tudo caminhão.
- Primeiro, fazia a estrada dentro do mato.
- Dentro do mato.
- Ia até onde estava a tora?
- Tinha um caminhão para esplainar a madeira.
- Esplainar era o quê?
- Esplainar a madeira, tirar a madeira lá de dentro do lugar que
só um caminhãozinho podia, e punha para nós que tínhamos os
caminhões grandes.47.
47 Entrevista com morador da cidade de Lobato – Pr.
108
Derrubada a mata, vinha o cultivo do café, e além desse cultivo, amplamente difundido no norte e noroeste do Paraná, as comunidades constituídas nas águas desenvolviam outras atividades agrícolas, entre as quais o cultivo diversiicado de alimentos
como hortaliças para o consumo familiar e a criação de animais para o próprio sustento.
Eram cultivadas hortas de diversas hortaliças e legumes. E criavam-se vários animais
domésticos, como porcos e galinhas. Culturas como a do feijão, do arroz, do milho, da
mamona e do algodão são citadas como alternativas produzidas entre as ruas do cafezal.
Esses dados conirmam as informações das fontes oiciais como a existência de lavouras de subsistência cultivadas pelo trabalho familiar tanto por arrendatários quanto por
proprietários e pequenos produtores no período de colonização do norte paranaense.
Ainda as comunidades organizadas nas aguadas fabricavam diversos produtos domésticos, como o sabão, por exemplo, produzido pelas próprias donas-de-casa. As
roupas eram confeccionadas também pelas mulheres, e era comum comprar uma peça
de tecido fechada para confeccionar não somente roupas, mas o que fosse necessário
para o lar e a família.
Organizadas nas águas, as comunidades rurais do norte e oeste do Paraná mantiveram aspectos de suas culturas regionais e de suas religiosidades. Apesar de estarem
longe de seus locais de nascimento, de suas comunidades originárias, os colonizadores não estavam despojados de sua cultura. Como alega Alfredo Bosi: os agentes
da colonização (...) são crentes que trouxeram em suas arcas da memória e da linguagem aqueles mortos que não devem morrer48. As populações que para o norte e
oeste do Paraná vieram, apesar de longe dos seus povoados, de suas famílias, de seus
parentes e vizinhos, mantiveram formas de convívio ou privacidades herdadas dessas
comunidades de origem. Elas lutaram para manter vivo seu passado, sua cultura, seus
costumes, suas crenças e suas lembranças.
Nas descrições de caráter religioso, a solidariedade é sempre lembrada como um
componente ativo nos eventos promovidos pela sociedade. A solidariedade das festas
religiosas sempre aparece descrita a partir da fartura de alimentos existente nesses
eventos. Frango assado, leitoa assada, sacas de feijão, de arroz, café, etc., faziam parte
das doações da população para o evento, que podia ser uma festa junina ou comemorações dedicadas ao padroeiro da cidade.
Em muitos povoados e pequenas cidades havia cinemas que marcaram a juventude da época, com apresentação de ilmes épicos e religiosos. Juntar-se em grupos no
local que posteriormente se construiu a praça pública para contar histórias, namorar
O Paraná no
século XX
48 BOSI, Alfredo . Dialética da Colonização. São Paulo : Cia da Letras 1995, p.15.
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HISTÓRIA DO PARANÁ:
RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS
DA PRÉ-HISTÓRIA À
ECONOMIA CAFEEIRA
110
também era uma das formas de lazer encontrada pelos adolescentes para distração
nos inais de semana. Outros tipos de diversão, como bailes, futebol, caçadas e pescarias e concurso para eleição de miss da cidade também izeram parte do cotidiano
de muitas comunidades. Por exemplo, muitos bailes aconteceram na roça, nas águas,
nos sítios, ou em um clube na zona urbana, muitos deles animados por acordeons
tocados pelos próprios moradores.
Quanto ao futebol, havia jogos todos os domingos. A maioria das partidas acontecia
em uma Água a cada im de semana, e cada Água podia ter seu próprio time de futebol.
Transportados em carrocerias de caminhões, os atletas de inal de semana podiam, inclusive, e não raras vezes, transformar esses momentos de lazer em momentos de acirradas disputas. Para os adultos, a prática da caça e da pesca também fazia parte de programas de distração, uma vez que havia animais em abundância no início da colonização.
Outra forma de lazer praticada ou de manter-se informado em relação ao Brasil e ao
mundo era o ato de ouvir rádio, que funcionava a pilha por não haver energia elétrica
na maioria dos municípios e muito menos nas distantes águas. Às vezes, havia um gerador que funcionava das seis da tarde às dez da noite, mas esse fornecimento de energia
não atendia a toda a população, apenas àqueles que podiam pagar pela sua utilização,
ou funcionava precariamente por falta de combustível ou por defeitos de difíceis e demorados reparos. Mas de qualquer forma, foi através do rádio que grandes parcelas
de populações do interior do norte do Paraná souberam da morte de Getúlio Vargas,
acompanharam novelas da época e ouviram os sucessos da música sertaneja. E o ato de
ouvir rádio era ainda um momento de confraternização comunitária em que vizinhos se
juntavam para apreciar a programação e ali conversavam sobre os mais diversos assuntos, além de saborear um bom café servido pela família dona do aparelho transmissor.
A vida nas vizinhanças das águas, nos pequenos povoados e cidades do norte e
oeste do Paraná transcorreu em plena atividade com o plantio de café até o início
dos anos de 1970, quando por diversos fatores essa conjuntura começou a mudar.
As geadas das décadas de 1950 e 1960, as migrações de populações ocorridas de
cidades do norte do Paraná para as novas frentes que se abriam no oeste paranaense
contribuíram para a diminuição da população das Águas nos diversos municípios
do norte e noroeste do Estado.
Entretanto, o impacto que mudou completamente a vida das pessoas, das famílias,
das vizinhanças das águas e das cidades da região foram as mudanças ocorridas na agricultura regional.
Essas mudanças começam já na década de 1960, quando se iniciaram as políticas
governamentais de erradicação do café, e terminaram com a grande geada ocorrida em
1975 que atingiu em cheio os cafezais da região.
Daí em diante, cada vez mais, percebemos uma redução na área plantada de café
e o crescimento de outras culturas, como o milho, o algodão e a soja, por exemplo49.
Essa diversiicação da agricultura no norte do Paraná foi incentivada por uma nova
política governamental adotada a partir dos anos de 1970, a qual objetivava modernizar o setor agrícola para posterior desenvolvimento da produção baseada na agroindústria. Com essa nova política agrícola, o governo planejava fornecer produtos para
o abastecimento do mercado externo50.
O alcance dessas mudanças atingiu não somente o setor agrícola, mas também
modiicou a vida social na região. Através de dados extraídos dos censos demográicos
de 1970, 1975, 1980 e da Enciclopédia dos Municípios de 1959 foi possível observar
um quadro de intensa diminuição da população rural e dos pequenos municípios do
Paraná para cidades de maior porte como Londrina, Maringá, e para outras cidades
mais a oeste que ainda não tinham terminado o processo de ocupação, como no noroeste do Estado, e também para as novas frentes de ocupação que se abriam no Mato
Grosso, Rondônia e Acre.
Era o im das vizinhanças das águas e da vida sociocultural ali construída desde o
iníio da colonização moderna que vinha desde os anos de 1930. Os cafezais tinham-se
transformado em enormes campos de soja e milho mecanizados. As maquinas substituíram os homens. As estradas melhoraram, as pessoas envelheceram, os ilhos foram
para as cidades grandes e de médio porte, as prefeituras implementaram o transporte
escolar e fecharam as escolas rurais, as vendas fecharam por falta de clientes, os campos
de futebol foram incorporados aos canaviais e as águas acabaram. Era a modernização
do campo no Paraná iniciada nos anos de 1970 e aprofundada nas décadas seguintes.
Encerrava-se, assim, um ciclo histórico da ocupação do norte e oeste do Paraná
sustentado na agricultura cafeeira iniciada em 1930, inalizado com a modernização da
agricultura a partir de 1975, com a substituição do café pelo cultivo de grãos.
O Paraná no
século XX
49 Sobre esse assunto ver os trabalhos do professor Dalton Áureo MORO, principalmente sua tese de
doutorado: Substituição de culturas, modernização agrícola e organização do espaço rural no Norte
do Paraná, apresentada ao Instituto de Geociências e Ciências Exatas da Universidade Estadual Paulista
“Julio de Mesquita Filho”, Rio Claro – SP, 1992.
50 Ver LEÃO, Igor Zanoni Constant Carneiro. O Paraná nos anos 70, Curitiba: Ipardes, 1989.
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HISTÓRIA DO PARANÁ:
RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS
DA PRÉ-HISTÓRIA À
ECONOMIA CAFEEIRA
Proposta de Atividades
1) Como aparece a ocupação do norte e oeste do Paraná nos livros didáticos que você
conhece?
2) Se você morou ou conhece alguém que viveu na roça, em alguma água, descreva uma
atividade ou conte alguma história que retrate a vida dos moradores dessas localidades.
3) A modernização da agricultura ocorreu em sua região? Comente o que aconteceu.
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Anotações
120
9 78 - 8 5- 76 28 - I t 9 l t - 9
9 "788576"284949"
UNIVERSIDADE
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Parte de História do Paraná - Lúcio Tadeu Mota
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